26 dezembro 2011

dezembro 2011 - pais

 – Gostava que me contasse tudo desde o primeiro sintoma.

Uma ruga apareceu de imediato na testa de Clarisse.

– Tudo…?!

– Espero que se lembre – brincou a médica do centro de saúde.

Era nova, acabadinha de entrar no sistema, herdando casos que a outros sobravam, determinada em ouvir as pessoas que a consultassem.

– E deixam-na fazer isso? – questionou Clarisse, a prever que alguém entraria pelo gabinete pedindo que a médica se despachasse.

– Não imagino outra forma…

E Clarisse contou.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

dezembro 2011 - filhos


Ensaiara muito bem a conversa – tinha de lhes contar o que acontecera. Das outras (três) vezes, ouvira alguns ralhetes, frases que começavam com “tens de ter mais atenção”, outras que acabavam em “que não se volte a repetir”.
– Mãe…?
– Diz!
– Perdi a chave do cacifo… Outra vez… Desculpa.
Depois de um olhar espantado, chegou um sorriso:
– Estas? – Na mão da mãe, as chaves… – Vê lá tu, fui eu que lhes peguei sem querer, que cabeça a minha!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

dezembro 2011 - pais e filhos



– Diz-me tudo!!! O que é que faço?

Pedro esquecera-se dos seus seis anos, ajudava com coragem.

– Telefona ao pai… Argh…!

– Dói muito?

Nenhuma resposta.

– E depois?

– Não, espera, telefona primeiro para o 112!

– E digo-lhes o quê? Que a Joana está a chegar?

– Não, Pedro, argh… diz-lhes só que estou em trabalho de parto. Rápido!

E Pedro, com a voz trémula, explicou tudo. A Joana chegou quarenta minutos depois, e o Pedro foi o primeiro a vê-la.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

25 dezembro 2011

dezembro - histórias recebidas (take two!)


Sou a maçã mais angustiada desta manhã fria. A tristeza era a minha companhia, porque eu sabia que hoje seria a sobremesa do Francisco. A hora estava a aproximar-se. Despedi-me de todos os outros frutos meus companheiros e da lagarta que vivia em mim.  Ainda me restava algum tempo, a fuga era uma das hipóteses, mas o destino já estava marcado. A mão do Francisco aproximava-se, o terror, o coração batia forte… chegou a hora! Boa Noite.
Hugo Costa, 12 anos – Lisboa

Havia um auto-retrato de Leonardo Da Vinci, que estava exposto no museu nacional de Itália. De repente, uma rola apareceu vinda do alpendre, ela estava muito aflita mas por pouca sorte, tinha esquecido já há muito tempo onde se situava a casa de banho para rolas. Então sem saber o que fazer, não hesitou em se aliviar de imediato em cima do pobre de Vinci. Vinci ficou furibundo com aquela situação:
–  Vou inventar: um “lenço”!
Miguel Palma 12 anos, Lisboa 

Gosto de palavras, das simples e das complicadas, das rechonchudas e das delgadinhas, das que inebriam e das que desesperam.
Gosto de palavras coloridas e das esbranquiçadas, das apressadas e das molengonas, das bem-humoradas e das rabugentas.
Gosto das palavras que espreitam no final dos parágrafos e das que se escondem nas notas de rodapé, das que saltam de página e das que se seguram por um hífen.
Gosto de todas as palavras que celebram a vida.
Quita Miguel, 52 anos, Cascais
 
Marci é simpático, meigo, desengonçado. Observa tudo ao redor, com os três olhos bem abertos. As longas antenas captam sons da casa e da rua: música a tocar, gente a falar, carros a buzinar. Mas não está confortável onde o alojaram. O dono cresceu, já não dorme naquele quarto tão arrumado. Marci sente-se só, enjoado.
Quer brincar, não tem com quem.
Quer conversar, não há ninguém.
Quer ver mundo, sair. Que tristeza! Não mais se poderá divertir?
+
Sento-me, desenho e vislumbro o Sena que desliza ao som de acordeões. A Noite quer entrar. Traja um vestido de veludo negro estrelado. Como reparou em mim?
– Desenha-me – pede.
Hoje, veio sozinha sem a inseparável amiga Lua.
Desenho-a, timidamente. Traço a traço.
– Está lindo! Nunca me pintaram com tanta perfeição.
A Manhã chega, estremunhada. A Noite vai partir.
Adoro este vigésimo andar. Fica afastado da rua mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.
Ana Paula Oliveira, S. João da Madeira, 51 anos

"Porque é que as mães são únicas e especiais, avó?", perguntou a Mia cheia de curiosidade. "Isso não tem resposta minha querida, não se conhecem fórmulas mágicas.", respondeu a Dona Felicidade. "Mas então porquê?", retorquiu a Mia num tom desconfiado, "É segredo?!", insistiu. "Não, mas a única forma é estares atenta. As mães falam com o coração e os filhos têm que deixar que olhos as ouçam!".  A Mia ficou pensativa durante segundos... E por fim, sorriu!
Vera Lúcia Marques Costa, 26 anos, Lisboa

10 dezembro 2011

As primeiras histórias dos leitores em Dezembro 2011



A Estrela azul
Era uma vez uma estrela que um dia mudou de cor. Ficou azul.
Ela ficou assustada e foi ao Dr. Colorido. Este disse-lhe que ela sofria de pintite aguda, doença rara e sem cura.
            A estrela ficou triste e chorou bastante, até que uma lágrima caiu na face da Sra. Toupeira, vestindo-a também de azul.
            A Sra. Toupeira pulou de alegria.
            A Estrela ao vê-la tão feliz percebeu que a doença não era grave.   
EB da Mata 4º A - Estremoz


Se formos a pensar numa certa coisa, quando os ladrões nos assaltam e dizem sempre:
- A Bolsa ou a Vida!!!
Se lhes dermos a bolsa, eles fogem com o nosso dinheiro e pertences. Mas depois se não lhes dermos a bolsa, matam-nos e levam a bolsa! Levam sempre a bolsa. O que intriga é quando às vezes não estamos a ver, eles levam a bolsa sem nós notarmos, e nem sequer nos falam uma única palavra.
Manuel Barros, vivo em Lisboa, tenho 11 anos


Ele correu para a televisão e viu que as suas esperanças estavam corretas!
Correu de volta ao quarto e pegou nas coisas de praia que deixara para trás, preparadas.
– Mãe! – gritou.
– Sim, Guilherme? – respondeu a mãe, do quarto.
– Vamos à praia! O tempo está perfeito!
Guilherme reparou que a mãe não se movera.
– A mãe prometeu que me levava à praia se o tempo deixasse!
Não havia como resistir ao sorriso ténue, delicado do filho.
 Pedro Caetano Carvalho, Beja, 14 anos


Queres café no açúcar? Perguntou Maria a Pedro, que disse preferir um gosto a arroz. Na festa anual do açúcar, no Mediotejo, cada um tomava o açúcar como quisesse.
Antonieta, ex vegetariana, trocara este ano a alface pela carne de vaca no açúcar.
Foi então que Fausto quebrou a única proibição, já secular: pediu mel para o seu açúcar, algo verdadeiramente sacrílego.
Resultado: bens confiscados e expulso da aldeia. Eram assim os tempos amargos da intolerância doce.
 João Pedro Chora

Começa a chover… E lá vão elas a correr para rua.
A lama é muita, muitas as poças… não falham uma.
Ouvem-se os risos, movem-se os pés, um após outro, como uma dança. Que divertido!
São de borracha, não entra água… mesmo perfeitas para sujar.
E que bonitas, com essas cores, vivas, alegres. Ficam tão bem!
Se um dia eu fosse bota, e pudesse escolher, queria ser “de borracha”… para poder brincar nos pés de uma criança.
 Rita Vilela

“Joaninha voa, voa…”
“Joaninha voa, voa que o teu pai está em Lisboa”, cantava a Aninhas,
observando as joaninhas que passeavam as bolinhas de seus vestidos
vermelhos. Andavam no alecrim do seu quintal.
De repente, a Joaninha abriu as asas e poisou no cabelo da menina.
- Mãe, mãe, chamou a Aninhas toda vaidosa, vem ver meu travessão...
- Que lindo e colorido e parece sorrir! É mágico?
Era apenas a joaninha que gostava muito da Aninhas!
Ana Maria Santos, Fogueteiro - Seixal, 57 anos 


"O lápis despertou com a agitação das palavras dentro de si. Uma história acabara de se formar e tinha pressa em sair, mas o bico já gasto aprisionava-a.
Sem suportar tanto alvoroço, o lápis foi até ao afia, que se dispôs a afiá-lo.
Estava pronto para escrever e começou a deixar sair as palavras.
A fila era grande. Algumas, mais apressadas, forçavam a passagem. Espremiam-se, embaralhavam-se e acabavam por sair aos trambolhões enchendo a folha em branco."
 Quita Miguel, 52 anos, Cascais

Estou feito!
Mas vou tentar, claro!
Ainda por cima, maldito 77!
Meu número azarento.
Bem, vou começar.
Era uma vez um informático…
Não! Assim não vou lá!
Deixa cá ver assim:
Eu gostava de escrever um livro...
Um livro!?
Qual quê!?
Uma crónicazeca chegava!
Se calhar um simples postal!
Estou mesmo feito!
Meto-me em cada uma!
Será que posso contar carneiros?
Se calhar não.
É batota e ainda posso adormecer.
O melhor é acabar.
E é já!
Joaquim Ribeiro, Lisboa, 57 anos, Lisboa

Vir ao curso foi boa escolha.
É divertido e proveitoso.
Mas sinto-me perdida.
Os meus colegas são todos peritos.
Até o médico já escreve melhor!
Mas vou conseguir.
Vou-me ganhar!
Desconfio que alguns já sabiam disto.
Para iniciados são textos muito bons.
A Margarida é o máximo!
Por que não tive uma professora assim!
Agora poderia estar eu a ensinar.
Não estaria fechada na empresa.
Tantas contas, relatórios!
Bom! Deixa ver como vai.
Uau! Cheguei às 77!
 Teresa Gomes 54 anos, Lisboa 

A Pulga Saltitona!
Passeando pela praia, uma concha, eu encontrei, com uma sombra nas costas. Logo me aproximei. E que foi que eu vi? Uma pulga-do-mar fazendo o seu flic flac!
- D. Pulga, por aqui?
- Do circo fugi. Vim ver o mar, correr com a espuma... Que saudades! Sabe saltar à espuma?
- À corda, quer dizer?
- Não, não, ora veja...
E lá foi, salta aqui, salta ali e eu nunca mais a vi!
 Ana Maria Santos , Fogueteiro – Seixal,  57 anos 

É com o olhar que viajo neste mundo.
Trago sol, levo neve, apanho as folhas, as flores,
Vejo o mar, anda na lua e na rua
Recordo a nuvem, a flor, o cão, a Maria e o João,
Guardo tudo em mim.
Fecho os olhos nada tenho,
Abro os olhos e tudo recebo.
Com o verde dos meus olhos tudo alcanço.
Não há limite de espaço para o sonho.
Viajar, sorrir, chorar, aprender...
Trago memória no olhar!
 
Vera Duarte, 38 anos, Odivelas

Há um espadachim pintor escondido nas nuvens. Rasga o céu de outono e pinta-o de fantasia. Brinca com a primeira estrela do céu, mas perde o fulgor e a bravura, quando a lua aparece e se deita nua sobre o rio. Morre de ciúme e paixão, espreitando pelo canto da linha do horizonte... Quando a aurora desperta e lhe toca nos ombros, estremece deste encantamento e, de espada em punho, pincela os lençóis ainda quentes do sol.
Lurdes Augusto 



03 novembro 2011

novembro 2011 - pais


– Tem a certeza?
Aquela senhora, entretida a mandar mensagens, apenas distraída pelo cliente e pela pastilha elástica que mascava com afinco, tinha toda a certeza.
– Então, sendo assim, como é que faço?
Deu-lhe a resposta num encolher de ombros, atrasando um pouco a rapidez do polegar. Depois, parou, entediada.
– Não percebeu? Não é desta secção, tem de ir ali àquela. Acha que sei tudo?
O homem resignou-se. Tinha só uma certeza – ela sabia mandar mensagens tão depressa!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

01 novembro 2011

novembro 2011 - filhos


Era uma caixa de fósforos, pequena e já bastante estragada. Estava ali, na varanda, junto de brinquedos que alguém largara por instantes…
Pedro, de cócoras e curioso, agarrou nela. Não foi fácil perceber como se abria, mas conseguiu!
Ao espreitar lá para dentro, uma surpresa – estava repleto de bolinhas pretas, castanhas claras, lindas.
Seriam para comer? Eram tão apetitosas!!! Agarrou numa e experimentou.
Um grito fê-lo cair ao chão:
– Pedro! Estás a comer os meus bichinhos-de-conta!!! Larga!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

28 outubro 2011

novembro - histórias recebidas



Insegura, a velhota entrou na livraria.
Corpos de palavras…mistérios…
Tacteou as lombadas expostas como se, com o contacto, pudesse decidir a escolha.
- Quero... um livro. Para a minha neta…anda na primeira classe…
A empregada mostrou-lhe um livro azul. Na capa tinha uma ave que levava no dorso uma criança sorridente.
Naquela noite a história foi balbuciada pelos lábios infantis.
A criança fez-se mulher, mas jamais esquecerá aquela história que maravilhou os olhos verdes da sua avó.
Eugénia Edviges Parracho


 Quando era pequena a minha mãe dizia: - Querida, escuta o mar...
 E eu tentava escutá-lo dentro da conchinha que a avó me dera. Mas era tão difícil, só conseguia escutar a voz da avó que parecia estar falando. Contava-me histórias, cozinhava para mim, e eu, não percebia o que o mar tinha a ver.
 Olho para a minha mãe e vejo-a a chorar, e disse-me:
-Todos os dias a tua avó ia buscar o peixe, até partir...
Insegura, a velhota entrou na livraria. 
Olá, o meu nome é Geisa Lopes e tenho 12 anos, moro em Beja. Aqui tenho uma mini-história, espero que seja agradável de ler!

 
Porque os crescidos também tropeçam, um dia tropecei na saudade, e dei um valente tombo, a caixinha onde guardava as recordações caiu, espalhando pela calçada nomes, retratos, emoções, músicas, cheiros, sabores, risos,  palavras,  abracinhos e  afetos.
Levantei-me, sequei as lágrimas com a manga da camisola e resolvi começar a arrumar todas as recordações uma a uma muito bem arrumadinhas com cuidado para não deixar ficar nenhuma para trás. Tudo voltou para dentro da caixinha até um dia…
Ana Paula Marques, Odivelas

Damos as boas vindas ao Inverno….Dizemos um até já ao Verão…Dizemos um olá à chuva!
Suspiramos por um raio de sol. A flor é escondida por suaves flocos de neve que a acariciam suavemente. A árvore despe-se numa doce timidez.
Chegam os serões aquecidos por um chocolate quente. Aguardamos por um gelado numa esplanada!
O Natal espreita num sopro de vento. A praia retira-se para um descanso.
Tudo numa harmonia inexplicavelmente saudável que nos aconchega a alma!
Ana Cristina dos Santos Gomes, 29 anos, Amadora

O dia por vezes pode ser assustador. Correm à minha volta sem olharem
uns para os outros, sem se preocuparem uns com os outros. A pressão
dos testes, o tentar responder a todas expectativas, principalmente às
minhas. No fim do dia, no colo da minha mãe encontro a paz que tanto
procuro, que tanto anseio. Ouço o seu coração, sinto a sua pele quente
o cheiro tão próprio dela. Finalmente paz num dia que parecia não
terminar.
Sónia Areia, 37 anos Estoril

Sou mãe. Trabalho numa associação que apoia sobreviventes de Traumatizados Crânio-Encefálicos e seus pais. Pais que a cada dia têm à prova o seu amor incondicional pelo filho que em coma lutou pela vida, foi dado como perdido e viveu, previsto inválido e hoje fala, anda e pensa. Se não fosse tão amado e um pouco chorado, não alcançava este milagre. Maravilham-me estas mães. Que desde o dia do trauma, serão para sempre, mães de um sobrevivente.
Vera Bonvalot, 41 anos, Estoril
 

05 outubro 2011

outubro 2011 - pais e filhos


Ficou a olhar para os livros novos, os cadernos, o estojo sem manchas de tinta. Havia outra coisa nova: não sentia nenhuma excitação por voltar à escola. Mexeu nos livros, remexeu-se por dentro, mexeu-se na cadeira.
– Então? – O silêncio remexeu o pai. – Deixa-me contar-te um segredo…
Com os livros como testemunhas, falaram da escola, das ilusões e das aprendizagens, de crescer. Falaram muito.
Antes de dormir, sorriu. Uma excitação invadia-o por dentro, antecipava a nova fase. Adormeceu.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

03 outubro 2011

outubro 2011 - pais


Fora difícil, mas a ideia era excelente.
Pôs a mesa, acendeu as velas, espiou o jantar e o gelado de amoras. Eram duas tigelas – uma para eles, outra para os filhos. Afinal, tinham apanhado as amoras em conjunto, entre risos e peripécias, e feito o gelado a seis mãos.
A mulher entrou. Viu-a estranhar o silêncio, estranhar as velas, estranhar o sorriso. Envolvendo-a num abraço carinhoso, explicou:
– Os miúdos ficaram com a avó. Hoje somos só nós.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

02 outubro 2011

outubro 2011 - filhos

– Brincámos imenso com caricas… – explicou a Mariana.
Recebeu um sorriso de troça, não gostou.
– Pega-se num sapato e faz-se uma pista. Depois damos piparotes à vez. Ganha quem chegar primeiro à meta.
Mais sorrisos trocistas... Resolveu tirar do bolso três caricas velhas e fez com o pé uma pista na areia do parque. As amigas ajoelharam-se, desconfiadas… e experimentaram.
Não fosse chamarem-nas, ainda lá estariam. A Mariana não ganhou a corrida, mas ganhou muito mais que isso!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

30 setembro 2011

outubro - histórias recebidas


 
As mãos tentavam abrir a boca da mãe, mas dela não saiam as palavras de que são feitas as histórias. Nessa noite, ela contou-lhe que nunca tinha conseguido entrar na fábrica das palavras. Ele ouviu.

Depois, misturado com as lágrimas que lhe escapavam dos olhos, ela deu-lhe o maior beijo de todos.

António guardou o beijo e a história. Hoje, sabe muitas, que conta aos filhos. Mas eles gostam mesmo é daquela… do beijo feito de água.
Nazaré de Sousa, 49 anos, Sintra

Daniela não queria dormir, queria sempre brincadeira, todos os dias á noite, era sempre a mesma birra. Tudo servia para brincar, ouvir uma história, contemplar uma flor, dar um beijinho, até que por fim, Daniela não resistia e adormecia a sorrir, no sofá completamente exausta. Lentamente, o pai levava-a a cavalgar para num mar de lençóis a Daniela continuar a sonhar. No dia seguinte, ao acordar, Daniela sente-se feliz porque continuou a brincar tudo aquilo que quis.
Luísa Duarte Carinhas, 35 anos e vivo em Agualva Cacém

Costuma-se dizer que a música que ouvimos quando acordamos, nos fica em pensamento!
Esta manhã, acordei a minha princesa que ainda ensonada, deseja-me o bom dia, mais doce que recebo de manhã...
Metidas no carro, seguimos até ao infantário...
Hoje, a princesa, começa a cantarolar e com sotaque à Alpendoradense:
Bom dia, bom dia,
Bom dia a toda a gente
Eu hoje vim para a escola e por isso
Estou contente!!!
Agora, continuo a cantar a música!!!
MÃE: DIANA MARTINS GRILO - 29 ANOS
FILHA: ÍRIS GRILO - 4 ANOS
ALPENDORADA - MARCO DE CANAVESES

No meu mundo pequenino eu vivia... Sobrevivia. Idealizava, imaginava, desejava. 9 meses passaram... Uma nova luz brilhou! Chegaste... E contigo tudo mudou!
Sentimentos, tantas emoçoes... Um novo desafio tenho para jogar: Amar, proteger... Cuidar e mimar!
No meu espaço reduzido, te olho num colinho adormecido. Com minha mao te embalo ao som de sorrisos animados. Teu suspiro me faz sentir um sonho realizado.
Contigo do meu lado, meu mundo nao mais pequeno se tornou!
Obrigado, filho adorado!
Sou Andreia Mendes, mae das maiores riquezas.. Rafael com 9 anos e Mariana com 2. A eles dedico este texto!

Daniela não queria dormir, queria sempre brincadeira, todos os dias á noite, era sempre a mesma birra. Tudo servia para brincar, ouvir uma história, contemplar uma flor, dar um beijinho, até que por fim, Daniela não resistia e adormecia a sorrir, no sofá completamente exausta. Lentamente, o pai levava-a a cavalgar para num mar de lençóis a Daniela continuar a sonhar. No dia seguinte, ao acordar, Daniela sente-se feliz porque continuou a brincar tudo aquilo que quis.
Luísa Duarte Carinhas35 anos e vivo em Agualva Cacém



08 setembro 2011

setembro 2011 - pais e filhos

– Mãe, essa história é verdadeira?
Marta, evitando desmanchar-se a rir, fez um ar sério:
– Acho que é capaz de ser… A avó contava-me esta quase todos os dias.
– Hum… A avó inventa muitas coisas… Até já inventou que, quando era pequenina como eu, tinha uma casa de madeira numa árvore. E que as praias estavam quase vazias…
– E tu? Acreditas que há fadas, assim como nesta história?
– Faz mal, se eu acreditar?
– Claro que não!
– Então, acredito…
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

01 setembro 2011

setembro - histórias recebidas


Um cesto cheio de coisas deliciosas, a toalha dos quadrados, e nem faltam as formigas… Uma manta para dormir a sesta, um livro para ler em voz alta e um baralho de cartas. Qual Alice no país das maravilhas…
O entusiasmo foi enorme e a alegria contagiante. De repente, desapareceu o António… onde está?, onde se meteu?, e vamos dar com ele a observar um enorme escaravelho, que empurra o seu ninho para esconder os ovos… Férias!!
Catarina sousa Franco, 36 anos, Lisboa
 
O gato entrou em cena, cofiou os bigodes, lambeu-se todo, olhou em
redor com exuberância, dirigindo-se elegantemente para as luzes da
ribalta. Como lhe pareceram pequenos tanques de água enfureceu-se e
saltou dali e, a toda a velocidade desatou a correr. O público,
deslumbrado, pensando que fazia parte da actuação, bateu palmas
entusiasticamente. O pior foi quando, naquele preciso momento debaixo
de cada assento saíram ratos franzinos, mas rápidos e guinchantes.
Afinal, eles fugiam do seu predador. Rosário Oliveira col Dinis de Melo

Vi-a pela primeira vez em casa da minha melhor amiga. Apaixonei-me logo por ela: era linda, pequenina, com grandes olhos pretos cheios de vida e uma personalidade vincada! Tinha até mau feitio…
Já estava destinada a outra pessoa. Mas, passados alguns dias, a minha amiga ligou-me a perguntar se eu a queria. Claro que aceitei! Viveu feliz durante muitos anos.
Eu nunca hei-de esquecer a minha Bonnie e nunca mais terei uma cadela tão bonita quanto ela!
Maria Leonor Silva Neves

O pano começou o trabalho: o pó da lombada foi removido e a capa acariciada, deixando a descoberto o título do livro: “O anjo aprisionado”.
Uma mão segurou o livro com firmeza, o dedo da outra permitiu o respirar das folhas. O pó soltou-se e dispersou-se na luz da madrugada. No chão, caíram ramos secos, folhas translúcidas... Surgiu uma asa, depois outra, o anjo voou até à janela, e, através da cortina que esvoaçava, desapareceu no céu. 
 Ah, pois! Tive de dar o exemplo. Agora é só esperar que os meus colegas e alunos se ponham a brincar também.
 helena frontini  Leiria 50 anos

 
Entro de rompante pela porta e dou-te os bons dias de (A)braços
abertos para te pregar um beijo repenicado nas bochechas rechonchudas.
Com urgência conto-te: ainda eu estava de cara na almofada, ele
prega-me um beijo de bons dias à socapa. Respondo que também o amo
muito. Ele sabendo desse nosso segredo abana a cauda felpuda de pêlos
louraços e sorri para mim com aqueles olhos, um para cada lado, doces
doces. Estranha felicidade que se entranha...
 
Tenho 35 anos Vivo em Carcavelos Gosto de ser só "Rita"

 
Sabes?
Venho de um sítio encantado onde os braços abraçam, onde com muitas letras construímos palavras que damos uns aos outros.
Os meninos entrelaçam Bês, Ós, Éles, Às, jogam à bola. Juntam Cês com Ós, Erres com Dês e Às, saltam à corda.
Sabes?
Neste sítio que inventei, a pouca distância do mar, há canteiros com palavras coloridas
verdes, amarelas, azuis, todas as cores que imagines.
Mas… o mais importante de tudo… todos os dias nos abraçamos. 
Ana Bela Perdigão Duarte, Oeiras 59 anos, Café Grilo

 
"Havia um menino que estava sempre a tropeçar nas palavras. Ao
levantar-se da cama, quando passava no corredor, ao pequeno-almoço,
almoço e jantar, ao entrar na sala de aula. Tropeçava nelas a toda
a hora. Um dia uma professora atenta disse-lhe ao ouvido que quando
pequena tinha o mesmo problema. Começou a andar mais devagarinho e
a apanhá-las todas antes de lá chegar, guardando-as num livro. Não
importava qual. Desde então nunca mais tropeçou em nenhuma palavra.”
+
Eles são três campeőes.
O Sandro não gosta de confusőes.
Prefere ver as pás da ventoínha a rodar,
conhece de cor os programas da máquina de lavar.
O Diogo, de estar quieto não é capaz.
Ele é todos os heróis num só menino, um ás.
A Margarida é bebé,
mas quer ser maior do que é.
Lindos, todos. Todos diferentes.
Amigos, às vezes, irmãos, parentes.
Não sabem, mas são tesouros de alguém.
Do pai, e da mãe.
Tânia Santana, 30 anos, Elvas
(O Sandro tem 8 anos, tem uma perturbação do espectro do autismo. O
Diogo tem 5 anos. A Margarida tem 8 meses)


Luna já devia estar a dormir.
- Quem é que vai contar história?
- É a mãe! - Disse Luna.
A história era "sem chupeta já sou grande".
- Vou dormir sem a chuchinha.
- Vais deitar fora a chucha?
- Sim, mãe.
- Então amanhã vais comer um gelado.
- Vou comer  gelado? Hum!
 Depois do miminho veio o pedido:
- Quero a chucha!
- Mas... e o gelado?
- Não quero gelado.  Quero a chucha!

                                         Marta Rodrigues 34 anos, Damaia  de cima - Amadora
 

setembro 2011 - filhos

Ambrósio acelerou ao máximo, avançando por entre duas paredes de livros dispostos uns atrás dos outros a delimitar a pista. Primeiro obstáculo – um cinzeiro de mármore cheio de água. Pequena hesitação, nova coragem, passou. O que lhe custava era não saber como se portava o seu adversário, numa pista igualzinha à dele. Segundo obstáculo – uma pedra. Muito mais fácil. A meta estava ali mesmo. Ouviu um grito!
Acabara de ganhar a primeira corrida de cágados do verão!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

08 agosto 2011

agosto 2011 - pais e filhos


Não era fácil de andar com os sapatos de salto da mãe. E o colar quase tocava os joelhos… E o bâton? Já comera metade… Sentia-se uma princesa.
Ouviu passos, ficou quieta – queria impressionar!
O pai, ao vê-la, hesitou.
– Não te mexas, Clarinha, vou tirar uma fotografia…
Obedecendo, fez uma pose. Mesmo a tempo de o pai evitar que se estatelasse no chão.
– Não é boa ideia subir para a cómoda, Clarinha.
– Sou uma princesa! – informou, orgulhosa.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

03 agosto 2011

agosto 2011 - pais


Andava de um lado para o outro, de um lado para o outro. Havia quem já tivesse comentado: parece que estás na maternidade, ó Freitas!
Ficar quieto seria pior. Os minutos, sempre na conversa, levavam muito tempo a passar. Pena o corredor não ser mais comprido.
Quando a porta se abriu, paralisou, mudo. Uma cabeça espreitou:
– Venha cá, Freitas! Que projecto fantástico! Venha cá…
E desapareceu, a gaguejar explicações. Nos sorrisos dos colegas, adivinhava-se o que conseguira.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

01 agosto 2011

agosto 2011 - filhos

A viagem era acidentada… Um degrau de pedra, relva a dificultar-lhe os passos, água imperceptível a atrapalhar-lhe a orientação. Mas continuava, determinada. Tinha quase a certeza de que era dali a dois vasos.
E não se enganara. O problema era… tudo! Não havia prima nem primo, tio ou cunhada que não tivesse aparecido. Era difícil chegar ao objectivo!
Cansada, a formiga encostou-se a uma folha. Aquele bocado de gelado parecia um centro comercial de humanos num domingo!!!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

29 julho 2011

agosto - histórias recebidas


A sirene de nevoeiro que tocava era dum livro do Maigret, mas o homem que descia da ponte era real e enorme.
A senhora loira com as jóias era a Bianca Castafiore, dos livros do Tintim, mas a faca dele era real, comprada na rua dos Bacalhoeiros.
Ele apanhou-a pelas costas, não houve gritos, mas o sangue jorrou. Fugiu com as jóias, mas na casa de penhores disseram-lhe logo: “não queremos, são a fingir, não são reais”.
João Paulo Chora, 52 anos, Cascais



A sirene de nevoeiro que tocava era dum livro do Maigret, mas o homem que descia da ponte era real e enorme.
A senhora loira com as jóias era a Bianca Castafiore, dos livros do Tintim, mas a faca dele era real, comprada na rua dos Bacalhoeiros.
Ele apanhou-a pelas costas, não houve gritos, mas o sangue jorrou. Fugiu com as jóias, mas na casa de penhores disseram-lhe logo: “não queremos, são a fingir, não são reais”.
João Paulo Chora, 52 anos, Cascais 

Susana ansiava pelo dia de aniversário, regularmente perguntava:
- Quantos dias faltam para os meus anos, mamã?
- Menos um do que ontem querida!
Susana era como o pensamento, voava a todo o instante.
Até que o dia chegou.
Teve um presente especial, um livro encantador, onde vivia um peixinho - brilhava como as estrelas, cristalino como a água.
Contava-lhe as mais belas histórias do seu mar, todos os dias lhe oferecia um sorriso.
Susana pescava Felicidade...

Susana Assunção 37 anos e sou de Vila do Conde

Toda a tarde a correr pelo jardim, a trepar às árvores, a jogar à bola… mas a energia de Catarina estava longe de acabar.
– Catarina! São horas… – chamava a mãe.
Mas o jardim oferecia novas árvores para trepar, mais relva para correr, outros campos para jogar… e Catarina não conseguia dizer que não a tais convites.
– Vou já! Só mais um bocadinho – pedia.
E o sol ajudava, demorando a deitar-se, só para a ver feliz.
Rita Vilela, 46 anos, Paço d’Arcos

Entrámos no carro depois de uma ida surpreendentemente rápida ao Hospital público. Diagnóstico confirmado: otite. Cansada e com calor, eu estava concentrada nas manobras necessárias para tirar o carro do parque de estacionamento subterrâneo ao mesmo tempo que pensava nas dores de ouvidos que o Miguel estaria a sentir. Dores aos quatro anos deveriam ser proibidas! "Mamã..." – começou ele. "Nos teus tempos, quando tu e o papá viviam lá em Lisboa, as casas eram feitas de palha?"
Helena Rocha, tenho 31 anos e vivo em Lagos.

07 julho 2011

julho 2011 - pais e filhos


– Não acredito!!! A vossa roupa de ginástica ficou nas mochilas todo o fim-de-semana!
Os filhos entreolharam-se. Caldo entornado…
– Se não for eu a tratar destas coisas…! – queixou-se a mãe, frustrada.
O mais velho levantou-se e agarrou nas mochilas.
– A culpa é tua, mãe. Se não estivesses sempre a fazer essas coisas, nós não nos esquecíamos. Amanhã vamos assim, sujos. Vais ver que resulta…
A mãe foi apanhada de surpresa. Magoou-se com a frase, depois entendeu. Talvez resultasse!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)