30 abril 2014

Aula de dança

Não foi por coincidência que participei numa aula de dança.
O meu motivo sincero era a linda Maria Pastorisa que mora no nosso bairro.
O professor chamou:
"Senhoras! Escolham o vosso par.”
Um instante, senti uma opressão, pois Maria olhava na direção oposta. Ergui a cabeça, a minha deusa morena estava de olhos meigos e sorriso inesquecível à minha frente.
Ao dar o primeiro passo, ela dava-me asas e, como cisnes amorosos, dançaríamos juntos a noite inteira.

Theo de Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Graças ao nome

Tinha um nome no mínimo, peculiar o que lhe conferia uma personalidade arredia.
Nos primeiros anos de escola sua grande tortura era a hora da chamada.
Primeiro porque não havia professora que não gaguejasse à primeira leitura! Depois pelos risinhos dos colegas que sempre a incomodavam. Encolhia-se.
Hoje, já adulta, ainda ouve as crianças a gritarem à hora do recreio: – Pastorisa, Pastorisa! Escondia-se.
Por destino ou força das palavras foi pregar na Igreja Universal: Pastora Isa.

Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

A armadilha

– Quem te contratou? – perguntaram-lhe pela terceira vez, e pela terceira vez permaneceu em silêncio. 
Estava habituada a estes exercícios. Quantos fizera? Quinze, vinte? Não sabia e isso pouco importava. O que a perturbava era o facto de se ter deixado apanhar. Ela, Pastorisa, fora a melhor do curso, como não vira a armadilha que se delineava?
Refletia sobre isso, quando sentiu o cão roer a corda que a amarrava. Respirou fundo. Seria vencedora também na vida real.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

O remorso

Após anos sem voltar à sua cidadezinha natal, Pastorisa, ora ruiva, vestido curto, justíssimo, saltos altíssimos, novamente lá chegava.
O funeral de Dona Mariela, sua mãe, que falecera , aguardava sua chegada para ser enterrada.
Parecia fria, insensível. Fazia apenas presença e marcante: os olhares todos em sua direção!
Conseguira assim, o que prometera: Voltar “por cima”!
Acabado tudo, vai à casa da mãe!
Sozinha, vê o quadro, sua foto no colo dela!
Chora. O remorso corrói!

Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil  

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Programa Rádio Sim 247 – 30 Abril 2014

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim


Depois do fim, começava tudo o resto. Parecera uma batalha sem fim: finalizar a licenciatura e apresentar a tese, não sem vacilar, como quase todos. Agora recebia o diploma. Pela frente, um estágio profissional. Depois disso, outro. Depois disso… não fazia ideia. Poderia fazer as malas, como tantos amigos e colegas, partindo para outros países, outros trabalhos, outros desafios, outras condições. Contudo, o maior desafio persistiria: que sabia ele da vida real de trabalho? Muito pouco mesmo.

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

EXEMPLOS - desafio nº 65

Após anos sem voltar à sua cidadezinha natal, Pastorisa, ora ruiva, vestido curto, justíssimo, saltos altíssimos, novamente lá chegava.
O funeral de Dona Mariela, sua mãe, que falecera , aguardava sua chegada para ser enterrada.
Parecia fria, insensível. Fazia apenas presença e marcante: os olhares todos em sua direção!
Conseguira assim, o que prometera: Voltar “por cima”!
Acabado tudo, vai à casa da mãe!
Sozinha, vê o quadro, sua foto no colo dela!
Chora. O remorso corrói!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

A armadilha
– Quem te contratou? – perguntaram-lhe pela terceira vez, e pela terceira vez permaneceu em silêncio.
Estava habituada a estes exercícios. Quantos fizera? Quinze, vinte? Não sabia e isso pouco importava. O que a perturbava era o facto de se ter deixado apanhar. Ela, Pastorisa, fora a melhor do curso, como não vira a armadilha que se delineava?
Refletia sobre isso, quando sentiu o cão roer a corda que a amarrava. Respirou fundo. Seria vencedora também na vida real.
Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Graças ao nome
Tinha um nome no mínimo, peculiar o que lhe conferia uma personalidade arredia.
Nos primeiros anos de escola sua grande tortura era a hora da chamada.
Primeiro porque não havia professora que não gaguejasse à primeira leitura! Depois pelos risinhos dos colegas que sempre a incomodavam. Encolhia-se.
Hoje, já adulta, ainda ouve as crianças a gritarem à hora do recreio: – Pastorisa, Pastorisa! Escondia-se.
Por destino ou força das palavras foi pregar na Igreja Universal: Pastora Isa.
Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil

Não foi por coincidência que participei numa aula de dança.
O meu motivo sincero era a linda Maria Pastorisa que mora no nosso bairro.
O professor chamou:
"Senhoras! Escolham o vosso par.”
Um instante, senti uma opressão, pois Maria olhava na direção oposta. Ergui a cabeça, a minha deusa morena estava de olhos meigos e sorriso inesquecível à minha frente.
Ao dar o primeiro passo, ela dava-me asas e, como cisnes amorosos, dançaríamos juntos a noite inteira.
Theo de Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Vida ao vento
Falhara tudo. Escola, avaliação zero. Empresa, competência nula. Família, tentativa falhada.
No bolso somava trinta e mais muitos anos sem rumo.
O papel falava que as crianças eram despojos de guerra que queriam sorrir. E gritavam por alguém com mãos fortes e coração aberto.
Era longe. Nem conseguia dizer o nome da terra. Mas chegou.
– Nome?
– Pastorisa.
– Pastorisa?
– Sim, meu pai era pastor, minha mãe uma brisa… O encontro do sonho.
A vida cumpria-se agora. Sabia-o. Sentia-o.
Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa

A velha escola
Olhou, de cima, a pequenina figura.
– Reguadas por não saberes a tabuada – disse: voz esganiçada, sorriso prazenteiro.
A miúda olhou-a: apavorada. Inundou-se de medo. Procurou-lhe os olhinhos minúsculos, de cor indefinida, no fundo daquelas lentes espessas que os deformavam. Aventurou-se a olhar-lhe o carrapito – tão ralo quanto a sua escassez de bondade. Parecia-lhe o esqueleto perfilado na sala.
Os olhos transbordaram de lágrimas mas pensou: “Dói-me. Vai passar. Tu, tão ruim, hás-de ser Pastorisa toda a vida.”
Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Diagnóstico
Jovens estagiários de medicina, acompanhados pelo professor, à enfermaria do hospital:
– Agora vão observar a doente e digam-me qual é o vosso diagnóstico – diz o professor.
Um a um começam a relatar um rol de doenças e consequências à frente da paciente, numa atitude desenfreada para agradarem ao mestre. Inesperadamente, sem que ninguém esperasse, ouve-se lá ao fundo:
– Desculpe, como se chama? – Todos se afastam.
– Pastorisa – responde apreensiva.
– Invulgar o seu nome. Sossegue, não tem nada grave.
Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica

O Reencontro
Parecia mentira, mas ela estava mesmo ali.
Antes que se desaparecesse mais uma vez, abordei-a.
– Sabes quem sou? – perguntei.
– Tenho uma pequena ideia… – respondeu, com alguma interrogação no olhar.
– Outrora fomos colegas de carteira…
Rimos, recordando os velhos tempos de escola em que éramos unha com carne.
Interrogámos como foi possível termo-nos separado apesar daquela amizade, tão verdadeira.
Será este o preço a pagar por esta vida demasiado ocupada?
Aquele nome nunca me sairá na memória: Pastorisa!
Catarina Azevedo Rodrigues, 41 anos, Lisboa

A herdeira
Agora que a mulher parara de gritar, apesar de continuar ruborizada e a suar como se tivesse acabado de sachar a terra ao meio-dia, era altura de observar a criança.
Era linda a pequena: gorduchinha, bochechas vermelhinhas, cabelo pretinho, moreninha, vivaça... estava ali a sua herdeira, o sangue do seu sangue!
– Ó Manel, é preciso ir registá-la.
– Pois é… e então, que nome vai ser?
– O nome da filha do pastor: Isa.
E assim foi registada: Pastorisa!
Margarida Leite, 45 anos, Cucujães

Pastorisa era pastora
Numa aldeia pobrezinha
Mas o seu coração tinha
A mania de sonhar...
E não é que certo dia
Lhe saiu a lotaria!
Ficou tão atrapalhada
Pois não estava preparada...
Vieram então pretendentes
Carregados de presentes
Para com ela casar.
Só que nada a convenceu
Pois a saudade bateu
No fundo do seu coração
E foi com grande emoção
Que voltou a pastorear...
O dinheiro desapareceu
Há quem diga que o deu
Vá-se lá adivinhar...
Isabel Lopo, 68 anos, Alentejo

Objectividade
Das Letras e das Artes se falava bastante naquela casa de pergaminhos firmados, onde, robusta, nasceu uma menina a quem puseram o nome de Pastorisa.
Parentes, amizades, se indagaram sobre a estranheza do nome.
Os anos rolaram, a menina ficou mulher e, por um destes irrefragáveis determinismos, o nome veio justificar os ofícios: tornou-se líder, condutora de gentes. Ainda, sob garbosos dons pintora da ruralidade... campos e pastores!
Nome, destino, fazendo acontecer o que tem de acontecer.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Pastorisa
Para ela o mais importante é a liberdade. Talvez esteja relacionado com a data de nascimento (25 de novembro de 1975). Diz estar a aprender a não dar importância ao que pensam dela e do que ela pensa. Uma espécie de liberdade de pensamento, como a do corpo. Vê o ser humano como abrir gavetas de si mesma, quantas mais abrir, melhor se conhece. Naquele olhar o tempo parou, apenas para arrumar o vestido no corpo.
Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

A força das palavras 
Maria ainda criança já pastoreava os rebanhos. No cesto levava o almoço: toucinho, queijo e o naco de pão. No cantil, água fresca. Também a roca, o linho para fiar enquanto entoava ternas canções em uníssono com as aves suas amigas.
Sentia-se feliz no seu viver. 
Chamavam-lhe Maria Pastorisa.
Mas surgiram maleitas. Dores incontroláveis.
Que fazer?! 
Encontrou coragem no livro " De Zero a Dez", da Margarida Fonseca Santos.
Agora abstrai-se, sonha!
Afinal o “sonho comanda a vida"! 
Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Interlúdio  
Estimados, eram o pastor daquela aldeia e sua mulher Isa, que gostavam de contar histórias. A juventude fugia-lhes, o tempo teimava lembrar-lhes…
Para sua filha Pastorisa, efectivamente boa aluna, a hora de partir chegara.
Com a humilde jovialidade e alegria que lhe era inerente, despediu-se de todos e da terra, com sabor amargo na boca e aperto no coração. Jovem, entusiasta, depressa se formou.
Um dia… sem ninguém esperar, Pastorisa voltou, soltando do peito uma história inacabada…
Graça Pinto, 55 anos, Almada

Pastorisa faz o seu primeiro bolo
Pastorisa era uma menina de sete anos. Ela tinha o cabelo loiro e usava duas tranças compridas.
Chegou o Dia da mãe… E Pastorisa estava triste pois a sua mãe estava a trabalhar e não podia estar com ela.
Teve uma ideia!
Com a ajuda do seu pai, a menina esmagou bolachas, juntou chocolate em pó, farinha, fermento, açúcar e ovos…
– O bolo que eu tanto adoro! Obrigada pela surpresa! – exclamou a mãe quando chegou a casa.
1ºB do Centro Escolar de Moure (Agrupamento de Escolas de Moure e Ribeira do Neiva), professora Cátia Silva

Amor de mãe
Acariciava-lhe as mãos cheias de calos, mãos de quem trabalha a terra.
Durante muitos anos envergonhara-se delas, melhor, de a quem pertenciam!
Aprendera com a vida a reconhecer-lhe o valor. Arrependia-se da sua futilidade.
Nunca quisera ir a casa nas férias, nem no natal. Preferia ficar em Lisboa com os tios. Sua mãe tudo desculpava. Mas ela não se perdoava, nunca esqueceria que hoje, graças àquelas mãos, aos sacrifícios da sua querida mãe Pastorisa, era advogada.
Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

A nova aldeã
Pastorisa, princesa guerreira e encantada vivia num castelo, rodeada de mordomias.
Foi uma criança muito amada por suas majestades.
Entretanto a mãe faleceu e o pai casou de novo. Continuou a ser amada pelas aias, embora a nova rainha a tratasse com requintes de malvadez.
Um dia, Pastorisa revoltou-se…
Fugiu do castelo, atravessou serras e florestas. Desceu até à aldeia.
Vestida modestamente com roupas de camponesa tentou passar despercebida entre o seu povo.
Até ao seu regresso…
Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Necessidade de defesa
Pastorisa, uma mulher calma, respeitadora, boa, ingénua. No trabalho desempenha várias funções. Numa delas surgiram atritos. Desvaliações pessoais pela chefe; fingiu não; passar ao lado; justificar as suas acções. Impossível o diálogo. Continuou cumprindo o suposto. Um dia, elabora participação ao Director. Com mentiras, deturpações. Intenção de denegrir, ofender. Tomou conhecimento. Agiu com “desconhecimento”.
Um dia dirigiu-se-lhe criticando o seu trabalho. Passou-se! Disse-lhe o que pensava dela. Coisas feias. Exigiu tratamento por você. O assédio psicológico, moral, acabou. Por quanto tempo?!
Isabel Pinto, 47 anos, Setúbal

Nascera, crescera, brincara e até dormira naqueles verdes pastos, que agora avistava outra vez! Pastorisa, é esse o seu nome. E quem é Pastorisa? Uma pequena e alegre cabrinha anã, de pelo malhado, das cores da doce terra que pisava, e dos mais brancos malmequeres que já vira. Pastorisa vivera feliz naquela pradaria. Mas, devido à falta de pasto naquela zona, tivera de se mudar. Agora Pastorisa voltou ao seu verdadeiro lar e corre livre e contente.
Liliana Macedo, 15 anos, Ovar 

Pastorisa era alcunha
De uma mulher sem igual
Guardadora de rebanhos supunha
Era uma pessoa excepcional

De tez escura e rosto cansado
Olhos vivos e extasiados
Levava as ovelhas a pastar
e atrás os cães a ladrar.

Viúva e mãe de três filhos
Trabalhava com amor e paixão
A ruralidade do seu ofício
Era um ganho no seu coração.

Fazia a tosquia dos animais
Era parte da sua labuta
Tinha a força e sinais
Era mulher astuta.
Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa

S. Miguel - Açores
Polígonos circulares fechados contornam lagoas, vilarejos, campos e herdades, sempre adornados com as mais coloridas flores. Muros caiados contrastam com o verde do campo e o negro da praia. Figuras religiosas coladas às fachadas saúdam os visitantes e, em todas as aldeias, é a igreja o edifício destacado.
A religiosidade fervilha na mesma medida que a acção vulcânica. Até já foi visitada pelo santo Papa!
À do outro lado chamam-lhe “pérola”. Porque não, a esta, chamarem-lhe “Pastorisa”?
Márcia Gomes, 36 anos, Vila Nova de Famalicão

Mil razões
André não sabia como chamá-la. Era a primeira vez que serviria uma Pastora. Estava nervoso.  De repente a porta abriu. Parecia uma figura cativante, simples, elegante. Meio a um amplo sorriso falou:
–  Boa tarde André! Obrigada por ter aceitado meu convite!
– É uma honra trabalhar com. é... É... É... (  )
– Calma, André, me chame Pastorisa. Meus pais chamam-se Adamastor Isabela, o P, bem, foi uma ideia de papai, que sonhava ter uma filha pastora!
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Pastorisa
Onde vais, ó Pastorisa
Em passo tão apressado?
Levas sustento e beleza;
Ao pessoal já cansado.

Não corras tão apressada
E segura bem a merenda
Tens uma cesta pesada
Debaixo da linda renda!

Não podes olhar p´ro lado
No teu caminho certeiro,
Segura-te bem nos galhos
E pedrinhas do ribeiro.

Há campos encantadores,
Animais em sinfonia,
Água a correr no ribeiro,
Tudo respira alegria.

Pastorisa pequenina,
És parte da Natureza,
Ajudando quem trabalha
Levas comida e beleza!
Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante

Pastorisa
Pastorisa, menina pobre e humilde, passava horas brincando com a Naná que era rica. Às vezes, a Naná, lembrava-se, talvez só porque era rica, e puxava-lhe as tranças.
Pastorisa ficava triste, choramingando...
Isto passava-se sempre.
“Sempre é muito tempo!”, pensou um dia.
Era pobre, mas não aguentava mais ser humilhada!
Quando Naná lhe puxou as tranças novamente, ganhou coragem e… puxou-lhas também.
O tempo passou…
Acabaram-se as puxadelas. Agora, Naná respeita Pastorisa e tornaram-se até grandes amigas! 
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Pastorisa era um rasgo de sol. À sua passagem tudo se iluminava. Sorriso fácil, olhar amendoado, caminhava por entre as pedras saltitando com leveza. Gostava de ter por companhia o murmurar do vento. Naquele dia soalheiro, encorajou as cabras a subirem o monte. Junto ao regato deixou-se parar no tempo. Fechou os olhos e adormeceu, desejando que ele a encontrasse.
– Como pode ter acontecido? Pastorisa não merecia este fim!
A pedra, cansada do equilíbrio, deixara-se escorregar, matando-a…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Era ainda menina adolescente.
Não conhecia as artes do amor,
Mas, quando o via, sentia borboletas
esvoaçarem-lhe no peito. Ouvia sinos tocarem.
As pernas tremiam-lhe, a ponto de quase desfalecer.
E quando o via falar, ou rir com outras raparigas,
era invadida por um sentimento, desconhecido para ela.
Dos olhos destilava uma lágrima solitária,
tal como se sentia o seu coraçãozinho.
Pobre Pastorisa, começava a provar as amarguras da paixão.
Pois não conhecia ainda o verdadeiro amor.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Pastorisa, após um amor infeliz na adolescência, dedicou-se à vida monástica.
Actualmente é madre superiora do convento e directora do orfanato.
Um amor frustrado conduziu-a à iluminação, fazendo nascer outros sentimentos louváveis como solidariedade e misericórdia.
Contrariamente a muitos, que deixam sentimentos recalcados gelar-lhes o coração, Pastorisa colocou o seu ao serviço de Deus, da comunidade, sobretudo das crianças mais frágeis.
Nunca casou, não constituiu família nuclear, mas no orfanato possui uma família alargada, gigantesca e carinhosa.

Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 65

O que vos peço hoje é que trabalhem uma personagem: podem dar-lhe a personalidade, idade e aspecto que quiserem, mas preciso que me contem uma cena da vida dela. O único detalhe imposto é este: chama-se Pastorisa.


O nome presta-se a imensas interpretações, como calculam. A mim, levou-me a esta história:

A porta do gabinete abriu-se. Ao levantar os olhos, deparei-me com uma miúda magra, de olhar assustado e medo nos movimentos. Tinham-me avisado: seria um caso difícil. Percebi depressa. A dificuldade não seria o comportamento, mas sim a ausência dele. A mão que a segurava não afrouxava a tensão, pois fugiria. Levantei-me, fui até perto dela e ajoelhei-me. Ficámos da mesma altura.
– Chamam-lhe Pastorisa, senhora directora, ninguém lhe conhece outro nome.
– Olá, Pastorisa. Bem-vinda a esta casa.
Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa
EXEMPLOS

29 abril 2014

Programa Rádio Sim 246 – 29 Abril 2014

OUVIR o programa! 


No site da Rádio Sim

A agulha e o dedal
A agulha e o dedal conversam numa prateleira cheia de pó
– Como é possível alguém esquecer-se de mim? Com a falta que faço – disse o dedal
– Convencido! Todos fazemos falta, foi descuido da pobre senhora…
– Não nos liga nenhuma, é o que é.
– Tens de perceber que já não consegue alcançar-nos, com a idade que tem.
– Desculpas para mandriar.
– Não digas isso! Ela nem devia viver aqui sozinha.
E calam-se olhando a senhora sentada tristemente no sofá.

Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

A ti, simplesmente

A ti, que diluis os meus defeitos no carinho verde do teu olhar.
A ti, que procuras o meu colo na calma da tua maciez eterna.
A ti, que olhas as minhas fúrias como simples momentos a esquecer.
A ti, que aceitas todas as minhas propostas sem sombra de alteração.
A ti, que nunca questionas.
A ti, que fazes do silêncio um poema em meu louvor.
Para ti, Rodolfo, meu gato maravilha, estes setenta e sete miados…

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa

Desafio nº 26 – dedicatória para alguém

A gotinha Miquelina

 “Ai… a geada esta noite foi horrível. Dá cabo do nosso verde! E ninguém faz nada por nós!”
A gotinha Miquelina abre os olhos, sacode as longas pestanas num bocejo e pensa “Conversa tola! Folhas presumidas… Farta! Vou-me embora.”
Mergulha… Troca o verde pelo azul.
Devagar, aproxima-se da lisa transparência que, lá em baixo, saúda a manhã numa gargalhada de água doce. Chega. A alegria transforma-se em abraços bem redondinhos, que a envolvem no infinito da lagoa.


Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa
Desafio nº 43 – imagem de uma gota a cair numa superfície lisa de água

28 abril 2014

Programa Rádio Sim 245 – 28 Abril 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

Chegou Abril!
Chegou Abril, mês de mudança. Mês de mudança que veste os campos de verde, decora os montes com papoilas encarnadas. Papoilas encarnadas como o sangue. O sangue que nos dá vida para apreciarmos o azul que se instalou nos céus. Céus de azul sarapintado de pequeninas nuvens fugidias. Nuvens fugidias que dispersam dissimuladamente como a nossa liberdade. A nossa liberdade que vai sumindo, a cada dia. A cada dia – tenho esperança -, e digo sempre: já chegou Abril.

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

27 abril 2014

O apelido da alma

O banco é de madeira. Antigo. Preso ao chão.
O homem é daquilo que é feito um homem. Muito antigo. Preso à vida.
Parecem um só.
O sol cresce para o dia enquanto o Tejo desliza num espelho de luz.
Aqui viu o pai mergulhar para a morte. Aqui chorou tristezas de filhos. Aqui perdeu uma mão cheia de sonhos, gastos no medo. Aqui seu apelido foi ficando preso em arame farpado.
Seu apelido? Ou sua alma?

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa  
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


Novo romance - De zero a dez

De zero a dez
A vida no silêncio da dor
Falámos muito na Rádio SIM do livro "De Zero a Dez", eu e Helena Almeida, a minha querida companheira das 77 palavras. 
(Edição Clube do Autor)


Sinopse:
Leonor é uma mulher a braços com uma doença crónica, sem saber como conviver com o cansaço da dor e da dor do cansaço. Vê a sua vida espartilhada por condicionantes que influenciam o dia-a-dia, mas também o futuro.
É através da ajuda de amigos, de uma relação médico/doente equilibrada, que reencontra uma vida a que pode chamar sua, onde a felicidade e o empenho no trabalho passam a ser uma realidade concreta, possível e enriquecedora, uma vida onde a dor deixa de ser o centro.
Este é um romance sobre a dor crónica. É igualmente um livro terapêutico, onde os caminhos e as estratégias para lidar com a doença se revelam a cada passo. É, sobretudo, um romance com esperança por dentro.

Nota de autor:
Há circunstâncias que nos obrigam a parar e mudar. Foi isso que me aconteceu quando percebi que teria de adaptar a minha vida às possibilidades reais deixadas em aberto por uma patologia músculo-esquelética. Não foi fácil, nunca é. Sendo a palavra a minha forma de comunicar, a ideia foi-se instalando em mim: porque não escrever sobre quem coabita todos os dias com a dor crónica, o cansaço e as limitações?
Foi assim que surgiu este livro. É o somatório de experiências pessoais, minhas e das pessoas que aceitaram partilhar comigo o seu viver diário, num entrançado de crises e soluções, sonhos e frustrações, medos e esperanças. Tinha como objectivo dar conforto a quem é doente, mas também ajudar quem com ele convive a entender as limitações e as forças, seja numa vida em comum, no trabalho ou na amizade. Espero ter conseguido atingi-lo. A mim, organizou-me por dentro e deixou-me em paz com a doença.

26 abril 2014

Infernização!

Depois do fim da implementação do novo acordo ortográfico, gramática simplificada, uma língua unificada.
Tarefa ingrata para professores! Somos atores e espetadores, expetantes entre comummente e comumente, hífenes e hífens, cor-de-rosa e cor de laranja. A hifenização transformou-se em infernização!
Escreve o aluno: – Que admiração tenho pelo pelo dos coelhinhos!
Pela manhã, a mãe do João pela a maçã que ele come com satisfação.
Quem para esta confusão para uma verdadeira unificação? O Antônio ou o António?

Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Olhos brilham, lágrimas caem

Sinto-me impotente, olhando-a deitada.
Ultimamente está sempre deitada. Tento conter as lágrimas. Minha mãe definhava dia-a-dia. Só me resta ajudá-la. Tentar aliviar seu sofrimento.
Sempre fora muito alegre. E agora ali estava. Prostrada, alheia a tudo. Doí vê-la assim, imóvel. Lágrimas brilham-lhe nos olhos. Dão sinal de entendimento. Parecia perceber meu sofrimento. Como só mãe percebe. Sofrendo, sofrendo por mim. Toquei seu rosto cansado. Quase juro que sorriu. Pelo menos assim penso. Olhos brilham lágrimas. Lágrimas caem.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio RS nº 12 – texto em prosa com frases de 4 palavras

Dona Antónia

Ali estava Dona Antónia, sozinha após a ida ao hospital. A ida ao hospital foi em consequência da sua pouca saúde. Pouca saúde era o que lhe restava dos 90 anos de vida. 90 anos de vida, parecia uma eternidade. Parecia não, era uma eternidade. Era uma eternidade também o que tinha de esperar cada vez que ia ao médico. Ia ao médico uma vez por mês para passar medicamentos. Para passar medicamentos ali estava Dona Antónia.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

25 abril 2014

Programa Rádio Sim 244 – 25 Abril 2014

OUVIR o programa! 


No site da Rádio Sim


25 de Abril
No 25 de Abril
Dia da revolução,
Nossos valentes soldados
Fizeram livre a nação.

Fizeram livre a nação,
E cravos apareceram.
Nas ruas da Capital,
Uma canção entoaram.

Uma canção entoaram,
Sem medo, com verdade.
Grândola vila morena
Terra da fraternidade.

Terra da fraternidade,
Ouvia-se em todo o lado.
Na boca de muita gente,
Do povo que sofreu calado.

Do povo que sofreu calado,

Cantavam bem mais de mil,
No dia da liberdade,
No 25 de Abril.

Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…