30 novembro 2014

Um cão... a ler

Nada mais fácil do que ensinar um cão a ler 
Para isso é preciso aprender
pegar no lápis e escrever
um conto para refletir e ler

Um gato a cantar
Dois pássaros a pipilar
Que coisa vem a ser esta?
Isto não é nenhuma festa!

O cão só sabe fazer ão, ão, a ladrar
Nem num lápis sabe corretamente pegar
Que trapalhice! Cá vai
A cadeira cai…
Estava a pensar…
Deixa estar…
Não haverá
nada mais difícil.

Letícia Pereira, 10 anos, 5ºD, Escola Básica de Santa Catarina da Serra, Leiria, prof Sérgia Pereira

Desafio RS nº 19 – começando em Nada mais fácil e terminando em Nada mais difícil

Anda um beijo a voar

Olha, falo duma original ideia, meu amor: logo, à hora da novela, vou à janela e dou um beijo no ar. É bom que ninguém me veja, querido. Adoro o enigma!
Ignora quem olhar. Finge olhar a lua ou alguma flor. É bom mandar um beijo na doçura morna daquela hora do fim do dia. Quando o dia é lugar de luz e vigília, o fim dele é ainda melhor quando dá lugar ao verdadeiro amor.

Fernanda Ruaz, 66 anos, Lisboa

Desafio nº 78 – escrever sem C P S T

Amores imperfeitos

Conheceram-se  novos. Treze anos.  
Assumiram seus sentimentos.
Entretanto ele conheceu outro alguém, apaixonou-se. Sentimento recalcado.
Cumprido o serviço militar, casaram.  Tudo reflectia  amor excepto o seu subconsciente.
Foram pais duma menina.
Bênção partilhada.
Acabaram separados. Culpa dos dois, ou de nenhum!
Ele casou-se com a outra paixão, já era viúva. Mas... não deu certo.
Entregou-se à bebida, é infeliz.
Elas tornaram-se amigas. Vivem a mágoa do destino que o perdeu.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno!  

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Desafio nº 79quase felizes, num sempre muito pequeno

Pensar no sol

Nada mais fácil para o Pedro viver na sua casa de cor azul-marinho, à frente do mar. Esta tem uma palmeira com cocos vermelho escuro, uma pedra grande e escura como o basalto, no jardim. Todos os dias, entre as catorze e as dezasseis horas, em cima da pedra quente, está sempre um cão às manchas pretas e brancas a descansar. À noite, o Pedro deita-se na sua cama gelada e pensa no sol, nada mais difícil!

Rodrigo Ferreira, 5ºD, 10 anos, Escola Básica de Santa Catarina da Serra, Leiria, prof Sérgia Pereira

Desafio RS nº 19 – começando em Nada mais fácil e terminando em Nada mais difícil

Noites quentes de verão

Como eram enormes aquelas noites quentes de verão. Avós e netos costumavam sentar-se à noite na soleira da porta até que o sono chegasse. Conversavam muito sobre assuntos variados. Muitas histórias passadas num tempo em que quase nada se tinha. Estavam sempre presentes as guerras, as pestes, as filas para comprar pão durante a guerra civil. Tinham sido dias difíceis, mas não lhes havia faltado o essencial: o amor. Num mundo limitado foram quase felizes, num sempre muito pequeno.

Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins (Algueirão)
Publicado aqui: http://ailime-sinais.blogspot.pt/
Desafio nº 79quase felizes, num sempre muito pequeno

Vontade de viver

Foram quase felizes, num sempre muito pequeno apartamento. Fora o seu primeiro lar. De pequeno não tinha nada, os afetos que lá viviam tinham asas gigantes que transbordavam. Também era como um navio antigo, que procurara novos rumos, em que a aventura, a coragem e a determinação faziam daquele pequeno apartamento um cadinho de felicidade que não se quedava pelo que apenas se pode colher, mas antes do que se ganha quanto semeador de vontade de viver.

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Desafio nº 79quase felizes, num sempre muito pequeno

País real e cruel

Viviam num pequeno país. Real e cruel: impostos, desemprego, vergonha, desespero. Serviço público dizia-se. E os princípios? Compromisso com os cidadãos, integridade, respeito, transparência… Bem, esses estavam lá, muito bem escritos, sob a forma legal e impressos em letra bonita e papel de qualidade. Mas não passam disso. Um rol de meras intenções, para alguém cumprir, que não pelos políticos, entenda-se. Lembram-se nos discursos, para esquecer rapidamente depois de eleitos. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.

Alda Gonçalves, 47, Porto
Desafio nº 79quase felizes, num sempre muito pequeno

TPC ou ajudar a mãe?

Nada mais fácil do que ser salvo pelo toque de saída das aulas, ter a professora esquecendo-se de marcar os TPC.
Ótimo! Podemos chegar a casa e relaxar e começar a jogar ou ver televisão.
– Boa!
Entretanto comecei a ouvir a minha mãe:
– Tens trabalhos de casa?
– Não.
– Boa, já tenho ajuda para fazer o jantar e pôr a mesa.
E eu a pensar… que coisa! Livrei-me dos TPC, mas posso esquecer o divertimento, nada mais difícil.

Vasco Fernandes, 5ºD, 10 anos, Escola Básica de Santa Catarina da Serra, Leiria, prof Sérgia Pereira
Desafio RS nº 19 – começando em Nada mais fácil e terminando em Nada mais difícil


Quimera

Jarbas, o mordomo lhes oferecia suco geladinho. À beira da piscina desfrutavam da tranquilidade, após semana de problemas e intensas atividades.
Final de ano era sempre época de muitos contratos, tratativas para o seguinte.
– Lhes trago um prato de bolinhos de bacalhau, com tira gosto, disse Érica, a cozinheira.
Enquanto degustavam felizes, uma girada de corpo e o sonho acabou.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Ainda bem sabiam que a felicidade não consistia apenas naquilo.

Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 
Desafio nº 79 – quase felizes, num sempre muito pequeno
Publicado aqui:

A abelha

O ziguezaguear da abelha sempre a xingar fez ruborizar o doutor. Não havia mais nada do que fugir e gritar. Com a unha comeu o ovo de jacaré com queijo e caramelo e ficou mais animado. Aquele insecto dava trabalho. Estava agora em cima de um nenúfar murmurando qualquer coisa impercetível. Procurou no livro dos insectos o sistema, algum botão que o poderia imobilizar. Lá estava. Foi num ápice, logo o estava a enterrar. Colocou-lhe uma vela.

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria
Desafio nº 58 – tabela de 2 palavras obrigatórias para o alfabeto, uma à escolha


Armado em doutor

Eis a história de um camelo armado em Doutor; salvou um jacaré de se asfixiar com um caramelo. “Caiu-lhe um pedaço de xisto na cachimónia, coitado!” pronunciavam os seus pais sustendo o riso! Caminhava em ziguezaguefugia dos nenúfares e praticava vela. Deixava as fêmeas a ruborizar, imobilizadas, a tremer, umas a murmurar, outras a gritar. Ousara desfolhar, com a unha, um livro, que encontrara no entulho. Aí um botão activou-se. Não houve hipótesequis ser médico.

Liliana Macedo, 16 anos, Ovar
Desafio nº 58 – tabela de 2 palavras obrigatórias para o alfabeto, uma à escolha


A bem da gente

Uma estrada estava a irritar as gentes. Cruzava a aldeia pela metade. Visivelmente irritadas vieram à câmara gritar: “Que se passa?” “Que presidente permite este ultraje?”. Aldeia pela metade, devia separar-se a gente em duas partes? Uma aldeia é uma unidade indivisível! “É para bem da terra!”, sustentava a presidente. Maria já tinha mais de 80, sabia da vida: “Gente que manda é assim, dizem que fazem a bem da gente mas, se lhe tirarem a gamela…

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Desafio nº 76 – escrever sem a letra O

Deixa-me dormir...

Ah! Quem me dera dormir! Dói-me o corpo todo. Deem-me uma cama e deito-me! Cansaço total. Hoje, não se destina dar-te uma mão! Deitamo-nos cedo e descansamos. Amanhã, dito-te o exercício e com calma desembaraçar-te-ás. Segunda-feira, a professora dir-te-á se te desenrascaste bem ou não.
– Desistes de mim assim?
– Desistir, Maria? Claro que não.
– Como não!
– Decidi, descansar do cansaço, Maria, apenas isso! Descobri que o descanso me dá energia.
– Descansa, então.
– Obrigada, deixa-me dormir e descansar.

Fátima Fradique, 40 anos, Fundão
Desafio Rádio Sim nº 4 – todos os verbos com uma destas letras O, L ou D (só uma!)


Aqui e agora

Aquele homem não vê
Aquele azul, aquela luz que brilha
Ainda que em breve um novo dia venha
Em ele, nada remexe
nele não há fé na humanidade
Homem que dorme, 
não vê nem quer ver 
Homem, larga o medo!
Ruiu, logo me ergo!
Ruge à dor e voa
O que há é o aqui e o agora
Abraça a roda da vida e vive
deixar ao amanhã o dia de hoje
é dia que já foi!

Sara Pereira, 20 anos, Braga

Desafio nº 78 – escrever sem C P S T

Pedro e Inês

Pedro viu Inês, no café, uma perna por cima da outra, em cruz. Olhou, mirou e não mais deixou de pensar nela. Amor à vista! Paixão certa.
Chegou junto dela e fitou seus olhos grandes e azuis. Sorriu. Ela sorriu também e com a mão mostrou o lugar ao seu lado. O rapaz ficou feliz e pediu um licor para cada um. Mais tarde, chegou um homem junto deles, beijou Inês nos lábios. Pedro corou e saiu.

Fátima Fradique, 40 anos, Fundão

Desafio nº 44 – palavras com apenas 1 ou 2 sílabas

Querido amigo

Querido amigo, murmuro eu
de mim a ele!
Faz quando que não o vejo?
Não me lembro! Minha memória, não me deixa, já me falha!
Não o verei eu? 
Irá a vida boa? 
Amigo a minha flui, obrigado!
Amigo, aqui e agora é novidade
É modernidade
Não há meio
Ninguém falha de admirar-me!
Querido amigo, amaria revê-lo de novo
Meu amigo imaginário,
Viverá ele na minha alma,
raiz de origem?
De amigo a um amigo
Um beijo!

Sara Pereira, 20 anos, Braga

Desafio nº 78 – escrever sem C P S T

EXEMPLOS - desafio nº 79

Jarbas, o mordomo lhes oferecia suco geladinho. À beira da piscina desfrutavam da tranquilidade, após semana de problemas e intensas atividades.
Final de ano era sempre época de muitos contratos, tratativas para o seguinte.
– Lhes trago um prato de bolinhos de bacalhau, com tira gosto, disse Érica, a cozinheira.
Enquanto degustavam felizes, uma girada de corpo e o sonho acabou.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Ainda bem sabiam que a felicidade não consistia apenas naquilo.
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

País real e cruel
Viviam num pequeno país. Real e cruel: impostos, desemprego, vergonha, desespero. Serviço público dizia-se. E os princípios? Compromisso com os cidadãos, integridade, respeito, transparência… Bem, esses estavam lá, muito bem escritos, sob a forma legal e impressos em letra bonita e papel de qualidade. Mas não passam disso. Um rol de meras intenções, para alguém cumprir, que não pelos políticos, entenda-se. Lembram-se nos discursos, para esquecer rapidamente depois de eleitos. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Alda Gonçalves, 47, Porto

Foram quase felizes, num sempre muito pequeno apartamento. Fora o seu primeiro lar. De pequeno não tinha nada, os afetos que lá viviam tinham asas gigantes que transbordavam. Também era como um navio antigo, que procurara novos rumos, em que a aventura, a coragem e a determinação faziam daquele pequeno apartamento um cadinho de felicidade que não se quedava pelo que apenas se pode colher, mas antes do que se ganha quanto semeador de vontade de viver.
Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Como eram enormes aquelas noites quentes de verão. Avós e netos costumavam sentar-se na soleira da porta até que o sono chegasse. Conversavam muito sobre assuntos variados. Muitas histórias passadas num tempo em que quase nada se tinha. Estavam sempre presentes as guerras, as pestes, as filas para comprar pão durante a guerra civil. Tinham sido dias difíceis, mas não lhes havia faltado o essencial: o amor. Num mundo limitado foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins (Algueirão)

Amores imperfeitos 
Conheceram-se novos. Treze anos.  
Assumiram seus sentimentos.
Entretanto ele conheceu outro alguém, apaixonou-se. Sentimento recalcado.
Cumprido o serviço militar, casaram.  Tudo reflectia amor excepto o seu subconsciente.
Foram pais duma menina.
Bênção partilhada.
Acabaram separados. Culpa dos dois, ou de nenhum!
Ele casou-se com a outra paixão, já era viúva. Mas... não deu certo.
Entregou-se à bebida, é infeliz.
Elas tornaram-se amigas. Vivem a mágoa do destino que o perdeu.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno!  
Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Na memória ou no mural
Deixem ver se me lembro de uma fotografia de alguém aqui. Bem, agora estamos à frente deste prato que é saudável, caro ou, vejam bem, nem é redondo. Não nos víamos há semanas, mas também não vi o meu feed há cerca de quinze minutos, e toda a gente sabe que um e-mail não pode esperar, talvez neste bocadinho ainda consiga passar aquele nível. Cinco gostos, três comentários. Um adeus. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Ana Rita, 23 anos, Porto 

Não, talvez ou sempre?
O grande negador reinava na terra do não, um lugar onde nada era permitido.
Os pequenos sonhadores, cansados da constante negação a tudo o que queriam fazer, atravessaram a fronteira, numa noite em que lua não brilhava, e entraram no país do talvez, uma nação enorme governada pela indecisão.
Também ali se sentiram perdidos e fugiram para um minúsculo país entalado entre as montanhas. Aí descobriram sorriso, alegria e harmonia. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

João e Lia se conheceram pela internet.
Estavam apaixonados um pelo outro.
Foi amor ao primeiro Clique! 
Papo vai, papo vem, noites e noites em frente ao PC e finalmente resolveram se conhecer pessoalmente. 
Trocaram telefones e marcaram encontro em um restaurante conhecido de ambos.
João já havia reservado uma mesa e esperava ansioso
pela amada.
Assim que chegou, chocada Lia percebeu uma aliança em sua mão.  
Concluiu então que: Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Verena Niederberger, 63 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Vinhas embrulhadinho numa saca de batatas, contra a minha vontade, pois eu queria-te livre e a cantarolar por terras Alentejanas. Lutaste para meter a tua crista de fora. Estavas ansioso para ver para onde ias, assim que chegaste, saíste dentro da prisão e bateste as asas como se não houvesse amanhã. Ah, a liberdade que bem que sabe! Estes fins quase felizes, num sempre muito pequeno, pois na falta do Perú, serás tu o petisco de natal.
Isabel Pinela Fortunato, 41 anos, Amadora

Aquela máquina massaja-me até ficar toda cremosa, diz a cozinheira: “estás no ponto!”. Eu acredito, ela lá deve saber melhor que ninguém, quando se chega ao ponto. Espera, ela quer juntar-me a novos amigos, tem uma mão cheia deles. São escurinhos e cheiram bem. Adoro sentir este cheirinho. Ela atirou as pepitas de chocolate para junto de mim, remexeu-nos para ficarmos juntinhos. Estávamos quase felizes, num sempre muito pequeno, pois levou-nos para a sauna, derretemos e cozemos…
Isabel Pinela Fortunato, 41 anos, Amadora

Ao alvor, pensei que seria fantástico poder encontrar de novo os meus falecidos pais.
Impossível!
Então, encontrei-os no dia seguinte no parque, sentados num banco. A minha mãe tricotava para a neta um cachecol, o pai lia o jornal. Embora o encontro fosse muito curto, mãe queria saber tudo sobre a família e pai começava a falar sobre a competição… Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Tirei uma selfie com eles, no caso de ninguém acreditar.
Theo De Bakkere, 61 Anos, Antuérpia Bélgica

O sol veio e beijou a terra. Ambos se primaveraram naquele encontro que prenunciava futuro. Não fora o espetro da guerra.
Vozes roucas já a tinham vaticinado. Os primeiros homens partiram armados. Os primeiros tiros berraram com altivez. Os primeiros edifícios tombaram. Os primeiros soldados caíram vencidos.
A última carta chegou e provocou-lhe inquietações no peito. A mensagem trouxe fim e chuva de lágrimas. Remendo algum consertaria o seu coração.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Adeus à aldeia
Rosa, vivia agora na cidade. Habituado ao meio aldeão, sentia-se perdida, onde não conhecia ninguém. Aos poucos arranjou amigos, colegas de trabalho, e outras pessoas encantadoras que conheceu com quem ainda hoje mantém uma verdadeira amizade. Acabou por dar a mão à palmatória ao admitir que viver na cidade tem muitas vantagens. Contudo nunca esqueceu a terra onde nasceu e o João seu primeiro amor. Ali foram quase felizes, num sempre muito pequeno. Restrito mas maravilhoso mundo.
Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos, Lisboa

Vaidosa, toda enfeitada,
à janela foi espreitar...
Não queria ficar encalhada,
um noivo queria arranjar.
Mas nenhum lhe agradava,
a todos punha defeito,
até aparecer o Ratão,
o seu único eleito...
Chegou o dia da boda,
esqueceu o anel em casa,
João correu a buscá-lo,
«que não demorava nada...»
Mas mal viu o caldeirão,
não resistiu e provou...
Depois foi um trambolhão,
a boda ali acabou!
Por causa destes deslizes,
foram quase felizes,
num sempre muito pequeno…
Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa

A medida da felicidade
Cada um tem o tamanho de felicidade que lhe cabe. Sem medidas, ela cabe em todo lugar. Fica o que é para ficar, o que tem de durar.  Pode ser o tempo de um sorriso.
Importante é saber que ela existe tomar posse, usufruir.
E sempre? Será infindo?
É eterno na sua medida.
Intenso ainda que os dias pareçam curtos, poucos...
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Sempre que quase foi nunca, quase assim meio constante...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Amor eterno
O verdadeiro amor nunca é vivido de verdade por inteiro. Existem pequenos pedaços que são vívidos ao longo do tempo. Cada relação é um pedaço de amor que começa sempre com juras de amor eterno. Este casal não era exceção. Procuravam no outro tornarem-se completos e de início isso parecia ocorrer. Tinham sido feitos um para o outro. O amor é sempre eterno, enquanto dura. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno. No entanto a vida continua.
Paulo Renato, 39 anos, Maia

Ele e Ela
Eram pessoas incomuns. Desde logo pelo tempo de gestação.  Prematuros, o começo da vida foi de luta e conquista.  Vingaram.  Mas os aleijões e contingências condicionavam-lhes inevitavelmente a felicidade possível. O acaso, o destino ou o que se lhe queira chamar, juntaram-nos no afecto e na força inabalável. De famílias abastadas, podiam chegar a alguns patamares. Não era o suficiente. Mesmo assim.
Tenazes e lutadores, e sobretudo apesar de tudo, foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Quando o Natal acaba
O frio crescia tanto quanto a comida escasseava. Deambulavam, enxotados, por quintais de casas repletas de conforto interdito. Uma cadeira, almofadada e escondida da geada, tornava a noite sorridente; desperdícios de comida eram um banquete delicioso.
Natal. Os humanos empanturravam-se de caridade: uma porta abriu-se. Deslumbraram-se: tanta comida, lugares fofos para se enroscar ronronando de prazer no quentinho da lareira e nos mimos da família. O Natal passou, eles cresceram.
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Nas brumas do invisível
Nos tesouros dos mistérios
Caminhamos na estrada da Vida
Em encruzilhadas sem critérios;
Avançamos e, quase felizes,
Tocamos o cume da montanha do viver;
Recuamos, e ainda felizes,
Descemos aos vales do ser;
E nesta eterna viagem
Alcançamos a felicidade
Num sempre muito pequeno micro-tempo
E dormimos ao relento
Na preciosa fidelidade
Do sabor dessa liberdade
E aí,
Como pássaros petizes
Somos quase felizes
Num sempre muito pequeno lugar
Para partilhar...
Para amar...
Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa

Felizes para sempre?!
Penso em desistir de tudo, partir para bem longe.
Mas depois de dormir sobre o assunto desisto! Não sei porquê. As pessoas dizem que me acostumei a viver assim. Será?
Às vezes gostava que a vida fosse um filme onde tudo acaba bem.
Romântico? Nem pensar! Drama? Aventura? Bem, não sei que tipo de filme seria, mas sei que no final em vez do felizes para sempre diziam: e foram quase felizes num para sempre muito pequeno.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Amor improvável
Ele perdia-se olhando-a, ela sorria timidamente...
Assim foi por muitos meses, até Zico ganhar coragem e pedi-la em casamento. Ela, apaixonada, disse que sim.
As famílias não gostaram da escolha mas eles estavam decididos.
O casamento não tardou, à socapa é certo, agora é moda.
A avó anunciou que a felicidade duraria pouco, tanto quanto o casamento!
Assim foi. Foram quase felizes num para sempre muito pequeno. Tanto quanto podem ser felizes um ouriço e uma esquila.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Sentia-se abençoada pelo destino e ao mesmo tempo tão desfraldada. Viveram quase dois intensos anos de um amor profundo. O pouco tempo que José viveu foi tapetado pela dor constante que lhe tolhia os movimentos. Só aquele sorriso permanente nos lábios, solto a cada chegada, fazia esquecer o curto tempo que lhes estava destinado. Viveram cada dia como se mais mundo não restasse. Partiu ficando para sempre nas suas lembranças. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Tudo começou a ruir, a máscara começa a cair.
As mentiras, e as traições, começam a vir à tona.
Os sonhos vão ficando mais longe,
as juras de amor eterno esquecidas algures,
num cantinho do coração.
Sentia a frustração das quimeras perdidas,
e do futuro incerto, que se aproximava.
Sabia que o «foram felizes para sempre»
e o amor eterno só existe nos contos de fada,
e afinal nem sequer FORAM QUASE FELIZES
NUM SEMPRE MUITO PEQUENO.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

O banco do amor
De tanto esperar o amor, cansaram-se. Ele e ela puseram-se à janela. Cada um na sua.
«Início da novela» comentaram os vizinhos.
Para se alcançarem foram para a rua. Sentados num banco do jardim, aproximaram-se, por fim. Segredou-lhe ele:
― Gosto de ti desde que te vi.
Ela sorriu. Fugiram-lhe as palavras pela rua fora.
Abraçaram-se. Na rua tudo parou, exceto o pintor.
O solitário banco fora escolhido pelo amor grandioso. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Andrea Ramos, 40 anos, Torres Vedras

A doce avozinha, quando soube que seria abençoada com uma netinha, começou a tricotar umas pantufas cor-de-rosa.
Aquando o seu nascimento, a avó acolheu-a nos braços, abrigou ternamente seus pés, concedendo-lhe todo o amor de seu coração.
As pantufas ficaram perfeitas nos pezinhos de Catarina, espelhando o afecto da avó. Foram quase felizes num sempre muito pequeno.
Contudo, os pés cresceram... hoje, as pantufas repousam numa velha arca no sótão, com inúmeras memórias da infância da netinha.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 79

Como andámos com a cabeça às voltas no último desafio, hoje será mais simples...

Contem-me uma história que acabe assim (pode não ser a última frase):
Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.


Deixo-vos a minha:
Que ideia genial. O ninho no alto da chaminé da padaria proporcionar-lhes-ia quentinho de madrugada, ideal para chocar ovos e aconchegar sonhos. Eram um casal de cegonhas friorento, esqueci-me de dizer…
A vida parecia encaminhada, mas afinal não. A chaminé desfazia-se com a chuva e o vento, ameaçando ruir. O casal partiu então para a torre da igreja. Mas aquele sino, ui!, aquele sino… Foram quase felizes, num sempre muito pequeno. Pudera! Com aquele sino, ninguém aguentava!
Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa
Desafio nº 79 – quase felizes, num sempre
EXEMPLOS
OUVIR

28 novembro 2014

Programa Rádio Sim 396 – 28 Novembro 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim


O trânsito parecia decidir por mim: não iria chegar a tempo. Ainda pensei: “odeio os semáforos!”, seria verdade? Não só não pretendia encontrar-te, como teria detestado despedir-me de ti. Fora uma relação breve, estranha. Não chegara a ser nada. Quando o verde apareceu, acelerei. O coração também. Uma vertigem levou-me para a tua rua. Vi-te, parado no semáforo que se pôs verde para te permitir saíres da minha vida. “Odeio os semáforos”, repeti, desta vez a sério.

Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 15 – com frase retirada de um livro

Discussões

Vamos hoje ao cinema Luís? – perguntou Inês ao namorado.
– Não, hoje não me apetece, e o filme também não me interessa nada, é um filme muito choradinho. E sabes muito bem que não é o meu género!
– Pensei que gostavas muito de mim, mas afinal não gostas. Pois não és capaz de fazer um sacrifício por mim!
– Gosto, sim – disse o Luís –, gosto até muito!
 Se gostasses ias comigo! Vou então sozinha!!
Partiram em direcções opostas.

São Sebastião, 68 anos, Glória, Estremoz
Desafio nº 11 – diálogo com frase final imposta: Partiram então em direções opostas.


Medos

Meto-me no carro e arranco rumo à escola. Piso o acelerador. Tenho pressa de chegar.
Entro na sala, pouso a mala, e lá estão bem ao fundo aqueles olhos castanhos
que fazem acelerar as batidas do meu coração.
Não sei como isto começou mas acredito que também eu lhe não sou indiferente.
Faço tudo para nunca ficarmos sozinhos. Tenho tanto medo!
Se alguém sabe disto!
Que espera uma mulher de 41 anos de um rapazinho de 14?

Milena Falcato, 810 anos, Estremoz, Academia Sénior, prof Zuzu Baleiro
Desafio nº 14história onde entram duas personagens de idades 14 e 41


Domingo

Helena morava em Almada. Naquela manhã de Domingo, foi andar na rua que havia em redor do jardim da moradia onde morava.
No meio do jardim havia um grande lago. Nele havia um nenúfar em flor e uma rã. Helena deu-lhe uma migalha de bolo, que levava na algibeira.
Quando olhou o relógio viu que devia ir embora. A mãe ia a uma reunião no lar onde a avó Joaquina vivia logo que o avô Jaime morrera.

São Sebastião, 68 anos, Glória Estremoz

Desafio nº 78 – escrever sem C P S T

Sou um bule rachado, sou...

Sou um bule com flores cor-de-rosa, tenho um bico longo, fui uma peça elegante, pertença da minha avó. Ninguém me queria por ser velho, o bico estava partido e as chávenas também já não existiam. Não ligava com coisa alguma da casa e fui arrumado a um canto. Isto faz-me lembrar os idosos sozinhos, que também não têm lugar e são arrumados a um canto  sem qualquer utilidade. Ninguém aproveita a sua sabedoria valiosa e muito útil.

Eglantina, 72 anos, Estremoz

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

Natal

O Natal aproxima-se; todas as pessoas andam muito ansiosas para que chegue esse dia. Especialmente as crianças. O Miguel gostava muito que lhe oferecessem um livro sobre os dinossauros. Então resolveu portar-se muito bem para assim ter possibilidade de receber o presente que muito ambicionava.
Já o seu irmão Ricardo, o que muito gostava de receber era um carro telecomandado.
Os dias iam passando e eles andavam muito ansiosos, desejando que o dia de Natal chegasse depressa. 

São Sebastião, 68 anos, Glória Estremoz

Desafio nº 12 – uma palavra que aparece meia-dúzia de vezes, pelo menos

Ele que se cuide

Pequeno almoço tomado à pressa, menos de meia hora  por caminhos sabidos de cor e eis-me à porta da escola pronta para iniciar mais um ano lectivo.
Nervosa, mas numa esperança louca num bom relacionamento com a nova turma.
Mas, e se o António do sétimo B tivesse voltado?  Ele que me fez a vida negra o ano passado!?
Tenho 41 anos e não vou ter medo dum catraio mal educado de 14!
Ele que se cuide!

Milena Falcato, 81 anos, Estremoz, Academia Sénior, prof Zuzu Baleiro

Desafio nº 14história onde entram duas personagens de idades 14 e 41

Miúdos

Os miúdos foram brincar para o jardim. O pai não os proibira de andar no baloiço, mas os miúdos acharam o baloiço maçador.
Foram jogar à bola com outros miúdos da sua rua. Quando acabaram o jogo da bola jogaram à apanhada; o António não gostava da apanhada, e foi jogar às cartas para casa do amigo Luís.
Quando acabaram o jogo, voltaram a jogar à bola. 
Quando o pai os chamou para almoçar, eles foram logo.

São Sebastião, 68 anos, Glória Estremoz
Desafio nº 9 – sem usar uma letra (U, R, S ou E) – história conhecida


O bule rachado

Sou um bule rachado, sou o ai jesus da minha dona. Sou escuro de loiça das Caldas, uma peça de Bordalo Pinheiro, sou antigo e estou rachado.
Mas tenho muito valor; a tampa está toda nicada, mas mesmo assim sou estimado. Tenho lugar de destaque na estante de antiguidades da minha dona que exibe muito vaidosa às amigas, pensando que é a única a ter uma peça tão bela na sua colecção de loiça antiga.
Estima-me bastante.

Eglantina, 72 anos, Estremoz

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

27 novembro 2014

Programa Rádio Sim 395 – 27 Novembro 2014

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Saudades
Palavras para quê?
A cada dia que passa, aumenta a saudade!
Dizem para seguir em frente.
Lembrar-me-ei da cumplicidade.
Palavras mudas, daquelas que marcam para a vida.
As tuas lágrimas de luta ensinaram-me a ser autêntica e perseverante.
As laçadas que deste espelham-se na linha da vida.
Amavas indiscriminadamente e sem pedir nada.
Partiste dignamente e deixaste a paz.
Sei que serás a minha luz… para sempre.
Uma linda estrelinha faz-me acreditar que estás ai.
Ilumina-me… Mãe.

Celeste Silva, 43 anos, Coimbra
Desafio nº 76 – escrever sem a letra O