31 março 2015

Programa Rádio Sim 479 – 31 Março 2015

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim


Palavras ilimitadas
Então tá.
Exercício é escrever com algumas limitações.
A escrita livre é fluidez do pensamento.
Inspiração é respiração.
Escrever é criar asas, alçar voos.
Flutuar no azul.
Azul piscina.
Escrever-sonhar.
Então tá.
Ilimitar o limitado.
No papel, enfeites, cores da alma...

Contar palavras,
Contar desejos,
Letras acalentar.
Então vamos escrever fatias, doses de poesia.
E fazer rimas dedicadas à alegria
Exercitando fantasias,
Que tal ser feliz todo dia?
Com 2, 3, 6 ou 7 palavras.
Pois que seja...

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil
Desafio nº 72 – frases de 2, 3 6 ou 7 palavras

Comandantes em liderança

Globalização tenta salvar Democracia realizando ponte entre Países.
Será democracia, armadilha ou variações do mal?
Arte de governar bem é prolongamento do rio da consciência política.
Competente, inovadora, criadora é política autônoma. Autônomo, num Estado internacionalizado?
Como fazer cada um à sua maneira, se o estado de sucesso é cabra cosmopolita?
Venha, o campo é bucólico. Só não pense que é fácil ganhar dinheiro.
Afinal, cabra não tem ambiente próprio, faz parte do mercado que pede mudanças.

Renata Diniz, 39 anos, Itaúna/Brasil
Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra


Na velha ponte

Combinamos encontro na velha ponte. Mais uma vez acreditei em ti, porque me perco sempre nas tuas palavras... Cheguei cedo demais para quem espera por uma ausência. O único som era a voz da água e a chuva que inundava a minha alma.
Foi então que vi a cabra. Percebi logo que estava perdida, sem rumo nem norte e revi-me nela, amargurada. Mas eu era livre para escolher o meu destino e parti num caminho sem volta!

Isabel Lopo, 69 anos, Alentejo

Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra

30 março 2015

Programa Rádio Sim 478 – 30 Março 2015

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Olhos
Hoje, apeteceu-me o carinho
dos teus olhos.
Apeteceu-me o toque
dos teus olhos no meu pescoço,
nos meus ombros.
Apeteceu-me ainda mais
a carícia dos teus olhos 
nos meus,
o veludo da tua íris
a passear assim,
um rasto 
aterrando suavemente
por mim acima,
perdido talvez 
nos sussurros das árvores,
recuando até aos deuses
que nos foram esquecendo,
na sua truculenta escapada.
Talvez hoje a brisa dos teus olhos,
o teu devoto cuidar
sejam memórias sentidas,
apenas.

Jaime A., 50 anos, Lisboa

Publicado aqui: http://soprodivino.blogspot.pt/2015/02/olhos.html#links

EXEMPLOS - desafio nº 87

A ponte
Uma ponte, dois extremos: Juca e a família.
Parece ter sido construída mostrando que poderiam transpor o rio, se aproximar.
Durante várias estações ela existiu, sendo apenas atravessada pela família, que o tentava chamar... Ele atravessava quando algo lhe faltava.
Certo dia, atravessou-a para dizer que, sem as menores condições, seria pai.
A família, como uma cabra, de cá pra lá, ajuda e víveres. Ele aproveitava-se do bom coração da família, que esperava a primavera com esperança!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Cabra!
Olhou as instruções uma última vez, antes de escalar o pilar da ponte e dar execução ao plano. Depois, ocultou-se no arvoredo, aguardando o momento de agir.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo, num misto de frio e excitação, quando a viu iniciar a travessia. Ansiava pelo momento de carregar no detonador e mandar tudo pelos ares. Nunca mais ali passaria. Mas ela parara a meio, impedindo-o de executar o plano.
«É mesmo uma cabra!», pensou.
Não esperou…
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Combinamos encontro na velha ponte. Mais uma vez acreditei em ti, porque me perco sempre nas tuas palavras... Cheguei cedo demais para quem espera por uma ausência. O único som era a voz da água e a chuva que inundava a minha alma.
Foi então que vi a cabra. Percebi logo que estava perdida, sem rumo nem norte e revi-me nela, amargurada. Mas eu era livre para escolher o meu destino e parti num caminho sem volta!
Isabel Lopo, 69 anos, Alentejo

Comandantes em liderança
Globalização tenta salvar Democracia realizando ponte entre Países.
Será democracia, armadilha ou variações do mal?
Arte de governar bem é prolongamento do rio da consciência política.
Competente, inovadora, criadora é política autônoma. Autônomo, num Estado internacionalizado?
Como fazer cada um à sua maneira, se o estado de sucesso é cabra cosmopolita?
Venha, o campo é bucólico. Só não pense que é fácil ganhar dinheiro.
Afinal, cabra não tem ambiente próprio, faz parte do mercado que pede mudanças.
Renata Diniz, 39 anos, Itaúna/Brasil

Estava confusa como uma cabra perdida no meio da ponte. Não conseguira separar as águas do rio que, tumultuoso, escorria a seus pés as amarguras da vida! Nunca soubera voltar as costas a uma vida que, aparentemente fácil, não lhe sorrira. Sentia-se cansada, frustrada nos seus anseios! Ao menos a ponte estava ali firme, suportando as intempéries e o rio… o seu rio, como alcançá-lo? Ergueu-se, sorriu e pensou que estava na hora de retornar à outra margem. 
Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins - Algueirão

Cabra fiel
Sentava-se na beira da ponte a ver as águas revoltas, a falta de cores na tonalidade cinzenta dos dias de inverno. O vento cortante, por vezes, salpicava água gelada no rosto, fazendo-o acordar para a crueldade da vida. O inverno ao redor estendia-se pelo seu corpo de pastor e aninhava-se no coração de homem. O inverno da vida era a estação mais íntima de um homem, a mais triste, não fora a cabra a mais fiel companheira.
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Esperava-o um belo sorriso 
Pastoreava o seu rebanho de cabras, ao longo da margem do rio, quando a vislumbrou, na margem oposta, a passear a cachorrinha. Um dia, decidiu atravessar a ponte para lhe ir dizer olá. No meio estancou, ‘Vou! Não vou’! O seu pensamento saltitava entre as duas opções, mais rápido do que a sua cabra preferida a saltar de pedra em pedra. ‘Amanhã atravesso’, e regressava frustrado à outra margem.
Afoito atravessou e… surpresa! Esperava-o um belo sorriso.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Coimbra

Maria
A escolha parecia simples. Ir ou ficar.
Do lado de lá da ponte (Romana, de tão antiga) já não havia Inverno. Só Futuro.
Do lado de lá, a confiança era genuína e a esperança era mesmo a última a morrer.
Ainda assim, faltava Passado.
Maria hesitava.
De repente, começar de novo, em branco, já não era tão sedutor. Se algum Passado entorpece, outro reconforta e preenche.
Sem Passado somos apenas Presente. Frio. Oco. Vazio.
Maria não foi.
Nuno Longle, 40 anos, Odivelas

"A relva é mais verde do outro lado."
Terá pensado a cabra e deixou o aprisco quentinho. 
Em plena ponte romana, um bode velho, a quem também apetecera uma folha tenra, obstruiu o caminho. Infelizmente, não havia outra maneira para atravessar aquele rio turbulento. 
Ora, desistir da verdura e escolher a maternidade, nem pensar disso. Afinal é ela, dona do seu próprio corpo, não é?
Com um ardil conseguiu passá-lo, e gulosamente se despachou para o pasto.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia Bélgica

O conformado
Nos tempos em que se erguia a espada, em que o escudo era outro
em que a guerra era fria, como um barco sem porto.
Tudo o que queria era uma bela fragata.
Mas nem todo o rio tem cascata.
Contento-me com o que tenho, consequências de vida macabra!
Não tenho melhor amigo, pois uma cabra não ladra…
Nesta margem sinto-me só, não me afronto!
Vejo uma ponte, mas não confronto.
Sinto-me bem, não preciso de mais...
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

Vera
Isménia era a única cabra naquele rebanho e Zé, seu pastor, sempre personificou o seu comportamento. Naquele dia o facto de Isménia travar em cima da ponte, era sinal que ele devia aguentar a tormenta que bombardeava a sua vida da mesma forma que Isménia, passivamente, se deixava ficar sob a chuva.
A corrente forte do rio provava que, muitas vezes, só se obtém um abundante caudal de felicidade e superação na vida quando aceitamos os obstáculos.
Vera Viegas, 31 anos, Penela da Beira

Lição
Apesar da invernia, o rebanho trespassava o verde prado que, de permeio, exibia vetusta ponte romana, sobre o rio caudaloso.
Os animais eram mansos, obedientes. O pastor, cordato. Mau grado, uma cabra havia que, de arredia, não acompanhava a irmandade
Certa vez, foi directa à ponte. Estacou a meio. O rebanho ia longe...
Assustada, golpeou o ar no rasto do balir do gado. Experimentou então o consolo dos aflitos, e a ponte não voltou mais a seduzi-la.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

“Louca” por ti
Faz frio aqui, estou no extremo norte do Brasil, onde passa a linha do Equador e impera o calor. Não, você não entendeu. Faz frio em mim. E o meu Rio (Amazonas)? Esse é um marco que determina a distância em águas, entre nós. E águas absolutamente revoltas, que transbordam exatamente como a saudade, tua falta. Sem pontes, apenas meu pensar segue rumo a ti. E o coração? Salta, saltita... Cabra tonta ou cega por teu amor?
Roseane Ferreira, Macapá, Estado de Amapá, Brasil

Sentimentos
Formam um rio que canta
As lágrimas que por ti chorei
Assim como as noites perdidas
São tantas que já nem sei

Vivi à tua espera
Numa espera sem fim
Construindo vez após vez uma ponte
Desejando que voltasses para mim

Mas tu de mim fugiste
Para nunca mais voltar
Deixaste-me só e perdida
Com medo de amar

Como cabra doida e tresmalhada
Corro por entre mandrigais 
Jurando por tudo neste mundo
Que amar não quero mais
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Tarde de inverno. O rio corre apressado empurrado por um vento desnorteado. A velha ponte romana aguenta firmemente a intempérie e o rebanho que a atravessa para a outra margem, à procura dum lugar abrigado.
Distraído, o pastor não se apercebe do que está a acontecer e acelera o passo. O rebanho segue-o, submisso. Mas, falta-lhe uma cabra, ele volta atrás. Encontra-a numa luta titânica com a dor e a urgência do cabritinho que teima nascer ali.
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Amor
Era dia do casamento. A noiva estava hesitante. Sentia-se como cabra tresmalhada, no meio da ponte, sem saber o rumo. O noivo esperava-a. Mas o coração ordenava-lhe que se atirasse aos braços do Rafael. Conhecera-o há uma semana, mas que amor!... Porém, isto era como atravessar um rio tumultuoso…
Foi à igreja. Mas acabou por fugir, feita louca.
Partiu no veleiro do Rafael. Passaram a ponte, desceram o rio, alcançaram o oceano.
Começou então a grande aventura!
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Queria ir ao bailarico
Queria ir ao bailarico
Mas meu pai não me deixava,
Estava em cima da ponte
Como a cabra tresmalhada!

Queria ir ao bailarico
E o que havia de fazer?...
Tinha qu´enfrentar um rio
Sempre em fúria e a crescer!

Queria ir ao bailarico,
Mas vencer era um pavor…
Era como ir à conquista
E enfrentar o Adamastor!

Queria ir ao bailarico…
E o rio? Oh que maçada!...
Tinha que saltar da ponte
Como a cabra tresmalhada!
Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante

Amigos para sempre
Ouviu-se um estrondo e a cabra parou hesitante, no meio da ponte velha que desabou. Foi atirada ao rio e arrastada pela corrente. Estava quase a afogar-se, quando um tronco montado por um rato passou por ela. O rato gritou:
– Agarra-te!
E assim se salvou.
Quando a corrente abrandou saltaram para a margem e alcançaram terra firme. Agradecida a cabra disse:
– Monta-me rato e vem comigo para a terra dos impossíveis.
Ele aceitou e tornaram-se amigos inseparáveis.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa

Adormecido, o inverno fazia-se agora mais brando. A meio da ponte, a neve já começara a derreter somando água à corrente forte do rio. O sol a pico desnudava-a, mostrando cada pedra que compunha os seus admirados arcos. Nascera e sentia-se Romana. Encurtava distâncias, unia as margens, ouvia segredos, promessas, juras de amor, corridas de ladrões. E tudo fluía…Tudo, não! Que fazia aquela estúpida cabra parada, no seu dorso, hesitante entre o cá e o lá?
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

De arco em arco
Ponte de pedra. Antiga, robusta, silenciosa. Arcos em semicírculo, formando circunferências perfeitas ao casarem com o rio.
Rapariga de vida. Murmúrios de pássaro do bosque, saltos de cabra dos montes.
Caminhando no segundo arco, decidiu: Mãe, vou-me! Quero mudar de vida!
Sim, precisas de te encontrar. Um ano, e estás de volta. Manipulação de mãe? Sim, e perigosa que é…
Caminhando no terceiro arco, pensou: Não! Preciso de me construir.
E atravessou a ponte, num só sentido.
Fernanda Elisabete Silva Gomes, 59 anos, Vila Franca de Xira

Pastorisa cresceu. Não mais é cabrinha, mas sim uma bela e confiante cabra adulta, com os seus próprios cabritinhos. O inverno chegou veemente naquele ano. Mas nem o frio impedia Pastorisa de dar os seus passeios em família por aqueles, por ela tão bem conhecidos, campos, agora cobertos de límpida neve. Certo dia uma das suas pequenas crias afastou-se do grupo, acabando por se perder. Pastorisa encontrou-a sob uma ponte, temerosa observando o rio que ferozmente corria.
Liliana Macedo, 16 anos, Ovar

Palavra e ação
No tempo em que animais falavam, ia uma pequena cabra em um rebanho quando chegaram às margens do rio e viram um pasto verdinho do outro lado. Olhando a tempestade, que se aproximava, disse a cabrita:
– Passemos, rápido!
Mas reuniram o conselho. Então, em rápidos saltos, ela chegou ao centro da ponte romana que ligava as duas margens, olhou para trás e ainda contemplou as companheiras discutindo. Concluiu a travessia antes que a torrente submergisse a ponte.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil –

Já se pôs o sol, o dia é chegado ao fim,
e eu farta de correr, saltar penhascos
à procura daquela CABRA que não sei onde se meteu.
Eu só espero que não tenha passado aquela velha PONTE,
não sei se aguentaria.
Eu é que não passo de certeza, não estou com vontade 
de acabar no RIO.
Raio de vida a minha, não podia ter escolhido
outra profissão? Quem me manda a mim
só saber guardar cabras.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Um dia, sonhei que estava nos Alpes, deitado na relva verde e fresca da Suíça. Levantei-me e comecei a subir a montanha mais próxima, tendo como objetivo chegar aos prados esplendorosos no topo.
No caminho, encontrei uma cabra pequena, que me seguiu na caminhada. Não demorou muito e encontrei um rio, atravessado por uma pequena ponte, que dava acesso ao outro lado da colina. Continuei a subida, cheguei ao topo e, antes de ver alguma coisa, acordei.
Duarte Gouveia Bento, 13 anos, Montijo

O inverno dos sentidos tinha chegado repentinamente, impetuoso. Na cama do hospital, José cogitava o seu passado. Sonhava com aquela que fora a paixão da sua vida e abraçava-a no pensamento. Gemia de saudade. A velha ponte já não ligava os dois corações, caíra devido à forte corrente do rio que escorria do rosto de José. 
Restavam-lhe alguns dias de vida. A solidão toldava-lhe a memória mas nem assim esquecia que apelidara a doença de cabra malvada.
Andrea Ramos, 40 anos, Torres Vedras

Hoje sonhei que, numa manhã invernal, estava uma cabra hesitante a meio de uma ponte romana, que atravessava um rio de corrente poderosa.
Meditei sobre este sonho estranho.
Senti-me como a cabra, receando o amor.
As margens representavam o meu coração, ávido por paixão e o cérebro calculista evitando o sofrimento.
Tu eras o rio que já tinha inundado apaixonadamente a minha alma.
Para que necessito eu da ponte? Apenas tenho que mergulhar nas tuas águas cristalinas.

Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Cabra!

Olhou as instruções uma última vez, antes de escalar o pilar da ponte e dar execução ao plano. Depois, ocultou-se no arvoredo, aguardando o momento de agir.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo, num misto de frio e excitação, quando a viu iniciar a travessia. Ansiava pelo momento de carregar no detonador e mandar tudo pelos ares. Nunca mais ali passaria. Mas ela parara a meio, impedindo-o de executar o plano.
«É mesmo uma cabra!», pensou.
Não esperou…

Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra

A ponte

Uma ponte, dois extremos: Juca e a família.
Parece ter sido construída mostrando que poderiam transpor o rio, se aproximar.
Durante várias estações ela existiu, sendo apenas atravessada pela família, que o tentava chamar... Ele atravessava quando algo lhe faltava.
Certo dia, atravessou-a para dizer que, sem as menores condições, seria pai.
A família, como uma cabra, de cá pra lá, ajuda e víveres. Ele aproveitava-se do bom coração da família, que esperava a primavera com esperança!

Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra

O ardina

Chico ardina, famoso, dá brados, grita:
– Notícias! Olh’ó notícias! Boas… notícias novas!
Na calçada da lota rivaliza com o brado da varina:
– Olh’á sardinha “biba”.
Rua acima larga os jornais na porta da tabacaria. Compra a raspadinha, fica rico, alcança a fama.
Audaz, apanha o comboio. Vai partir.
Viaja. Olha o mundo nos matutinos.
A sacola vazia acompanha-o nos sonhos, na vida.
Acorda do sonho, o jornal guarda ainda o grito do último ardina da Lisboa gaiata.

Alda Gonçalves, 47 anos, Porto
Desafio nº 86 – Chico ardina sem E


Desafio nº 87

Desafio nº 87 – dia 30 de Março

Dou-vos hoje uma situação:

Inverno, um rio de corrente forte e uma ponte romana a ligar as margens. 
A meio da ponte, uma cabra pára, hesitante.

Que história é esta?
Nota: a imagem pode ser considerada como metáfora, assim como cabra

A minha saiu assim:
A ponte, posta para ligar a tua margem à minha, existe mesmo, ou apenas apregoas que sim para esconder a culpa pelo inverno em que me deixaste? No momento em que soltaste esse rio de dúvidas, inundaste a minha serenidade de loucura. Quem sou, afinal? Talvez uma cabra tresmalhada, habituada a engolir tudo, apenas pensando depois, já sem hipótese de retorno, engasgada pela hesitação. Passo então para o meu lado onde, a sós, talvez recupere quem sou.
Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa
Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra
EXEMPLOS
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27 março 2015

Programa Rádio Sim 477 – 27 Março 2015

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Churrasco no Acampamento
QUINTA – EQUIPA – VERMELHA – MERCEARIA – CHURRASCARIA

A equipa de futebol da minha escola vai acampar numa quinta perto de Lisboa. Quem me dera estar lá. Ouvi dizer que iam fazer churrasco… Mmm…  Iam ter um atelier de cozinha, para ensinar que “o churrasco está no ponto quando a carne fica vermelha”. Mas, esqueceram-se de comprar a carne! Eu queria ser super-heroína, fui a correr até à mercearia e comprei a carne.
Fui eleita capitã de equipa por unanimidade, e… quase que abri uma churrascaria

Maria Leonor Moura, 11 anos, Santa Maria da Feira
Desafio nº 84 – sílabas de QUINQUILHARIA

26 março 2015

Programa Rádio Sim 476 – 26 Março 2015

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Frágil
Não me aches frágil quando choro 
É o amor que transborda pelos meus olhos 
Não me aches frágil quando me isolo 
É nessas alturas que alguém está comigo em pensamento 
Não me aches frágil quando os meus olhos denunciam a mentira do meu sorriso 
É porque não sei mentir 
Não sou frágil, sou maior do que a simples existência pode comportar 
Um tudo ou nada maior do que deveria ser 
Um tudo ou nada além de mim… 

Regina Quarenta, 44 anos, Lisboa
Mais história aqui: http://srotulo.blogspot.pt/ 

25 março 2015

História da minha sacola

Noutro dia, o Chico ardina dos jornais visitava a salina com a sua sacola (a qual não largava).
Olhava a água pura, a flor do sal, os pássaros.
Um puxão brusco assustou o coração, surripiando-a.
Anos a trabalhar, nacos jornalísticos, palavras cronicistas “voaram” da sua visão.
Mas, um rasgo luzidio abrilhantou o sumiço: construir com o agora vazio um livro titulado “história da minha sacola”, canonizado da litania paradigmática do passado laboral lapidado num futuro não mortal.

Ana Mafalda, 45 anos, Lisboa

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

Ladrão!

– Ladrão!
O antigo ardina vai rua abaixo a gritar: – Ladrão!
Coitado do Chico, vai a arfar…
Mas o miúdo com a sacola a tiracolo corria mais. Logo fugiu para o largo no qual a multidão o ocultou dos olhos do Chico.
Cansado da corrida forçada, o antigo ardina apoiou o corpo agitado no banco do jardim ficando a cogitar na vida passada toda contida na puída sacola surripiada. Sumida.
Assim o miúdo traquinas logrou dar às gâmbias. 

Raquel Sousa, 51 anos, Lisboa 

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

Programa Rádio Sim 475 – 25 Março 2015

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Titon e o pássaro
Era uma vez um pássaro que, há muito tempo, vivia enjaulado. A sua gaiola era extraordinariamente pequena.
Um dia, Titon, um menino muito sensível, sentiu a infelicidade do pássaro. Entristeceu-se, pois acreditava que ele desejaria voar, rasgar os céus sem limites.
Então, sentiu-se comovido, também ele prisioneiro de algo invisível, e pensou que aquela gaiola impedia a ave de sentir a liberdade.
Subitamente, o seu coração bateu com muita força. Titon abriu a gaiola. O pássaro voou... 

Luís Príncipe, 12 anos, Escola Básica de Arrifana, prof. Ana Paula Oliveira

A História de Chico e Bolinha

Chico o ardina antiquado, andava cansado. 
TÃO sofrido, muito só, vivia amolado.
Tinha sua sacola como amiga.
Os amigos logo indagavam
o motivo por tanto
cuidado
Um dia, o horror..
Chico fica transtornado, abatido, tonto,
Sua famosa sacola fora subtraída.
Tudo agora mudara, finalizara, tudo acabara...
O cuidado nada nada tinha adiantado.
Chico sofria aniquilado, o coração amargurado.
A sacola sumida? Como faria? 
Abrigava Bolinha, formosa cachorrinha.
Por Chico paparicada, toda cuidada...
Qual o glorioso final, Afinal?

Verena Niederberger, 64 anos, Rio de Janeiro, Brasil
Publicado aqui: http://meusanjosadorados.blogspot.com.br/2015/03/anjos-historia-de-chico-e-bolinha.html

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

Porfia

Gingão, castiço, disfarçado nas calças apalhaçadas, Chico, Chicão para alguns camaradas, vivia numa cómoda posição...a do único ardina do Bairro das Margaridas.  Usava ou abusava do cargo, a outros não admitindo poiso. Na altura tardia da vida ainda fazia alguns ganchos.
A sacola dos jornais foi parar a mãos maldosas, não a tornando a vislumbrar. Foi muito mau.  Agastado, passou a dar às horas uma importância nostálgica, tornando o porvir num patamar a conquistar cada dia.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

24 março 2015

Programa Rádio Sim 474 – 24 Março 2015

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Outra Receita
Consegui facilmente escrever uma receita completa de um bolo em 77 palavras com ingredientes e procedimentos. Claro que escolhi uma receita fácil. Se o desafio era ser exacta e sintética tinha conseguido. Depois fiquei a pensar na falta de criatividade do texto, mas consolei-me com a ideia de que a criatividade das receitas está na sua criação e não na sua transcrição. Portanto a minha receita para cozinhar é improvisar e a receita para escrever é sintetizar.

Raquel Sousa, 50 anos, Lisboa
Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

Um curto minuto

Tinha tudo guardado na sacola transportada a tiracolo.
No passado, dali saíram jornais. Distribuídos, um a um, todos os dias, sol ou chuva, dali saíram notícias (boas, más, assim-assim).
Mas, ali ocultava algo: páginas cortadas, muitas fotos, cartas nunca mandadas. A atriz, amada toda a vida, com todo o sigilo, vivia na sua sacola.
Bastou um curto minuto. Tantos anos guardados agora roubados. Chico, o antigo ardina já inativo, viu toda a sua vida arruinada, vandalizada, sumida.

Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

23 março 2015

Programa Rádio Sim 473 – 23 Março 2015

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Quinta-feira
Quinta-feira + alquinar + quadrilha + Portinari + cervicalgia

Quinta-feira é dia de alegria para quem cansou de ser sisudo, ainda que tenha vindo de uma família alemã.
Em nome de um sonho, se pode até alquinar, vislumbrar cenas misteriosas e se abraçar. 
No circo, o palhaço dança quadrilha, faz graça e até mesmo a pessoa mais ajuizada não fica de cara fechada. 
A plateia dá risada, fica relaxada e comenta a importância de Cândido Portinari
Eles se abraçam carinhosamente e com muito alívio da cervicalgia.

Renata Diniz, 38 anos, Itaúna/Brasil
Desafio nº 84 – sílabas de QUINQUILHARIA

Ardina

Para abarcar a angústia na alma do Chico, só ouvindo a sua história. Ardina, por uns bons longos anos, distribuíra notícias boas ou más, com a ajuda da já gasta sacola. Quando abandonara o trabalho, não por opção, mas por cansaço, a sacola acompanhou-o, lavrando a biografia.
Agora, caído na calçada, maldiz o ladrão. Roubara não um comum pano, mas um bocado da história da sua vida, do dia-a-dia andarilhando nas ruas, do amor por uma profissão.

Quita Miguel, 55 anos, Cascais
Mais histórias aqui: http://quitamiguel.blogspot.pt/

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

21 março 2015

Maria...

Chico passava horas cismando na sua antiga vida. Nas ruas do bairro, viajara mundo fora...Lá, tinha amigos, vizinhos, já não falando duma apaixonada platónica! Maria vivia por cima da sua casa, mas Chico ignorava-a.
Só uma coisa o amargurava: o roubo da sua sacola. Ali continha histórias fantásticas, agora só guardadas no coração, como sonhos do passado.
Chico não sabia, mas Maria lia todos os dias bocados da sua vida, tirados do fundo da sacola roubada...

Isabel Lopo, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

Saudade

Meu amor nasceu da nossa amizade e tinha a certeza que tu sentias o mesmo.
Fiz planos para o futuro e imaginava nosso casamento na igreja Matriz. 
Mas num dia de Dezembro partiste com teu amigo Queiroz, tu querias ser Juiz mas eu não sabia que queria fazer futuramente.
Não sei se alguma vez me amaste mas por uns meses fui feliz.
Não quero fazer juízos, indagar os porquês.
Simplesmente espero sozinha mergulhada numa tristeza sem fim

Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

Desafio RS nº 22 – todas as frases com 2 Zs

Sacola roubada...

Chico havia sido um ardina trabalhador. Com a sacola ao ombro abarrotada com os jornais da manhã cruzava o Chiado, o Rossio, o Martim Moniz, a Baixa! A sua simpatia cativava todos. Muitos amigos havia adquirido.
Mas a sacola, havia lá coisa mais linda! A sua maior jóia. Tantos anos palmilhando juntos, ruas, praças. Não a largava!
Um dia jogando às cartas no banco do jardim com os amigos foi assaltado. A sacola voara. Com amargura chorou-a.

Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins, Algueirão

Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

20 março 2015

Programa Rádio Sim 472 – 20 Março 2015

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Música desafinada
A antevisão do encontro é música que anima os meus sonhos e os dias, mas o teu silêncio é um ruído que martela, martela no meu pensamento.
Cada hora transforma-se em semanas e estas alongam-se em meses, que transbordam em anos.
A caminhada de tão longa perde o encanto, pois as dores são demasiadas, ainda que breves e fugazes momentos anestesiem mágoas, saudades. Nem tudo o tempo cura. Prolongá-lo em ausência e silêncio agiganta dores. Música desafinada.

Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Ovar
Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio


Chico e o amor

Chico, ao lado da vala, soluçava baixinho.
Andarilhos por ali o viam, ouviam os soluços sofridos. Inconsolado!
– Qual a causa da tua dor?
– Uma profunda dor, falta o amor!
– Como assim?
– Minha antiga sacola foi roubada!
– AH! Choras assim por uma coisa tão banal?
– Ainda banal, tinha vida! Pouco da minha vida continha!
Ali  cartas da minha Maria,  paixão por trinta anos juntos, mais oito só namorando! São tantos!
O chorou voltou a atacar, coitado do Chico!

Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 
Desafio nº 86 – Chico ardina sem E

EXEMPLOS - desafio nº 86

Para não cair a tradição
Chico modificava a vida árdua com trabalho.
Oficiava nas madrugadas, ganhando alcunha famosa: o trabalhador.
O garoto Chico não imaginava as mudanças vindouras.
Passou numa rua vazia para não cair a tradição.
Coisa doida: caminhar, divagar, andar por magias oriundas da caixa acima dos ombros. 
Poucas cucas, muito poucas, intimidavam a procissão.
Não adiantou, a sacola foi surripiada, roubada; não com dó. 
Sacola crua para o gatuno, mas valiosa para a formação cultural do rapaz, maluquinho ardina.
Renata Diniz, 39 anos - Itaúna/Brasil

Chico, ao lado da vala, soluçava baixinho.
Andarilhos por ali o viam, ouviam os soluços sofridos. Inconsolado!
– Qual a causa da tua dor?
– Uma profunda dor, falta o amor!
– Como assim?
– Minha antiga sacola foi roubada!
– AH! Choras assim por uma coisa tão banal?
– Ainda banal, tinha vida! Pouco da minha vida continha!
Ali cartas da minha Maria, paixão por trinta anos juntos, mais oito só namorando! São tantos!
O chorou voltou a atacar, coitado do Chico!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Chico havia sido um ardina trabalhador. Com a sacola ao ombro abarrotada com os jornais da manhã cruzava o Chiado, o Rossio, o Martim Moniz, a Baixa! A sua simpatia cativava todos. Muitos amigos havia adquirido.
Mas a sacola, havia lá coisa mais linda! A sua maior jóia. Tantos anos palmilhando juntos, ruas, praças. Não a largava!
Um dia jogando às cartas no banco do jardim com os amigos foi assaltado. A sacola voara. Com amargura chorou-a.
Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins, Algueirão

O ardina idoso dormiu um sono solto na sua varanda. Coitado, Chico não acordara quando a sua sacola foi pilhada por um corvo.
Ora, o malandro alado arriscava muito para só furtar da bolsa um nada.
Num ai, Chico acordou assustado.
Ah! O larápio fugiu voando com algo no bico, mas, foi atingido por um calhau. Uma folha turbilhonava no ar. Oxalá, o ardina salvava a sua fotografia na companhia da afamada fadista Amália, comprando um jornal.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia, Bélgica

Chico passava horas cismando na sua antiga vida. Nas ruas do bairro, viajara mundo fora...Lá, tinha amigos, vizinhos, já não falando duma apaixonada platónica! Maria vivia por cima da sua casa, mas Chico ignorava-a.
Só uma coisa o amargurava: o roubo da sua sacola. Ali continha histórias fantásticas, agora só guardadas no coração, como sonhos do passado.
Chico não sabia, mas Maria lia todos os dias bocados da sua vida, tirados do fundo da sacola roubada...
Isabel Lopo, 69 anos, Lisboa

Ardina
Para abarcar a angústia na alma do Chico, só ouvindo a sua história. Ardina, por uns bons longos anos, distribuíra notícias boas ou más, com a ajuda da já gasta sacola. Quando abandonara o trabalho, não por opção, mas por cansaço, a sacola acompanhou-o, lavrando a biografia.
Agora, caído na calçada, maldiz o ladrão. Roubara não um comum pano, mas um bocado da história da sua vida, do dia-a-dia andarilhando nas ruas, do amor por uma profissão.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Tinha tudo guardado na sacola transportada a tiracolo.
No passado, dali saíram jornais. Distribuídos, um a um, todos os dias, sol ou chuva, dali saíram notícias (boas, más, assim-assim).
Mas, ali ocultava algo: páginas cortadas, muitas fotos, cartas nunca mandadas. A atriz, amada toda a vida, com todo o sigilo, vivia na sua sacola.
Bastou um curto minuto. Tantos anos guardados agora roubados. Chico, o antigo ardina já inativo, viu toda a sua vida arruinada, vandalizada, sumida.
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Porfia
Gingão, castiço, disfarçado nas calças apalhaçadas, Chico, Chicão para alguns camaradas, vivia numa cómoda posição...a do único ardina do Bairro das Margaridas. Usava ou abusava do cargo, a outros não admitindo poiso. Na altura tardia da vida ainda fazia alguns ganchos.
A sacola dos jornais foi parar a mãos maldosas, não a tornando a vislumbrar. Foi muito mau. Agastado, passou a dar às horas uma importância nostálgica, tornando o porvir num patamar a conquistar cada dia.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

A História de Chico e Bolinha
Chico o ardina antiquado, andava cansado. 
TÃO sofrido, muito só, vivia amolado.
Tinha sua sacola como amiga.
Os amigos logo indagavam
o motivo por tanto
cuidado
Um dia, o horror..
Chico fica transtornado, abatido, tonto,
Sua famosa sacola fora subtraída.
Tudo agora mudara, finalizara, tudo acabara...
O cuidado nada nada tinha adiantado.
Chico sofria aniquilado, o coração amargurado.
A sacola sumida? Como faria? 
Abrigava Bolinha, formosa cachorrinha.
Por Chico paparicada, toda cuidada...
Qual o glorioso final, Afinal?
Verena Niederberger, 64 anos, Rio de Janeiro, Brasil

– Ladrão!
O antigo ardina vai rua abaixo a gritar: – Ladrão!
Coitado do Chico, vai a arfar…
Mas o miúdo com a sacola a tiracolo corria mais. Logo fugiu para o largo no qual a multidão o ocultou dos olhos do Chico.
Cansado da corrida forçada, o antigo ardina apoiou o corpo agitado no banco do jardim ficando a cogitar na vida passada toda contida na puída sacola surripiada. Sumida.
Assim o miúdo traquinas logrou dar às gâmbias. 
Raquel Sousa, 51 anos, Lisboa 

Noutro dia, o Chico ardina dos jornais visitava a salina com a sua sacola (a qual não largava).
Olhava a água pura, a flor do sal, os pássaros.
Um puxão brusco assustou o coração, surripiando-a.
Anos a trabalhar, nacos jornalísticos, palavras cronicistas “voaram” da sua visão.
Mas, um rasgo luzidio abrilhantou o sumiço: construir com o agora vazio um livro titulado “história da minha sacola”, canonizado da litania paradigmática do passado laboral lapidado num futuro não mortal.
Ana Mafalda, 45 anos, Lisboa

Num banco do jardim, Chico ardina gozava o sol na companhia animada da Rosa florista. Do nada passa um larápio facínora para roubar a sua sacola, arrumadinha ao lado da bolsa da Rosa.
– A minha sacola! – gritou. Inconformado, salta do lugar numa caçada agalopada.
Rosa não alcançava o ganho numa sacola apinhada com jornais antigos ou a razão da aflição do Chico.
Ao virar, cruzando a rua, acha, no chão, como o próprio coração, a sacola maltratada!
Deolinda Freitas, 41 anos, Chaves

O Ardina
Chico ardina, famoso, dá brados, grita:
– Notícias! Olh’ó notícias! Boas… notícias novas!
Na calçada da lota rivaliza com o brado da varina:
– Olh’á sardinha “biba”.
Rua acima larga os jornais na porta da tabacaria. Compra a raspadinha, fica rico, alcança a fama.
Audaz, apanha o comboio. Vai partir.
Viaja. Olha o mundo nos matutinos.
A sacola vazia acompanha-o nos sonhos, na vida.
Acorda do sonho, o jornal guarda ainda o grito do último ardina da Lisboa gaiata.
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Roubou a sacola, não a ti
“Ora, ora, roubado na hora com mais calma no trânsito!” A sacola com todas as suas tralhas privadas roubada! O Chico ardina incomodado barafustava, falava sozinho, mas alto, irritado. Afinal, fora rápida, muito rápida, a aproximação do tipo, com ar pacífico. “Olá”, um puxão, zás! Sumiu. Chico, com tanta atrapalhação, atarantado, na confusão, gritar não gritou. Ai! Ainda não atinava com aquilo. Assumir a situação aturdia-o. A amada a sorrir, animou-o: roubou a sacola, não a ti.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Coimbra

O jardim todo florido! Os bancos pintados com grafitado colorido. Chico, o mais famoso ardina da zona turística do Bairro, agora fora do activo, ia todos os dias ao jardim procurar a sua sacola, roubada há uns dias atrás. Angustiado… olhava, mas não via nada. Transportara a sacola largos anos, trazia muitas histórias para contar…! Rápido raciocinou… como achar a sua companhia diária tão antiga?! As histórias aproximavam-no, faltava pouco para a localizar.
Bastava olhar com rigor.
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

OLd memories
Chico, concluiu:
– A agulha rodou, a vida mudou, mas a fotografia do passado, ah, ficou ad infinitum...
Abriu o armário, catou a antiga caixa, pôs na cama. Tomado por viva nostalgia tocou com carinho a foto usando a sacola surrada.
– Como fora roubada?
Por pouco não chorou. Fora bom um tanto. Trabalho duro, sol a sol, construiu a vida, casa, carro, família, alçou outros voos. Acolá, achara o amor, único amor.
Guardou a fotografia.
A vida caminha.
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

A sacola
– Safados, roubaram-na! Quando os apanhar...
– Roubaram-na?!
– Sim, a minha sacola, dos jornais.
– A famosa sacola.
– Famosa ou não, graças à dita nunca nos faltou pão. Mas agora foi roubada.
– Tu e as tuas manias. 
– Manias?
– Sim manias. Mas há alguma alma cobiçando essa coisa horrorosa?
– Horrorosa, gasta, inútil… tudo isso mas muito minha.
– Não ta cobiço...
– Pois sim...
– Claro! Imagino as saídas com as minhas amigas de sacola a tiracolo.
– Goza!!! Vou à policia!
– Oh, santa paciência...
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

O amor do Chico
O Chico tinha sido ardina. Agora, idoso, só tinha a sacola dos jornais como ligação a tal vida. Um dia roubaram-lha.
Chorava todos os dias.
Coitado do Chico!
Mas uma manhã, viu a sacola à porta da sua casa.
Animado, tomou-a nas mãos, abriu-a.
Ao abri-la, ficou angustiado, amargurado!
Na sacola faltava uma carta do único amor da sua vida. Um amor não consumado… mas, a carta, junta com a sacola, formavam a razão da sua vida!
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Sacolas há muitas!
O olhar tinha ficado apagado, a boca figurou um triângulo, uma lágrima grossa caiu no rosto. Chico fora roubado. A sacola com antigas notícias da sua vila tinha sumido.
Nisto, um indivíduo, mostrando mau modo, passou do outro lado da rua com uma sacola igualzinha à sua. Num salto, agarrou-a por trás. Abriu-a, mas nada achou. Um disparado “tudo na boa” saiu da sua boca, rápido como sapatos na corrida. O indivíduo da sacola, nada articulou, paralisado.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Transtornado, chorava o Chico ardina
Roubaram a sua sacola
Do cotim, nada ficou
Da infância, tudo apagaram
Transportaram a sua vida
A música dos Pink Floyd
A pomba do John Travolta
O cravo nascido no abril
O baloiço da acácia do jardim
O caroço roído da fruta do quintal
A família vinda das colónias
O amigo imaginário
Toda a instrução primária
Tudo com sabor, odor, gosto, amor
Tudo da infância foi
Nada ficou da sua amada sacola...
Margarida de Jesus Seita Monge, 52 anos, Vila Verde de Ficalho

– Ladrão! Ladrão! – gritava o Chico, aflito.
Corria atarantado, rodopiando como louco. O polícia acudiu ao grito. Olhou-o, com pouca confiança. Maltrapilho, pronunciou para si. Inquiriu-o.
– Furtaram a sacola? Tinha jornais? Quantos?
– Não, não, não! Já não! Não trabalho no ativo!
– Só o saco?
– Mais, muito mais, toda a minha vida!
– Como assim? Um saco com uma vida?
– Fotos, caixinhas, cartolinas, postais …
O polícia procurava palavras para dialogar com o ardina, pois toda a situação soava a absurdo. 
Fátima Fradique, 40 anos, Fundão

Chico, outrora ardina, transportava para todo o lado uma sacola rasgada, mas com muitos sonhos. 
Um dia, olhando um sumptuoso faisão, foi assaltado. 
– Socooorro! A minha sacola... a minha vida! – gritava, com os braços no ar.
– Calma! Sacolas há muitas! – dizia um casal para apaziguá-lo.
Passados uns minutos, um polícia trazia a sacola vazia.
– A minha sacola! – sussurrava, com as lágrimas nos olhos.
Quando procurava, assarapantado, a foto do único amor, não a viu.
– Oh, passado desafortunado!
José António Batista, 40 anos, Chaves

A história do Chico continuava a cativar os vizinhos do bairro. Todos sabiam com minúcia cada passo do infortúnio do ardina. A sua sacola fora roubada por um vil rapazola havia muitos anos, mas ainda agora sofria na alma o abalo infinito causado por tal ato. Os jornais não foram a sua maior ruína, pior tinham sido os parágrafos apagados da sua biografia: um a um, os dias vividos na única profissão praticada por si haviam sumido.
Ana Paula Fernandes, 51 anos, Torres Vedras

Outrora, madrugada fora, Chico saía para o trabalho. Na longínqua vila do Marvão, montado na sua antiga Honda, voava com a sua sacola, distribuindo cartas à população, ávida por notícias. Os dias passaram. Agora, só a coçada sacola o acompanhava nos dias vazios…
– A sacola ou a vida! – gritou Zacaria.
– Paspalhão, vai assaltar noutro sítio! Aqui domina o Chico!
– Parvo do ancião… fica com a zona!
– Ufa! Idiota, caiu no logro. ​Assim ludibriámos os tolos – murmurou Chico.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Chico Ardina
Roubaram ao Chico Ardina
A sua sacola amada,
Antiga mas valiosa
Tinha uma obra sagrada!

A sacola maltrapilha
Tinha lá muito valor,
Uma vida labutando:
Suor, amargura, amor!

Jurou vingar no vadio,
Toda a raiva, furibundo,
Ia à procura, procura,
Atacá-lo ao fim do mundo!

Mas amigos avisaram
Do gatuno já sabido,
Amainou a sua fúria
Ao dar com todo o artigo!

No ladrão viu amargura,
Não praticou a vingança.
O idoso abandonado
Fora assim quando criança! 
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Chico, o ardina já ancião, ficou muito amargurado. Tinham roubado a sacola, a da alça comprida, sua há tantos, tantos anos! Lá, cabiam os jornais antigos, um postal ilustrado, as fotos quando moço tiradas com a máquina Poloroid do amigo António… Uma figa para garantir a fortuna da vida! Ainda a boina azul usada tanto para o calor, como para o frio! Uns cigarritos Provisórios já amassados! Os fósforos Quinas, caixa já vazia! Tudo surripiado! Maldito ladrão!
Maria de Fátima Beja, 58 anos, Santiago do Cacém, Escola Secundária Manuel da Fonseca

Olá, amigo Chico, mais um dia a labutar? Não, roubaram a minha sacola,
muito antiga, mas ali, guardava as minhas mais antigas histórias.
Podia guardá-la no sótão, no fundo do antigo baú.
Um bom lugar, para lá ficar arrumada. Outrora, fui ardina, distribuía jornais,
proclamava as últimas notícias do mundo. Agora sou só o Chico, sozinho, tristonho
mas a honra do ardina apaixonado do ofício, não roubaram, ficou comigo,
como ficaram as histórias, guardadas na antiga sacola.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Chico, o ardina, tinha 77 anos, cada um dos quais vividos agarrado à sua sacola inútil.
Quando a roubaram num dia nublado, Chico gritou por socorro com toda a sua voz.
Muitos acudiram, mas a sacola não voltou ao dono.
Chico nunca mais voltou a si.
“Roubaram um bocado da minha alma!”, dizia ao choramingar rua fora.
Choramingou por todos os dias futuros a sua antiga sacola vazia.
“A minha vida ficou vazia agora”, dizia baixinho, saudoso.
Anabela Risso, 24 anos, Évora

Chico procura um carro
Chico Ardina, mudando a vida, procurava um carro com a sua cor favorita, azul-aqua.
Mais logo, consultadas as poupanças, Chico foi adquirir o novo rodinhas, um Carocha dos anos 70, com bancos brancos.
Quando Chico Ardina voltou para casa, mostrou a máquina a toda a vizinhança! Todos olharam, ficando muito admirados!
Passados cinco minutos, como o Chico foi muito distraído, (ou sovina?!), não pôs gasolina no carro. Parou logo no início da rua Coração da Praia!
Ana Margarida Azevedo, 11 anos, Colégio Paulo VI, Gondomar, prof Raquel Almeida da Silva

Chico, o Ardina, não gostava da sua profissão, mas tinha gastos para suportar.
Chico adorava falar na rua com indivíduos banais ou amigos já antigos, os quais iam comprar os jornais. Mas, odiava a variação do clima: a mutação dos dias chuvosos para dias com sol fazia-o ficar muito constipado.
Chico sonhava possuir uma loja, mas não utilizando o auxílio do Banco, o qual chamava "casa da usura". Assim gostava mais da chuva, do sol, da rua!

Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto