30 maio 2015

EXEMPLOS - desafio nº 91

Fugiu de casa amargurada. A ideia do abandono era-lhe dolorosa. Talvez o temporal a ajudasse a consertar o coração. Mas a chuva teimava em cair suavemente.
Pelo rosto escorreu-lhe uma gota que a fez lembrar-se de si própria, correndo sem sentido... Até que se diluiu numa poça, formando pequenos círculos transparentes e misteriosos.
«Afinal, tudo é imprevisível», pensou. «Nada acaba aqui».
Regressou mais reconciliada com a sua dor. Agora sabia que a morte não era o fim.
Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa

Regras
Aquela era apenas mais uma regra a que se via sujeita. Eram tantas, que já lhes perdera a conta.
«Faz como te dizem, sem levantar ondas, sem serpenteares por entre as normas, e verás que chegas à meta sem grandes dificuldades», diziam-lhe, como se fosse fácil ignorar o seu sentir e seguir o que haviam programado para ela.
Queriam que se juntasse àquele grupo amorfo que nada questionava, mas Ariadna recusa-se a murchar no início da Primavera.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Serpenteias entre os factos que testemunham verdades e quanto mais ludibrias mais a tua velocidade aumenta. Saltitas leve com confiança, quase esvoaçando pelos pormenores que só aos outros importa e a que chamam lealdade. Finalmente deslizas até aos teus. Com charme inabalável brincas alegre com a genuinidade e contas as pequenas peripécias da viagem. Iguais a ti, eles aplaudem a tua destreza e capacidade de contornar os obstáculos.
Vocês já são muitos. E os outros tão poucos.
Catarina Confraria Peças, 43 anos, Lisboa

No sossego noturno, dois amantes andavam em silêncio de mão dada pela avenida. A lua brilhava uma claridade mágica. 
“Eu te amo”, revelou de repente o mancebo visualmente nervoso. As palavras não penetravam imediatamente nela. Mas, o seu coração fez uma pula quando o namorado se ajoelhou na sua frente e a pediu em casamento. As bochechas coravam vermelhas e ela sentia o coração ainda mais forte bater na garganta. Rapidamente, apaziguou a agitação respondendo francamente “SIM.”
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia, Bélgica

No início, apenas um olhar pingou no muro da indiferença. Sentiu-o rasgar a amargura, feita em si. A cada sorriso percebeu-se derretendo. Deixou-o entrar. O arremesso dos seus gestos de carinho foi gastando a frieza, fazendo gotejar recordações, aprisionadas no seu cinzento mundo. Deu conta da porta entreaberta. Os lábios enrolados desenhavam arrepios. Abraços quentes e estreitos fizeram-se presentes. Na confusão dos sentimentos não reparou… deixara-se existir no mar da paixão. Encontrara o timoneiro! Iniciaram a viagem.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Uma gota escorre sobre o meu corpo. É de suor esta lágrima de amor, chorada numa tarde húmida de amor quente. Estou descansada de corpo, encostada às almofadas que dormem sob meu peso. Uma mulher não adormece depois de amar. A lágrima de amor que nasceu ao fundo do meu pescoço, desce serpenteando os meus seios e, ganhando velocidade, desliza cada curva do meu corpo até se juntar a uma pequena poça que sacia o meu umbigo.
António José Almeida, 51 anos, Calheta, Ilha de São Jorge, Açores toze_almeida@yahoo.com

Como água de rios
Como que chuva precipitando-se no vidro da janela. Foi assim que se atirou aquele precipício. De olhos vendados, peito aberto, mente a fugir da razão.
Amou daquela vez com jamais imaginara, nada de previsões. Incrível de tudo é esse frescor que o amor concede. A licença poética do abismo. O reverberar de loucas incursões. Insanidade mais justa. E tão efêmero que é dura só o tempo do escorrer, e virar água de rios, e voltar aos oceanos...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Blimunda, pobre Blimunda, tanto ouviu o que não queria que deixou de acreditar no que queria. Perdeu-se em caminhos vãos, quase que desistia por um “não”. Agora nada a detinha. O mundo pertencia-lhe, os seus pés já não eram do chão. Na memória ecoavam as doces palavras de Baltazar “Voa, voa, pequeno ser, voa até mim…” Assim fez, qual pássaro livre, rumando ao novo mundo, ao paraíso onde a aguardava o seu sempre amor, o seu “sim”.
Elisabete Bernardo, 47 anos, Santo António dos Cavaleiros

O primeiro beijo
Tudo começou com um simples olhar. Um olhar que se repetia diariamente, quando se cruzavam no intervalo das aulas.
E o amor foi nascendo, ganhando forma… serpenteando-se pelas veredas de Vénus.
Crescendo, a cada dia, subindo de intensidade, até se tornar incontrolável.
E então aconteceu!
Os amantes finalmente encontraram-se num cantinho do recreio. Deram as mãos, aproximaram-se… olharam-se, sentiram as pernas a tremer, suores frios, faces a arder… um abraço…
E depois tudo desaguou no primeiro beijo.
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Orvalho
Gotas de orvalho deslizavam sobre as folhas das plantas
E pétalas das flores, concentrando-se no canteiro do quintal,
formando uma pequena poça de água, onde os passarinhos iam beber
E se deliciavam cantando em cima dos ramos das árvores lindas melodias.
Fazendo -me despertar da melancolia que nos últimos dias se apoderara de mim.
Lembrando-me que o inverno do meu descontentamento também dava lugar a todas
As estações do ano onde a vida tudo renova e transforma.
Maria Silvéria dos Mártires, 69 anos Lisboa

Sempre estivera lá, a lágrima que inibi. À força de a reter tornou-se nuvem que amedronta e sem mais poder suster esse céu onde se aninhava, soltou-se insubmissa. Agora como gota de chuva, corre, desliza, ganha velocidade, serpenteando o meu rosto sem que a possa reter. Por mais que tente, foge de mim, desliza, velozmente, cai do rosto, desaparece de mim, dando lugar a uma outra que me sussurra ininterruptamente que estás a ficar longe de mim.
Elvira Cristina Silva, 51 anos, Queluz

Conta uma lenda que uma jovem princesa costumava sentar-se à janela da Torre do Palácio a aguardar, em vão, o príncipe encantado! Dos seus olhos tristes caíam grossas lágrimas que deslizavam pela sua face tombando sobre uma roseira lá em baixo no jardim! Passaram-se vários anos e, em redor da roseira, um lago formara-se e ela murchou! Tempos depois surgiu um formoso cavaleiro e, como por milagre, uma rosa colheu! Na janela, a princesa voltou a sorrir!
Emília Simões, 63 anos, Algueirão - Mem-Martins

Gota de Água Dissidente
'Chovia se Deus a dava'... A Mãe d'Água ficou então muito mais cheia de gotinhas, filhas obedientes, a quem ordenava que seguissem o caminho rumo ao vale, e fecundassem as raízes que o lastravam.
Alcandorada na Serra, nem os cristais da Boémia possuíam a transparência daquela corrente bendita. Contudo, uma gota diferente desviou a rota e, ziguezagueando, escorreu vagarosamente pelo mural de escoramento.
Deixou-se cair numa poça, perdendo assim a individualidade. 
E de dissidente passou a resignada.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Uma gota de Espiritualidade cai do céu em meu coração. 
Neste local, chuvas de bênçãos são formadas a partir dela. 
Dia nublado e chuvoso me leva a refletir o quanto é bonito o dom da vida em si! 
Medito e contemplo, meu coração faz festa. 
Cada gota de chuva vem formar um rio de água viva em meu coração. 
Apesar do friozinho que reina, sou imensamente aquecida no âmago do meu ser.
Viva a vida bem vivida!
Rosélia Bezerra, 60 anos, Rio de Janeiro, Brasil

​A cada palavra uma nova discussão. E de novo a espera pela concórdia que sempre tardava. Eram assim aquelas contendas. Um olhar, um chiste, uma provocação e tudo desabava como uma cascata incapaz de se conter. Dissolvia-se num pranto. Tantas vezes interior. Ninguém percebia. Mas ia crescendo nas manhãs que se delineavam cada vez mais cedo na falta de conseguir esperar. Era o seu momento, a sua aurora, a sua vez! E nada a demoveria de partir!​
Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa​

Depois de um longo período negro, vazio, de espera angustiada e medo de falhar, ela surgiu.
Inicialmente, muito ténue, envergonhada. Parecia comprometida por ousar romper as trevas com tanta limpidez. Mas não se podia esconder mais. Foi conquistando espaço, ganhando confiança, engrossando com palavras que começaram a chover em catadupa.
Quando menos esperava, aquela ideia tão singela deu lugar ao seu melhor romance, o mais aclamado pela crítica, o mais lido, candidato ao prémio “Romance do Ano”.
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Nini
Dolorosa a separação. E dolorosa a partida inesperada, súbita. Nini juntara-se aos milhões de pessoas que, tal como ela, viajaram para terras longínquas em busca de uma nova vida.
Uma amálgama de pessoas cruzava-se diariamente, sem rosto, sem nome. Apesar disso, e talvez por isso, Nini gostava do manto de invisibilidade que a multidão lhe concedia, tornando-se ínfima entre milhares.
Chorava a ausência dos afetos, dos cheiros, dos amores, sentindo-se irremediavelmente só numa cidade repleta de gente.
Sandra Pilar Paulino, 44 anos, Barreiro

Caía controladamente. Escorria pelo vidro daquela janela vazia. A casa morta, sem nada no interior. Milu, a gota tinha nome, procurava chegar a algum sítio: não apenas estar, ser em algum lugar. Arranjou o trajecto e caiu na poça confortavelmente. Porque seria? Abaixo de si, um bilhete aberto. Seria o dono da casa? Sim, certamente. Alfredo era quem assinava. O texto transformou-a: de gota de água em lágrima saudosa. Assim se lia: “fui e nunca mais volto”.
Patrícia Carreiro, 29 anos, Ponta Delgada

Esperança
Palavras que não diziam, olhares que não amavam, gestos que não tocavam. Afetos investindo, em desespero feroz, contra o marasmo dos dias, tornavam o abismo cada vez real.
Então, naquela manhã de sol, deslizou, atirou-se, soltou-se! Para quê continuar a flutuar no veneno inútil daquela paixão? 
E afinal, aquilo que julgava viria a ser solidão profunda, trouxe o encontro inevitável com o que, de si, tinha ficado esquecido lá atrás. Nesse ridículo encontro com o príncipe perfeito!
Fernanda Elisabete Gomes, 59 anos, Vila Franca de Xira

Reencontrar-se
Após outra discussão com o marido saiu.
Sem filhos e sem trabalho sentia-se inútil.
Sem nada pelo que lutar e sem direito a exigir qualquer coisa.
Com estes tristes pensamentos deambulou à chuva, parecendo não a sentir. 
As lágrimas misturavam-se com a chuva. Um alegre latido fê-la olhar mais além.
Um cão vadio brincava nas poças sem se importar com quem passava.
Repentinamente sentiu-se livre, podia não ter nada mas era uma pessoa com muito para dar.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Lágrimas
Era um olho de íris azulada com um pequeno sulco descendo pelo rosto.
Nesse dia, ouviu-se o coração bater tão forte como o rufar de um tambor.
Gotas brotaram do olho, desamparadas, formando uma torrente salgada que desceu a face inundando a boca.
Depois uma mão acariciou o rosto e lentamente as gotas deixaram de correr.
O olho abriu-se e reflectiu um rosto dentro dele.
Então, uma luz tão doce tudo iluminou e ficou esperando o amanhecer.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa

Suspirando, percorria ruas, espaços, avistando o nada. Pensamentos inundados de escuridão inquietavam sua mente. Henrique estava desanimado, o facto de não ter emprego preocupava-o… Todos os dias procurava, mas sem êxito. A esperança é a última a morrer, Henrique não queria desistir. Sentia um aperto no coração, sabia que mais uma vez, ao entrar em casa, perguntas e respostas seriam as mesmas. Era muita a pressão, o psicológico começava a borbulhar… Desistir nunca! Iria vencer esta batalha!
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

Assombro dos assombros
A tristeza inundava-lhe os dias, a vida, a existência, num frio de morte. Ousara ser frontal, vertical. Princípio inalienável. Assombro dos assombros, foi punida por tal desfaçatez por quem a alienava, enganava, subjugava e, também, quem se submetia servil e subserviente. Mentiram, difamaram, perseguiram-na, isolaram-na, para pagar pela ousadia. Só que a sua coragem abriu a consciência de outras pessoas e tornou-se numa enorme corrente de solidariedade, tal como a gota de chuva que acaba numa poça.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

Era Agosto, estava calor, muito calor.
Os lábios secos pediam língua húmida. O sabor do salgado suor fazia engolir saliva. Gotas de suor escorriam pelas curvas do rosto e desciam até serem absorvidas pelo leve tecido que vestia. Já molhado.
E a seca que não acaba!
Dança da chuva, os deuses vão ajudar. Vão? Rodopiou levantando a saia.
De repente, o céu ficou escuro, o vento soprou forte. As nuvens rebentaram em milhões de gotas de água.
Marina Delgado, 51 anos, Pucariça, Abrantes

Nasci, chorei
Cresci e sonhei
Sonhei que seria feliz
Mas um dia parti.
E chorei, chorei muito, e sofri,
Por erros que cometi.
Passou tempo e voltei,
Então, amei.
Amei muito, e chorei,
Mas desta vez,
De alegria e dor
Porque ao mundo eu dei
O fruto do meu amor.
Hoje, sou um lago de água
Tranquila, suave e cristalina.
Formado pelas gotas da neblina
Que sonho encontrar 
O meu rio, que corre livre até ao mar.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela
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O estagiário
Pesquisara aquela vaga nos anúncios e conseguira conquistá-la, mas agora...
Parecia que todos os papéis gotejavam sobre sua mesa e ele se sentia cada vez mais insignificante e impotente para resolver todos aqueles problemas. Os prazos, as providências, os departamentos ligando, tudo caía naquele ponto – os ombros do novo estagiário.
Naquele dia, telefonaram da Presidência, alguém se queixava de uma exigência não cumprida.
Os olhares convergiam. A inundação chegou até seu peito. Levantou-se, saiu dali para sempre.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

Depois do episódio da transgressão no pomar, as coisas iam de mal a pior. Era crescente o número de discussões, agressões, episódios de violência sexual, assassinatos. Eram homens, monstros e pequenos animais brigando.
O Senhor do universo decidiu-se: falou com um amigo para resguardar alguns pares de homens (deviam ser mais, mas poucos optaram por isso) e de animais dos mais comportados num barco e então ordenou que água do céu cobrisse tudo. Choveu por quarenta dias.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Distrito Federal, Brasil

Amigos e companheiros 
Cresceram como irmãos,
Brincaram livres ao vento,
Por vezes dando as mãos,
Tendo o mesmo pensamento!

Mais tarde, já na escola,
Companheiros dos deveres,
Carregando uma sacola
Com os mesmos afazeres!

Amigos e companheiros
Foram gostando um do outro,
Nos sonhos bem verdadeiros,
E amando-se pouco a pouco!

Seguiram rumos diferentes,
Na mesma universidade,
Mas cada vez mais ardentes
Na sua intimidade!

Viveram na mesma casa,
Tiveram a mesma sorte,
Amantes numa jornada,
Unidos na mesma morte!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Amanhecia! Céu cinzento. Pingolava. Trabalhar? Pouco apetecível. Mas um dia cinzento não servia como justificação. Saí de casa e abri o guarda-chuva para chegar ao carro. Pequenas gotas de chuva caíam, contornavam a copa redonda, caindo paralelamente à vareta. Já dentro do carro, mãos no volante, senti uma mecha de cabelo soltar uma gota que se alojou no centro da testa, escorrendo lentamente até entre os olhos, acelerando vertiginosamente nariz abaixo, espalhando-se entre os lábios. Sem sabor!
Fátima Fradique, 42 anos, Fundão

Era sempre o mesmo. Aproximava-se do pai e mostrava-lhe o desenho terminado havia pouco. Que bonito estava, dizia-lhe. Mas o céu não perderia em ser mais azul e as flores mais salpicadas pelos montes. Luísa olhava-o com um misto de incredulidade e tristeza. Levava o desenho e rasgava-o. Voltava aos azuis, um dia haveria de acertar. Mostrava-o novamente. Sim, melhor. Mas que visse o equilíbrio da composição. Um dia o pai estranhou. A filha deixara de desenhar.
Paula Coelho Pais, Lisboa, 55 anos

Sim, Pai, voltei a ter nega…
Raivoso, atirou-lhe à cara que não merecia a comida que lhe dava! Fazia de pai e mãe e ela só o desgostava. Ele, professor de História, como era possível…? Ela tirava positiva a tudo!
Fazes de propósito para me envergonhares! 
Não! Eu estudo mas no teste bloqueio…
Cala-te, hoje não jantas!
No dia seguinte, telefonam da escola.
Joana caída no wc, frasco de comprimidos vazio, manual de História desfeito em pedaços.
Carla Augusto, 48 anos, Alenquer

Estava um dia maravilhoso na ilha de São Jorge, nos Açores e parecia que toda a natureza rejubilava de esplendor. Ao olhar pela janela, vi ao longe um pontinho, quase invisível, amarelo esverdeado, que parecia chamar por mim. A curiosidade tomou conta do meu ser, tinha que descobrir o que era. Atravessei a estrada, pulei uma cerca e transpus um pequeno riacho de água límpida, para finalmente contemplar a orquídea mais sublime que alguma vez tinha visto.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo, Alentejo

Chegara o outono… Com o passar dos dias, a chuva e o vento eram cada vez mais frequentes e o velho castanheiro via, mais uma vez, as suas filhas folhas terem o seu triste fado a aproximar-se… Ao longo de vários meses, tinha-as visto nascer, crescer e agora ao ganharem a cor do sol, sabia que tinha de as deixar ir… uma a uma, vão caindo e formando um fofo tapete, até ao velho castanheiro conseguirem voltar…
Raquel Candeias, 36 anos, Montijo

Abriu a porta e parou. Estava perdida. As pernas tremiam-lhe como trigo ao vento. Queria andar mas não conseguia, sozinha, trôpega. Era só dar um passo, pensou, e tudo passaria. Com lágrimas nos olhos, avançou a medo. Ao seu lado, Magda deu-lhe a mão. Vai. É todo teu. Sorriu. Mais um passo e tudo acabaria. Atravessou o túnel escuro e preparou-se para se atirar de cabeça. Mil luzes acenderam sobre ela. Aplausos vibraram. O palco era seu.
Filomena Mourinho, 43 anos, Serpa

Tempestade. Saio de casa a correr, o transito vai estar caótico. Entro no carro. Dou à chave. Bateria descarregada. Bolas, o porteiro está de folga! Saio do carro para pedir ajuda. Pé na poça. Tento não me irritar, não tenho tempo a perder. O vizinho meio ensonado abre a porta. Percebe o meu desespero, ajuda-me. Assunto resolvido. 1km do consultório, acidente. Estaciono. Chego. Elevador avariado. Subo as escadas até 9º. Na porta “Sr. Doutor está doente”!
Mariana Sanchez, 37 anos, Barcelona

Embora brasileiro e atração no balneário, novo na terra, motivo de conversa pelas raparigas na escola, a verdade é que Edilson não tinha jeito para jogar futebol. Fazia habilidades, só isso. Sem proveito para a equipa.
Em pouco tempo, passou de suposta estrela a jogador assobiado. Na final, jogada na capital de distrito, estavam dez mais ele. Uma tortura só de vê-lo. Enfurecido, correu para a sua baliza e marcou golo. Foi a festa!... Na bancada adversária!
José Jacinto Pereira Peres, 44 anos, Castro Verde

Ontem, esteve uma tempestade medonha... choveu e trovejou imenso.
Eu habito sozinha, tenho pavor do ribombar dos trovões. Esta noite não descansei tranquilamente.
Finalmente, a chuva cessou, o sol brilha, os pássaros cantam... pude observar uma gota escorrer da rama do pinheiro do jardim, serpenteando velozmente no tronco da árvore, aterrando posteriormente numa poça gigantesca.
Esta gota gosta de viver em comunidade com outras irmãs da chuva; já eu, sou uma eremita solitária e sê-lo-ei para sempre.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

O Marco era uma presença quase impercetível, uma sombra discreta, que se apagava por entre risos alegres e outras presenças espirituosas. Na aula de cidadania, uma conversa acesa na turma, levava a atitudes definitivas e frases extremadas: “Não gosto de ciganos! E nada me fará mudar de ideias”. O olhar quieto e a face impávida, começou a alterar-se. O Marco acordou, mudou a postura, cresceu na cadeira e disse: “Eu sou cigano e tu gostas de mim.”
Paula Cruz, 42 anos, Viana do Castelo

Cada dia mais maléfico. E bêbedo. Cabisbaixa, Joana carregava nas costas o peso do mundo. A mãe morrera. Agora, ela tratava da casa. O pai exigia sempre mais. Ao olhar triste sucederam-se nódoas negras pintalgando os braços.  A tia falou com o pai mas só piorou.
Recebeu negativa a matemática. Vai-me matar… balbuciou. E saiu a chorar.
Nessa noite, foi parar ao hospital. Entrou em coma, para nunca mais acordar.
O pai foi preso. Dizem que enlouqueceu.
Carla Augusto, 49 anos, Alenquer

Oportunidade de ser melhor

Felicitar
o que faço agora
Lindas datas!
Impregnadas de amor e
Zelo pela vida

Natal, nascimento, novidade, bons fluidos, Jesus!
Aquele que veio para nos redimir,
Trazendo graças, luz, esperanças.
Amor infinito por cada um
Linda criança abençoada entre nós!

Boas novas
Olhar de venturas e
Muito mais!

Abençoados sejam os próximos 365 dias
Nos quais tenhamos Paz abundando
Olhar para o futuro

Nos edificando
Ofertando novas chances
Vez de ser feliz,
Oportunidade de ser melhor.

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano

Aceitar a dádiva

– “Não ponhas a carroça à frente dos bois”. – Estava farta! A mesma resposta sempre que alvitrava marcar o casamento. Acabou! Leva a carroça e os bois!
E aconteceu… Encontrara a sua alma gémea. A paixão cresceu. Uma sinfonia que lhes alargava o mundo!
– Quero falar contigo! – Despeitado, dedo em riste, acusa-a: – Foi rápida a minha substituição!
– Lembras-te da carroça? Gosto mais: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”! Limitei-me aceitar, hoje, a dádiva do destino!

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 90 – com provérbios contraditórios

Programas Rádio Sim Maio 2015

Todos os programas, sempre com Helena Almeida, na Companhia da Rádio - podem ouvir-se aqui
(ou pelos links que estão em baixo)

Indicativo do Programa - Música e letra: Margarida Fonseca Santos; Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso - Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 21h20, todos os dias




Quer ouvir as histórias lidas em Maio de 2015? Vá por aqui:

Chá inusitado

Dona era seu nome no mundo místico. Cabelos fartos, esguia, o que mais a assemelhava as bruxas era o olhar, misterioso, indagador, invasivo, profundo, às vezes distante. Naquele dia, preparou o famoso caldeirão, várias especiarias para os normais, intrigantes, mas apropriados ao momento. As amigas chegaram e logo serviu a entrada, chá detox (de corpo e alma)! Após o primeiro gole (delicioso), um grito estridente ecoou!
Também que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata...!

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Desafio nº 13 – Frase para terminar: Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata!

Desafio nº 91

Hoje vamos regressar às imagens e, a partir delas, construir a nossa história.

Aqui fica a de hoje:
Uma gota de chuva escorre sobre algo, serpenteando e ganhando velocidade, até se juntar a uma pequena poça. 

Esta é a imagem metafórica que iremos usar num texto de… 77 palavras, claro!

Eu escrevi assim:
Celeste desumanizava-se a cada palavra que engolia, sem ter a noção do quanto se desfazia. A mãe, gritando palavras sem pena, aprofundava o destino da filha, criticando, desdenhando, menosprezando. Quanto mais Celeste tremia, mais a mãe a desfazia. Contudo, foi de repente surpreendida pelo fim do tremor de Celeste. Ninguém o poderia prever, ninguém. Quando a viu sorrir e afastar o medo, a mãe entendeu. Empurrara a filha para lá do seu mundo. Perdia-a, agora, para sempre.
Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa
EXEMPLOS

29 maio 2015

Programa Rádio Sim 520 – 29 Maio 2015

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim



Pudera eu abraçar-te
Que um cigarro nos deixe conversar.
Que nos arranhe a garganta de tanto falar.
Tal qual uma tosse seca e um abraço mal dado.

Que um agrafador nos prenda bem perto.
Que nos algeme punho a punho, beijo a beijo. 
Tal qual duas folhas de papel gastas, 
onde o poeta escreveu um lírio pisado por um elefante;
metáfora para um abraço mal dado, que pisa a alma.

Pudera eu abraçar-te bem, sem garganta arranhada nem alma pisada.

Gonçalo Gil, 18 anos, Lisboa
Mais textos aqui: facebook.com/versifico 
Desafio nº 89 – hist c tosse+lírio+elefante+agrafador

28 maio 2015

Programa Rádio Sim 519 – 28 Maio 2015

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim



Queria ir ao bailarico
Queria ir ao bailarico
Mas meu pai não me deixava,
Estava em cima da ponte
Como a cabra tresmalhada!

Queria ir ao bailarico
E o que havia de fazer?...
Tinha qu´enfrentar um rio
Sempre em fúria e a crescer!

Queria ir ao bailarico,
Mas vencer era um pavor…
Era como ir à conquista
E enfrentar o Adamastor!

Queria ir ao bailarico…
E o rio? Oh que maçada!...
Tinha que saltar da ponte
Como a cabra tresmalhada!

Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante
Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra

Traição inocente

Joana estava em guerra desde aquela cena de ciúmes do marido. Vivia entrincheirada, esperando um cessar-fogo. Sentia-se inocente. Apenas cumprimentou com dois beijos o ex-namorado. 
Porém, para Marco era traição que transformava em violência.
Joana não podia aceitar tal situação. 
Um dia, saltou da trincheira, correu direita à praia. Mergulhou e nadou rumo a um novo destino. O apelido de casada ficou preso no arame farpado que atravessara para sair do palco de guerra.
Sentia-se agora livre!

Domingos Correia
, 57 anos, Amarante
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)