31 agosto 2015

Programa Rádio Sim 586 – 31 Agosto 2015

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Um verdadeiro pandemónio! 10 leões à solta num dia de greve do metro, das nove às cinco (ou seria até às oito da noite?). Adiante! Interessa que os trabalhadores estavam na berlinda como se tivessem culpa de que os muros do Jardim Zoológico, feitos às três pancadas, se tivessem desfeito. Um bicho-de-sete-cabeças! Vieram dois carros das forças especiais, com quatro canhões de água, e foi um espanto. Em seis minutos, ensoparam os leões e acabou-se a brincadeira!

Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 3 – números de 1 a 10

30 agosto 2015

Naturalmente...

“O segredo está em deixar que o momento chegue, naturalmente.”
O nó na garganta e o suor nas palmas da mão dizem-lhe que é chegado o tal momento. Ele respira fundo, aperta o botão do casaco e, convicto, leva um joelho ao chão.
– Carla, casas comigo?
O que lhe chega é um silêncio que entra pela porta dentro e se senta ao lado dele.
Levanta-se, irritado.
Naturalmente, João. Naturalmente.”
Suspira, ajeita o espelho e tenta outra vez.

Ana Pessoa, 37 anos, Alenquer

Desafio nº 97 – galinha de encontro ao vidro

Viver

– Mas isto está tudo louco? Tu viste bem aquilo? É preciso ter muita lata. – Rodrigues só não arrancava os cabelos porque não os tinha.
– Esse barafustar resolve alguma coisa?
– O mundo pode acabar, que para ti tudo bem.
– Porque não experimentas enfrentar os desagrados com um sorriso, abrires-te a uma maneira diferente de fazer as coisas? No dia em que olhares mais em volta e menos para o umbigo, vais descobrir que viver é uma aventura maravilhosa.

Quita Miguel, 55 anos, Cascais
Leiam outros textos aqui: http://quitamiguel.blogspot.pt/

Desafio nº 97 – galinha de encontro ao vidro

EXEMPLOS - desafio nº 97

AH! Que vida triste e tão cruel! 
Assim pensava e resmungava Dora, a cada fim de mês, quando seu salário faltava para as despesas enfrentar.
Então, lá ia ela até o gerente do banco, novo empréstimo pedir. Encalacrava-se cada vez mais!
Pagava cada vez mais juros sobre juros. Assim ela mesmo por teimosia, mais no fundo do poço se colocava.
Teimava em gastar mais do que ganhava e a realidade diante de seus olhos não sabia enfrentar!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

“O segredo está em deixar que o momento chegue, naturalmente.”
O nó na garganta e o suor nas palmas da mão dizem-lhe que é chegado o tal momento. Ele respira fundo, aperta o botão do casaco e, convicto, leva um joelho ao chão.
– Carla, casas comigo?
O que lhe chega é um silêncio que entra pela porta dentro e se senta ao lado dele.
Levanta-se, irritado.
Naturalmente, João. Naturalmente.”
Suspira, ajeita o espelho e tenta outra vez.
Ana Pessoa, 37 anos, Alenquer

Viver
– Mas isto está tudo louco? Tu viste bem aquilo? É preciso ter muita lata. – Rodrigues só não arrancava os cabelos porque não os tinha.
– Esse barafustar resolve alguma coisa?
– O mundo pode acabar, que para ti tudo bem.
– Porque não experimentas enfrentar os desagrados com um sorriso, abrires-te a uma maneira diferente de fazer as coisas? No dia em que olhares mais em volta e menos para o umbigo, vais descobrir que viver é uma aventura maravilhosa.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Desafios
– Nem pensar. O que vou eu fazer com tanta dificuldade em caminhar?
Joana explicou-lhe, talvez pela décima vez, que havia lugares preferenciais no autocarro, que os museus podiam ser visitados em cadeiras de rodas, e que os participantes eram bons amigos dispostos a ajudar e com muito entusiasmo na sua participação. Não adiantou. Ficou a chapinhar na pena de si própria. Joana pegou nas canadianas e abalou. Perdera aquela batalha mas não iria perder a sua guerra.
Maria José Castro, 55 anos, Azeitão

A responsabilidade e o cumprimento absorviam e os seus pensamentos... Intersectando os seus passos presos à ratoeira.
Sentia-se formatado para tal… tentava fugir a essa realidade, mas rapidamente era apanhado pela teia disfarçada em pó. Sobrepunha-se, mas de nada valia.
Deixava-se abafar, inevitavelmente…! Lembrava-se das palavras dos amigos…
“Não leves a vida tão a sério!”. Tinham razão!
Mesmo sendo muito linear, precisava de estar atento aos sinais. As reticências tinham de ser desbloqueadas, ultrapassando as limitações impostas.
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

O Hélder conhecia um caminho secundário para ir a escola, mas só depois de termos prometido não contar a ninguém, nos mostrou a vereda onde poderíamos passar o caminho-de-ferro e ganhar tempo. Hélder riu-se de nossa argumentação, que era proibido pelos pais atravessarmos os carris onde não há uma passagem de nível vigiada. Ora, o rapaz obstinado não queria perceber, se ele fosse agarrado pelo comboio, só estaria tomando o caminho mais curto para acabar a vida.

Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia Bélgica  


Sempre o mesmo final de semana. Estava farto do queixume:
– Passas o domingo de roda do maldito carro! Pareces não ter família!
Não respondia. Não valia o esforço. Estava à espera de quê? Que fosse gastar dinheiro na lavagem do carro? Não usufruía ela também do transporte? Se ajudasse em vez de fazer aquele leilão todo? Talvez sobrasse mais tempo, não? Recusava-se a dizer-lhe o óbvio… percebera que há muito tinham deixado de olhar na mesma direção…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

O dia era de inverno, frio, escuro e triste, como a sua alma que transparecia através do olhar sem brilho, cansado. A decisão estava tomada. Nada a faria continuar a fingir, nem a contornar a solidão dos dias, preenchidos apenas com a lista de presentes de natal e aquela aflição dentro do peito. O casamento já há muito tinha terminado, manter as aparências neste momento mais não seria que prolongar a dor. E essa era apenas sua.
Alda Gonçalves, 48 anos, Porto

Tempestade
Para valorizar a vida interior mais do que às formas e rituais externos institucionalizados, homens e mulheres são igualmente responsáveis pela caminhada individual em intimidade com o respeito pelos outros.
A inclusão das mulheres no mercado de trabalho contribuiu para a elevação do respeito. No entanto, não contribuiu ainda para o elevado conceito social. Ainda que de maneira sutil, as seculares barreiras erguidas diante das mulheres se fazem socialmente aceitáveis ou por um ou pelo outro gênero.
Renata Diniz, 39 anos - Itaúna/Brasil

Por outra via
E subitamente você percebe que:

... Nada parecer coerente,
E nada é consonância,
Se não te sentires bem na roupa de vestir,
E aquele sol já não luzir tão fortemente,
E amar não provocar mais aquela alegria descomposta, indecente,
It’s time to change!

Virar à esquina, a página, a vida.
Trocar de calçada, de planos.
Mudar de sonhos,
Pular muro, pular fase.
Cruzar a ponte. Cruzar fronteiras.
Ir do conhecido ao totalmente misterioso.
Inesperado. Surpreendente.
Novo.
Ir!
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Ninguém à espera. Aproximo-me. Pergunto se posso passar. Dizem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Vou à máquina para tirar a senha e nada. Volto ao guichet, explico a situação. Repetem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Tento mudar o meu destino implorando. Repetem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Pergunto se há solução e respondem:
– Quando tiver senha, eu atendo-a!
Quatro horas depois, senha na mão, nervos à flor da pele:
– Passe, por favor!
Podia ter sido muita coisa, decidi ser obediente!
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 34 anos, Salamanca

Esta coisa do machismo chegar às galinhas é o cúmulo! E o que farão os galos? Será que a experiência já foi feita… ou é melhor deixar assim mesmo e ficarmos todos, neste caso todas, quietas e caladas sem piar sequer. Quando era muito nova tinha o que os franceses dizem “le regret du pénis”, aos homens tudo era possível, a liberdade, a autoridade, a independência. Hoje, décadas passadas, tenho orgulho em ser mulher!
Helena Barradas, 79 anos, Cascais

Família Lemos 
Tudo vai dar certo
, dizia José Lemos.
Não parava em emprego algum.
Sua mulher sustentava marido e filhos.
Ela juntava, mensalmente, o dinheiro das parcelas do apartamento próprio.
José só efetuava o pagamento.
Finalmente, o apartamento estava "quitado", era só preparar a mudança.
Na manhã seguinte, chegou uma carta cobrança.
As parcelas intermediárias não haviam sido pagas. José havia gasto o dinheiro.
Quando descobriu a falcatrua, a mulher pediu divórcio.
José casou novamente.
Tudo vai dar certo...
Verena Niederberger, 64 anos, Rio de Janeiro - Brasil

Contornando certa situação
Era uma vez uma jovem camponesa que tinha conquistado alguns méritos devido a seu capricho em tudo o que fazia. 
Entretanto, morava distante de muitas coisas que lhe interessavam concluir e ampliar leque de conhecimento. 
Resultado: saiu em campo, batalhou um lugar na cidade para morar na residência de uma senhora que era comadre de uma amiga da faculdade recém formada e nada a impediu de realizar seus sonhos de estudante aplicada embora estivesse não tão confortável.
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Esperava-o na ponte. Acenava-lhe ao vê-lo atravessar o ribeiro no seu cavalo alazão. Ele ignorava-a. Tímida, guardava para si a deceção. Contaram-lhe que ele vivia ali desde que o desastre o cegara. Resolveu arranjar coragem para lhe falar. Treinou palavras, frases,respostas... Vestiu-se como se ele pudesse adivinhar as cores garridas da saia e do «baton».
Quando ele passou, faltou-lhe a coragem. Acenou-lhe apenas, e assim continuou a fazer até ao dia em que ele não voltou.
Isabel Lopo, 69 anos, Alentejo

Ó Luísa! Achas mesmo que o rapaz mais in do liceu quer saber duma totó, marrona, caixa d’óculos como eu, senão para pedir apontamentos emprestados?!
Cansei, Carla, qualquer dia anda novamente abraçado a uma oferecida qualquer… Olha, lá está ele. Vem aí… Diz qualquer coisa. Olá, Carla. Olá, Joel. Vens ao bar? Já lanchei. Tá-se bem, tchau. Xau. Não acredito, Carla! Recusaste outra vez?! Olha: lá vai a Sílvia atrás dele… Agora desfaz-te em nervos como sempre.
Cátia Penalva, 36 anos, Viana do Castelo

Mesmice
Como os rios que contornam os obstáculos, alimentando as suas margens, numa corredoura até à foz, desafiantes e corajosos, assim deveriam ser os dois irmãos a viver no Casal de Além. Gerontes ensimesmados, não enfrentavam as dificuldades, por inércia.
Certo nefasto dia, houve inundação. As águas sorveram o bom e o mau. 
Viram-se então obrigados a tomar atitude. E tomaram. À sua indolente maneira. Amorfamente mudaram de lugar.
Ao invés de ladear os escolhos. Como os rios.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

O túnel
Ouvir a criação do outro lado do muro, no quintal vizinho, agitada na disputa pela comida, deixava-a num frenesim. Queria a todo o custo vê-la. Era pequenina, embora comprida, e por mais que saltasse nunca conseguia subir para o muro. Gemia a pedir colo, pois, assim, espreitava numa alegria espantosa. Um dia o pedido teve como resposta ‘espera!’. Qual quê? Esgueirou-se numa toca no chão e desapareceu. Aí vai de escavar um túnel para o outro lado.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

A visita
Já lhe tinham tirado a cama, agora o prato tinha de ficar daquele lado?! 
Se pensavam que iria mudar de sítio porque havia visitas estavam muito enganados!
O lugar dele sempre fora ali... a chegada de um estranho não era motivo para mudar tudo!
Até poderia considerar em mudar-se, mas se eram só uns dias a visita que ficasse noutro lugar! Preferiria não comer que ceder! 
Lá porque era arraçado não se iria submeter àquela caniche finória!
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Recuperação (quase) impossível 
Disseram-lhe: “Não vás!” “Está perigoso, louco.” Discordou da ameaça. Foi. Preparada para o pior. Mas o pior do pior?! Bateu à porta, identificando-se. De voz assustada, faz-lhe inquérito minucioso e psicótico. Passou. Abre-lhe a porta. Vê-o. Quadro gravíssimo. Reversível?! Lutaria tenazmente para inverter a situação. Improvável, mas acreditava possível ainda.
Estabeleceu diálogo de compreensão parcial. Conteve zangas… revolta abissal. Suportou, firme. Com gestos e palavras de afecto “aguentou-o”. No dia seguinte seguiu-se internamento inevitável. Acompanhou-o sempre. Recuperou.
Isabel Pinto, Setúbal

Esperteza de galinha
Pena Dourada, franguinha vaidosa, gostava de se destacar. Tinha por ambição conquistar Cocorocó, senhor do galinheiro. Este, adulado por um harém de galinhas mais velhas, nem reparava nela.
 Por isso, arquitectou um plano: lançou-se contra o vidro de uma janela, caindo em pose estudada, de patas para o ar, soltando um aflito cacarejar de socorro.
O galo, surpreendido, voou ao seu encontro. Deu-lhe pequeninas bicadas, apaixonando-se perdidamente. Foi assim que Pena Dourada se tornou rainha do galinheiro.
Isabel Sousa, 64 anos, Lisboa.

– Nunca fazes o que digo?
– Porque não sabes o que dizes.
– E tu, sabes?
– Sei. Não preciso da tua opinião
– Não queres dizer, não digas,
mas sabes que tenho soluções.
– Uma convencida, é o que tu és.
– Está bem, fica na tua que eu fico na minha.
– Sabes se a Luísa está em casa?
– Não. Já lhe ligaste?
– Sim, mas não atende.
– Combinámos encontrar-nos no café,
mas não disse a hora.
– Vais cedo, e esperas por ela.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Não conseguia ousar!...
Gostava da Catarina
E queria-lhe falar…
Ela era menina fina…
Não conseguia ousar!

Via-a sempre passar
Com um bonito rapaz,
Não parava de gostar,
Mas sentia-se incapaz!...

E, em certa ocasião,
Soube que aquele rapaz
Era mesmo seu irmão…
Mas, nem assim foi capaz!

Estava desanimado,
Rondava sem se cansar
E, ao notá-lo amargurado,
Resolveu ela atuar!

E, uma noite, à luz do luar,
Deu-lhe um beijo muito ardente,
Estrelas vieram espreitar
E o sino tocou contente!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

O engano da Quica
A Quica, baralhada, subiu à estante. Ela não sabia do filho adorado.
O seu ar de tristeza era acentuado. Não imaginam, a cara risonha, quando ela encontrou o pequenino.
O gatinho estava zangado, queria sossego! Virou a cara, espreguiçou-se, saltou para a cabeça do avô Aires, que gritou:
– Ó Riscas, estás por aqui?
– Quero estar sozinho, posso ficar? Não te importas? – perguntou o gatinho.
– Fica, dás-me ideias mais claras! – respondeu prontamente.
Claramente, a gata desiludira o filhote.
Cláudia Neves, 11 anos, Alcobaça - Prof. Fernanda Duarte

Encontrei o Carlos, o melhor aluno de Educação Física, a correr no ginásio. Ele informou-me que participará na corrida com obstáculos.
Quando lhe pedi uma opinião sobre o meu vestido novo, apenas me disse que estava a ficar gorda e carecia urgentemente de iniciar uma dieta.
Fiquei furiosa... afirmei-lhe imediatamente que o único obstáculo que necessita de transpor é a má educação. Não passa de um bebezinho que precisa permanentemente que a mãe lhe troque as fraldas!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

O cofrinho maltratado

AH! Que vida triste e tão cruel! 
Assim pensava e resmungava Dora, a cada fim de mês, quando seu salário faltava para as despesas enfrentar.  
Então, lá ia ela até o gerente do banco, novo empréstimo pedir.  Encalacrava-se cada vez mais!
Pagava cada vez mais juros sobre juros. Assim ela mesmo por teimosia, mais no fundo do poço se colocava.
Teimava em gastar mais do que ganhava e a realidade diante de seus olhos não sabia enfrentar!

Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

Desafio nº 97 – galinha de encontro ao vidro

Desafio nº 97

Isto de as galinhas não serem capazes de perceber que, quando se lhes põe um vidro entre elas e o milho, poderiam dar a volta, sempre me intrigou… 
Mas, na realidade, conhecemos muitas pessoas que o fazem (não com milho, não com vidro, mas recusando-se a contornar obstáculos). 

Querem contar-me uma cena dessas?

Eu escrevi assim:
– Já lhe disse, é impossível.
A frase rematou a conversa, tão curta como as anteriores, deixando Feliciano frustrado. Quantas vezes fizera o pedido? Mais de trinta, pensava Mário Fininho, para quem tais pedidos eram estúpidos, dispensáveis e sobretudo ineficazes.
Nada comentou, ao ver Feliciano sentar-se, desfeito, na secretária, voltando a pegar nos processos volumosos.
Às seis menos vinte, bem antes do horário de fecho, já Fininho se amontoava com outros espectadores no estádio. Nunca pedia, saía, apenas.
Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa
EXEMPLOS

29 agosto 2015

Lição à força

O  Vaz, rapaz de Vizela, pescou dezanove azevias na Póvoa do Varzim.
Entre os campistas, a notícia correu veloz.
A vizinhança esperou pela partilha da pescaria. Era a tradição.
O Vaz, guloso e voraz, apressou-se a assá-las e, numa leveza de boca, esvaziou a travessa.
A esperança dos vizinhos esfumou-se de vez.
À tarde, quando as dores abdominais lhe ruborizavam as faces e a voz aflita se fez ouvir, os vizinhos desvalorizaram, comentando: Talvez aprenda! Talvez aprenda!

Palmira Martins, 59 anos, Vila Nova de Gaia

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

Talvez...

Faz hoje um ano a última vez que nos vimos e os meus dias passaram a ter demasiadas horas vazias. Eu própria sinto-me esvaziada.
Talvez não volte a amar.
Talvez não volte a rir nem sequer a cantar.
Talvez perca definitivamente a voz. E, muda, nem a vizinhança ouvirá as minhas sonoras gargalhadas que me caracterizam.
Todos os meus sonhos se volatilizaram. Tentarei esquecer as promessas que me fizeste pelo que Veneza continuará infinitamente à nossa espera.

Ana Paula Oliveira, 55 anos, S. João da Madeira

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

28 agosto 2015

Programa Rádio Sim 585 – 28 Agosto 2015

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Clonado
Sabem o que é um clonado?
Clonado sem o saber!
Foi no século passado.
Nasceu e foi aprender
Numa escola do Estado.

O alfabeto aprendeu,
A tabuada decorou,
Pelas “contas” se perdeu...
Na leitura nunca errou
A família sempre honrou.

Fez tudo sempre certinho,
Da primária à secundária
Por fim veio o canudinho!
Consegue emprego na área
E uma noiva p’lo caminho.

De pasta na mão,
Olhando p’ro chão,
Começam o dia
Com a frustração
Da Monotonia.

Maria Antónia Vitorino, 72 anos, Estremoz
Desafio nº 83 – texto sobre imagem de Francisca Torres



Juízo errado

Não gostava de desforra, mas naquele dia sentira o início de uma animosidade. Nunca tinha pensado no que estava a acontecer e… sentiu um ligeiro desconforto. Estaria a embirrar com ela? Não gostava de juízos de valor assentes em parco conhecimento. Naquela tarde, sem dar conta, caiu desamparada. O sangue jorrava pela ferida aberta. Sem hesitação, Joana estancou a hemorragia com um pano. Sentiu o fogo subir pelo rosto. Fizera um juízo errado. Estava prometido serem amigas.

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 69 – lista de palavras, onde se inclui desforra

Tudo para ser bruxa

Para bruxa só lhe faltava mesmo o queixo afilado. De resto tinha tudo. Cabelo desgrenhado, chapéu bicudo e vestido preto a condizer. “Bruxa” o adjectivo servia-lhe na perfeição. Mulher amarga de poucos sorrisos, não recolhia simpatias de ninguém. O seu olhar curioso da vida alheia, revertia um bom dia numa autêntica invernia, qualquer ponta de informação dava desgraça certa. De nome Josefa até gato preto tinha. Só não tinha ninguém por companhia. Toda a gente dela fugia.

Paulo Roma, 52 anos, Lisboa

Desafio RS nº 28 – Josefa, intriguista e bruxa

27 agosto 2015

Programa Rádio Sim 584 – 27 Agosto 2015

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E esta hein?!
E esta hein?!  Escrever sem saber de tal...   
serei capaz de tamanha façanha?
Irra... difícil é de certeza.  Tragédia tamanha!
Meti-me nela... Hei-de sair da mesma!!
É verdade?!... A "manha"! Fazer dela minha aliada,
e fica a escrita "arranjada".  
77 palavras...  nem precisa de grande matéria...
mas sem as tais "letras"... fica a batalha mais séria.
Perdê-la?  Nem pensar...  e  se certa "Sra. Padeira, 
ganha Fama, pelas afamadas "pazadas"...
Ganharei fama a servir-me... de tantas letras 
baralhadas!!! 

Maria Cabral – Azeitão
Desafio nº 93 – escrever sem O nem U

A invenção

Sentia uma enorme frustração que já não podia esconder. Tinha tratado todo o tipo de fobias, desde caçadores com medo de elefantes, otorrinos que suavam desalmadamente quando ouviam uma simples tosse seca, ou floristas que entravam em pânico quando viam lírios, mas isto, isto era demasiado. Tinha-se tornado uma verdadeira epidemia: secretárias que se escondiam quando viam um agrafador? Um simples e inofensivo agrafador?
Estava prestes a desistir, quando, dando voltas a um aramezeco, inventou o clip!

Paula Isidoro, 34 anos, Salamanca

Desafio nº 89 – hist c tosse+lírio+elefante+agrafador

Apenas... Um!!

Um dia... Um momento... Um minuto. Um segredo, mesmo que seja Um tempo de "tortura".
Um sopro de Um pouco de sorte, poderá ser Um triunfo. Um nome. Um recolhimento. Um
silêncio de oração. Um soluço... Um medo constante. Um instante que prevalece. Um ser ou 
não ser... Um sonho talvez... com Um final feliz !
Um texto que pode parecer não ter nexo... mas tem Um significado e... acima de tudo Um 
fio condutor... a palavra... Um

Maria Cabral, Azeitão 

O relógio

Não queria tocar. Tinha decidido que não queria tocar mais no assunto. Afinal de contas, estavam juntos de férias ao fim de tantos anos que não valia a pena estar a bater mais na mesma tecla.
Desaparecera o relógio de ouro, e depois? De certeza que o tinha perdido na praia. Estava decidido: assunto encerrado!
Mas à noite, depois de um copo a mais, a Rita voltou a tocar no assunto: “Eu sei quem roubou o relógio...”

Paula Isidoro, 34 anos, Salamanca

Não queria tocar.  – “Os teclados”, Teolinda Gersão

Desafio nº 36 – uma frase de um conto de autor, usando as palavras por ordem inversa

Transversal complacência

É quando te olho,
nessa mudez altaneira,
nesse teu meio-sorriso
(assim,
hifenizado),
que a minha complacência,
de viés,
desliza por ti acima,
num quase-tango
(também hifenizado).
Podes semi-cerrar
(hifenizadamente)
os teus lábios,
podes virar a cara
e a permanente,
que a minha complacência,
deslizará sempre 
por ti acima;
e mesmo que navegues 
o teu pedantismo,
pelas águas indiferentes,
a minha complacência
sempre te atirará
borda-fora
(nem o hífen
te livrará
do mergulho 
e do espalhafato).

Assim será.

Jaime A., 51 anos, Lisboa (agora em Mortágua)

Não te podes calar?!

Bom saber é o calar até ser tempo de falar.
Bom dia!? Bem gostava de
saber desde quando
é que estes são bons dias.
O meu ronronar de beleza interrompido com tanto “Olá! Bom dia!”. Não te podes
calar? Cala o bico! Irritante, como é possível estar sempre bem disposto de manhã
até à noite? Malfadada sorte, tinha que
ser esta a minha sina?! Ó
tempo volta para trás! Maldita lua
de mel na Amazónia que te trouxe até aqui! Se pudesse
falar para te mandar calar...

Paula Isidoro, 34 anos, Salamanca

Desafio nº 30 – provérbio à esquerda na folha imposto

Suavizava com a paixão e o amor em liberdade

Zanzava pela casa e pulverizava cada divisão onde fora escravizada e vitimizada anos a fio O aroma de essência marítima esvaziava, assim, tudo de negativo que azucrinava os seus sentidos, e estigmatizava a dor que vandaliza a vida e o amor, que a sociedade dogmatizava e pretendera evangelizados. Assim, eternizava a solidão.
Banzava indignada e ruborizava de impotência e irritação contra tamanha prepotência. Agora amenizava desse peso e suavizava com a paixão e o amor em liberdade.

Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

Benevolência

Não conseguia dormir e a culpa não era só da tosse seca. O caso estava encerrado, mas imaginou-se na situação e teve medo: durante décadas ela aguentou o vizinho que ressonava como se fosse uma manada de elefantes em fuga, bordou lírios de todos os tipos e feitios nas horas de insónia e desesperada envenenou-o e usou um agrafador para lhe fechar a boca de vez.
E os seus vizinhos, seriam mais benévolos com a sua apneia?

Paula Isidoro, 34 anos, Salamanca

Desafio nº 89 – hist c tosse+lírio+elefante+agrafador

26 agosto 2015

Programa Rádio Sim 583 – 26 Agosto 2015

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Silêncio de morte
Era uma tarde calma: no horizonte o sol caía com tons de vermelho, a anunciar o calor do dia seguinte. Como é belo o entardecer nos campos do Alentejo!
Oiço a música alegre dos pássaros a cantar... é como a música de Chopin!
Mas a luz desaparece e estabelece-se o silêncio calmo da noite, só interrompido por um piar da coruja: aquele ruído assusta até o pobre rouxinol que parou de cantar.
Fez-se um silêncio de morte!

Eglantina Estriga, 73 anos, Estremoz
Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio

De corpo tatuado

Habituou-se a aceitar o que o destino lhe ia reservando. Aprendera com a mãe a fazer-se à vida, sem brados, sem queixumes. Não sabia que o mundo se podia pintar de gestos doces. Sem reclamar, deixava-se marcar, dia após dia, pelo azedume que o marido guardava. As histórias só eram contadas pelas cicatrizes que o magro corpo ia guardando. No hospital percebeu a cor do amor. Separou-se do tatuador do seu corpo. Casou com o seu enfermeiro.

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

Férias inesquecíveis

No século passado, com 10, 11 e 12 anos frequentei a Colónia Balnear Cova da Gala (Figueira da Foz).
Isso foi possível porque o meu pai era empregado na Companhia de Fiação e Tecidos em Torres Novas.
Jovens de empresas importantes de Lisboa e Sacavém, entre outras, marcavam presença.
Praia do Cabedelo, jogos no areal, banhos, camaratas, anfiteatro em pedra, campo de futebol improvisado, director Marques, muitas amizades, são imagens inesquecíveis dos meus 15 dias de férias. 


José Manuel Tuna Caranguejeiro, 66 anos, Torres Novas 

25 agosto 2015

O mistério das azevias desaparecidas

Nem trinta minutos passaram desde que o prato das azevias chegou à mesa e já estava vazio. Apenas as vozes e risos dos Azevedo, os vizinhos de cima, quebravam o silêncio que se instalou naquele momento… quem teria evaporado a dúzia encomendada de véspera? Ninguém se acusou até que se ouviu a voz do mais pequeno: “Avozinho!!!”. “Eu só comi uma… de cada vez…” Talvez tenha sido a expressão de felicidade a responsável pelo perdão da família.

Catarina Azevedo Rodrigues, 42 anos, Venda do Pinheiro

Desafio nº 96 – palavras com Z e V