30 setembro 2015

Desafio nº 99

Gostava de vos desafiar a fazer isto:
encontrar 8 a 10 palavras que contenham este pedacinho:
ATRO

Pode estar em qualquer parte da palavra, há muitas.
Depois de escolher essas dez, incluam-nas no vosso texto.
Divirtam-se!!!


Eu escolhi umas e escrevi assim:
Eles eram quatro, dois rapazes, um cão e uma matrona, filha da patroa. A rapariga atropelava-os nas suas atrozes brincadeiras, patrocinada pela mãe. Quem os via, dizia que aquilo era o anfiteatro do sofrimento que teriam pela vida fora. Brincadeiras sem nexo, regras à matroca (que davam, sempre a vitória à matrona). Perante tal atrocidade, o cão revoltou-se, mordeu-lhe a canela e desafiou-a. A miúda, em fúria, atrofiou de vez. Dissolveu-se o grupo e salvaram-se os rapazes.
Margarida Fonseca Santos, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 99 – 8 a 10 palavras com ATRO

(Re) viver

Cabelos brancos, corpos curvados, seguiram o trilho, outrora debruado a miosótis e margaridas, agora com ervas daninhas. O portão descaído mas com brio de guarda à casa deixou-os entrar.
A escadaria onde as tardes de estio se faziam acompanhar de risos de crianças, agora estava silenciosa. Helena e Cristóvão olharam num esgar ternurento o sofá onde os serões se passavam de eterno amor, mãos entrelaçadas. A casa da aldeia voltará a  viver. A casa voltará a sorrir!

Arménia Madail, 56 anos, Celorico de Basto
Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves


Programa Rádio Sim 608 – 30 Setembro 2015

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Ralações
Esta tarde, o Leonardo come o melão na sala de estar. Está calor! A mãe rala-se: "Não podes entornar nada!..." O cão morde o pé do Leonardo e ele, com medo, entorna a polpa do melão. A mãe entra na sala e ele salta para se esconder, mas não tem tempo. A mãe começa a correr atrás dele, tropeça e estatela-se no tapete. Não parte a perna, ao acertar no melão.
Perdoa ao Leonardo e permanecem contentes!

Alunos da turma 5 do 4º ano da EB de São Domingos, Agrupamento Alexandre Herculano de Santarém, prof M do Céu Ferro
Desafio nº 8 – crise de letras; usar só  E  O  T  R  S  P  L  M  N  D  C

Um fio de vida

Lanço o último olhar para dentro da sombria habitação. O silêncio transtorna-me. O frio, entristece-me. Uma janela bate com o vento, trazendo o eco consigo. Não há lágrimas, apenas desgosto. Apenas vazio. Sinto-me perdido e tenho medo. Medo de acabar só, sentado numa habitação vazia olhando por uma janela baça, à espera que o tempo passe. As ervas crescem sem sentimentos, apagando o fio de vida que por ali passou um dia. Um fio de vida meu.

Tomás Borges de Castro, 42 anos, Cascais.

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Um curto tempo

Sentia-se abençoada pelo destino e ao mesmo tempo tão desfraldada. Viveram quase dois intensos anos de um amor profundo. O pouco tempo que José viveu foi tapetado pela dor constante que lhe tolhia os movimentos. Só aquele sorriso permanente nos lábios, solto a cada chegada, fazia esquecer o curto tempo que lhes estava destinado. Viveram cada dia como se mais mundo não restasse. Partiu ficando para sempre nas suas lembranças. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 79quase felizes, num sempre muito pequeno

29 setembro 2015

Programa Rádio Sim 607 – 29 Setembro 2015

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Procura marido!
Nascida na Pampilhosa,
Bonita como uma rosa,
Carolina é bem fogosa,
Formosa e orgulhosa!

Tem um corpinho jeitoso,
Aprecia homem carinhoso
E quer para matrimónio
Cavalheiro e bom esposo!

Que seja elegante, vaidoso,
Alto, bem feito, amoroso,
Atraente, terno, gostoso
E, se possível, famoso!

Terá que ser poderoso,
Educado, altivo, ideal,
Delicado e bondoso,
Quase um príncipe real!

Então, se souber cozinhar,
E limpar tudo com jeitinho,
Ela dirá desde logo:                        
“Anda cá MEU AMORZINHO!”

Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Desafio RS nº 20 – 14 palavras acabadas em -oso, -osa

Imagem

Partiste, deixando no teu quarto um vazio que até a luz se recusa a perturbar. Desde então, não vive ninguém no quarto, por baixo do teu, onde ainda moro. Apesar de gastas, insisto nas cortinas. Deposito, no seu patético balanço, a esperança com que me forço a respirar. Talvez voltes e possamos retomar os livros, entre o teu quarto e o meu, exatamente onde os deixámos. Chegas, resgatamos o sofá à floresta e, em triunfo, envelhecemos juntos. 

Nuno Longle, 41 anos, Odivelas

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Memórias

De volta à casa onde cresci, onde fui menina e moça, filha e neta amada. Quantas memórias!

As janelas, cobertas de colchas em dias de procissão, num colorido que embelezava o cortejo.
O sofá, assento preferido do patriarca da família, jaz agora no quintal. A velha escadaria que subia e descia, ligeira, permanece, resiste ao abandono.
A rua, agora deserta, traz -me à lembrança o som rouco da velha carrinha da Gulbenkian, a grande janela de outrora.

Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

28 setembro 2015

Programa Rádio Sim 606 – 28 Setembro 2015

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Decisão unilateral
Alberta saiu de casa com a alma pesada. Montou a bicicleta e voou estrada fora perseguida por mil borboletas escapadas dos seus sonhos, há tanto aprisionados. Chegara a hora de batalhar, de obliterar o casamento, qual bilhete caducado, de se libertar. Ganhou coragem e, quando regressou, despojou-se da culpa, como se tivesse esvaziado os armários de toda a inutilidade. Junto às bétulas do jardim, pousou as malas, olhou a casa e, mesmo não sendo decisão bilateral, partiu. 

Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 95 – o máximo de palavras com BTL


Para trás

Chegou aquele canto do que outrora fora um jardim, um espaço de lazer e de descanso!
Revia-se de bibe, subindo e descendo as escadas e a trepar à nespereira para comer o fruto, diretamente da árvore!

A janela do primeiro andar tinha umas cortinas em renda deixando entrar o sol para a sala. Sim, era a sala de costura, de conversas, de leituras e comentários!
Tudo ficou para trás, escondido no bolor das paredes, das nossas memórias!

Ana Maria Santos, 61 anos, Seixal

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Perenidade

Três irmãs e uma casa, unidas pelo múnus, numa aldeia de costumes e primórdios.
A instrução das meninas sem escola, era na Casa das 'Senhoras Mirandas'; as 
irmãs professoras, solteiras e altruístas; na Casa, alva de cal e sol, ou no quintal,

pelas tardes de verão,  sob um confortável dossel de videiras.
Os anos germinaram nos alicerces e nos pertences, mas passadas muitas vidas,
a Casa continua...na neblina ou na claridade.
Sobretudo, na identidade da aldeia.~

Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Blogue das histórias em 77 palavras cresce para bilingue!

Conheci a Paula Pessanha Isidoro quando fez comigo um curso de escrita criativa (e como ela escreve bem!!!). Depois disso, a Paula fez-me uma entrevista de que gostei imenso, que podem ler aqui. Falámos por Skype, a empatia já era enorme, e um dia encontrámo-nos mesmo (a Paula vive e trabalha em Salamanca). Foi um dia incrível!
Daí nasceu a vontade da Paula de pôr os seus alunos de português língua estrangeira a ler e a escrever mais na nossa língua, para lá das típicas tarefas de sala de aula. A ideia foi tomando forma, crescendo e acabou por se transformar num projeto de inovação docente da área de galego e português da Faculdade de Filologia da Universidade de Salamanca (USAL).

Ou seja – o blogue das histórias em 77 palavras será, a partir de outubro de 2015, bilingue! A Paula será a coordenadora da parte espanhola, e contará com a colaboração de vários colegas da área de português, em especial com Jésus del Rey.
Consequências: os desafios do blogue serão traduzidos para castelhano e teremos histórias nas duas línguas, mas também seremos desafiados (eu também!) uma vez por mês com um desafio USAL.
Passamos a ter este esquema:
  • Dia 10 – desafio Rádio Sim, lançado por mim, na nossa parceria com esta rádio e com a querida Helena Almeida;
  • Dia 20 – desafio USAL, lançado nas duas línguas, formulado pela Paula;
  • Dia 30 – um desafio normal das 77 palavras.

Que vos parece? É um novo mundo que se abre!


E, como não há coincidências, o mês de outubro vai ser muito redondinho: teremos o Desafio Rádio Sim nº 30, o Desafio USAL nº 1 e o Desafio das 77 palavras nº 100

Óbvio...

É óbvio.
É bem claro.
É fácil de perceber.
É consequente, extremamente perceptível, coerente.
É só usares lógica e razão.
É tão simples como saltar à corda.
É juntar dois mais dois e tens quatro.
É límpido como água e escorreito como a verdade.
É de uma clareza que por si própria se impõe.
É tão cristalino e transparente que se pode até tornar desconcertante.
E não é sequer novo ou ambíguo, apenas quero poder chamar-te «Amigo»

Maria Teresa Meireles, 53 anos, Vila Nogueira de Azeitão

Desafio nº 71 – frases de 2 a 12 palavras

Entrada por saída

Não sabia se subia as escadas ou se saltava pela janela da loucura quando ia ter com ela. Aquela
correria fazia lembrar os namoros à antiga. A serenata no chão e os vizinhos no parapeito. Guardo saudades dos beijos às escondidas, e do chegar de mansinho de madrugada. A casa ruiu, as escadas caíram e as serenatas calaram-se bem alto nas ruínas. Tomara que a entrada na janela para a loucura ainda nos fosse uma possível saída.

Gonçalo Gil, 18 anos, Lisboa

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Trabalhos

Nada mais fácil, dizia para os seus botões. Nunca tinha estado desempregado. Adorava trabalhar. A sua fama sempre o tinha precedido. Antes de terminar um trabalho, já lhe estavam a propor outro. Não era agora, com um doutoramento concluído, que as coisas se iam complicar! Essas pessoas que não arranjam emprego, coitadas. A mim obviamente não vai acontecer...
E assim se passaram meses. A angústia era avassaladora. A sua famosa auto-confiança tinha-se esfumado. Afinal, nada mais difícil.

Mariana de Carvalho, 34 anos, Leuven, Bélgica

Desafio RS nº 19 – começando em Nada mais fácil e terminando em Nada mais difícil

Viver o vazio

Belo, era belo aquele mar… Adorava ninar ouvindo o marulhar. Olhá-lo era banhar a alma lavando-lhe a mágoa que a devorava. O mar que amava aboliu o bem maior que havia ganho da vida: o amado filho, Amadeu. Viver o vazio deixado era difícil. O mar guardava agora o derradeiro gemido de Amadeu. Mergulhar nele era agarrar o resquício deixado. O resquício do filho amado. Belo aquele mar e enorme a dor lembrada… a dor do vazio.

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº78 – escrever sem C P S T

26 setembro 2015

Zita

De um lar de família restava aquela casa em ruínas. Lá vivera com o único homem por quem se apaixonara, com quem casara há mais de cinquenta anos e tivera filhos.
Aquele sofá ali, rasgado, abandonado. Aquele onde de mãos dadas tinham passado os últimos anos, os últimos minutos de vida. Sim, deixou de viver quando o seu homem fechou os olhos para sempre, quando deixou de sentir a sua mão quente, quando deixou de ouvir “Zita”.

Margarida Leite, 46 anos, Cucujães
Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves


Parecia voar

De xaile preto, grande, a cobrir a cabeça e o tronco, Josefa passava pelas ruas da aldeia num passo miudinho e rápido Parecia voar, em vez de andar. O seu rosto magro desaparecia na negrura da mantilha. Depressa a alcunharam de bruxa. Sim! Fazia feitiços, afiançavam uns; além de ser uma intriguista, asseguravam outros. O certo é que ninguém lhe ouvia fala sobre si ou sobre as outras pessoas, que confirmasse as intrigas das gentes da aldeia.

Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra/Ovar

Desafio RS nº 28 – Josefa, intriguista e bruxa

Viera!

A lua brilhava com clarão enorme a iluminar a rua.
Ouviu a porta a bater. Depois, o silêncio. Alguém entrou ou saiu? Estranho. Não se ouvia um passo, uma palavra ou sussurro que fosse. Terá a porta ficado aberta por esquecimento e o vento fechou-a? Súbito, lembrou-se das palavras dele à tarde e correu para a janela na ilusão de ainda o ver. Apenas viu uma sombra a esgueirar-se para o passeio. Viera! E não falara.

Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra/Ovar

Desafio nº 94com clarão, porta a bater e ilusão

Naquele instante

Nada mais fácil do que dar a vida pelo outro. Alice percebeu que assim era. Agarrada ao irmão gritava:
– Ninguém mata o meu irmão!
As armas apontadas não a faziam separar do irmão. Tomada de uma loucura desmedida repetia cadenciadamente o mesmo grito. Os braços de Alice rodeavam o corpo do irmão coberto pela camisa rasgada, aprisionando-o. Daria a sua vida sem disso ter consciência, assim seria… Soltar o irmão, naquele instante? Não haveria nada mais difícil!

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio RS nº 19 – começando em Nada mais fácil e terminando em Nada mais difícil

Olhando de esguelha

Ainda estava a falar com a recepcionista quando ouvi o meu filho:
– Mamã,  já coloquei os talheres e os pratos na mesa para jantarmos.
Fiquei lívida.
Minutos antes,  telefonara  pela terceira vez, chateada. Não podia acreditar que um estabelecimento como aquele, bem conceituado nas revistas especializadas em aparthotéis, além do elevador avariado, de carência de estacionamento, não tivesse nem talheres nem louça na cozinha.
Nunca compreendi porque, a partir de essa altura, ela me olhava de esguelha.

Mª Angeles Izquierdo, 58 anos, Salamanca, Espanha

Desafio nº 49 – história louca de férias!

Amo!

Adoro o Sol.
Adoro o mar.
Moro num alto.
Gosto de amar.
Gosto de flores.
Amo as crianças.
Amo o Mundo.
Vivo de Esperanças.
Amo os amigos.
Que são leais.
Vivo com todos.
Como os demais.
Amo o passeio.
Amo ter meta.
Amo o recreio.
E a bicicleta.
Gosto da água.
Do seu barulho.
E com calor
Dou um mergulho.
Tenho três filhas.
São meu tesouro.
Só tenho outro.
Também de ouro.
É meu querido.
Doce marido!

Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Desafio RS nº 29 – sempre frases de 3 palavras apenas

Bicampeões

– Amanhã cedo saio de casa, apanho o autocarro e vou embora, vão saber quem  sou eu – disse raivoso.
Durante o percurso, dado que as horas decorriam devagar, mal ia pensando na  sua equipa favorita. Não saber o resultado final era angustiante. Resolveu então parar na aldeia seguinte.
Foi assim que gastou os últimos tostões a telefonar para Lisboa. “Bicampeões!”, gritou.
“E agora? Nem comida, nem alojamento e, o pior, o susto inicial aos pais será ainda maior.

Mª Angeles Izquierdo, 58 anos, Salamanca, Espanha
Desafio nº 15 – com frase retirada de um livro

Frase de: Catorze países em oito dias: um diário de viagem, Luísa Costa Gomes

25 setembro 2015

Programa Rádio Sim 605 – 25 Setembro 2015

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Acreditava
A Liana caiu! Preparava o almoço. Apanhava o feijão. Havia um alçapão. Que pouca sorte! Partiu um pé. Tudo pareceu desmoronar-se. Estava dependente. Doía-lhe o corpo. Também a alma. Não tinha ninguém! A água escasseava! A garganta secava. O pó acumulava-se. Dentro da alma! Penosamente no coração! Não conseguia sacudir-se. A esperança empalidecera! Como iria recuperar? Voltaria a andar? A alma iluminar-se-ia? O mundo sorrir-lhe-ia? Tal como dantes? Acreditava que sim. As sombras passariam! Tinha essa certeza!

Fernanda Costa, 53 anos, Alcobaça
Desafio RS nº 29 – sempre frases de 3 palavras apenas


24 setembro 2015

Programa Rádio Sim 604 – 24 Setembro 2015

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História de Bertolino
Chamava-se Bertolino. Iniciou-se nos estudos de balneaoterapia mas gostava de coisas mais tribales, não ficar o dia todo num laboratório branco com o tabulado de madeira.  Como sempre media  tudo pela mesma bitola, decidiu escrever  um libreto, uma história bestial onde aparecia um lobito timbaleiro, mas foi acusado de libertino.  Finalmente, entrou num bar chamado A BOTELHA e encontrou um bulista reformado muito simpático  que lhe recomendou ouvir as canções dos Tribalistas e relaxar a sua vida.

Jesús del Rey, 46 anos, Salamanca, Espanha
Desafio nº 95 – o máximo de palavras com BTL

Gostas?

– Então? Gostas? Ficava bem na sala. – Na sala? Eu quero no meu quarto. Vou levar hoje à noite. – De certeza que não tem dono? Tão novinho... se calhar é roubado, pensaste nisso? – Não digas parvoíces, quem vai roubar um cadeirão e abandonar no pátio? – Mas não é o nosso pátio, nem o nosso andar, somos ocupas, nada nos pertence, lembras-te? Isso mesmo, vamos levar emprestado esse cadeirão, se alguém precisar, que diga, não é? Fica descansada.

Jesús del Rey, 46 anos, Salamanca, Espanha

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

23 setembro 2015

Programa Rádio Sim 603 – 23 Setembro 2015

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É assim!
Tomo o pequeno-almoço. Só, como sempre. Quero-te de volta. Porquê, não sei.
É precisamente assim. Questionar-me, para quê? São perguntas inúteis. Sobretudo sem nexo.
Sociedade sem futuro. Nada é saudável. Alteram-se os dias. E lentamente crescemos. Querem-nos mais fortes. Por que causa? Nunca o saberemos. Temos suspeições infundadas. Calamo-nos por receio. Impõe-se ter cuidado. Tememos ser mutilados. Receamos ser deportados. E a revolta? Somos sempre menos.
Cansamo-nos de lutar. Desistimos dos porquês. Por isso, morremos. É assim!

Quita Miguel, 55 anos, Cascais
Leiam outros textos aqui: http://quitamiguel.blogspot.pt/
Desafio RS nº 29 – sempre frases de 3 palavras apenas

Chico Ardina

Roubaram  ao Chico Ardina
A sua sacola amada,
Antiga mas valiosa
Tinha uma obra sagrada!

A sacola maltrapilha
Tinha lá  muito valor,
Uma vida labutando:
Suor, amargura, amor!

Jurou vingar no vadio,
Toda a raiva, furibundo,
Ia à procura,  procura,
Atacá-lo ao fim do mundo!

Mas amigos avisaram
Do gatuno já sabido,
Amainou a sua fúria
Ao dar com todo o artigo!

No ladrão viu amargura,
Não praticou a vingança.
O idoso abandonado
Fora assim quando criança! 

Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante
Desafio nº 86 – Chico ardina sem E


Fim

Para mim deixou de haver amanhã. Os móveis foram doados, a poltrona ficou sem serventia, destroçada. Nela, Emília foi pedida em casamento, descansou, mal regressou das núpcias, sentiu as dores de parto, amamentou a filha, observou-lhe as brincadeiras, chorou, riu, morreu.
Eu e ela. Abandonadas, nós que testemunhámos tanta vida. Encostado a mim, como um espectro, José nem se apercebe que tudo tem um fim. O Alzheimer permitiu-lhe esquecer as perdas. Vai partir para o lar. Inevitável.

Ana Paula Oliveira, 55 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Para ler o texto original, siga por aqui: http://livro-leitor.blogspot.pt/2015/09/fim.html

Obrigada eu, Amélia!

Tudo começou com um fantástico Workshop que aconteceu numa ilha distante. Não imaginava o que me iria acontecer ao conhecer a nossa querida Margarida. Naqueles dias mergulhei na magia das palavras que até então não tinha percebido. Os desafios fizeram-se uma constante. Daí a ficar viciada foi um pulo. Descobri um blogue, uma escritora fantástica e tornei-me dependente. A cada dia que passa mais me enrolo nas palavras, costurando os desafios. Essa magia ensinou-me a Margarida. Obrigada!

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 77 – texto sobre o blogue


Ainda hoje

Uma casa desbotada pelo tempo, que se assemelha tanto a uma outra onde ainda pulsa o amor. Não é que seja habitada mas, volta e meia, enche-se de animação sobretudo na noite de Natal, onde a mãe, pessoa muito idosa, congrega à sua volta três gerações. Foi sempre uma casa cheia, onde a par da alegria e do bulício, momentos de infortúnio houve que foram superados com elevação. Ainda hoje o sorriso acolhedor da mãe opera milagres.

Emília Simões, 64 anos, Algueirão-Mem-Martins

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Ilha dos Velhos Pescadores

Na maré vazia apanhava o isco e vazava-o no balde.
Depois, entusiasmado até aos ossos, lá ia para o molhe do Vazadouro. Lançava as canas, acendia uma cigarrilha,  esperava…
Uma vez não voltou. Os amigos, no meio de enorme vozearia, procuraram, chamaram… mas só as tralhas estavam no molhe. Do Vaz, nem sinal.
Dizem que o mar, vezeiro nestas maldades, o levou na vazante.
Talvez… mas uma sereia o salvou. Vive agora na ilha dos Velhos Pescadores.

Domingos Correia, 57anos, Amarante

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

A ladra

– Sua malvada, apanhei-te!
– Por favor, solte-me...
– Por favor nada. Sempre a roubar... não aguento mais!
– Foi só uma...
– Isso foi hoje. Quantas foram ontem? Não me respondes? És muito sabida... mas eu dou-te. Ah se dou!
– Pela sua mãezinha... tão boa senhora. Dava-me sempre algo.
– Por isso mesmo! Acabou-se a mordomia.
– Era para comer... não me perdoa?
– Se te emendasses
– Prometo, gentil senhora. Nunca mais roubo. Palavra de raposinha.
– Quero ver isso...
– Prometo, Dona Ursa. Nunca mais...

Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

Desafio RS nº 29 – sempre frases de 3 palavras apenas

22 setembro 2015

Programa Rádio Sim 602 – 22 Setembro 2015

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O Motorista do 77
Pela manhã, corria para a paragem à espera do 77.  Só para o ver! Quando entrava, e a porta batia atrás de si, e o motorista lhe sorria, um clarão acendia-se na sua alma. Pagava os 77 cêntimos da viagem… e ficava a tremer, coração a saltar…
A cada travagem, a cada viragem de direção, sonhava, sentindo-se aconchegada no colo do motorista… inocente ilusão!
Talvez não!
Acabaram a viver juntinhos no n.º 77 da rua da Estação!

Domingos Correia, 57 anos, Amarante
Desafio nº 94com clarão, porta a bater e ilusão

Memórias alheias

Paro neste semáforo diariamente e é inevitável! O seu estado leva-me para os anos 50. Imagino a família abastada que ali vivia: o pai, homem de negócios, a mãe, cuja profissão seria só essa, os filhos, muitos... meninas envergando vestidos de cetim com lacinhos e um considerável número de empregados.
O sofá degradado que ali permanece convence-me que saíram inesperadamente.
Quanto doerá a cada um desses personagens o abandono real desta casa?
O semáforo ficou verde...volto amanhã!

Vera Viegas, 31 anos, Lisboa

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves