31 maio 2016

Café com Letras 4

4 - Partindo de frases impostas

O desfile

Antes do prólogo do desfile começar, o palanqueiro  deplorava aqueles plantígrados que devem andar em saltos altos numa plataforma desigual e nos tons prevalecentes do prelúdio de Bach. Uma pilha de pulverizadores serviu como cenário, atrapalhavam-se os convidados malparados. O estilista Ralph, e também livre-pensador, recusou uma passarela clássica. A sua colecção resplandecerá sem o resplendor dum ambiente de luxo plenário. Então, não esquisito, entre os convidados encontravam-se algumas limpadeiras da sala e suas proles.

Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 107 - 10 palavras com PLR

P 765 – 31 Maio 2016

o programa em podcast na Rádio Sim

Mágica
Pensando em usar poderes ocultos na sala de aula – levantar a sobrancelha e todos sentarem, levantar os braços, como o maestro, e emudecerem. A palavra “atenção” faria com que aprendessem imediatamente a lição passada em seguida. “Escrevam” teria o poder de transformar alunos em escritores.
E, se levantasse a sobrancelhas, levantasse os braços, dissesse “escrevam” e mostrasse com os dedos o número “sete” por duas vezes, as redações apareceriam automaticamente perfeitas e em setenta e sete palavras.

Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, DF
Desafio Escritiva nº 6 – poderes mágicos no corpo

O julgamento

O réu não dissera uma palavra até aí, ouvindo o que o juiz estava a proclamar com ar profissional. O advogado de defesa, o meu opositor, tentava atrapalhar o discurso, fingindo-se prestável. 
Mas eu bem sabia o que ele andava a planear. Via a grossa veia da sua têmpora a pulsar vigorosamente enquanto este observava o seu campo de batalha predileto.
Contudo, não é fácil explicar que ali muitos pensamentos traiçoeiros proliferavam entre os meus ingénuos colegas.

Inês Leitão, 12 anos, Porto

Desafio nº 107 - 10 palavras com PLR

Fada ou bruxa?

Com o nome inspirado em um conto de fadas, Rapunzel, preliminarmenteparecia uma garota comum. O olhar lânguido, jamais denunciaria o que planejara, seu advogado acusara um larápio qualquer do acontecido, mas ao preâmbulo do processo um testemunho afirmara que o relicário roubado portava um diamante gigante e as digitais dela. Não haveria parcialidadePlagiar o mesmo era impossível. Não adiantaria replicar. Nem tão pouco limpar marcas.
Nada, nem qualquer palavra a salvaria! Nem suas longas tranças!

Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Extremo Norte do Brasil

Desafio nº 107 - 10 palavras com PLR

Leviandade

A tua demonstração de leviandade está a ser convincente!
Que descaramento!
Tenho uma sensação de nostalgia de quando eras sensata, tinhas um brilho singular, rosto pálido e ingénuo.
Achas que és um deslumbramento?
Podias desfrutar da vida, ter uma postura adequada, ser uma figura incontornável da nossa sociedade!
Para não te desmotivares segue no encalço de uma madrugada romântica, deixa-te de desculpas esfarrapadas.
Deixa o sedentarismo age com desportivismo.
Domesticar na penumbra, pensativamente, ardilosamente, rir às gargalhadas.

Cristina Lameiras, 50 Anos, Casal Cambra

Desafio nº 106 – palavras com M T D S R O (neste caso, sem ordem alfabética)

O lápis adormecido

Inesperadamente, o lápis rolou deslizando pelo seu regaço. Atento, sem que ela visse, apanhou-o e, discretamente, escondeu-o dentro do sobretudo. Há algum tempo que a observava. A leitura do livro era acompanhada de pequenas notas. Viu-a pousar o livro enquanto procurava o lápis. Precipitadamente, ela entrou no autocarro que acabara de chegar. Não podia perdê-lo. Não tinha outro transporte. Anos mais tarde, o destino juntou-os. No primeiro aniversário, ela encontrou o lápis adormecido no seu livro preferido.

Desafio RS nº 37 – o lápis caído no chão

Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Falta de Material

Eu tinha um lápis único! Ninguém na minha escola tinha um igual. Mas, certo dia, caiu da minha secretária e rebolou até outra. Quando percebi, deixei de o ver. Fiquei tão triste!… Nesse mesmo dia, um miúdo viu o meu lápis e, com alguma inveja, ficou com ele. Passaram dias… Devido às faltas de material, pedi um emprestado… e não é que foi o meu que me foi dado??!! Fiquei tão magoado!… Mas feliz por recuperá-lo!   
André Ribeiro, 11 anos, Colégio Andrade Corvo, Torres Novas, prof Maria Nicolau
Desafio RS nº 37 – o lápis caído no chão

Quem sabe?!

Como seria o mundo se todos fossem honestos, sinceros, solidários e outras coisas mais. Percebo que as pessoas, muitas vezes, só por ameaça de serem descobertas ou, pela possível sanção, são corretas! Se tivesse que inventar algo? Fácil! O ser humano seria transparente e todas as suas atitudes menos boas causariam um efeito colorido no corpo. Os mentirosos ficariam vermelhos. Os corruptos, laranjas, etc. As pessoas esforçar-se-iam para serem melhores? Quem sabe?! Pois, mas… e a liberdade? 

Desafio Escritiva nº 8 - invenção que muda o mundo

Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

30 maio 2016

EXEMPLOS - desafio nº 107

O pastel de feijão
A fila na pastelaria não parava de crescer. Responsável por tanta correria e tanta clientela era uma réplica da descoberta feita pelo pasteleiro chefe. Assistiu a uma palestra e de imediato se lembrou de publicar o seu livro de receitas. Na vitrine, um exemplar de capas elegantes e letras em dourado, resplandecia sob a luz de uma lamparina. Pregado no avental com uma presilha, podia ver-se a proclamação da arte que o fez famoso: pastel de feijão
Alda Gonçalves, 48 anos, Porto

Limites
Perplexa, a velha senhora zurzia com repulsa o orador: Que parlapatice!
Habituada que estava a palestras com sumo e muita consistência, os pergaminhos académicos de que era reconhecidamente detentora, aliada à capacidade de análise, não se compadeciam com tais dislates. O homem palrava, mas nada dizia.  Bem que não queria implicar, não era de sua feição, mas paralelamente ao peremptório desígnio, em menos de um relâmpago, decidiu e desligou o televisor!  Preferível, publicar a sua ira.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Resolução inadiável
O miúdo, descarado, disse um grande palavrão.
Mas que palerma!
Eu não podia protelar uma repreensão! Subi as escadas, mas alguém me estava a impulsionar para desistir.
Nem pensar!
Continuei, entrei na direção, tive o privilégio de encontrar o diretor, que me deu atenção.
A mesa, paralelepipédica, ajudou a resolução.
O aluno era mesmo um trapalhão. Todas as palavras que dizia eram repelentes. Era bem conhecido!
Os pais já lhe tinham dado umas boas lamparinas.
Assunto encerrado!
Ana Lucas, 14 anos e Rui Rodrigues 13 anos – Alcobaça t

O larápio
Em noite de trovoada,
Com relâmpagos no ar,
Era uma casa assaltada
Por um larápio pilhar!

A luz era a lamparina
Do clarão da trovoada,
Ele partia a vitrina,
Agarrava e levava!

Levou uma aparelhagem,
Seguia todo lampeiro,
Para fazer a paragem
Adiante num palheiro!

Ia a passar a patrulha
Que já tinha trabalhado
E o palerma, trafulha,
Ficou logo aparvalhado!

Atirou com os proventos,
O ladrão atrapalhado ...
Deixou os seus documentos
Com o produto roubado!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

O Namorado Jornalista
Pérola e Priscila arte apreciavam.
Em uma das suas visitas ao Museu por temporal foram surpreendidas.
Relâmpagos e trovões sem palavras as fizeram ficar...

Ao sair, a água já a escadaria cobria...
Para o táxi fizeram sinal.
O palerma do motorista numa poça parou.
O sapato encharcado ficou.
Isto para a saúde seria prejudicial.
Priscila escorregou, pareceu "planar"
O seu nariz esfolado ficou...
Seu namorado  jornalista
Queda no jornal fez publicar.
Priscila enorme repulsa por ele sentiu.
Verena Niederberger, 65 anos, Rio de Janeiro, Brasil

O pilantra palharesco parolara a deplorável pilhéria de pabular-se paneleiro, como plagiador de aplacentário, e nominava-se Haplódero.
Mau pelejador, o apalermado ropalócero gostava de implicar com o pilador sempre que este, na plataforma do cagaço, o fazia apular o pilífero piliforme como se ele fosse replaino de palavras.
No placard, o falso Péricles explorava o plenário com a imagem de um pelargónio em forma de plastrão, implorando, assim, ao povo para não o espadelar com palavreado dipolar.
Fernando Morgado, 60 anos, Porto

O fim
Há muito que andava a protelar a conversa. Sabia que seria considerada responsável pela separação. Mas não adianta prolongar uma relação onde o principal sentimento é imperceptível, quase nulo.
E quando, numa relação, as palavras são nulas, é preferível o fim. Embora pudesse implicar a destruição de sonhos partilhados, havia a probabilidade de continuarem amigos. 
Agradecia o privilégio de amar e ser amada, mas chegou a hora de dizer adeus, de cada um seguir o seu caminho.
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

O milagre? 
 De vestido vermelho, lábios encarnados e pálpebras prateadas, saiu à rua. Sentia-se espectacular. Se os santos populares faziam milagres, ia conhecer o bonitão. Com palavras atrevidas, faria o coração do rapaz palpitar. Mais tarde, no quarto, partilhariam um cigarro sensual.
palerma do vizinho aproximou-se. Tinha estado a polir os sapatos. Não estavam brilhantes? Ignorou-o. O bonitão? Com umas loiras… Era um rapaz plural. Como o vizinho não a largava, toca a responsabilizar o santo. O milagre?!
Margarida Leite - 47 anos - Cucujães

Bem, nem imaginas!, o tipo fez parelha com aquele amigo maltrapilho que parecia leproso, lembras-te?, e puseram-se os dois tolos naquele estrado de madeira, armados ao pingarelho! Um vestia uma farpela horrorosa em tons de verde pálido e o outro, espertalhuço, palrava tanto que parecia o trovão depois do relâmpago. O que vale é que já ninguém ligava àquele parlapiê. E eu assim que pude fugi dali, não sem antes atirar-lhes para cima uns pozinhos de perlimpimpim.
Fernanda Gomes, 47 anos, Lisboa

Quando te vi pela primeira vez, estavas a pedalar naquela ridícula bicicleta a condizer com as tuas alpercatas. Fiquei ali, a ver-te como que paralisado! Mostraste logo a tua personalidade: “Nunca viste, ó Parolo?!” A minha atrapalhação fez-te rir e não
reparaste no pedregulho onde foste embater. Tu e o teu saco cheio de alperces voaram e espalharam-se no chão. Rematei: “Quem é a parvalhona agora?” E foi desta forma peculiar que o nosso louco amor começou.
Silvina, 45 anos, Sintra

Amor incondicional
Quando chegou à ilha, relampejava incessantemente… na confusão do porto, pelintragem e larápios, segurava a sacola com zelo. Sem protelar, perguntou, até alguém, atrapalhadamente, lhe indicar a casa…
Entrou. Ergueu a lamparina. No chão, trapalhos espalhados. Num canto, uma silhueta… parecia uma maltrapilha. Olhou-a… estava leprosa. Mesmo assim, calçou-lhe o sapato guardado na sacola. Perfeito! Era ela, sem dúvida… Vira-a uma vez, porém, apaixonara-se incondicionalmente. Queria falar-lhe, faltavam-lhe palavras.
Então, ficou ali, ao seu lado, em silêncio… 
Domingos Correia, 58 anos, Amarante

Priscila, candidata a miss.
Desfilava na passarela, sempre de olho no placar que perto dela podia ver.
Uma das juradas estava com ela a implicar e vinha a réplica, tréplica. Cada desfilada um olhar prejudicial sentia.
Parecia uma pólvora.
Palavra certa para aquilo: medo. Queria o prêmio e o rico colar de pérolas oferecido.
Jurados atentos. Hora de publicar votos!
Priscila venceu por maioria mas perdeu a pose. Foi até a jurada, arrancou-lhe a peruca...
Foi eliminada!
Chica, 67 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

Emoções positivas
Na estrada da fé, quebrantada pela experiência, repleta de amor.
Emoções positivas, afeto de um abraço, expansão das palavras.
Contemplar silêncios era flor que respirava esperança.
Nobreza, esplendor que mostrava maturidade.
Humildade, vestida de plural coragem.
Na plataforma dos sonhos, não eram suplantados.
Planejaram tornam o agradecer mais fácil do que reclamar.
Nem a agressão irá aplaudir a tristeza.
Outrossim, os sonhos voam rápido, vão na frente do plenário.
Simplórios, tornam-se o quádruplo do que fora planejado.
Renata Diniz, 40 anos - Itaúna/Brasil

Vencedor
– Entra! – ordenou Policarpo, a partir da poltrona.
As pálpebras tremiam-me, ao mesmo tempo que o seu palavreado predileto preenchia o ar, achincalhando-me, impedindo-me de pleitear. Sentia-me como se estivesse no pelourinho, sob o olhar penetrante do julgamento.
«Desta vez, não vou ouvir calado», pensava, porém a boca permanecia fechada.
Quando, por fim, se calou, encolhi os ombros, soltei um palavrão e atirei com a porta. Palavras para quê? Estendi-me à sombra da palmeira e, sentindo-me vencedor, sorri.
Quita Miguel, 56 anos, Cascais

Calçou as alpercatas, planeara encontrar-se com ela no pereiral.
perplexo, admirava a escrupulosa agilidade com que uma pardaloca,
construía o seu ninho, com a ajuda do pardal.
Viu-a chegar na lambreta, e a sua personalidade forte
deixava-o atrapalhado.
Encheu-se de coragem e, debaixo da palmeira, quis dizer-lhe
tudo, mas sabendo fugir-lhe as palavras,
sentiu-se mais uma vez um pelintra.
Pensou: Não passo de um perfilhado,
o nosso perfil não se encaixa.
Ela nunca vai ser como a pardaloca.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Fada ou bruxa?
Com o nome inspirado em um conto de fadas, Rapunzel, preliminarmenteparecia uma garota comum. O olhar lânguido, jamais denunciaria o que planejara, seu advogado acusara um larápio qualquer do acontecido, mas ao preâmbulo do processo um testemunho afirmara que o relicário roubado portava um diamante gigante e as digitais dela. Não haveria parcialidadePlagiar o mesmo era impossível. Não adiantaria replicar. Nem tão pouco limpar marcas.
Nada, nem qualquer palavra a salvaria! Nem suas longas tranças!
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Extremo Norte do Brasil

O réu não dissera uma palavra até aí, ouvindo o que o juiz estava a proclamar com ar profissional. O advogado de defesa, o meu opositor, tentava atrapalhar o discurso, fingindo-se prestável. 
Mas eu bem sabia o que ele andava a planear. Via a grossa veia da sua têmpora a pulsar vigorosamente enquanto este observava o seu campo de batalha predileto.
Contudo, não é fácil explicar que ali muitos pensamentos traiçoeiros proliferavam entre os meus ingénuos colegas.
Inês Leitão, 12 anos, Porto

Antes do prólogo do desfile começar, o palanqueiro  deplorava aqueles plantígrados que devem andar em saltos altos numa plataforma desigual e nos tons prevalecentes do prelúdio de Bach. Uma pilha de pulverizadores serviu como cenário, e atrapalhavam-se os convidados malparados. O estilista Ralph, e também livre-pensador, recusou uma passarela clássica. A sua colecção resplandecerá sem o resplendor dum ambiente de luxo plenário. Então, não esquisito, entre os convidados encontravam-se algumas limpadeiras da sala e suas proles.
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia, Bélgica

Um dia chuvoso pinturilava a sua alma inquieta. Acordara tarde e, para complicar, o canalizador só podia completar o serviço naquela manhã. Com o coração a palpitar, desceu a serra do Pilar. De pernil à mostra, Ezequiel, o palrador famoso do bairro, com um percentil anormal, barrou-lhe a estrada. Um palavrão acompanhou o susto. Iria continuar sem água, pois Ezequiel planeara viajar. Planificara e nada dava certo. Acordou em sobressalto, ouvindo: desculpe, esta é a última paragem!
Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Ouvia-o falar num palavreado infernal. Parecia um rapa-línguas, saído de um mundo paralelo, palreando sem sentido nem propósito! Eu, sentada na minha poltronarecapitulava os disparates e cismava paralisada – Como é possível este lorpa debitar tanta palermice?
Procuro a paciência que me falta e, num lampejar de sanidade, concluo que é melhor manter-me calada.  O melhor mesmo é deixar que o homem continue e pense que sou uma idiota, do que falar e acabar com a dúvida!
Sandra Évora, 43 anos, Sto. António dos Cavaleiros 

Palermices
Olá, eu sou a Clara e vivo em Espanha.
Quando vim para Portugal, fui conhecer principalmente os museus.
Fiquei paralisada sem dizer uma palavra, nem me mexi... não fiz nada!
Quando já tinha visto tudo, fui à papelaria do museu.
Lá, encontrei a minha prima Ana Maria e partilhei com ela o meu lanche.
Contei-lhe que no museu havia duas partículas paralelas muito estranhas que tinham sidoplaneadas pelo arquiteto Paralelo.
Começamos a rir com aquela palermice.
Carolina, 10 anos, prof Ana Lúcia Agostinho

Tudo seria tão fácil
Após palmilhar sob a bruma que envolvia o pinheiral, sentei-me no chão repleto de folhas secas como se fosse uma poltrona.
Os melros palravam uma prolongada sonata. Inspirei-me, começando a compilar ideias mesmo sem sentido, singular ou plural.
Tinha-me comprometido publicar uma pequena história, apenas setenta e sete palavras.
Essa história iria juntar-se a muitas outras num enorme livro que seria distribuído pelo mundo.
Objectivo, aliviar as necessidades das crianças refugiadas.
Secar-lhes uma lágrima! 
Proporcionar-lhes um sorriso!         
Rosélia Palminha, 68 anos, Pinhal Novo

Rapel
As crianças estavam a pular de alegria. Reuniram o material e despediram-se lampeiras. Seria um passeio e tanto. Mais uma aventura radical – um rapel.
A mãe não quis polemizar. Logo voltariam, não precisaria apelar e não carecia pelejar. Voltaram cansados e molhados e com o carro enlameado.  Precisavam limpar e polir muita coisa e curar o resfriado após a chuva que caíra durante a descida.
Encostou-se ao pilar ao ouvir esta pérola: – O próximo esporte será um rafting.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

A noite estava calma e eu, fanática por futebol, assistia à final do campeonato. Já na fase do prolongamento, com a minha equipa a vencer, comecei a planear a celebração. Mas, o palerma do árbitro decidiu expulsar um defesa e só me apeteceu espalmar o idiota. Nesse momento, vi um relâmpago e a eletricidade falhou. Aos apalpões, peguei numa lamparina e acendi-a para descomplicar o caso. Mas, tudo parecia atrapalhar e sentada na poltrona, adormeci mesmo profundamente.
Sara Catarina Almeida Simões, 28 anos, Coimbra

A Palestra
Estava tudo a ser preparado para a palestra. As pessoas limpavam e poliam. Era a palestra da Dona Palmira e ia ser junto a um pilar que ficava junto de uma plataforma. Estava lá Portugal inteiro. Foi então que toda a gente começou a pular. A Palmira irritou-se, deu um pontapé no pilar, magoou-se e disse um palavrão. Foi para o hospital e deu-se assim por encerrada a palestra. Aquela foi a palestra mais palerma.
Beatriz Costa, 6º ano, Colégio Andrade Corvo, Torres Novas, prof Maria Nicolau

Boneca de Porcelana
Debaixo dum sol resplandecente, Soraia sentiu um arrepio.
Parecia uma boneca de porcelana desprevenida no meio da multidão.
O seu peculiar retrato enfeitava paragens de autocarro.
Tinha uma personalidade particular, excessiva por vezes, simplória, inconfundível na sua tagarelice.
Paralisada pelo medo obscuro, proclamava com imprudência e ressentimentos que o seu portfólio era do melhor.
Parecia uma ovelha tresmalhada, irrequieta com o seu triunfo, desencantada com a realidade da vida.
Onde entrava, magnetizava o ambiente, ficando todos em silêncio.
Cristina Lameiras, 51 anos, Casal Cambra   

O senhor Peralta saiu todo aperaltado. Tinha um encontro! Para prevenir a repulsa da companheira desconhecida, passou pelo salão para um tratamento capilar, o que lhe deu um ar mais cuidado. Na sua mente, proliferavam ideias! Mas não as palavras certas! Insuflava a cada respiração, receando rebentar a pleura. Pensava protelar o encontro, mas oportunidades assim não se devem repelir. São oportunidades singulares, não plurais! Desdenhar seria idiotice? Ele não, não se poderia dar a esse luxo!
Fátima Fradique, 42 anos, Fundão

Naquela estação
Lembro-me daquela plataforma de estação.
Sem planejar, apenas olhares cruzados sem palavras com uma dama.
Um proletário, na sua faina perto de completar sua tarefa diária, era exímio plantador de rosas e transplantador de plantas exóticas. Viu aqueles olhos verdes lindos a contemplarem suas rosas e seu rosto. Imaginou ser algum mal-entendido, virou de costas.
Ela o tocou suavemente, de perto seus olhos pareciam pedras preciosas, ele sentiu explodir seu coração. Era Cupido a aplicar suas artes.
António Tomaz, 60 anos, Salvador-Bahia, Brasil

Minueto para acantilados
Placer no basta para aprovechar sinfín el tiempo que contienen los sonidos, sino el mar. Vientos inaudiblesarpas calladas, rocas que yerguen trampolines o magias. Esplendores de sirenas, vesanias de marinos, oleajes ahora que atavían al crepúsculo estancias planetarias a vista de aeroplanos. Perplejidad: un pecho que mata su demora, proclive al aire ya repleto porque es voz. Son de arrecife salpicando los pies por donde el corazón escapa. Placer no basta, no basta sino el mar.
José Ignacio M.G., 57 años. Valencia de Alcántara, Cáceres, España.

Ele costumava apalhaçar as conversas quando se sentia nervoso. Levava-a a jantar, caldeirada de lampreia, com vinho de Palermo e como sobremesa mousse com praliné. Ela sentia-se palerma por não resistir a olhar para o réptil desenhado no pulôver dele – dava-lhe um ar plural, que não se dissipava com o queijo Provolone que acompanhava o fim da refeição. Fazia-a lembrar Pirulito, o cão da vizinha, que tinha um olhar tão meigo que dava pena não fazer festas.
Filomena Afonso Mourinho, 43 anos, Serpa

Aplacar a fúria dos manifestantes consistia em provocar uma paralisia dos parlamentares que discursavam sempre palavrosamente, preferindo pluralizar os problemas em vez de os debelar. O pobre proletariado, face a uma prolixa doutrina de atos inconsistentes, acautelou os meses seguintes, tomando uma providencial medida: impedir os políticos de trabalhar mais de oito horas e pesar mais de oitenta quilos. Deviam ser eles a pulverizar as plantas. Perante isto, o povo começou a palitar os dentes com satisfação.
José Jacinto Pereira Peres, 44 anos, Castro Verde

Ao crepúsculo deu-se finalmente o lançamento. Apesar de apelar para que fossem cuidadosos, lá se foi o foguetão! Quem vamos culpar?
Provavelmente o António que verificou o aparelho e andou a espalhar elogios. Todos aplaudiram a sua atitude, apesar de ter “atropelado” o seu superior, que é um ser desprezível e o difamou, colocando em causa as suas capacidades técnicas.
Quando o António se apercebeu, ficou num estado deplorável. Como é que ele vai escapulir desta alhada?
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo (Alentejo)

Não digo palavrões, particularmente quando acompanhado. Nisso não alinhava com o Policarpo e o Apolinário. Coitados, lerparam novos e de formas peculiares. Um, encostado ao espaldar da cadeira, conversava com o chefe e ficou a meio de uma frase. O outro ia colher um repolho no quintal. Calçava alpergatas, tropeçou, caiu e foi desta para melhor.
Bons compinchas, sempre bem dispostos… Recordo uma frase “lapidar” que repetiam frequentemente. Mais vale rico e saudável que pobrezinho e doente...
Regina Gouveia, 71 anos, Porto

Eu sou especial. Tenho no meu quarto um cofre de pérolas vindas dos mares do Sul e um portal que me leva ao mundo mágico da fantasia. Lá costumo plantar pulmonáriaspublicar livros de puericultura prolongar os meus almoços com a Rapunzel e o Pinóquio. Mas eles não me compreendem e gostam de me complicar a vida com palavras desconhecidas, aborrecidas, inventadas e personalizadas. Por isso, não passo lá muito tempo e regresso ao meu quarto.
Sofia Caetano (11 anos) e Maria Azenha (9 anos), Sintra

Talvez não saibas o quanto te amo, apesar de to ter demonstrado de todas as formas perceptíveis pelos sentidos humanos.
Contudo, tu nem vislumbras a minha pessoa.
Porque é que não consegues valorizar e estimar quem te ama verdadeiramente?
Era a mim que deverias amar!
Não sei se padeces de cegueira absoluta, surdez crónica, carências olfactivas, insensibilidade táctil ou problemas gustativos. Ou, simplesmente, tens o coração congelado e o cérebro petrificado com cimento.
Homens... que espécime complicado.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Eu acreditava que conseguiria combater sempre o amor, que nunca poderia proliferar. Tinha repulsa por amar, que já me fizera sofrer... até que apareceste; senti o coração pulsar dentro do peito.
Sentia-me palerma, por ceder a sentimentalismos repelentes que me complicariam a vida. Eu tinha que ultrapassar dificuldades... tolerar o romantismo seria inútil como dar pérolas a porcos.
Mas, tu venceste as minhas resistências.
As palavras que uso para descrever são plurais, o sentimento é singular. Amo-te!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto