30 junho 2016

Um amor diferente

Era uma vez uma cadela que vagueava pela rua e ouviu um choro vindo de uma caixa abandonada numa ruela. Aproximou-se devagar e abriu-a com cuidado. Era um bebé. A cadela, com pena da criança, decidiu levá-la para casa da sua dona. Assim que viu a caixa começou a discutir mas quando viu o bebé decidiu cuidar dele. A cadela ajudou a cuidar da criança que ia crescendo, feliz, e nunca descobriu qual a sua verdadeira identidade.

Laura Pozas e Miriam Acosta, IES Profesor Hernández Pacheco, Cáceres

Enfim, o silêncio

Hora de reformas na casa. 
Paredes quebradas, fiação, encanamentos.
 Para a etapa final, contratado pintor que do alto da escada, a cada pincelada, cantava desafinado, dançando no ritmo.
Dava vontade de vê-lo longe, pois até da esquina se podiam ouvir seus guinchos.
Todo empolgado cantava.  Fazia grande sujeira.
De repente, no alto da escada trancou sua roupa num gancho.
Lá de cima caiu, ficou desmaiado.
Pior: a casa com pintura pela metade!
Mas o silêncio fez bem!
Chica, 67 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Desafio nº 108 - 6 palavras que originam outras 6

Ponto de Partida?

Apetece-me suspender as gotículas de suor, não deixar o meu corpo amolecer e embrutecer.
Partir…
Esta fúria impotente, dúvidas, receios gratuitos não são desconhecidos para mim.
Os momentos depressivos são uma amarga verdade…
Quero silêncio, compensar o esforço do trabalho, equacionar a fuga para a frente.
Introduzir algumas roupas numa mala, seguir na carruagem da vida.
Farta de somar e subtrair…
Os meus pensamentos sangram numa espiral irritada, segue-se o apocalipse.
Ponto de Fuga?
Ponto de Partida?
Cristina Lameiras, 51 anos, Casal Cambra

Desafio RS nº 38 – a matemática dos dias

Recordar

CANTOR – MÚSICA
ENTORNOU – BEBEU
PINTOR – PINCEL
CONTENTOR – PESO
PERENTÓRIO – EXIGENTE
ENTORPECIDO – GASTO

EXIGENTE consigo próprio,
várias vezes pegou no PINCEL,
mas acabava sempre por reprovar 
os rabiscos que ia fazendo.
Ela sempre dizia:
– Está lindo amor, eu gosto.
Todas as tardes, sentado no jardim,
BEBE o seu drink, ao som 
da suave MÚSICA da Rádio Sim.
Carrega sobre si o PESO da idade,
e a memória, já um pouco GASTA,
foi esquecendo como, em tempos,
era um grande artista.
Mas algo recordava,
quando um sorriso
lhe iluminava o rosto.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Desafio nº 108 - 6 palavras que originam outras 6

Gosto de cantar

cantor - pai
pintor - avô
detentor - pai
redentor - Jesus
inventor - Deus
extintor - Mestre

Sou cantora amadora, herdei do meu pai o dom de cantarolar. 
Foi quase um profissional – cantou na Rádio Nacional extinta e ultrapassada em áureo século. 
Foi também pintor junto a meu avô paterno, detentor de paz e alegria interiores. 
Meu Redentor me faz cantar, hoje em dia, com garra, distribuindo seus louvores aos que me cercam. 
Ele é Inventor da minha felicidade mesmo sem motivos aparentes. 
É também o Extintor da tristeza acumulada... 
Louvado seja meu Deus!
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Desafio nº 108 - 6 palavras que originam outras 6

EXEMPLOS - desafio nº 108

Enfim, o silêncio
Hora de reformas na casa. 
Paredes quebradas, fiação, encanamentos.
 Para a etapa final, contratado pintor que do alto da escada, a cada pincelada, cantava desafinado, dançando no ritmo.
Dava vontade de vê-lo longe, pois até da esquina se podiam ouvir seus guinchos.
Todo empolgado cantava.  Fazia grande sujeira.
De repente, no alto da escada trancou sua roupa num gancho.
Lá de cima caiu, ficou desmaiado.
Pior: a casa com pintura pela metade!
Mas o silêncio fez bem!
Chica, 67 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

cantor - pai
pintor - avô
detentor - pai
redentor - Jesus
inventor - Deus
extintor - Mestre

Gosto de cantar
Sou cantora amadora, herdei do meu pai o dom de cantarolar. 
Foi quase um profissional – cantou na Rádio Nacional extinta e ultrapassada em áureo século. 
Foi também pintor junto a meu avô paterno, detentor de paz e alegria interiores. 
Meu Redentor me faz cantar, hoje em dia, com garra, distribuindo seus louvores aos que me cercam. 
Ele é Inventor da minha felicidade mesmo sem motivos aparentes. 
É também o Extintor da tristeza acumulada... 
Louvado seja meu Deus!
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

CANTOR – MÚSICA
ENTORNOU – BEBEU
PINTOR – PINCEL
CONTENTOR – PESO
PERENTÓRIO – EXIGENTE
ENTORPECIDO – GASTO

EXIGENTE consigo próprio,
várias vezes pegou no PINCEL,
mas acabava sempre por reprovar 
os rabiscos que ia fazendo.
Ela sempre dizia:
– Está lindo amor, eu gosto.
Todas as tardes, sentado no jardim,
BEBE o seu drink, ao som 
da suave MÚSICA da Rádio Sim.
Carrega sobre si o PESO da idade,
e a memória, já um pouco GASTA,
foi esquecendo como, em tempos,
era um grande artista.
Mas algo recordava,
quando um sorriso
lhe iluminava o rosto.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Cantor - festa
Pintor - criatividade
interventor- convicção
contentor- cofre
extintor- fogo
detentor- verdade

Joana julgava-se dona da verdade e do seu nariz. Seria necessário muita criatividade e convicção para a desarmar. Só a avó a enfrentaria revelando o seu diário mas o momento tardava.
Aquele dia de festa mudou a sua vida, não o imaginava. Resquícios de fogo de artifício incendiaram o sótão. O diário guardado no cofre à espera de ser descoberto ardia e a verdade perdia-se. Uma outra história esperava-a mas jamais víria a conhecê-la! Há verdades escondidas.
Teresa Alface, 49 anos, Vendas de Azeitão

Contorno – limites
Contentor – lixo
Detentor – possuidor
Extintor – combustão
Disjuntor – luz
Entortado – distorcido

luz definhava ao fim do dia. Numa ecuménica combustão de medos, gemias distorcido sobre a relva húmida e ensandecias. Pelas veias, o lixo tóxico diluía-te o sangue. Percorrias vielas e estreitos, desfiladeiros e trilhos. E sorvias sem limites o imprudente oxigénio decomposto em fôlegos efémeros. Absorto, pairas fora da tua substância. Amargas a decadente dilecção, deslaçada de entendimento e de estima. Capturado em fiapos de insana lucidez, cinges-te ao uno: já não és possuidor de ti.
Vanda Gomes, 44 anos, Lisboa

Mentora - professora
Extintor - fogo
Pintor - aguarelas
Contornar - rendilhar
Cantor - pássaro
Inventor – criador

Recordava-se sempre das palavras da professora. Que havia de saber quando chegasse a altura certa. Aquele ímpeto criador de acudir à imaginação. Era como escutar um pássaro irrequieto. Aqui um trinado, ali uma palavra. Exigia atenção. Silêncio para que não fugisse. Outras vezes era um fogo a consumi-la. Não dormia. A escrita rendilhava-lhe as noites de letras e aguarelas que se apressava a passar para o papel. Como se o Mundo parasse e ficasse também a ouvir.
Paula Coelho Pais, 55 anos, Lisboa

contornar - virou
cantor - compor
entorno - entorna
entorpecer - enlouquecera
entortar - torcia
contorno - virada
contorcer - sentia
entortar - tortura

Sonho e realidade
Sonhara compor uma Ode ao amor
Algo além de uma canção,
Sentia tantas sensações, novidades...
Aquilo tudo enlouquecera seu coração,

Seria o amor essa virada e turbulência?
Ou estaria preso meio aos sonhos?
Às vezes torcia para que fosse só impressão,
Tamanho o borbulhar avolumado, doce brandura...  

Alegria, gastura, suores, frios, soluços, tortura...
Seria amar esse arroubo que entorna felicidades?
Virou para o lado, preferia não acordar...
E sair do sonho tão só, como fora vida inteira...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Contornar – desviar
Contorcer – dobrar
Entorse – queda
Contentor – transportar
Extintor – fogo
Desentortar - direito

Há muito que ninguém o visitava. Viveu sempre achando não ter o direito de reclamar a presença dos outros. O fogo crepitava na lareira atordoando a solidão. A melodia da chuva transportava-o para as mais dolorosas recordações. Um dia invernal marcaria para sempre a sua maior perda. Maria, a sua paixão, tentando evitar a queda, caíra desamparada. Uma morte santa. Talvez… Desde esse dia, dobrava-se à tristeza. A ausência não desviava o sofrimento que, silenciosamente, o matava.
Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Fardo leve
cantor - voz
detentor - fala
entornava - demais
entorpecente - pouco
extintor - incêndio
interventor – ajuda

Era suave a voz que se ouvia do alto.
Natural, amável, delicada, eficaz, jornada provada.
Ouvia-a mais do que as muitas falas.
Foco, princípios, coragem, casa, lar, criatividade.
Pouco a pouco, diariamente voltava-lhe à memória.
Movimento, necessidade, fértil, educado, sabedoria.
A mente incendiara-se de lembranças doces e bonitas.
Atribuições, pensar fora dos mitos, bondade, cortesia.
Precisou de ajuda para despertar-se da imaginação.
Neutralizou enganos, percebeu decisões, mãos talentosas, preparou-se.
Bom demais desbravar paradigmas e elevar os pensamentos.
Renata Diniz, 40 anos - Itaúna/Brasil

Palavras
Extintor- fogo
Entornar - café
Cantor - melodia
Inventor - beleza
Pintor - quadro
Mentor - inteligência

O silêncio e a paz
melodia invadia a sala. Todos eram embalados pela enorme beleza. Ao fundo, um quadro mostrava paisagens longínquas, onde as brumas e o sol se conjugavam, construindo sonhos de luz. A tranquilidade absoluta transportava-os para o paraíso. A meditação acalmou-os. Da lareira surgiu um fogo, suave, sem som, inodoro. A inteligência silenciosa reclamava um aromático café, para que se revelasse o mistério do evento. Da serenidade, jorraram palavras, todas falavam de paz, expandiram-se e contagiaram o mundo. 
Fernanda Costa, 54 anos, Alcobaça

Contentor – lixo
Pintor – artista
Extintor – fogo
Entorse – lesão
Contorcer – contrair
Entorpecer – adormecer

Azares
Avisaram-me que o homem costumava adormecer, atrasar-se, chegar tarde, mas não:  o artista foi pontual. Desarrumou a sala, limpou o lixo, montou o estaminé: estava pronto para começar as pinturas na parede chamuscada pelo fogo – que a vela esquecida e o cortinado esvoaçante tinham ateado. Mas, no momento em que subiu para o escadote… estatelou-se no chão. Acorri aflita. O homem contraia-se com dores. Tinha feito uma lesão na mão. Afinal… chegou a horas, mas abalou cedo!
Maria José Castro, 56 anos, Azeitão

Cantor – canção, alegria
Redentor – misericórdia
Pintor – quadro
Inventor – invenções, inventivas
Extintor – acalmar, apaziguar
Mentor – criador

Tio e sobrinho são os criadores do programa. O quadro se afigura nada pacato. O tema serão as visitas. De manhã, iremos buscar uma, atravessando o lago pela Ponte das Garças. Se encontrarmos um policial, contaremos com sua misericórdia quanto à ausência de placas. A menininha encontrará a namorada do primo e terá expressões inventivas. Os adultos apaziguarão o clima. Juntos, vamos curtir a pista liberada para pedestres no dia de lazer. Enfim, vamos viver a alegria.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

Inventor – GENIAL
Lentor – BOLOR
Interventora – MEDIADORA
Pintor – ARTE
Entornos – AMBIENTES
Acupunctor – AGULHAS

Absorta na atividade da minha imaginação, mediadora deste corpo inerte com a vida que sopra, quedo reclinada nesta cadeira que é já parte de mim, como o bolor na parede do quarto da Tia Josefa. Fixo o horizonte e faço-o parte de mim. Uma arte que desenvolvi ao longo dos anos e que afasta as agulhas da quietude forçada. Sonho ambientes e gentes com uma mestria genial que me devolve o corpo que foi e que perdi.
Sandra Évora, 43 anos, Sto. António dos Cavaleiros 

Contentor – recipiente
Entorpecer – entesar
Cantor – cantador
Obtentor – obter
Inventor – engenhoso 
Mentor – guru
Pintor – chalaça 

Entesado do frio matinal, o cego cantador entoou, desafinado, uma cançoneta.
Rex, o cão, olhava triste para lata que foi transformada engenhosamente numa caixa de coleta. Enquanto o seu guru e dono cantou na esperança obter alguns tostões, as pessoas passavam sem lhes dar uma olhada. Às vezes alguém comentava com chalaças ruins, mas, dar dinheiro, nem pensar disso.
No entanto, ainda sem recursos, alimentaram esperanças ao encontrar um bocado frio no recipiente de lixo do Lidl.
Theo de Bakkere, 64 anos, Antuérpia, Bélgica

Pintor – pincéis
Cantora – voz
Mentor – Deus
Inventor – criatividade
Entornar – copo
Detentor - poder

A arte alegra a vida
Pedro usava os pincéis para colorir o mundo, e Mariana, com uma voz serena, punha fim a tristezas. Já João utilizava a criatividade para construir enormes engenhocas, enquanto Filipe, detentor de poder, vivia de números. Um dia, num café, cruzam-se o pintor, a cantora, o inventor e o milionárioEste último, ao entornar um copo, cumpre o destino traçado por Deus, o mentor de todas as coisas. Aí, descobre a cor de uma vida serena e criativa.
Margarida Leite, 47 anos, Cucujães

Contorcionista – bailarina
Contornar - rodar
Contorcer - torcendo-se
Entornado - derramava
Contorno - torneada
Inventor - criativa

A diva
Era formosa a Violeta
Uma grande bailarina,
Rodava, qual borboleta,
Torcendo-se, leve e fina!

O seu corpo era flexível,
Movendo-se com destreza
E tornava-se extensível,
Suavemente e com beleza!

No meio das bailarinas
Derramava o seu condão,
Todas tão belas meninas…
Mas ela era a perfeição!

Tinha um cabelo brilhante
Que expunha um rosto atraente,
Um rosto belo, elegante
Que parecia transcendente!...

Esbelta, linda e invulgar,
Torneada e criativa…
 Parávamos a pensar:
– Só Deus criava tal diva!... 
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Pintor - Artista
Interventor - Mediador
Cantor - Música
Mentor - Protecção
Redentor - Salvação
Extintor - Incêndio
                 
Cantilena
Pintor que pintas igrejas, diz-nos da tua devota arte, do segredo das tuas cores!
Interventor, arauto, que gostas de palestrar, de mediar, conta-nos das razões da tua luta!
Cantor, que atiras o grito inaugural, afoito, convicto e seguro, pauta-nos o teu melódico prazer!
Mentor de tantíssimos feitos, apologista de benfeitorias, descreve-nos o horizonte vasto das tuas obras!
Redentor, salvífico, amoroso e tolerante, concede-nos um traço da tua firmeza em plenitude!
Extintor, extingue, outrossim, os males do mundo!
Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Cantor - música
Pintor – colorir
Entornar - despejar
Entorpecer - anestesiar
Mentor – mestre
Redentor - salvação
 
“Ne me quitte pas…”
A música entranhava-se-lhe. Assim que ela ouvia os primeiros acordes, todo o seu corpo estremecia, arrepiado. Cada nota coloria cada espaço cinzento do seu eu, naquela altura sempre acabrunhado. E, à medida que a melodia avançava, apaixonada, cálida, penetrante, vinha a libertação. Despejava todas as lágrimas acumuladas e, depois de anestesiados os aziagos pensamentos, perseguia ilusões, sonhos e fantasias. Voava, então.
Jacques Brel. O seu mestre. A sua salvação. A sua ordem interior.
Ana Paula Oliveira, 55 anos, S. João da Madeira 

Entorpecido – dormente
Entortar – torcido
Detentor – pertence
Contentor – recipiente
Contraventor – infrator
Extintor – incêndio

incêndio deflagrou paredes-meias com a casa do infrator, que do sinal via, incrédulo, seu único pertence sucumbir às chamas. Torcido como era, e habituado a pisar o risco em sinais fechados, não esperou. O homem parecia dormente, de nada lhe valera a pressa no sinal. A D. Amélia, avançada em idade, molhava a reentrância da sua habitação com um pequeno recipiente, mas as chamas lambiam os pingos. Entreolharam-se e, com duas décadas de convivência, choraram agarrados.
Susana Duarte, 42 anos, Loures

Contentor - dentro
Inventor - transcendente
Contornar - adiar
Mentor - treinador
Detentor - ter
Obtentor - vitória

O futebol é um mundo dentro deste Mundo. Quem gosta de ver a nossa seleção jogar sente uma emoção que transcende a estratosfera.
treinador luso está ao comando de uma equipa que, almeja a vitória, eternamente adiada. Acredito que, no próximo jogo, a conquista da taça europeia, deixará a nação portuguesa muito orgulhosa.
Portugal, pode não ser o melhor país do mundo. Mas tem muitos melhores do mundo que se destacam por aí. “Pumba, vai buscar”.
Mireille Amaral, 40 anos, Gondomar

Férias atribuladas
distensão     -    entorse
homem        -    malvado
que pintava -    pintor
trinados       -    cantoria
espalhou     -    entornou
curvou         -    entortou
autor            -    inventor

Férias na quinta. Devido a uma distensão muscular no pé esquerdo, estava limitada ao alpendre.  
O parvo do homem que pintava as janelas, ficou estático a ouvir os trinados dum rouxinol esquecendo-se do que estava a fazer. Espalhou a lata da tinta pelo pavimento.
Escorreguei, caí, fiquei furiosa.
O malvado até se curvou de tanto rir.
Como se isto não bastasse ainda se quis armar em endireita.
Mas que desafio! O que estaria o autor a pensar! 
Rosélia Palminha, 68 anos, Pinhal Novo 

Entortar – Resistência
Entorse - Dor
Entorpecido – desanimado
Cantoria – grupo de cantares
Mentor – inspiração
Pintor – pintar

Delfina chorava sempre que recebia as provas de Português e de Matemática, onde estava escarrapachado, a vermelho, Reprovada.
O castigo era certo e estendia a mão, sem oferecer resistência às reguadas, gemendo de dor.
 Desenhava e pintava bem, mas ninguém valorizava.
desânimo foi ocupando espaço e foi determinante para o precoce abandono escolar.
Não lhe faltava inspiração para cantar à desgarrada no grupo de cantares, encontrando aqui uma ocupação compensatória.
Casou cedo, aspirando por um futuro.
Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Entortar - Boca
Entorpecido - Bêbedo
Entornar - Cerveja
Contentor - Camião
Contornar - Rodear
Extintor – Fogo

Extintor
Ficou surpresa ao vê-lo ali. Não ouvira o camião chegar. Dos seus olhos, saía o fogo da espera. Ao fim de tantos anos, continuava a aguardar cada regresso como o primeiro, porém ele, sem uma palavra, um beijo, um aceno, limitou-se a rodear o sofá, entrando na cozinha.
Com a boca ávida, saboreou uma cerveja e depois outra e outra e outra.
Bêbedo, apagou em frente à televisão, enquanto ela, olhando-o, se perguntava: porque permaneço eu aqui?
Quita Miguel, 56 anos, Cascais

O padrinho
A dor de cabeça não quer deixar-me.
Não sou de carácter mole mas estou pelas pontas dos cabelos com a música ensurdecedora que provém do quarto do meu padrinho.
Por muito que tente desviar o pensamento para coisas mais aprazíveis, o batuque insistente impossibilita a tarefa.
Ele tem de perceber que sou uma artista, como tal preciso de silêncio.
Não posso viver neste constante desassossego! Se ao menos ouvisse algo mais melodioso, tipo Mozart ou Celeste Rodrigues!
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

Tinha um grande segredo.  Mas não podia contar, e caso viesse a ser descoberto, a minha vida nunca mais ficaria direita.  Todos os dias sentia uma grande dor, e às vezes no meio do nada desfalecia. Não posso continuar a minha vida assim, tive grandes “professores” neste meu percurso, tenho de voltar a ser feliz. Saio de casa de cabeça erguida e aqueles que provocaram a minha angústia, vou dobrar num papel imaginário e deitar ao lixo.
Rita Afonso Botelho, 35 anos, Moita

Pintor – artista
Extintor – fogo
Detentor – ter
Contornos – pontas
Entornava – vertia
Entorpecer – adormecer

fogo tinha sido extinto, finalmente, depois de tanto trabalho. A água ainda vertia pelas paredes amareladas e cinzentas. As sombras, causadas pelo fumo, nas paredes, assemelhavam-se a uma tela de algum artista famoso. Como é possível, que tudo tenha acontecido tão rapidamente, só por ter tido um dia muito cansativo, acabando por adormecer momentaneamente, com a panela ao lume. O que vale é que não causou grandes danos, apenas umas pequenas pontas chamuscadas e nada mais.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo

NTOR
Extintor - fogo
Pintor - tela
Detentor - dono
Mentor - professor
Entorse - dor
Entorpecida – lenta

Uma tela roubada de um museu não é um acontecimento assim tão raro. O professor Mário coleciona todas as notícias de ocorrências desse género, pelo que já conheço algumas. É uma espécie de dor lenta que ele cultiva, não sei bem por que razão. Cada novo caso é partilhado com fogo no olhar. É uma forma romântica de se qualificar como dono das peças. É um registo semelhante ao de um colecionador, há nele método e mania.
António Matos, 31 anos, Lisboa

Pintor - colorir; mentor - mestre; entornar - derramar; detentora - possuidora; cantoria - canção; contorcionistas - malabaristas

O João trabalha numa empresa de construção civil a colorir os edifícios.
Ele é o mestre dos colegas pintores, não consegue trabalhar sem entoar uma canção, sendo afamado o seu talento.
Hoje, acidentalmente, derramou o balde de tinta no patrão, que ficou vermelho.
Esta noite foi ao circo com a namorada, possuidora de uma beleza especial.
Neste momento, estão a actuar os malabaristas, mas o seu número preferido é o dos palhaços - é mais divertido e colorido!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Olga rezava insistentemente. Cumpria todos os preceitos, com devoção!
Em tempos de escuridão, um casal bateu-lhe à porta, porque precisavam de casa. Contaram-lhes os seus problemas, tinham esperança que Olga os compreendesse. Pediram um desconto na renda.  
Olga, em fúria, não tardou em maldizer:
― Só gente desgraçada! ― disse, esbanjando irritação, perante a tristeza dos dois. 
Não apresentou qualquer perturbação, mandou-os embora. Nem sequer o quadro da sagrada família, mesmo ali na frente, lhe conseguiu despertar alguma piedade.
Vítor Sequeira, 52 anos, Barreiro