22 setembro 2017

Carlos Alberto Silva - desafio RS nº 23

Em campanha
As comitivas das duas listas concorrentes à associação de estudantes do colégio feminino cruzam-se num corredor. Um encontrão incendeia os ânimos. Começam as provocações. Esgotando-se os argumentos, vêm os insultos, que sobem de tom e baixam de nível.  
― Sua esta, sua aquela!
― Isso és e a tua mãezinha!
Até que surge o ultraje mais rasteiro, a ofensa suprema:
― Sabes o que és, sabes?
― Não, mas tu vais dizer-mo, não é?
― Vou. És uma grandessíssima e refinadíssima… po-lí-ti-ca!
Carlos Alberto Silva, ​59 anos, Leiria
Desafio RS nº 23 – história de mulheres

Mais contos aqui: ​ficcoesbreves.blogspot.pt

2 comentários:

  1. Carlos, senti que estava a ver os morangos com açúcar, mas a sua escrita alicia-me muito mais, sem qualquer sombra de dúvida. Foi terrível sentir que chamar esse insulto a alguém é um dos maiores insultos possíveis. Mas no tempo em que vivemos não deve haver pessoas que num momento de notícias de corrupção com políticos ou num momento de angustia que a vida nos traz não lhe tenha passado esse "palavrão" pela boca. A verdade é que desejo que seja uma dócil palavra que nos devolva a humanidade das nossas vidas, porque só conseguimos viver juntos com uma organização política. Obrigada por ter escrito tão bonito e que fez pensar e questionar estas coisas. Cumprimentos Eurídice

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    1. Olá Eurídice. Obrigado pelo seu comentário. Sempre me recusei a ver os Morangos com Açúcar, mas lido com jovens estudantes desde sempre e sei que são capazes do melhor e do pior. Quanto ao «epíteto», já o vi usado por gente crescida, quando não tem mais insultos «aceitáveis». A expressão foi mesmo «Seu... seu político!»
      Também acho que a (boa) política é fundamental para melhorar a vida das pessoas, mas infelizmente o uso que dela se faz a tem afastado da sua função mais nobre.
      Cumprimentos. Carlos A. Silva

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