28 fevereiro 2017

Desculpa de Carnaval

A desculpa traiçoeira,
Ou mentira por um fio,
Pode ser a brincadeira
Para entrar no desafio!

Acordei entusiasmada
E vesti-me de magia,
A pensar numa piada
Para um dia de folia!

Fantasiei-me a preceito,
Às tirinhas, colorida,
Vestida para o efeito,
Mui luminosa e garrida!             

Tenho nome de «Desculpa»
Muito inventada por nós…
Sou velhinha, muito velha,
Remonto aos nossos avós!

Sou desculpa esfarrapada?
Quem me vai levar a mal?
Orgulhosa e camuflada,
Hoje brinco ao Carnaval!
Maria do Céu Ferreira, 61 anos, Amarante

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

Um grito na noite

Gorgolejava tristes sons a guitarra melancólica
como preta garça na noite escura,
gatunando o coração com garra afiada.

Apaixonada deixava, gostosa, ouvir aquele canto
gazeado entre as nuvens grisalhas
da imensurável saudade,
galgando sombrias névoas amorosas.

Gemia, queixumeira, lançando sonhadoras grunhidelas
com aromas de ginjinha na noite estrelada,
gloriando-se em perigosas façanhas.

Gabava-se, vaidosa, com sutil gaucharia
sulcando qual veloz galeota
as tempestuosas vagas geladoras.

O seu lamuriento grito
ressoou naquelas profundas grutas
libertando-se da sua gaiola.
Mónica Marcos Celestino
, 43 anos, Escuela Oficial de Idiomas, Salamanca (Espanha)
Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres

Pequena distração

Sete automóveis conduziram, por sete estradas, sete mulheres que se sentaram em sete cadeiras na sala de espera de ginecologia. Entre a timidez do desconhecimento e a descoberta de quem eram, partilharam sete lanches e jantares com histórias que lhes eram vida. Esperaram por sete camas onde sonharam com o êxito de sete cirúrgias. A última continua internada a contar os dias para lhe retirarem aquela agulha que perderam no seu “palheiro”… agonizada com o número dez.
Eurídice Rocha, 50 anos, Coimbra

Desafio nº 7 – história onde entre 7 vezes o número 7

Explicações Há Muitas

Orlandinha sempre arranjava desculpas para as suas diabruras. Menina afável e solícita, todos lhe toleravam as faltas.
Mas... há sempre uma adversativa a estragar o arranjinho.
Certa vez, diz-lhe a mãe, indignada:
― Orlandinha, de novo aos pulos em cima da cama; rebentaste algumas molas do colchão! 
― Ó mãe, deixei lá cair a mochila que está pesada.
― Mas a mochila hoje até está leve!!
Nesse dia, Orlandinha não teve bolo de chocolate ao lanche.
Aprendendo... até à próxima.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 72 anos Lisboa

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

77x77

A partir de 4 de Agosto, teremos aqui um cantinho especial – desafiámos escritores, músicos, jornalistas, ilustradores, e por aí adiante, a escreverem uma história em 77 palavras que, de alguma forma, fizesse parte das suas vidas ligadas à expressão.

Os sins chegaram em força – será que conseguiremos mesmo chegar às 77?
Vamos chamar-lhes: 77x77 – livres, unidos pela quantidade de palavras e pelo gosto de partilhar.
Agradecemos a todos os que aceitaram o desafio! Está a ser fantástico!
Margarida Fonseca Santos e Paula Isidoro
(nota – a publicação será à quinta e ao domingo, vamos ver por quantas semanas…J
E têm sempre um link para saber mais sobre o autor)
Aqui ficarão todas!

77x77 - Margarida Fonseca Santos

Estava numa escola com meninos da pré e do 1.º ano. Cheguei, contei uma história, comecei a responder a perguntas. Havia, contudo, um miúdo que se mantinha de sobrolho franzido, ar desconfiado, quase chocado. Não resisti. A certa altura, perguntei:
– Tu não me queres fazer uma pergunta?
O rapaz, ainda mais agastado, respondeu:
– Eu?! A ti?! Claro que não! Nem sequer tens cara de escritora!!!
E agora? Como é que arranjo uma «cara de escritora»? Alguém sabe?...
Margarida Fonseca Santos

26 fevereiro 2017

Solidão perfumada

Nos passeios matinais, Justina encontra os estropiados que pedem auxílio. Anseiam o seu toque, fica insegura, remete-os para a intervenção divina.
Os convencidos expressam sentimentos turvos, deixando-a pensativa. Os fanfarrões nem se apercebem de Justina, mesmo em frente deles.
Os passeios prolongam-se, a diversidade dos estados de alma também. Os ressuscitados deixam-na prostrada, foram crucificados, mas inventam e declamam poemas ― fica estupefacta.
No final da caminhada, o perfume das flores acalma-a, acompanhando-a até ao final do dia.  
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça
Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

A fechadura

Já antecipo as desculpas de quinta-feira próxima, que será o dia após o Carnaval aqui no Brasil. Professora, o ônibus atrasou, o engarrafamento estava grande, minha mãe não me acordou (esta já apareceu num dia de provas).
Mas há aquelas mais criativas, que surgirão na sexta-feira seguinte: Não fiz o dever porque não vim ontem, houve um incidente, ouvi um estalo muito forte na porta ― trancara a fechadura, passei toda a manhã sem sair... do meu quarto.
Celina Silva Pereira, 66 anos, Brasília, Brasil

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

O Pai?!

― João, fizeste o trabalho de casa?
― Não, professora.
― Porquê?
― O Pai comeu-mo.
― O Pai?
― Sim. Como a matéria é a saúde e o Pai está muito doente, sempre a chorar, dei-lhe o TPC.
― Ó João, deste-lhe papel?
― Sim, professora, e finalmente calou-se.
― Temos de chamar alguém.
― A minha mãe pô-lo numa caixa e disse que já não era sem tempo, já lá devia estar há muito tempo.
― Numa caixa? O pai?

― Pois, coitado do Pai, o hamster.
Bruna Gomes, 14 anos, Arrifana, Santa Maria da Feira
Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

Silêncios

O silêncio cinzento, dos dias ou das almas, entreva-nos os sonhos.
Nos dias claros, com Luz ofuscante, apenas há silêncio nos lábios.
O Sol, em raios inquietantes, agita-nos o espírito, quebrando o silêncio.
Do não silêncio, desaguam cascatas de palavras que despem os sentimentos.
Dessa ressonância espiritual, vemos novos rumos ― horizontes não previstos, em silêncio.
Deste silêncio profícuo, nascem mundos que nos enchem de alegres esperanças.
Em harmonia perfeita, férteis ideias apagam o silêncio dos dias cinzentos.
Laura Garcez, 44 anos, Lisboa

Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida

A maior pescaria de sempre

Saí às cinco da madrugada. Mochila às costas, cana na mão, lá vou eu, debaixo de chuva, pelas entranhas da escuridão. Avisto um pesqueiro fervilhante. Apresso-me. Preparo a cana, faço um lançamento… ei… grande puxão… peixe graúdo… lutava como um herói, como quem não queria revelar segredos… meus olhos brilhavam, meu corpo tremia…
Quando, finalmente, deu à costa, fiquei pasmado, incrédulo… era um grande peixe, sim… mas de ouro reluzente!!!
Talvez peça perdida dum naufrágio do passado. 
Domingos Correia, 59 anos, Amarante

Desafio Escritiva nº 13 – recordes pessoais

24 fevereiro 2017

PARE 2017

Being in Lisbon, at the 20th EULAR Annual PARE Conference, as delegate from the Portuguese League Against Rheumatism, is a joy. In this first day we had a Best Practice Fair – various strategies for a new and more informed way to deal with Rheumatic and Musculoskeletal Diseases, both as a patient and a part of a patients’ association. My first workshop was «Don’t Delay, Connect Today», and many concerns and solutions came to us. Waiting for more!
Margarida Fonseca Santos, 56, delegate from LPCDR, Lisbon

Só azares

Olhei o relógio, Andreia estava atrasada. Ultimamente era quase todos os dias, já não sabia que dizer para a desculpar.
O chefe espreita pela porta quando uma Andreia afogueada entra no escritório.
― Peço imensa desculpa, o taxista enganou-se no caminho depois tivemos de empurrar o carro, pois ficámos sem gasolina, não tinha rede no telemóvel!
O chefe olha para ela.
― A sua avó está bem?
― Sim. Porque pergunta?
― Entre tanto azar, foi a única coisa que faltou.
Carla Silva, 43 anos, Barbacena, Elvas

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

Quando dei por mim...

Eu não fiz os trabalhos de casa devido a vários motivos!
Ontem à noite estava a chover torrencialmente e a ração do meu cão tinha acabado e eu tive que ir a correr comprá-la!
Acontece que cheguei a casa toda ensopada, depois tive que tomar um banho quentinho.
Mas quando acabei de fazer isto, começou a dar o jogo de futebol e sabe, professora, não o podia perder!
Quando dei por mim, tinha adormecido no meu sofá!
Marta Sousa, 13 anos, Aveiro / Vale de cambra
, Escola Secundária de Vale de Cambra

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

23 fevereiro 2017

Vai

Não quero.
Já disse, não vou.
Tu sabes que eu não posso.
Vá lá, deixa-me ficar em casa a ler.
Sabes que me faz mal estar com pessoas tão chatas.
É melhor ir para a cama, acho que estou a ficar doente.
Já é tarde.
Eu vou tentar explicar melhor:
Cada vez que me obrigas a ir,
Parte de mim morre, deixo de ser quem sou.
Vai, e não vale a pena procurares o caminho de volta.
Filomena Afonso Mourinho, 43 anos, Serpa

Desafio RS nº 32 – a arte de dizer não

Em espanto

Com sinuosos passos escapava, furtivo,
às medrosas sombras do espanto.
Sonhando atingir a ténue luz de um paraíso,
tamisada pelos postigos fechados dos seus olhos,
um triste sorriso temeroso
sulcava indeciso o lívido rosto.
Vagabundeou longinquamente sem rumo certo
perguntando-se se algum dia o conseguiria.
Uma noite, porém, despertou no meio daquele sonho
e à sua volta descobriu o calmo sossego
do límpido céu intensamente azul
carregado de relampejantes estrelas
e suaves perfumes
libertadores do seu tremor.
Mónica Marcos Celestino, 43 años, Escuela Oficial de Idiomas, Salamanca (España)
Desafio RS nº 34 – frase de Mia Couto