30/08/12

EXEMPLOS - desafio nº 17

Pedrinho estava ansioso naquele dia. Vovó tinha preparado uma deliciosa sobremesa. Porém, não seria fácil para ele saboreá-la. Ele detestava verduras.
- Quem não comer a sopa de verduras não tem direito ao doce. 
- Snif, snif, choramingava o netinho. 
- Só após a sopa! Podem chorar até em grego! 
Assim, Pedrinho acabou com a “missa” de ladainha e choradeiras e comeu. Terminou logo! A vovó pergunta:
- Queres mais? 
Ele quase cai da cadeira de susto!
Chica, Brasil

Socorram! – alguém gritou. Pensei em perigo; por terras estranhas pensamos que há uma ameaça em cada esquina, como se a selva se abrisse assim que abandonássemos o nosso bairro.
Não me enganei: vi uma mulher a ser arrastada para um carro. Armei-me em herói – a cobardia também fica guardada no nosso bairro – e corri até ela. Olhei para o corpulento raptor e começou-me a passar a heroicidade.
Corta! Tirem-me esse anormal de cena – disse o realizador, naquela tarde quente em Marrocos. 
Bau Pires

Achou estranho os cheiros que deslizavam sob aquele céu tão azul. Era agradável, assim como o colorido das roupas e a sonoridade no andar das pessoas. Agradável e desconhecido. Que lugar era aquele?
- Marrocos – alguém gritou.
Os sentidos lhe faltaram, desmaiou.
- Socorram, socorram!
Voltou a si e começou a gritar:
- Marrocos não, Marrocos não... Eu sou do Maranhão.
Aeroporto, conexão, voo atrasado, deu tudo errado.
- Já que estou cá, ao menos uma volta de camelo vou dar!
Ana Paula Amaral do Carmo, Brasil

– Interrompi o teu deleite – começou ele, rindo-se assim que o puxei mais para perto, de modo a poder sentir o aroma delicioso da amora silvestre.
Com esmero e precisão colhi um fruto do meio das silvas e coloquei-lho entre os lábios. Ele recebeu-o com a avidez de quem raramente tem ocasião para apreciar os sabores do campo.
Depois ficámos ali abraçados, só sentindo o perfume com que a natureza nos presenteava e esquecendo a hora do regresso.
Quita Miguel

Fiz tudo como tinha planeado. Combinei encontrar-me com ele numa esplanada, para que, sem levantar suspeitas, pudesse usar os óculos de sol. Era o ideal para disfarçar as olheiras deixadas por tantas lágrimas. Cheguei, cumprimentei-o e mostrei-me entusiasmada com esta nova etapa da vida dele. Desejei-lhe muita sorte. Não queria que a minha última impressão deixada nele fosse de sofrimento. “Consegui!” – pensei. Mas depois, no momento exacto do adeus, o soluço encoberto durante toda aquela hora... desarmou-me!
Vera Viegas

Há alguns anos atrás, visitando Roma, saboreei a melhor pizza até hoje, inigualável.
Também lembro-me de ter presenciado, em momento de tédio na janela da hospedaria, um majestoso pôr-do-sol.
Da companhia, das pessoas que conheci, não sinto saudades, posto que da vida só guardamos o que fez bem ao paladar e aos olhos, trouxe amor...
Sei que ocasos, em qualquer lugar que estejamos, são sempre uma magnífica maneira de fugir da realidade e correr para o belo.
Bia Hain, Brasil

Em noite de lua azul, o Raul saiu para ir ver o luar. E como brilhava a lua azul de agosto, tanto a gosto do Raul. É segunda lua de agosto e por isso lhe chamam azul. O Raul fica sempre encantado pelo luar e deixa-se ficar: fica a ouvir os gatos que miam em cima dos muros, as bruxas de chapéu pontiagudo, que passam a cavalo nas suas vassouras voadoras e transportam sonhos de outros mundos.
Margarida Belchior

No planeta dele tudo era intensamente colorido. Diferente. As árvores, as plantas, os animais, uma miríade de cores impossível. Dei por mim de nariz no ar, perseguindo um aroma conhecido que me recordou de tardes quentes de Verão. Foi então que as vi, negras e inchadas pelo calor. "Amoras!", gritei eu entusiasmada. Ele, porque já tinha aprendido, sorriu com a boca e os olhos. Colhi uma amora e comi-a. E contei-lhe tudo sobre os bichinhos da seda.
Alexandra Rafael

Da janela entreaberta, desprendia-se um aroma irresistível. Pedro e Afonso largaram a bola e aproximaram-se, sorrateiros, do quintal da vizinha. Mal os pressentiu, o anafado gato amarelo bufou e esgueirou-se para cima de uma árvore.
Parados debaixo do parapeito, puseram-se à escuta, até se certificarem de que não havia ninguém na casa. Pedro ajoelhou-se, Afonso subiu e lançou a mão à bela tarte de amora. De repente, sentiu que alguém o puxava para dentro. Tinha sido apanhado!
Carlos Alberto Silva

Ora, ora, quem diria
Acontecer algo de tão raro
Benício orar todo santo dia
À Deus pedindo amparo 

Ele que era tão descrente
Só vivia de noitadas e orgia
Limparam sua conta corrente
Ficou numa doida agonia 

Perdeu seu rico solar
Mal tinha onde dormir
Agora vivia na rua a capengar
E pelos ralos a cair 

A duras penas descobriu
O que é viver de penitência
Só chora, nunca mais sorriu
Teve que lutar pela sua sobrevivência
Majoli Oliveira, Brasil

Estava escrito nas estrelas que seria para toda a vida.
Nasceram em locais opostos do mundo mas foi em Roma que se encontraram e passaram parte do verão. Viram-se, apresentaram-se e… o amor surgiu como avalanche incontrolável.
A lua vestia o seu mais brilhante vestido quando ele lhe colocou o anel no dedo e lhe perguntou:
- Queres ouvir comigo a mesma canção até ao fim das nossas vidas, Lena?
Estava escrito nas estrelas mas eles não sabiam.
Ana Paula Oliveira

Lena é uma jovem alegre e desinibida que adora roupas coloridas. O seu riso contagiante faz com que todos a estimem. Sabem que Lena perdeu o pai num acidente trágico e que, por isso, a mãe sofre de uma constante depressão. E que é a coragem, a alegria e o amor da filha que a mantêm viva…
No entanto, em segredo, Lena afaga o pequeno anel que o pai lhe deu e chora amargamente a sua ausência.
Carlos Alberto Silva

Naquela aldeia que agora está cada vez mais longe do mundo, cheia de recordações, tempo houve em que a sua juventude era em grande número. Ao Domingo era impensável não assistir ao serviço religioso na igreja, isto para as raparigas, porque eles facilmente se descartavam da pressão das mães. Porém, não se pense que andavam longe; quando acabava a função aí estavam eles à nossa espera, no santo sacrifício da saída da missa, pois era assim lhe chamavam.
Maria C. Bruno

Por muito que olhasse para aquele bouquet, não conseguia ver nada mais que uma rama sem graça. Só havia uma razão para que todas as noivas insistissem em aparecer com um molho de brócolos: não sabiam o que fazer às mãos.
Donzília barafustava pelo ridículo daquele grupo de donzelas, de braços no ar, esgatanhando-se para agarrar as flores que voavam através da sala.
– Dizes isso porque não sabes o que é amar.
E com isto a calaram.
Quita Miguel

a mulher queria desposar deus.
deus não dorme, disse, não escarra nem dá puns.
nem te espeta e marca golo, respondeu-lhe o homem.
ela encolheu os ombros e voltou a ligar.
linha interrompida, lamentou-se.
que nervos, logo agora que já não usava maquilhagem, por ter ouvido dizer que deus preferia caras limpas...
deixa-te de megalomanias, vociferou o homem.
e agarrou-a pela cintura.
ela sentiu os joelhos tremer, revirou os olhos, poisou o telefone e trancou a porta.
Rita Bertrand, 40 anos, Lisboa

Deteve-a a foto sorridente na montra e as unhas confiantes exibidas. Verniz tom de amora.
Comprou o produto miraculoso convicta dos seus poderes especiais.
Podia jurar sentir, de antemão, os efeitos pretendidos. Era um ligeiro endireitar de ombros, um sorriso desdenhoso nos lábios.
Sentou-se, majestosamente, dando início a um novo ritual. Pintou, uma a uma, as unhas esguias. Deixou-as secar, pousadas, na saia colorida.
Fez a mala, fechou a porta, silenciosa.
Na rua, havia aroma a liberdade. 
Lena Pacheco, Funchal, 31 anos

Domingo triste. A chuva espreitava por entre os vitrais da igreja cobrindo-os de pequenas gotas, pérolas vindas de longe, há muito esperadas.
Eva ajoelhou-se e, depois de rezar a primeira Ave-maria, parou de acariciar o rosário. Era demasiado religiosa para ter dúvidas mas, naquele momento, tudo estava em causa. A reviravolta na sua vida e a enorme raiva que sentia provocaram demasiados conflitos interiores e vacilaram a sua fé.
Agarrada à aliança, chorou e não mais rezou.
Ana Paula Oliveira, S. João da Madeira, 51 anos

Quem ama a vida ama tudo o que dela pode tirar. João não conseguiu ultrapassar o desgosto de perder o amor da sua vida e agora passa o tempo no vazio dos encontros fortuitos de uma noite bem regada e bem (mal) passada. Quem ama a vida não a desperdiça em pequenos-almoços com estranhos. Maria tem esperança que o João consiga dar a volta, mas acha que ele não ama a vida desde aquele dia em Roma.
Mariana Santo, Lisboa, 25 anos

O VESTIDO
A Mafalda estava radiante com o vestido novo que a costureira estava a fazer-lhe para o banquete em comemoração do seu décimo aniversário. Mas quando ele chegou, ficou triste pois o vestido não vinha como ela queria. A saia grande e rodada estava larga demais e o pior, é que não havia tempo para arranjar antes da festa.  Por sorte, as aias do palácio vieram em seu socorro e a Mafalda foi a mais linda do festejo!
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A LUA
Todos queriam que o Raul fosse médico, advogado ou até futebolista, já que ele parecia ter tanto talento para a bola. Mas o que ele gostava mesmo era de à noite deitar-se ao luar e admirar a Lua vezes sem conta. Estivesse nova, cheia, a crescer ou a minguar para ele brilhava ao seu olhar, tanto como as estrelas que a acompanhavam. E um dia, quando crescesse, iria ser astronauta para poder viajar até ela e voltar.
Vanda Pinheiro

Suavemente, a brisa arranhava a rama das árvores. O sol despedia-se do verão em estertor lânguido, mas sofrido. Já se sentia, no ar, a proximidade de um outono quente, calmo. O céu azul carregado de pedaços brancos de algodão, anunciava que haveria mudança.
"White", o belo gato de olhos azuis, espreitava inquieto.
Algo se passava. Por entre a verdura do jardim surgiu uma gata cinzenta e amarela. Lustrosa, atraente! 
"White" estava preparadíssimo para amar.
Dorinda Oliveira, 72 anos, Arrifana, Santa Maria da Feira

Ingénua, pensara ter encontrado o amor num homem mais velho. Inconscientemente atribuíra-lhe a característica de protector. Almejava segurança.
Enganara-se! Anos de sofrimento e desilusão reforçaram o sentimento de solidão. Resolvera fugir. Para Roma. Recomeçar! Valia a pena sonhar num futuro melhor.
Encontrava-se ferida, mas com esperança. O sentido para a sua vida era o amor.  A proposta de trabalho, em Roma, que aceitara, óptimo pretexto para sair do país; voltar a sorrir. Voltar a amar?! Sem enganos!
Isabel Pinto

Amizades
Não se considerava uma pessoa servil, antes prestativa. Sem se intrometer na vida dos demais.
Havia sempre alguém a precisar de algo, principalmente idosos solitários e fazia-o com todo o gosto.
Assim conhecera o Sr. Felisberto, tem 77 anos e muitas histórias a contar!
Costumava ir ler para ele e acabavam horas na conversa. Sentiam-se livres ali, sob a acácia, aproveitando os últimos raios de sol que passavam entre as folhas, apreciando a companhia um do outro.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Vida regenerada
Ah Um romance em Roma... Lena, nunca imaginou viver algo assim. Omar a surpreendeu com as passagens, o anel de brilhante, um ramo de rosas vermelhas e a promessa de um lindo, eterno amor!
Aturara tantas humilhações pela vida, que vivia como um animal acuado, por vezes cortante como lâmina afiada.
Nem nos melhores sonhos vivera algo assim. Naquela noite, tomaria um ralo mingau de araruta e deitaria. Descansar, arar o coração. A vida é mesmo rara!
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Ernesto, o avaro, como lhe chamavam, jazia quase solitário na capela. De poucas palavras, nunca fizera amigos na aldeia. Apenas Maria se afeiçoara aos seus desencantos e conhecia o que tantos outros nunca adivinharam. Herdeiro de uma fortuna, Ernesto vivia recatadamente, afrontando a ignorante população. Lentamente, a capela foi ficando pequena para tantos jovens. Cada um, em silêncio, orava perante os restos mortais. Nesse dia, todos conheceram uma parte dos jovens que Ernesto ajudava há tantos anos.  
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Finalmente, o dia tão esperado.
Faria dezoito anos, faria o que queria,
sem dar satisfações. Finalmente ser dona de si,
ninguém mandaria nela, chegaria a casa
às horas que lhe apetecia.
Tudo isto falou à irmã, sem lhe dar hipótese 
de a contrariar.  A mãe, que escutara tudo, achou que ela
foi longe demais. Esperou pela chegada do pai delas.
Antes de dizer que ia sair,
ouviu o RALHO da mãe, debaixo do OLHAR
inquisidor do pai.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Histórias de pescadores
Assim passava a vida o tio António, pescando peixes, pescando sonhos. Além de pescador, era poeta e contador de histórias.
De sorrisinho na boca, saía-lhe sempre uma…
Uma manhã, estávamos vários pescadores no mar, mas só o tio António é que pescava.
– Sai sempre ao mesmo! – dizíamos na galhofa.
Então ele, de sorriso costumeiro, respondeu-nos logo:
– Sai sempre ao mesmo, pois sai…
Não se pode ter preguiça.
Antes de vir à pesca,
Vou sempre rezar à missa!
Domingos Correia, 58 anos, Amarante

O namorado da Carolina enfrenta um problema oncológico bastante grave, os tratamentos parecem não estar a resultar.
A namorada, amigos e familiares têm sofrido muito... é terrível sentir a impotência e desejar ajudar, mas apenas dispor do coração e um ombro amigo.
Então, a Carolina comprou duas passagens de avião para Roma, pois sabe que o namorado sonha conhecer o Vaticano e o Papa.
Ela acredita que, com fé e amor, todos os problemas podem ser ultrapassados.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto


À luz da LAMPARINA devorava Dietas. Mas só aí. O ESTAFERMO da balança não lhe dava nenhuma Alegria. Um dia, jogou-a pela janela abaixo.
A partir daí, foi uma gordinha feliz. As unhas sempre cuidadosamente arranjadas, pois claro!
Margarida Freire, 75 anos, Moita


Roma
Sonhei? Sonhei!
Vivo em Roma… auge da época romana… lindas princesas… também algumas pessoas muito cruéis. Grandes gladiadores lutam até o adversário perder vida, para grande prazer do povo. Imperador manda chicotear indivíduos.
Há muita avareza – só ricos é que têm riqueza. Imperatriz usa lindos colares de ouro, joias de rara beleza. Fazem-se grandes festas, onde belas mulheres tocam suas harpas, para outros dançarem. Há grandes banquetes que a todos sacia. Pessoas beijam-se loucamente com amor! Amor?
Sérgio Felício, 37 anos, Coimbra

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