20/10/12

EXEMPLOS - desafio nº 22

Sábado...
Três e quarenta da madrugada...
Lá fora, pássaros apressadinhos, madrugadores, sofrendo pela cidade que não mais dorme, já estão a cantar.


Abre os olhos, acorda... O dia está a esperar!
Olha ao lado, amor está ainda a dormir.
Volta, beija-lhe a face!
Enquanto se ajeita, arruma tudo por lá, agradece a vida!
Pouco tem, mas muito lhe sobra. Pois há amor dentro de si!
Ela reflexiona: Vivo feliz!
Viver? É amar sempre! Sempre? Amar é viver!
Chica, Brasil

Meu amor. A ideia de nunca mais te ver deixa-me doente. Tento aceitar? Aceitar tento todos os dias em que acordo e respiro. Respiro e acordo e rasga-se o peito com saudades. O que mais me falta são os teus olhos de gato vendo-me, olhando-me como se eu fosse uma pedra preciosa. Faltam-me as tuas mãos examinando-me o corpo como se buscassem um tesouro. Acabou aqui? Aqui acabou pois claro. Não somos mais os mesmos. Nada restou.
Alexandra Rafael

Desde que conheci o tal do mineirinho
Confesso que uma curiosidade me bateu
Pois dizem que eles comem quietinhos
Seria isso um perigo, pensei eu 

Mas resolvi adiante seguir
De forma alguma me alarmar
Queria era poder sentir
O que estava a me esperar

Com o tempo tudo foi ficando bom
Confesso que bom por demais
Se ser quietinho é fazer tão delicioso som
Eu vou querer mais, muito mais

Uai, estou apaixonada, sim
apaixonada estou, uai.
Majoli Oliveira, Brasil

Médicos diziam-lhe sempre, és sobrevivente. Da vida. Observação elogiosa, algo que conseguira, por si, extraordinariamente. Não entendiam. Fizera o que devia fazer: boa filha, aluna, mãe, esposa, pessoa. Era suposto ser de outra forma, porque a vida se apresentara demasiado ingrata: obstáculos (quase) inultrapassáveis?! Crê, assim o pensaram. Expectável seria a insanidade mental, distúrbios, ou marginalidade. Ouviu isto sempre com enorme estranheza. Para si, pouco fizera na e com a sua vida. Sobrevivente és sempre! Diziam-lhe médicos.
Isabel Pinto

Viver? Não tens nada; sim, nada tens, não viver…
A campainha interrompeu a saída das palavras “é a única solução”. Custara-me imenso ter chegado àquele ponto; foram muitas horas a pensar como ia terminar, a sofrer as palavras finais, e agora um simples trrim atrapalhara tudo.
– Margarita, certo? – perguntou o rapaz, quando abri a porta.
Como podia ser tão estúpido e ter encomendado uma pizza, precisamente no momento em que fechava a frase final do meu romance.
Bau Pires, Portugal

A árvore possui as chaves que abrem o coração. São chaves douradas, pequenas e secretas. A água escasseia por ali e as fechaduras já são velhas. Velhas são as fechaduras e as chaves já pouco aguentam sem serem colhidas na altura certa. Vai chegar uma certa altura em que a árvore irá secar e o coração já não poderá ser aberto. As chaves chorarão a velhice das fechaduras. Chorarão as chaves e o coração sangrará em vão.
Clara, 36, Lisboa

O sonho dela era voar, voar era dela, sonho... Por vezes pensa que se voasse, seria fácil, poderia sair dali, ir para um sítio onde se sentisse segura, onde a liberdade fosse possível, possível fosse iria para o mar, e ouviria o bater das ondas em simultâneo com as suas asas.
Que bom seria ouvir o mar...
Nos dias de insegurança, insegurança em dias tristes como hoje, esperando o brilho do sol.
Sonhar o brilho do sol...
Marina Maia, Portugal

Levantava-se com as manhãs, como quem tivesse para onde ir.
Ir onde? Para o café? Para o jardim?
Para onde houvesse vida, decidira, agora que moribundo se sentia.
E sentava-se no terminal dos comboios, a ver quem passava... Sempre dava para entreter e às vezes até acontecia ganhar um sorriso de mulher.
Assim anoitecia melhor.
Mas na manhã seguinte regressava ao vazio do dia em branco.
O mesmo dia repetido, desde que o tinham demitido.
Até quando?
Rita Bertrand, 40 anos, Lisboa

O prazo para reclamação da herança estava a findar. Bastava uma palavra e tudo seria diferente. Mas Joana calou-se
Remetia-se agora ao andar de cima, curtindo as bebedeiras que se sucediam, na vã tentativa de suportar a ausência do marinheiro que partira. O mar por vezes era cruel, desumano mesmo.
Todos esperavam que uma voz surgisse do outro lado da porta e o dinheiro brotasse. Essa voz não veio.
Calou-se Joana, mas… a dor não se silenciou.
Quita Miguel, Cascais

O meu país está morrendo? Morrendo está… País o meu! …
Impávidos, assistimos ao luto que lhe vestem. Onde está o meu país a preto e branco que um dia tirou a mordaça que o calava e cantou versos de poetas numa madrugada de Abril, revestindo de sonhos todo um povo?
Está sucumbindo meu país, sua mudez encobre gritos abafados dum povo cansado que se vai deixando abater.
Viremos a página desta morte anunciada do meu país.
Graça Pinto, 54 anos, Almada

À minha volta negrume: o céu, a alma. Não sei como ficar aqui, nem como encontrar outro onde. Onde fica o meu onde? Onde, meu, fica perto do amor? Duvido: o meu onde é tão intrínseco, está tão escondido entre os meus pensamentos sombrios, que se tornou um buraco negro sem fundo. Ouço um riso, alegre e cândido; deixo-o penetrar no nevoeiro cerrado da minha mente. Ouço o meu coração a bater: encontrei o meu onde.
Maria José Dias

A chuva levou minha alma... Alma minha, levou chuva a todos os dissabores e viu, do rastro que deixou, pegadas de incerteza e dor serem apagadas e escorrerem pelo ralo. Cabelos molhados e pele arrepiada, em ti, alma que agora está limpa como se acabasse de ter sido parida, desejo depositar as alegrias que não vivi, os sonhos que não realizei e vesti-la para a festa que a vida está a nos preparar. Venha linda... e sorridente!
Bia Hain, Brasil

Como não há nuvens sem céu, hoje elas apareceram tornando o céu cinzento e triste. O Sol tímido esconde-se por detrás delas que muitas das vezes choram num pranto desalmado. E de vez em quando, o céu lança trovões como que a resmungar. O Sol, com medo, apaga a luz. No dia seguinte, para ser diferente, um brilho surge do alto iluminando toda o planeta! Porque céu sem nuvens, há? Não são estes os dias mais alegres?
Vanda Pinheiro

Vida de miúdo = Vida bela!
Os meninos brincavam por aí, deixando-me roídinho de inveja...
Aqueles momentos doces na minha cabeça me deixavam filosoficamente estranho... Que bom!
Era maravilhoso como se jogava ao pião e às caricas...
E sem esquecer, quando à maioridade chegávamos, os amores e desamores e as meninas que espremiam espinhas...
Até que a minha mulher os chamou para lanchar.
E eu levantei-me decidido e disse:
– Deixa-os brincar!
A vida é bela... Aproveitem... Bela é, vida, Aaaaaa…!
E eles continuaram!
Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG

Prioridades
Carro e casa escolheu ele, quando casou trabalhou para dar à esposa o necessário e mais ainda, seguindo o conselho de seu pai "o homem traz o dinheiro, a mulher gere-o". E assim foi por 15 anos. Hoje apercebe-se de que deu demasiada importância ao que não tinha importância alguma. E em consequência, sua esposa cansou-se da falta de carinho, de passar noites sozinha. Pediu o divórcio e deixou-o com o que ele escolheu: casa e carro.
Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Évora

Dúvidas galináceas
GANSOS E GALINHAS PARTILHAVAM A QUINTA pacificamente, mas um dia instala-se a discórdia.
– Onde já se viu? – diz a gansa.
– É pela nossa segurança! – diz a galinha.
– Qual segurança, qual quê?!
– A raposa...
– Medricas! Um cão, valha-nos Deus!
– Mas os nossos filhos...
– Queres um cão correndo com os teus filhos??
– Sempre é melhor que uma raposa...
– É impossível falar contigo!
– É pela segurança e harmonia da quinta.
– Pois sim! – afastou-se resmungando. – QUINTA? A PARTILHAVAM GALINHAS E GANSOS!
Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Évora

Bem podia sair dali, sair podia. Não era o mais difícil, o mais difícil era ele próprio, os fantasmas, domar as emoções, com as emoções domadas tomar outro caminho. Já não se sentia em casa, a casa não a sentia, tudo lhe era estranho, mesmo as coisas mais mesquinhas tão mesquinhas como coisa de sentar-se num sofá ou ler um livro na varanda. Fazia anos de eternidade ali, uma eternidade que se fendia ali. Podia, não podia.
Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Mais amor!
Quando na vida a pensar
Lição encontro tão perto
Amor, quanto mais se dá.
Mais se multiplica, é certo!

Ter o coração ardente
Bem vivo e alegre é bom
Achar o que te fazer contente
Viver! em alto e bom som

Ficarem paz, fazer o bem.
Beber muita água, muito rir.
Cuidar da saúde também
Pisar rumo aonde quer ir

Prefiro então esse primor
Pois que amor nunca é demais
Assim multiplica-se mais
Dá-se mais, Quanto amor.
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Um destino feliz
Tinha nascido do rio quando o sol aqueceu a água. Separada do rio sentiu-se rio separado, água tornada única, pronta para partir.
Era uma gota elevando-se com um arco-íris brilhando na sua pele transparente.
A sua ambição era atingir a nuvem alta, a alta nuvem algodão, leve e pura, correr no céu azul arrastada pelo vento, viajando fascinada pelas terras por onde passaria.
Depois a sua morte seria doce e regressaria ao rio que a viu nascer.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Falemos sobre camaleões verdes
Adormecido sobre troncos esverdeados, o camaleão veste-se de verde, porque gosta de se disfarçar. As moscas voam à volta do camaleão, mas ele permanece estático. Permanece estático, mas à volta do camaleão as moscas voam distraídas, pensando que ele dorme. Quando menos esperam, ele lança a sua língua pegajosa e come-as vivas. Come-as vivas como o medo, de repente, nos come disfarçado em qualquer esquina. Como temos medo do medo é importante que falemos sobre camaleões verdes.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Estava decidido a deixá-la. Há muito que a sentia distante. Decidiu-se a pedir o divórcio. Não passava daquele dia. Como sempre, ela chegou carregando o mundo. Na discussão, apenas ele gritava com o silêncio dela. O que a fazia ficar tão amordaçada? Acabara-se o amor? Exigiu a verdade. Em soluços, ela respondeu que o amava mais que à própria vida. Meses atrás descobrira o cancro e o filho que iria anunciar. Não podia abandoná-la… Abandoná-la, podia? Não!
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Pastora linda!           
Vais onde linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Andas à chuva, à neve
E enfrentas vendavais?

Vais onde, linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Matas a sede no rio
Se o calor te queima mais?

Vais onde linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Arranhas-te nos silvados
Atrás dos teus animais?

És bonita como Sol,
És sonho e fantasia…

Pede um desejo ao vento,
Que é tua companhia,
Para te fazer princesa,
Nem que seja por um dia!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

– Onde foste?
– Não te interessa.
– É claro que interessa.
– Se eu te disser, vais contar à mãe.
– Não sei, depende.
– Está bem, eu falo, mas fica um segredo só nosso.
Jura que não dizes a ninguém.
– Juro, diz lá.
– Eu e o Manel fomos aos ninhos, ele descobriu
um com três melros.
– Roubou os melros do ninho, foi?
– Não, levou-os com o ninho.
HOJE, NÃO CONTO, NADA CONTO. NÃO HOJE!
Mas amanhã, vou contar tudo ao pai.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Poesia sem música... sem poesia? É impossível, pois são duas realidades indissociáveis.
Quando quero escrever os meus poemas, a criatividade apenas nasce, flui, percorre nas veias se estiver integrada num ambiente calmo, pleno de luminosidade, acolhedor e, em torno de mim existir melodia.
Mas, a música não pode limitar-se à acústica agradável; tem ainda que ser a pátria das palavras criativas.
Já compus várias músicas com inúmeras letras poéticas e o amor por ti sempre as edificou!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Cadáver à vista
Sentada comodamente fiz que a curiosidade fosse uma lupa. Uma. Fosse curiosidade a que fiz… comodamente sentada.
Menino anuncia bisbilhotice de olho aberto e voz vibrante. Voz e aberto. Olho de bisbilhotice? Anuncia menino!
Vala, aquela, cheia de estrume humano. Estrume de cheia… aquela vala.
Alma e corpo de recém-nascido assassinado… recém-nascido de corpo e alma.
Saiu arrancado, podre, ao lixo. Ao podre arrancado saiu.
Dor maldita quão condena corpo de mulher de corpo. Condena quão maldita?
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

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