10/05/14

EXEMPLOS - desafio Rádio Sim nº 13

Na biblioteca do vovô
Na biblioteca do vovô Eugênio, uma farra...
Os netinhos mexiam, reviravam os livros...
Adormeceram ali mesmo de tanto "ferver" por lá.  Sonharam.
No sonho as palavras atrapalharam-se dentro de um dicionário e brigavam entre si! Queriam trocar os lugares...
O martelo queria vir antes do amor e esse depois de queijo.
Brigaram tanto, mudaram seus lugares e depois não sabiam voltar!
Nessa hora, vovô entra, vê tudo, arruma os livros e com um beijo, acorda os netinhos!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

A declaração
Há quantas semanas – ou meses? – eu a espiava discretamente? Perdera a conta.
O formigueiro no estômago aparecia sempre com ela, como se viessem de braço dado, enlevados um no outro. Demorei a perceber que não padecia de qualquer maleita: era amor!
Então decidi dizer-lhe.
Sentámo-nos, lado a lado, na aula de Português e eu comecei:
– Tenho uma coisa para te contar.
As palavras atrapalharam-se dentro de mim, os meus neurónios em atropelos, e acrescentei:
– Adoro esta aula!
Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

As palavras atrapalharam-se dentro do ecrã, estavam tão habituadas a saltar do pulso firme direitinhas às linhas azuis do papel. O problema era o som: cada letra sua era batida de tal forma por dedos ruidosos que até se tornavam violentas! Mas haviam de arranjar maneira de sair dali,  estavam a ficar claustrofóbicas! O seu destino era outro, afinal eram tão carinhosas e importantes para uma certa pessoa que, se não as recebesse, não saberia como viver...
Graça Santos, 55 anos, Paço de Arcos

Palavras desafiadoras
E agora é tempo de aceitar o novo desafio da Margarida e agarrar a caneta para um mini texto escrever. Mas as palavras atrapalham-se dentro do pensamento teimosamente recusando-se a criar harmonia no papel. Como se tivessem autonomia e vontade própria. Há palavras assim, assumem-se e impõem-se, difíceis de controlar. Só nos fazem baralhar, hesitar. Que fazer? Como domar, ou dominar?, para a estória acabar? Talvez soltar a magia da imaginação e alegremente com elas brincar.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 50 anos, Coimbra

Comício
Era dia de campanha eleitoral, no largo principal juntava-se uma multidão. Microfones e suportes com os textos dos discursos alinhados, sugeriam uma organização perfeita para o último comício do grande partido popular (GPP). De repente levanta-se uma brisa e as palavras atrapalhando-se dentro do texto caíram no chão. O coreto vira passar grandes concertos de bandas filarmónicas que ano após ano animaram as festas da Senhora da Agonia, mas hoje agoniava com tanta palavra falsa e desonesta.
Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

Um sorriso
Aquele livro repousava há muito tempo na velha estante do escritório do avô.
Todos os dias, ao final da tarde, Pedro sentava-se na cadeira do avô a contemplar os livros. Algo lhe despertou à atenção, levantou-se subitamente e cautelosamente subiu à cadeira. Esticou o braço e num ápice tinha-o firme na mão.
Os seus olhos bugalhudos ficaram ainda mais esbugalhados quando leu o nome do avô.
As palavras atrapalharam-se dentro da sua boca. Esboçou apenas um sorriso.
Sílvia Mota Lopes, 43 anos, Braga

A menina coçava frequentemente a garganta e fixou o chão sem olhar para professora. Entretanto fazia caretas e movimentos descontrolados com os dedos.
Menina, como se chama? Perguntou a professora.
Ah!, a rapariga… As palavras atrapalharam-se dentro da boca. Não conseguia formular uma frase e sem querer
gaguejava    mer… merda! Ana, merda!
A inteira turma rebentou de riso e a professora devia intervir forçosamente na hilaridade.
Mas como?
Como deveria explicar aos jovens a síndrome de Tourette?
Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Sensoriais, recordações
Sei-te de cor, conheço todos teus gestos, desejos.
Teu cheiro, habita minha pele. Teus passos?...
Esses teus passos, ficaram gravados na minha memória.
O som das tuas palavras, quando chamavas meu nome, eram notas pautando o eco difuso da minha resposta.
A vida passou por nós… As provas que a vivemos, são testemunho histórico no futuro.
Hoje, em cena, no teatro que é a vida, queria falar-te do passado, mas, as palavras atrapalhavam-se dentro da minha memória…
Graça Pinto, 55 anos, Almada

Rodrigo e Teresa, ambos de pouca idade e sempre juntos na secretária da escola, aliavam-se nos trabalhos propostos pela professora, que tolerava a situação como o resultado de vários anos de convivência permanente.
Certo dia, uma das tarefas de aula consistia em verbalizar o amor. Teresa levantou o dedo, prontificando-se de imediato para ir ao quadro, onde escreveu com letra miúda:
– As palavras atrapalham-se dentro do coração, que não nasceu dicionário. Rodrigo, tu és a maior delas!
Miguel Jerónimo, 15 anos, Portimão

O livro estava pronto. Margarida sorriu, esquecida das horas de trabalho e da luta contra o tempo que parecia não ter tido fim. Começou a ler, mas não se reconheceu naquilo que escrevera. As palavras pareciam ter enlouquecido, todas elas desordenadas e atrapalhadas dentro das frases. Uma amargura invadia agora a sua alma e a sua vida...
Foi então que acordou daquele pesadelo! Era o dia do lançamento, e saiu sentindo uma alegria desmedida no seu coração.
Isabel Lopo, 68 anos, Alentejo.  

Era um dia solarengo, o calor banhava-me a face e a brisa marítima percorria os meus pulmões sedentos do cheiro primaveril. Descrever os pensamentos que ocupavam o meu cérebro tornou-se uma tarefa árdua. As palavras atrapalharam-se dentro de mim, elas tornaram-se por alguns momentos, insignificantes. Nenhum som foi pronunciado durante longos minutos, neste momento nada mais importava. Durante este longo inverno refugiei-me da chuva enrolada nos cobertores e sonhava-me banhada pelo sol tímido e pela brisa perfumada.
Isabel Pinela, 41 anos, Amadora

Casting
A música era a sua vida. O seu sonho era ser cantora, passar ao mundo a sua mensagem. A mãe sempre a incentivou, apoiou-a a 100%, só queria que a filha realizasse o seu sonho.
Soube que iria haver uma audição para jovens talentos. No dia seguinte consegue a inscrição. Horas antes de ser avaliada dirige-se à igreja mais próxima, ajoelha-se e ora.
– Senhor que nunca as palavras se atrapalhem dentro de mim.
Depois da audição… SUCESSO!!!
Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica

Aconteceu-me há uns bons anos…
O autocarro apanhou-me em Algés e eu sentei-me na coxia, ao lado de um senhor com cara de poucos amigos. A certa altura, tirou o isqueiro que guardava no bolso e um cigarro, colocando-o entre os dedos e perguntou:
– Dá-me licença?
– Eu não me importava, mas acho que não se pode… –  respondi, apontando o aviso “Não fumar”.
– Mas também vai sair???
As palavras atrapalharam-se dentro de mim de tal maneira que apenas consegui levantar-me, sorrir… e corar.
Catarina Azevedo Rodrigues, 41 anos, Lisboa

Atrapalhação
Fim de tarde, um domingo melancólico.  Sentei-me inativa na penumbra do escritório. 
Ouvi um burburinho quase inaudível e questionei-me de onde poderia vir.
Estava só.  Recusei-me pôr em causa a minha sanidade mental.
Mas... o que se passava?
Ah! Curioso, era mesmo do interior dum livro!
Que barafunda. Pronomes, adjetivos, verbos, substantivos, discutiam aparentemente sem motivo. 
Finalmente chegou o sujeito.  
As palavras atrapalharam-se dentro de um dicionário e aos tropeções lá se alinharam ordenadamente através das páginas.  
Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Perdão
Ela acompanhava-me como se nada tivesse acontecido, mas eu percebia na sua face a mágoa.
Quis pedir-lhe perdão, mas as palavras atrapalharam-se dentro de mim, criando um terreno montanhoso que me forçava a percorrer. Jamais havia sentido aquela vontade de me redimir e, em simultâneo, a incapacidade de me desculpar.
Durante algum tempo, segui em frente, andando rápido, procurando ignorá-la.
De repente, como num passe de mágica, deixei que um «desculpa» preenchesse o ar e então serenei.
Quita Miguel, 54 anos, Cascais

A Confusão das Palavras
Era dia de limpezas. Na estante, os livros,  quais soldados perfilados em dia de parada, ilustravam lombadas exclusivas: romances históricos e ficcionados, poesia, teatro, enciclopédias, biografias.  A sabedoria montara ali o seu reino.
Mas havia que limpar pó e desalojar ácaros.
Em meio desta empreitada, sucumbiram algumas prateleiras pejadas de livros e as palavras atrapalharam-se dentro de todos os tomos.
Após cirúrgico trabalho, a ordem surgia do caos e a tranquilidade voltou à estante guardiã das palavras.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Cruzaram-se no recreio da escola e olharam de relance. O rosto dela ruborizou deixando-o atrapalhado. Aproximou-se, mas as palavras atrapalharam-se dentro de seu peito. Não sabia como começar. Timidamente sorriu e lançou, «Olá, sou o João. E tu como te chamas?»
Ela correu, sem olhar para trás, saiu pelo portão e apanhou o autocarro que acabara de chegar.
Apanhado de surpresa não teve reação. Avistou o transporte passar, seu semblante...
Foi a última vez que a viu.
Cláudia Mourato, 36 anos, Oeiras

As partidas de Arkó
Arkó era um coelho que passava a vida a pregar partidas de malvadez aos amigos e colegas da sua comunidade. Não sabiam como lidar com ele... dizia uma coisa, mas fazia outra, muitas contradições...! Mas havia alguém que ele não queria enfrentar... era a Rebeca, uma gata muito observadora e perspicaz que enfrentava-o de frente, olhos nos olhos só para o ouvir!
Rebeca decidiu confrontá-lo... as palavras atrapalharam-se dentro dela, mas ainda conseguiu gritar... Chega!!! Olhares surpreendidos...!
Prazeres Sousa, 51 anos, Lisboa

Quem quer saber uma coisa, ou mesmo duas, que tenho para contar?
Não é segredo nem tão pouco coisa de admirar. São simples palavras, setenta e sete ao todo, bem juntinhas dão belas estórias que nos fazem rir ou mesmo chorar, palavras cheias de coragem e matutar. Mesmo sendo poucas, cabe lá o mundo inteiro, setenta e sete palavras dão que pensar.
Quem quer escutar o que eu tenho para contar… Depressa que a estória vai começar.
Paulo Roma, 50 anos, Lisboa

Gosto de sentir. Sentir o verde que respira, a luz das manhãs de primavera, a suave chuva de outono ou o peso da história em cada recanto, em cada poro desta Lisboa. Sensações que se fazem palavras, que ora brincam felizes ou palavras que se atrapalham dentro de mim, sem que saiba que são minhas, sem que saiba que lhes fazer. Mas depressa se entendem, retomam o seu lugar e se inscrevem no mais profundo de mim.
Sandra Évora, 40 anos, Sto. António dos Cavaleiros 

Catadupa
As emoções surgem em catadupa, tomam conta de mim, deixo de ter espaço para me encontrar. Todo eu sou essas emoções e as sensações que elas acarretam, manifestam-se intensamente e as palavras atrapalham-se dentro de mim, procurando se libertar, procurando ser ouvidas. Mas não encontro maneira de as expressar, elas ficam presas, engasgadas na profundeza dessas emoções. Todo eu sou esse pulsar de emoções vivas, galopando cada pedaço do corpo. Deixei de lutar, entrego-me e apenas observo.
Paulo Renato, 38 anos, Maia

As palavras. Saem de mim em catadupa. Ficam dentro sem serem geradas. Procuram-se e não se encontram. Encontram-se sem serem procuradas. Acompanham pensamentos incessantes. Caóticas. Desordenadas. Ordenam experiências. Desordenam lógicas. As palavras surgem espontaneamente no momento adequado. As palavras atrapalham-se dentro de mim, morrem sem nascerem. Vêm antes do tempo. Surgem tarde de mais. Expressam sentimentos. São autênticas. Escondem mentiras. Corroem. Magoam. Destroem. Deformam realidades. Anunciam alegrias. Traduzem dor. São só palavras. São muito mais que isso.
Ricardo Miranda, 38 anos, Friburgo, Alemanha

Finamente chegara! Eram amigos desde crianças, almas gémeas. Sempre se apoiaram nos bons e maus momentos.
Este acidente fizera-o pensar que nunca lhe dissera o importante que era a sua amizade.
As palavras não eram o seu forte.
Ela beijou-o na face e estendeu-lhe um postal, leu-o: "os verdadeiros amigos falam sem precisarem de palavras".
Olhou-a, sorria, mais uma vez as palavras atrapalharam-se dentro de seu íntimo. Olharam-se mutuamente e voltaram a falar sem necessidade de palavras.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Caminhava há muito. Há muito avançava sem chegar perto do fim. Há muito que não via ninguém e não ouvia o som de uma palavra, nem a sua. De súbito, à beira da estrada, um mendigo salta ao seu encontro e exclama, com ar esperançoso: “há muito que não vejo ninguém, posso caminhar contigo?”. A explosão de sensações foi demais e as palavras atrapalharam-se dentro de si. Fez uma pausa e seguiu. A solidão é companhia consoladora.
Tiago Viana, 36 anos, Parede

Há algum tempo uma colega desafiou-me a visitar as histórias em 77 palavras.
Satisfeita a curiosidade, receosa de escrever disparates, afastei dúvidas e a vergonha de não saber escrever.
As palavras atrapalhavam-se na minha cabeça mas enfrentei pensamentos e comecei a escrever.
– Desabafo pessoal? Contos? Rimas? Poesia?
Depois de conhecer a Margarida tornou-se fácil. Tem sempre uma palavra amiga, um incentivo para continuar.
Posso não escrever muito bem mas sou uma privilegiada, faço parte da comunidade “77 palavras”. 
Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Mas que trapalhada
Andava de um lado para o outro como animal enjaulado. O discurso não saía, fizera mil e um rascunhos e nada. Tudo parecia fútil.
As palavras atrapalhavam-se dentro de si como se não soubessem que frase formar.
O tempo, esse, voava, começava a desesperar!
Bebeu um chá, tomou um banho quente, leu, tentando acalmar-se. As palavras, essas, se estavam atrapalhadas, ficaram ainda mais. Fechava os olhos e via-as voando, umas atrás das outras, rindo-se do seu embaraço.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Coentros e olhos verdes
Hoje iria conseguir.
A porta abriu-se e ali estava ele. Olhar esmeralda, boca sensual, prometendo beijos de loucura.
Jesus, Maria, José… era lindo de morrer.
– Bom dia, Gracinha.
– Eu queria…
Os olhos ficaram mais verdes. A boca sorriu, em interrogação paciente.
– … queria… uma folhinhas de coentros do seu quintal.
Pronto, outra vez! As palavras atrapalharam-se dentro da alma, voltando a misturar ânsia de amor eterno com mania de perfeição gastronómica.
Bolas! Para quando o abraço tão desejado?
Fernanda Elisabete da Silva Gomes, 58 anos, Lisboa

Elogio inacreditável 
Ana encontrava-se com um colega em intervalo. Aparece um jovem, sereno, feliz. Dirigindo-se-lhes. Cumprimentaram-se calorosamente, com contentamento, nostalgia; não se cruzavam já.
Dialogaram os três sobre resultados escolares. Houve parabéns, abraços e… subitamente o colega em tom brincalhão, humorístico, diz-lhe: “Ana foi péssima contigo”. Respondeu-lhe: “Pelo contrário, foi a melhor…”. Incrédula, emocionada, abraçou-o, beijou-o, agradeceu-lhe. Palavras bonitas, sentidas, verbalizadas. Inesquecíveis. Depois as palavras atrapalharam-se dentro de si. Sentiu-se atordoada. Racionalizou: projectara nela tudo o que ele era.
Isabel Pinto, 47 anos, Setúbal

As lágrimas já há muito que secaram.
A tua despedida já nada me diz.
As palavras atrapalharam-se dentro de mim, e de mim ocultaram a verdade. Se morreste ou apenas foste embora sem um adeus, não sei!
O começo e o fim são me iguais.
A dor permanece intacta.
Lágrimas, despedidas, palavras, recomeços e dores.
O despertador continua a tocar, dia a dia, e contrariada, a cada manhã deixo o meu ninho na esperança de ser diferente.
Ana Sofia Cruz, 16 anos, Porto

Palavras e letras
Umas sobre outras, numa amálgama, em que as palavras atrapalharam-se dentro de mim com esta mistura tornou-se, difícil escrever o poema, dar-lhe um sentido. O amor misturou-se com alegria ficou poesia, aroma de alfazema, amar e cheirar bem era seu lema. Belos e bons foram os beijos que saciaram meus desejos. Gerou-se confusão, com Gratidão meti tudo no coração, com letras formei palavras, saiu bonita canção. Atrapalhação, não vale a pena, fica serena. Cantemos Grândola Vila Morena.
Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos Lisboa

Maria era pequena, mas muito imaginativa! Adorava criar os seus próprios mundos, onde tudo era melhor, onde podia viver esperançosa e ter confiança em si mesma, sem que ninguém a deitasse abaixo! Lá era princesa, soberana e todos a ouviam! Sentia-se amargurada e desamparada no mundo real. Nunca ninguém a entendia, ou sequer escutava. Queria falar mas as palavras atrapalhavam-se dentro de si. Assim refugiava-se no seu próspero universo onde cresceu e aprendeu a ser, finalmente, feliz!
Liliana Macedo, 15 anos, Ovar 

Mas que trapalhada
Andava de um lado para o outro como animal enjaulado, o discurso não saía, fizera mil e um rascunho e nada. Tudo parecia fútil.
As palavras atrapalhavam-se dentro de si como se não soubessem que frase formar.
O tempo, esse, voava, começava a desesperar!
Bebeu um chá, tomou um banho quente, leu, tentando acalmar-se. As palavras, essas, se estavam atrapalhadas ficaram ainda mais. Fechava os olhos e via-as voando umas atrás das outras, rindo-se do seu bloqueio.
Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Évora

Chegada
Acordei com um pressentimento. O sonho tinha sido lindo, prometedor.
Propositadamente, ignorei-o.
Mas o cérebro, demasiado ocupado com um único pensamento que ameaçava transbordar, relembrava-mo.
O calendário lunar, mil vezes consultado, indicava uma noite de brilhante Lua Cheia.
Esta iluminava os meus pensamentos e fornecia energia às minhas divagações.
À tarde a chegada da primeira notícia. A ansiedade cresceu, transbordou…
Finalmente a confirmação: Nasceu! É lindo!
As palavras atrapalharam-se dentro do coração e… emudeci. Chorei!
Sou avó!
Palmira Martins, 58 anos, Vila Nova de Gaia

A Beatriz comia com prazer, o problema era o verde.
– Ó Bia, não podes comer só doces! Tens de variar.
– Eu sei, mãe, por isso bebo leite achocolatado, rebuçados de fruta, doce de tomate e de abóbora, bolo de cenoura …
– Vá lá, a sopita! Faz-te bem!
– Muito verde, mãe!
– Come!
– E tu?
– Agora não me apetece!
– Come, faz-te tão bem a ti como a mim!
As palavras atrapalharam-se dentro de mim, não soube o que responder.
Fátima Fradique, 40 anos, Fundão

The end
Queria dizer tudo. Tudo seria pouco. Pouco fora o tempo de ser feliz. Malas prontas, pequenas delicadezas, livros e um turbilhão de ideias, memórias tomando o pensamento.
Por sobre a mesa: caneta, papel e o reunir de emoções, dizer o que já foi dito, exaustivamente esgotado.
Um até mais, ou «nunca mais».
Lágrimas teimosas sempre vêm.
Naquele instante, as palavras atrapalharam-se dentro do pensar, restaram apenas silêncio e lacuna. Quebrado apenas pelo estampido da porta batendo.
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

A importância da acentuação
Certo dia, no país da escrita, o Rei Dicionário decidiu eliminar a acentuação. A confusão instalou-se. As palavras atrapalharam-se dentro do reino, ganharam duplo sentido, deambularam à solta sem nexo…
Papá deixou de existir e passou a dizer-se papa. Avó e avô passaram a chamar-se da mesma forma: avo. Bebé ficou bebe. O que era fácil ficou facil e o difícil ficou dificil.
Mas só quando alguém chamou dicionario ao Rei ele decidiu revogar a sua lei!
Márcia Gomes, 36 anos, Vila Nova de Famalicão

Na predisposição daquilo que é correto ou na procura do que é suposto ser, viver e sentir, ela é só mais uma. Uma criatura deveras real, algo que existe sem se dar a conhecer. Ela é o beijo que nunca te pertencerá, o abraço que nunca mais apertarás.
E, quando no vácuo daquele mesmo dia disse que te amava, sentiu as palavras atrapalharem-se dentro de um amor que só a ela pertence.
Como é triste amar assim!
Ana Sofia Cruz, 17 anos, Porto

Há quanto tempo sonhava com aquele momento. Gaguejou não sabendo que dizer… Os sentimentos jorravam em catadupa, enlaçando-se nos pensamentos. As palavras atrapalharam-se dentro de si numa tortura dolorosa. Como dizer sim? Tinha acabado de saber que ele era casado… Como poderia ele pedi-la em casamento? Como poderia dizer-lhe não se o amava mais que à própria vida? O vulcão explodiu a raiva surda que guardava. Engano, Maria, esse é o meu irmão gémeo! O resto? Adivinhem!
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Clube das setenta e sete palavras
As palavras atrapalharam-se
Dentro de setenta e sete,
Porém, lá se entenderam
Com um deixa, tira, mete.

Com tanta atrapalhação,
Até ficaram com medo,
Pois além de organizadas
Eram contadas a dedo!

A contagem programada
E as regras apertadas,
Para elas foi parecido
Com as palavras cruzadas!

Ingredientes escolhidos
Que fazer com a mistura?
Pior que fazer um bolo
Com uma bela cobertura!

Pois, a nossa Margarida,
Com tanta limitação,
Ensinou-lhes a humildade
A escolha e união!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Viúva
Janela. Doía-me a vista. Um formigueiro apoderou-se dos meus braços e das minhas pernas. As esperas são fatais, matam o tempo dentro do coração, as palavras atrapalhavam-se dentro e não tinha o que te dizer quando fosse para te dizer. Mas o corpo sabe e tudo será diferente na convulsão do sexo, tu saberás que eu estive sempre contigo. Porta. Entrarás como um herói, porque voltaste, não quero saber do mundo em chamas. Sou a tua viúva.
Constantino Mendes Alves, 57 anos, Leiria

«Palavras ocas, palavras frias que ninguém deseja.
Palavras sentidas, carinhosas, que não ficam perdidas, são desejadas e amadas.
Palavras que o vento não espalha quando têm dentro a razão.
Mas causa-me esta sensação de as perder sempre que te vejo. Fico sem palavras!
Palavras magoadas ninguém as quer, corroem e doem, muito, muito!
Traz para mim as palavras do teu coração, traz a imensidão do texto de amor, sim, por
favor!...»
Maria
(as palavras atrapalharam-se dentro dele)
Andrea Ramos, 39 anos, Torres Vedras

Tinham sido momentos estranhos. Vozes que me chegavam ao longe num turbilhão distorcido.
– Desmaiou. Está mal.
– Deixem passar. Precisa de ar, não veem? Afastem-se.
– Queria falar, explicar o que se passara. Mas não consegui. As palavras atrapalharam-se dentro de mim, como se eu fosse outra, como se tudo fosse um sonho.
– Tenha calma, vamos tratar de si, não se esforce mais.
– Mas eu…
Sei que tentei mesmo falar. Mas não fui capaz. Mexer-me, também não.
Então acordei.
Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa

Queria escrever-te. Dizer-te, o que sinto
e o que diz o meu coração.
Queria, que soubesses a alegria que me inunda.
E como sonhei, com este momento.
Às vezes, achava que o tempo não passava.
Outras vezes, não conseguia dormir porque, na minha cabeça,
havia tanta coisa para te dizer. Não queria, esquecer-me
de nada. Queria, ou pelo menos tentei,
gravar todos os momentos na minha alma para poder relatar-te.
Mas as palavras atrapalharam-se dentro de mim.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Sete da manhã. Telefono à minha Mãe. Demora a atender. 
– Caí da cama, estou no chão desde as cinco.
Em pânico, meto-me no carro. Abro a porta. Encontro-a enrolada no chão do quarto. Não consigo levantá-la. Sms para o meu irmão. Tapo-a e beijo-a.
– Calma! Ficas boa!
– Só cá estou a dar trabalho…
– Sua tonta! Amo-te muito!
Lágrimas corriam dos meus e dos olhos dela.
As palavras atrapalhavam-se dentro da minha cabeça. Só desejava que ele chegasse.
Carla Augusto, 48 anos, Alenquer

Atravesso-me quando acordo. Um voltar a mim que me arrepia estupidamente, como se o mesmo não me acontecesse todos os dias, desde que nasci. Respiro a sensação e resigno-me. Mas hoje senti o coração bater mais forte e as palavras atrapalharam-se dentro, aprisionadas. Resistentes, segredaram-me a força da libertação e numa conspiração cega desprenderam-me a língua e voaram num som inequívoco – Vive aqui, hoje! E vivo, dia após dia, neste castigo saudoso do tempo que foi meu.
Sandra Évora, 40 anos, Sto. António dos Cavaleiros 

Há muito tempo que o meu coração pulsava mais forte quando te aproximavas de mim, mas sentia o calendário avançar rapidamente, acusando o final do nosso curso... que sofrimento!
Queria confessar-te o meu amor, mas as palavras atrapalharam-se dentro da minha boca.
Restava-me recorrer ao cérebro. Tu gostavas de ler, por isso, emprestei-te "Os Miseráveis" de Victor Hugo, composto por cinco volumes... demoram a ler, estou certa que não desapareces da minha vida dentro de duas semanas.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto


Ele e Ela cresceram juntos, viviam frente a frente e os seus corações pertenciam-se.
Todos os dias, cruzavam-se e, quando trocavam olhares, a vontade de deitar cá para fora os sentimentos era enorme, mas o medo era ainda maior e, por isso, calavam-se.
Um dia, decidiram ganhar coragem, olharam-se, mas, mais uma vez, as palavras atrapalharam-se dentro deles. Calaram-se de novo.
Cada um seguiu o seu caminho, mas os seus corações caminharão para sempre lado a lado.
Elza Borges, 14 anos, Escola Secundária Morgado de Mateus, Vila Real, prof Sofia Doutel

Todos os dias as usamos e mal nos apercebemos da sua importância. Dançam de um lado para o outro, de boca a orelha. Andam sempre à nossa volta. As palavras atrapalham-se dentro do cofre a que chamamos mente, organizando-se para a próxima vez que serão usadas.
São como um tesouro que nunca se esgota através do tempo. Quem tem mais vocabulário mais erudito é.
Que mais podemos dizer? As palavras nunca perderão a sua magia e encanto.
João Barbosa, 16 anos,
Escola Secundária Morgado de Mateus, Vila Real, prof Sofia Doutel

Eram três da manhã, acordo sobressaltada, parece que me caiu o chão... que sonho horrível! As lágrimas começam a escorrer-me pela face sem que eu as consiga controlar. Tinha um aperto no peito só em recordar a perda da minha tia. Invadida por uma enorme nostalgia, as palavras atrapalham-se dentro do meu pensamento. Começo a imaginar o momento em que irei de novo passar pelo mesmo por alguém que ame.
Abafo-me entre os cobertores e adormeço profundamente.
Ana Barros, 14 anos, Escola Secundária Morgado de Mateus, Vila Real, prof Sofia Doutel

Era no tempo que as palavras se expressavam. Era no desejo que as mãos se soltavam. Era numa forma simples que eu me aconchegava em ti. Era assim que o verbo era conjugado e de uma forma tão presente. As palavras atrapalhavam-se dentro do meu cérebro, do meu coração. Abri-as naquele meu desejo que as mãos se soltassem, para que o verbo transmitisse aquele sentimento tão profundo. Abri as comportas do gostar e naquela cascata pudemos mergulhar.
Elsa Alves, 69 anos, Vila Franca de Xira

Sem comentários:

Enviar um comentário