20/08/14

EXEMPLOS- desafio nº 72

Futebol
Decidira ficar até ela regressar a casa. Imaginara que quisesse voltar a falar consigo. Afinal, fora apenas uma discussão boba.
A sogra é que não gostou:


– Vou ter de pôr água no feijão. 
– Obrigado por pensar assim – respondeu, com ironia. A velha cozinhava pior que mal. 
Logo num domingo, perdera as estribeiras. Agora, não havia futebol para ninguém. Ou talvez houvesse… 
Ruthe regressara sorrindo. Porquê, ele não sabia, nem lhe importava.
«Está na hora do jogo», pensou.  
Quita Miguel, 54 anos, Cascais

É Verão!
Regresso à aldeia;
Onde encontro mães de rosto lavrado.
Ruas onde o tempo não passou.
Velhos que são apenas passado da vida;
E gente nova, sem passado nem futuro.
Onde a vida se esquece de passar...
Esse, o futuro, que o vento levou!
Para onde?
Onde há mercados, finança e desconfiança,
É um grito!
Que passa pelas casas de paredes caiadas,
Varandas e alpendres floridos, para sonhar
Escondem o negrume, das cinzas, não!
Dos sonhos!
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Nuvens
Bártolos de algodão
Esvoaçam na imensidão
Brancos como plumas
Transparentes como um espelho, reflectoras colunas...
Andam, correm, percorrem
Sopram, rodopiam
São levadas pelo vento, queridas pelo tempo
As formas?
Ora agruras vivenciais
Ora trajes mundanos
Faces celestiais da coroa dos enganos
Livros celestes em mutação, constantes esvaídas, abstracção.
Belas ao olhar,
Sorridentes ao contemplar
São símbolos e sinais, bandeiras e corais
Ócio atmosférico,
Balões vaporosos celestiais, réstias de Água Pura
Clarões irrompidos em conteúdo, e forma segura...
Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa

Não queria mais voltar àquela casa. Acabou por ceder. Afinal, era o dia
do seu aniversário!
Tentou reconhecer-se naquele espaço onde fora feliz. Tudo lhe parecia
irreal, numa desordem inquieta.
Nem sequer conseguia imaginar o seu rosto. Julgou que afinal nada
tinha existido. E um vazio apoderou-se do seu coração.
Fingiu divertir-se, bebeu champanhe, dançou, atordoou-se. Mas os
pensamentos enlouqueciam a sua cabeça...
Resolveu fugir... Os seus passos tropeçaram na noite. E levou uma
amargura para casa.
Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa

Princesa por um tempo
Já fui princesa. Sem castelo, sem título, sem sangue azul. Não tinha compromissos oficiais de realeza. Não participava em eventos nem cortava fitas. Não usava vestidos impostos pela etiqueta. Não precisava, sequer, de cumprir a etiqueta. Mas era princesa.
Frequentei a escola pública, sem professores exclusivos. Sem regalias.
Escolhi a profissão que sempre quis. Cometi erros comuns. Tal como o mais comum dos mortais. Chorei e ri. Amei muito.
O meu pai partiu, já não sou princesa.
Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Consultas Adiadas
Numa cidade de província algures no interior. É segunda-feira. Na 'Policlínica Popular – Rapidez e Eficácia', espera-se. Saleta a abarrotar. Os pacientes impacientam-se. O tempo discorrendo, gera-se a cacofonia:
– Venho por mor dum joelhito moído;
– Eu ando tão malinho das cruzes!;
– De fastio em desfastio, encontro-me areadinha;
A melopeia prossegue...
À porta, a enfermeira: não há consultas!!!  Ficámos sem sistema.
– Cum seiscentos milhêros! 'Rapidez e Eficácia'???
Ó Senhores!  Nome errado.  Melhor dito, 'Policlínica Popular Sem Sistema'
Bem pensado.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

O voo nupcial
Conto, conto?
Eu vi.
Era uma vez um belo pavão. Queria muito voar, rasgar as nuvens.
Que fez? Querem saber, não?
Subiu, pé ante pé para o telhado. Aprumou as suas penas multicolores, singulares.
Fechou o leque. Precipitou-se no vazio.
Que majestoso!
O corpo baloiçou no ar, sem medos.
Exibiu-se para a pavoa do pátio vizinho.
Aterragem macia de um voo nupcial.
A receção de uma namorada orgulhosa, apaixonada.
O sonho tornou-se a realidade vivida.
O amor!
Arménia Madail, 56 anos, Celorico de Basto

Estado de Graças
As notícias tardavam.
Tão distante ficavam aquelas terras distantes.
Saudades, bastantes.
Vida de militar, tudo a defender.
Sem nada de nada lhe pertencer.
Viver longe dos seus, chamavam-lhe coragem.
Era dever, obrigação.
Tanta abdicação.
Guardava como único pertence, uma imagem.
Ela... isolava-se na nostalgia da solidão.
Corria para a floresta, olhava a lua.
Esperava na clareira.
Quem sabe, talvez o duende viesse.
Enquanto ela, ela acariciava o ventre.
Semente que germinava.
Enquanto esperava que o militar chegasse.
Rosélia Palminha, 66 anos Pinhal Novo

Eternos Condicionais
Triste utopia que vivemos, gastando “ses” desmesuradamente...
Injustos condicionais!…
“Se” isto… “se” aquilo, “se falasses comigo …
Desculpas inventadas para uma veladura reconhecida.
Como se gasta o tempo que corre!...
Braços caídos… Olhos que ignoram… Bocas que emudecem…
Ânimos exaltados, mas que apaziguadamente se calam…
Angustiantes estes “Ses”!
Prerrogativas de alguns…
“Nós”, “Todos”,
palavras que gosto mais!
Plurais absolutos. Autónomos, ilimitáveis…
Criadores de mundos que tão habilmente partilhamos.
Mas que ignorantemente arrasamos em eternos apanágios. Os “Ses”…
Graça Pinto, 56 anos, Almada

Perseguir um sonho
Entrou sorrateiramente… Solicitou uma inscrição.
A locutora entrou sorridente na sala.  Anunciou a subida ao palco da concorrente.
Nervosa, cheia de tiques, balbuciava as piadas.
Do público saíram gargalhadas de escárnio.
Respirou fundo, entrou no concurso para vencer!
Nesse momento transfigurou-se! Num ápice transformou-se numa mulher exuberante, frontal.
Poderosa, zombava com gestos e caretas.
Os espectadores em suspense absorviam as graçolas.
Esqueceu o concurso, tornou-se protagonista do filme.
Desaustinada, o palco abandonou de rompante.
Como uma estrela!
Cristina Lameiras, 49 anos, Casal Cambra

Reflexo
Olho-me no espelho
Não gosto da imagem que me devolve.
Sinto-me velha. Os anos? Não são muitos.
Simplesmente sofridos. Só Deus sabe!
Cada ruga lembra a lágrima caída.
Olho novamente. Parecem mais vincadas a cada olhar.
Cada ruga esconde uma grande tristeza.
A minha filha espreita pela porta. Estás pronta?
Um sorriso transforma o meu rosto.
Algumas destas rugas serão de felicidade? Espero que sim.
Afinal também sorri durante a vida.
Meus olhos sorriem.
As rugas desaparecem
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

A dor da perda
Ali está ela. Deitada sobre a cama, vestida de preto. Pelas janelas fechadas não entra qualquer luz. Assim está a sua alma, sem cor. Subitamente, viu-o definhar. Acompanhou-o, tratou-o, deu-lhe alimento e carinho. Conforme tinha sido ao longo da vida. Apesar de violento, rude, pouco carinhoso… Era o seu feitio, sabia-o e aceitava-o. Tiveram dois filhos e dois netos. Construíram uma família unida, feliz. E agora perdeu-o, tão inesperadamente. Sente-se só, desmembrada. Perdeu uma parte de si…
Margarida Leite, 45 anos, Cucujães

Pranchas ali no chão estavam jogadas...
Pouco antes um casal ali estava.
Manobras, shows, eles faziam no mar...
As pranchas?
No chão deitadas.
E eles? Onde foram parar? Aquele parzinho, onde há de agora estar?
Estarão em algum cantinho juntos a chorar?
Fim de férias. Tristes despedidas...
Juras prometidas...
As pranchas sozinhas ali ainda estavam.
E eles?
Onde terminaram?
Mesmo sem saber, podemos bem imaginar!
Devem estar em alguma sombra verdinha...
 Na despedida, o amor bem marcar!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Um poema
Um poema
Mas sem rima
Perfumado de alfazema
Vai com uma rosa em cima
É para ti, meu doce amor
Sei que gostas de flores
Tem cuidado, as rosas têm espinhos
Levam-te meus beijinhos
Meu amor, vê lá não te piques
Quero que com o poema fiques
Escrevi-o com ternura
Reguei-o com beijos que tirei do coração
Estavas amor cheio de muita secura
Quero que ele te sacie a sede
Meu amor, pintei o poema de verde
Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos, Lisboa

Palavras ilimitadas
Então tá.
Exercício é escrever com algumas limitações.
A escrita livre é fluidez do pensamento.
Inspiração é respiração.
Escrever é criar asas, alçar voos.
Flutuar no azul.
Azul piscina.
Escrever-sonhar.
Então tá.
Ilimitar o limitado.
No papel, enfeites, cores da alma...

Contar palavras,
Contar desejos,
Letras acalentar.
Então vamos escrever fatias, doses de poesia.
E fazer rimas dedicadas à alegria
Exercitando fantasias,
Que tal ser feliz todo dia?
Com 2, 3, 6 ou 7 palavras.
Pois que seja...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Somos apenas humanos. Somos apenas simples aglomerados de átomos. Simples aglomerados de átomos que formam moléculas. Moléculas essas que se reúnem formando compostos. Compostos esses que formam variadíssimas estruturas. Estruturas essas que formam pequenas células. Células essas que se agrupam formando tecidos. Tecidos esses que dão forma a órgãos. Órgãos que em conjunto formam um sistema. Unidos todos estes sistemas temos um organismo. Organismo que influencia e é influenciado. E então? Somos apenas humanos. Será que sim? "
Liliana Macedo, 16 anos, Ovar

Chamava-se João. O rapazinho era de uma sensibilidade rara. Parecia não ser destinado a este mundo. Solícito, destinava um lugar a todos. Era bondoso. Uma bondade inusitada. Capaz de se doar sem questionar. Dava que pensar. E não poderíamos ser todos assim? Claro que não. Era invulgar! Aos invulgares destinava-se uma vida curta. Mais uma vez o povo acertara. Apareceu morto… Arrependido, o ladrão, chorou a sua morte. Não percebera que era o João… O João bondoso… 
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Mas tu não me dás ouvidos?
Nunca aprendes nada.
Devias saber como os negócios são geridos.
Está bem.
Que posso fazer?
Aprender a gerir o que será teu.
A minha vida não é esta.
Que queres fazer da tua vida?
Gosto de cantar.
Achas que a vida leva-se a cantar?
A minha sim.
Tu não sabes nada da vida.
Nem quero aprender.
Eu já não digo mais nada.
Não digas.
Depois não digas que ninguém te aconselhou.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Adoro Mar!
Adoro mar!...
Revolto, calmo, mansinho!...
Com as ondas a chegar, devagar, devagarinho!...
Adoro mar!...
Azul, verde, amarelado!...
Ondas ligeiras, parado!...
E a bater nos rochedos bem certinho!
Adoro mar!...
Com peixinhos a nadar ou a saltar!...
E barquinhos, lá ao longe, a navegar!...
Adoro mar!...
Com navios confortáveis onde se vai embarcar!...
A baloiçar!...
Adoro mar!...
Com o Sol a espelhar e deslumbrar!...
Com a Lua a brilhar, espreitar!
Adoro mar:
Belo, imenso, grandioso, encantado e singular!...
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Estou só! A casa está vazia, reinando o silêncio.
Os meus pais estão a trabalhar. Os amigos têm vidas preenchidas, atarefadas. O namorado prefere a companhia dos lençóis.
Mas... que importa? Antes só do que mal acompanhada!
Momentos de tédio nunca me irão derrubar.
Retomei imediatamente a leitura do " Prometo falhar ".
Um livro ajuda-nos a vencer a solidão. Aquece-nos a alma, dá asas à imaginação.
Posteriormente, peguei na caneta, no papel. Dediquei-me à verdadeira paixão... a escrita!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

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