01/03/15

EXEMPLOS - desafio nº 85

Luiz tardiamente passara no vestibular. Namorava demais! Isso atrasou sua concentração. Mas agora era dentista. 
Seus pais felizes acompanhavam a carreira e o término das obras do seu sonhado apartamento. 
Um dia a mãe vai ao consultório: 


– Já na morada nova
Com rispidez responde: 
– O que importa saber se JÁ NAMORADA NOVA
Desfeita a incompreensão, diz que encontrara a mulher de sua vida. 
– Como foi? 
– FIQUEI À MEIA luz com ela. 
Pronto! 
Aí, FIQUEI! AMEI-A
Simples assim! 
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

Quieta Desistência
A minha mãe morre ao pôr de um sol que a tinge de tom rosa suave, num momento que atinge as margens da perfeição, numa quietude de desistência.
Por um momento, observo-a com as mãos dolentemente entrelaçadas, depois chamo a atenção da minha irmã, fazendo-a notar a morte da mãe, mas ela, dolente, mente entre laçadas nervosas da camisola que tece para prenda de Natal:
– Está a dormir. Vais ver que logo acorda.
Sorrio, fingindo que acredito.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Poder e Política
A proximidade hoje, diferentemente de outrora, carece de distância e muito conserto
Cidade Luz, concerto, relevante, questionadora, excelsa, magnífica, exuberante. 
Lamentos, xingamentos e blasfêmias caçam o ser humano imperfeito. 
Alguns cassam objetos fora de uso; outros invalidam o passado ansiosos pelo futuro.
Curiosidade com o tempo, perde a graça, faz a vaca ir para o brejo e talvez anuncie a verdade. 
Desastrosas decisões provocam cidades mortas: é nesse ponto que a conversa diz sobre poder e política.
Renata Diniz, 38 anos, Itaúna/Brasil

Alice sente
Conto um dente de alho, uma cebola, meia cenoura, duas batatas...”, diz Alice para seu marido. “Como poderei fazer uma sopa só com isto?”. Marcelo tenta acalmá-la, dizendo que melhores dias virão, e ali se sente um mentiroso, omitindo de sua esposa a conversa matinal com o patrão. Este fora contundente: “Marcelo, o seu contrato não será renovado”.
Alice sente que Marcelo está estranho, mas sempre aprenderam a respeitar o espaço e o tempo um do outro. 
Vera Viegas, 31 anos, Penela da Beira

Renascer!
Renascer! Tão fácil de pensar, dizer e nem sempre conseguido na voragem do dia a dia. Ou, talvez, até seja! Mas não pressentido, com tanto ouvir “hoje nem pensar; é dia, adia”. Sempre, negando e proibindo o acontecer, o aparecer. E a imaginação quebra os grilhões, solta, até renas ser e na fantasia viver e amar. Ao amanhecer, retorna ao sonhar acordada e à certeza que vai amanhã ser, o amor a sorrir, sem fugir e sofrer.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Coimbra

Não posso perdoar a tua ação. O palco já estava iluminado e os músicos afinavam os seus instrumentos. A multidão aguardava-te com enorme entusiasmo e gritava pelo teu nome! Se te chamas King devias proceder como tal e dar o exemplo. Além da atuação atrasada levaste uma garrafa de “sete chamas” e bebeste mesmo ali antes do espetáculo principiar! Como poderei esquecer a tua figura cambaleando e a voz entaramelada que mal se ouvia… Um fracasso total.
Emília Simões, 63 anos, Mem - Martins, Algueirão

Todos os dias muda de MÁSCARAS. Umas riem, outras choram, mas o único propósito é divertir o público. Ele não é ninguém...
Nessa noite A TORMENTA é assustadora. Chega tarde, amargurado, mas as MÁS CARAS do patrão não o afetam. Avança lentamente, os passos contados, sentindo apenas o coração que o ATORMENTA. Arranca a máscara e deixa cair duas lágrimas. O público ri, tudo é espetáculo. O Palhaço sai. Desta vez, com uma dignidade que o surpreende...
Isabel Lopo, 69 anos, Lisboa

Henrique e João andavam com máscaras grotescas como se se pusessem no caminho do Entrudo. No entanto estas más caras, provavelmente não muito espertas, tinham outras intenções. Juntos, convencidos que trabalhar nunca faz enriquecer, entrariam sem demora no banco. O cofre-forte com alvo. Infelizmente, o espólio mesquinho não faz Henrique ser homem rico nem João, e juntos fugiram. Fora, embaterem em dois polícias, algemas na mão e gritando “Pare!, ou eu tiro.” 
Ah! Carnaval é sempre fixe.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia, Bélgica

A sentir náuseas
A sentir náuseas só de olhar para os enormes olhos esbugalhados, do grandalhão peixe assado, escalado e colocado numa travessa, em cima da mesa, apenas conseguiu assentir com a cabeça, quando o anfitrião lhe indicou o lugar onde se sentar. Mesmo olhos nos olhos com o peixão.
Comei-o, antes que arrefeça! – sentenciou o dono da casa, servindo os convivas.
Ele, revirando os olhos e engolindo em seco, quase gritou: – Não quero a cabeça! Eu fico co’ meio.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Coimbra / Vila Nova de Anços

Amar a Tona não era fácil. Tornara-se tarefa mais cansativa do que correr a maratona compreender esta apresentadora de TV, rapariga inflexível, de humores variáveis.
O brasileiro Omar, namorado folião, cansou-se. Enquanto olhava o mar bravio (o mesmo mar que na véspera se mostrara tão pacífico!) compreendeu repentinamente que não se domam espíritos indomáveis. Ganhou coragem e escreveu-lhe uma curta e seca mensagem.
“Não vou mais amar-te. Prefiro partir, chegar a Marte, para não mais te ver.”
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Orgulho de avós
Tiago, rapazinho educado, atento, vivia na cidade, mas adorava estar com os avós. 
Aí era difícil mantê-lo em casa.
Certo dia, chorando, mostrava seu dedito que doía. 
Pacientemente, o avô perguntou-lhe que tinha andado a fazer. 
Explicou:
– Fui às uvas. Mosca vide, picou.  Agora quero ir já para Moscavide.  
A avó tentou acalmá-lo dizendo:
– Agora, vamos  brincar. Tens aqui uma caderneta e cromos, somas os espaços, fazes colagem. 
Inteligente, este seu neto. Estavam patentes os cromossomas ancestrais! 
Rosélia Palminha, 67 anos, Pinhal Novo

Inauguração
Benvindo
 Oliveira, recém-eleito autarca da freguesia, tremia, suava. Aproximava-se o primeiro discurso oficial.
Finalmente, a inauguração da escola. Queria fazer boa figura. Não tinha dom de palavra mas confiava nos ensaios. Ao lado, a mulher, que o instruíra e treinara.
Timidamente, gaguejante, começou:
 Bem-vindo, senhor Ministro. Bem-vindos, caros munícipes. Inauguro hoje esta escola onde haverá muito saber, muito ensino, muito…
Maldita memória. E agora?
 Salvou a mulher: “Diz curso!”
– Muito discurso! – disse ele no final, mente aliviada.
Palmira Martins, 59 anos, Vila Nova de Gaia

Escapatória
A prima Vera fazia anos no mês das flores. A reunião da tribo era no casarão dos pais.  Há muito chegara a Primavera!
Diga-se, a talhe de foice, que a planície fronteiriça ao pequeno palacete, era uma manta de tufos floridos, regalo de cor e edénicos perfumes.
Quem andava deslumbrado era o avô... queria sair por aqueles campos da juventude, mas não o deixavam.
Veio a coragem.  
Metendo-se por um atalho, foi-se.
Quem quisesse que o procurasse.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Dia da mulher
Solange ri. É dia da mulher e os presentes amontoam-se. Só lingerie!
Hoje o dia parece diferente. Andam ali às voltas sempre. Atrás dela como querendo dar cumprimento ao calendário, mimos, atenção e flores.
Nos restantes dias do ano cá em casa ninguém repara nela. Apenas exigem os seus agrados, a roupa nas gavetas, as refeições a horas, os horários cumpridos. Por vezes pensa desistir, desaparecer para provocar. Medita nisto tudo e conclui desmotivada:
Aliás voltas sempre!
Alda Gonçalves, 48 anos, Porto

Florinda, minha avó, faria 95 anos. Nunca viajou, mas guardava um florim. Excecional, linda, mas sofreu com os seus... Da minha mãe? Dizem que ainda é bonita, mas tem sofrido com a vida... De mim? Especial, mau feitio!, mas olhos bonitos... Não posso lamentar-me porque outros sofreram para me dar tudo.
Todas bonitas! Especialmente hoje, belas, imprescindíveis, inteligentes...
Recordo o florim da minha avó.
Porque sinto que, à volta de cada mulher, o mundo anda todo distraído?!
Fernanda Gomes, 46 anos, Lisboa

A Dora adora tudo o que é radical, desde escalar até fazer surf.
O seu quotidiano não tem nada a ver com a forma aventureira de aproveitar os tempos livres e apesar de nada haver em comum, ela adora a pacatez do bairro onde vive.
O surf não tem nada a ver com o alpinismo, a Dora admite. Um é terra, outro é água.
E pelo facto de nada haver em comum, são imprescindíveis na sua vida.
Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Só por hoje.
Desde que voltara de Andaluzia, aquele pensamento a atordoava. Descobrir o amor em outro mundo, oceanos de distância. Daria certo?
Um maremoto de emoções a tomava...
Mas decidira:
Aceitaria o pedido de casamento! Cruzaria de avião o infindável mar e moto seria o transporte que a levaria a chácara do amado.
Neste momento, a amiga Aruanda, avisa pelo celular que já está na frente, pronta para leva-la ao aeroporto, e grita:
Anda, Luzia!
Decidida pela felicidade, partiu.
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Brasil

Composiçao + com posição
Qualidade de sempre + qual idade de sempre
Manuel passou no teste musical devido à sua nova composição. O próprio professor considerou o trabalho brilhante, com a mesma qualidade de sempre.
Com posição rigorosa e assertiva, Manuel não falhou uma nota, demonstrou toda a sua capacidade e sabedoria. O professor ficou surpreendido, não contava com tanto talento! Na verdade, estava feliz!
Tendo em conta a idade de Manuel, o professor recitou uma expressão de Nikola Tesla “Qual idade de sempre?!”, com um olhar radioso... Sorrio.
Prazeres Sousa, 51 anos, Lisboa

Desencontros
A Visitação preparou-se para ir ver a prima Vera. Há meses que pensava visitá-la.
E hoje o dia estava perfeito, o sol brilhava, os pássaros cantavam... a Primavera no seu melhor.
Saiu cantarolando mas regressou apagada, sua prima não estava em casa. Possivelmente decidira aproveitar o dia e foi passear, para a próxima avisaria antes.
Mal pensava ela que a prima tinha decidido nesse mesmo dia fazer a visita à São, sua prima e amiga de infância.
Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

Adoro-te Ema! 
A professora Ema queria saber se Rafa gostava do tema que lhe propôs para trabalho final. Mas ele, fixado no seu olhar, só soube responder:
Adoro-te Ema!
A professora ficou satisfeita achando que ele dissera “adoro o tema”. A gente ouve tudo o que nos parece.
– Neste tema, Rafa, houve tudo o que se pode chamar de mil cuidados.
– Não quero saber do tema… eu disse é que te adoro!
A professora sorriu.
Nasceu aqui um romance! 
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Havia dez anos que encontrara aquela carta caída no quarto. Como era possível? Com avidez, leu o texto. Era uma declaração de amor, terminando: amo-te muito, Inês.
O seu mundo desabou. Pensava que a vida já lhe havia cobrado tudo, mas, afinal, estava enganada. Nenhuma palavra narra a dor que sentiu naquele instante.
– Sim, continue! – pediu o narrador. Sobressaltou-se. A voz interrompeu as suas tristes memórias.
Vingou-se, publicaria um livro, delatando o indecoroso homem que ele era…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Ajuste certo
Embora seja entradote é interessante. Ela tem um rosto sem graça, rugas teimosas, um pecúlio notável. Em boa hora a pediu em casamento, embora não a ame. Encontra-se numa situação económica precária, por jogar. Ele considera os “prós” e os “contra” e opta pela melhor solução. Entra o dote da noiva neste casamento mais do que o amor. Ela adora tornar-se uma senhora casada, ele adora o dinheiro dela. Como num puzzle tudo se ajusta na perfeição.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa

Heitor era professor, inteligente…
Mas com falta de sorte.
Mudou de cidade, como aconteceu a muitos.
Alugou um apartamento, onde todas as noites ouvia RUÍDOS.
Depois das apresentações com um transeunte, perguntou-lhe onde ficava o liceu.
Quando se despediu do novo amigo, ainda ouviu: – NÃO ERRE, HEITOR!
No fim do dia regressa a casa e por acaso encontra uns livros antigos,
estavam ROÍDOS, que pena, aqui está um tesouro perdido.
Mas afinal o Heitor, NÃO É REITOR.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Prima Vera
Chegou bela a primavera,
Toda vestida de cores,
Encontrou a prima Vera
Perdida com seus amores!

Prima Vera apaixonou-se,
Num dia lindo e airoso,
Por um belo malmequer,
Mandrião e mentiroso!

Era aquele Malmequer
Que a fazia sonhar,
Mas, estando enamorada,
Não podia acreditar!

E sem fé naquele amor,
Prima Vera disse amarga: 
– Se Aquele mal me quer,
Não o quero para nada!

E então a primavera,
Mensageira do Amor,
Trouxe-lhe um Bem-me-quer
Verdadeiro e com valor! 
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Na semana passada, a Celeste celebrou o aniversário, convidando dezenas de amigos.
Eu sou muito vaidosa, usei aquela estola vermelha que comprei no Shopping.
Já tu, que és tola, vermelha de vergonha, fugiste a correr quando viste o Leandro a entrar.
Que desgraça... sei que gostas dele, mas precisas de ter mais auto-confiança!
És amiga de mais pessoas, mas para mim, és demais... pessoas mais importantes que tu na minha vida, somente posso nomear os pais.
Adoro-te!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

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