10/03/15

EXEMPLOS - desafio Rádio Sim nº 23

Mulheres e urgências
Vaidosa cai na tentação de comprar um aparelhinho mágico e poderoso que fazia milagres, pelo menos na TV.
Uma caixinha, fios, eletrodos colados ao corpo, para a tal massagem caseira.


Parecia um robô, quieta, recebendo os choquezinhos, nada agradáveis.
Para acelerar o processo, aumentava a intensidade. Pulava dos choques!
Quase fiquei grudada do choque!
Após, apenas ver aquilo, já ficava CHOCADA.
O aparelho? Mais um tão famoso e URGENTE, não tinha mais serventia.
Sobrou atirado num canto!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Mulher
Gosto dos filmes que me desidratam, daqueles em que ensopo um pacote de lenços, solto um ou dois «que bonito!», acompanhado de um soluço e termino com olhos de cachucho.
É verdade que também me preenche soltar uma boa gargalhada, mas confesso que não é fácil fazer-me rir.
Já para verter o líquido salgado das lágrimas é preciso bem pouco. Um animalzinho abandonado, alguém que se prontifica a ajudar e a torneira abre-se.
Sou uma chorona assumida.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Fantástica
Na fábrica da vida, inventora fantástica! 
Seu nome é mulher que produz peças de robóticas contra as engrenagens contrárias.
Seu endereço é arquitetura projetada pela fé, confiança de que dará certo quando chegar o fim.
A produção dela é intensa, contrasta com tudo o que é ruim.
A sua filosofia é cheia de vida verbal e não verbal.
Do silêncio, por vezes, ela é companheira que – para além de ser artista – passa a ser cientista!
Renata Diniz, 39 anos, Itaúna, Brasil

Há homens…
Ele, depois uma jornada ocupada, estava a lavar a louça sem fazer beicinho. Seguidamente limpou, com sorriso largo, as janelas. E quando o seu mais jovem descendente chorou, mudou cantarolando a fralda cheia. Além disso, antes de o filme começar na televisão, ainda teve tempo para passar a ferro uma pilha de roupa.
Querida! Farei um chá doce durante o intervalo. A esposa anuiu e pensou: estou tão contente por ser casada com um ser extraterrestre.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia, Bélgica

Eram inseparáveis desde pequenas. Helena foi viajar e apaixonou-se. Teresa, ficou desasada... Inscreveu-se num curso de férias enquanto a amiga namorava por net. Partiu. Pouco tempo depois conheceu um professor e perdeu-se de amores. Quando regressou contou tudo à amiga. Felizes, resolveram apresentá-los uma à outra. Era só ligar o Skype e ali estavam eles. O pior foi terem descoberto que o apaixonado era o mesmo! Decidiram curtir o momento, e deixaram correr... Ele que se aguentasse!
Isabel Lopo, 69 anos, Lisboa

Num encontro de sete grandes e divertidas amigas
todas diferentes e tão sortidas
com bastante educação
mas em simbiótica reflexão
resolveram brindar
e definição de mulher clarificar:
– mulher mãe amor incondicional
– mulher amante sensual
– mulher independente sensacional
– mulher trabalhadora laboral
– mulher pensante intelectual
– mulher boneca sensacional
– mulher completa essencial.
Musicadas as noções
de per si em sensações
sete mulheres então
rindo risos muitos sisos
soltaram os seus sorrisos
da loucura à transfiguração
Ó mulheres, que grande confusão!
Ana Mafalda, 45 anos, Lisboa

Chegaram. Entraram ruidosamente. Juntaram mesas. Arrastaram cadeiras. Sentaram-se. Riram alto. Falaram mais alto. Mataram o silêncio morno daquele café. Encomendaram. “Três cafés cheios e três normais”. E um bolo. Para as seis. Vieram os cafés. Três cheios, três normais. E um bolo. Uma fatia de red velvet, corpo vermelho de branco vestido. Matematicamente dividida em seis porções iguais. Não caberia mais nas ancas largas, nas barrigas proeminentes, nas coxas roliças, nos seios XL escondidos nos largos aventais. 
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

Diversidade
Ousadas ou atiradas?
Corajosas, enxeridas...
Engraçadas ou humoradas?
Na luta: aguerridas!

Loucas, atrapalhadas?
Por vezes vadias,
Em outras, vira-latas,
Mas nunca vazias!

Curvilíneas, magricelas
Ou bastante arredondadas
Recatadas, donzelas
Gostosas e assanhadas

Afinal quem são elas?
Aos risos e espalhadas,
Juntas são tagarelas
Parecem desatinadas!

Lindas, olhos e vincos.
Cheiros, decotes, cores.
Saltos, batons e brincos.
São assim sem pudores.

São tantas nuances
Na mesa leves, educadas.
Versáteis em outro lance.
Avassaladoras, apaixonadas...

Afinal, quem são elas? 
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

É "Leonesa", Minha Senhora
Antigamente, as pessoas com "posses", tinham normalmente uma empregada doméstica a tempo inteiro.
Mariana, rapariga do campo, educada, servia um casal onde era muito estimada.
Aos domingos de tarde, ostentava seus vestidos domingueiros, humildes mas impecavelmente asseados e engomados.
A patroa dizia-lhe sempre que estava bonita.
Perguntava onde tinha comprado, quem o tinha confecionado, sempre interessada e simpática.
Mariana lá respondia, terminando sempre com as mesmas palavras:
– Foi feito pela minha prima e é "leonesa", minha senhora.
Rosélia Palminha, 67 anos, Pinhal Novo

Forte personalidade
Dona Bexiguinha era uma volumosa mulher, engraçada nos trejeitos e nada apoquentada pelo aspecto facial, cordilheira terrosa de cicatrizes que a doença estampara. A turbamulta das mulheres do seu quotidiano olhava-a sempre de soslaio, esgrimindo risinhos de escárnio, mas ela moita-carrasco. Assim se esquivava.
Um inusitado aparato perto da residência, aguçou o apetite alcoviteiro. Uma marca de cosméticos oferecia-lhe tratamento dermatológico garantido.
As louquinhas do costume de boca aberta. Enfim, ela sobranceira:
– Tomem lá e vão almoçar.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Discussão peculiar
A guerra entre Maria Antonieta e Gertrudes Casquinha vinha dos tempos das avós.
Sempre que se cruzavam tinha discussão. Mas eram muito peculiares. 
E ali estavam.
– Quem ela é, Maria Antonieta a grande mentirosa.
– Minha amiga, quem tem telhados de vidro não atira pedras.
– Amiga!? Vozes de burro não chegam aos céus.
– Quem nunca pecou que atire a primeira pedra.
– Bem prega Maria em casa vazia.
– Onde o tolo perdeu, o esperto aviso colheu.
Zangam-se as comadres...
Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

São todas Marias. O segundo nome diferencia-as.
Leonor – a versão socialite. Sempre na moda, dondoca, sorridente, mãe e esposa exemplar, aspecto frágil e gracioso, uma excelente anfitriã. A mulher original.
Luísa – a aventureira. Corajosa, viajada, sem papas na língua, prática, justiceira, Maria-rapaz, solteira por convicção. A mulher fortaleza.
Inês – a versão discreta. Humilde, discreta, tímida e romântica. Sem dar nas vistas, faz bem a tanta gente. A mulher simples.
Qual a melhor? A Maria, mulher com certeza.
Vera Viegas, Penela da Beira, 31 anos

Mulher - História de mulher
Mulher guerreira
Que vende na feira
Que mostra o que é.
Vem,
Em forma de semente
Lançada ao vento
Pisada no chão.
Renasce em cada estação
Para florir de novo
Sem repetir
E guardar no coração.
Carrega cestos de flores
E abraços multicolores
E filhos sem sentir dores.
Ama sem medida,
E em cada despedida
Luta desmedida.
Chora, grita,
E ao amanhecer medita
Para novo dia viver.
É mulher, com fome de vida
Apenas lhe resta
Sobreviver!
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Mulheres…que se lhes há de fazer… 
Aos sábados, um grupo de amigas, levadas da breca, alugavam uma cabana numa montanha isolada.
Era um forrobodó!
Dançavam, comiam, riam… bebiam. Depois, já madrugada, saíam, contemplavam as estrelas e pediam os seus desejos.
Numa dessas farras, aconteceu aparecerem, atraídos pela comida, uma meia dúzia de ratinhos.
Mulheres em pânico!
Atropelando-se, saltaram para cima do exíguo espaço da mesa e ali ficaram. Olhos arregalados, coração parado, brancas como a cal, dentes a ranger…
…acagaçadas até aos ossos!
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Mulheres

Mulheres são beleza
São botões de rosa,
São delicadeza
De pele mimosa!

Mulheres são doçura,
São a simpatia
São mães porventura
No seu dia a dia!

São o brilho no escuro,
Beleza ao luar,
Cheias de atributos
P’ró homem amar!

São também defeitos…
Não só perfeição,
Mas são pacientes,
Sabem dizer não!

Mulheres são orgulho
Em ser o que são!
Custa-lhes quebrar
Se têm razão!

Mulheres são no mundo
A moderação!
Trazem o amor
No seu coração!
Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante

Ti Madalena era tão coscuvilheira que não havia ninguém igual em todo o bairro. Espiava todos os homens, das outras, claro…
– Não querem lá ver que a ti Maria anda feita com o José alfaiate!
– Não digas isso, mulher. Para ti todos se atiram à Maria.
– Todos não, meu Zé, não malha no que é dos outros.
– Pensas tu! Melhor seria cuidares do que é teu!
– Olha lá, que sabes tu?
– O que ele me vai contando!
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

A sobremesa
– Mãe, para sobremesa quero melancia, está bem?
– Oh filha, melancia não, escolhe antes outra coisa... Olha aqui estes queques com tão bom aspecto!
– Mas eu prefiro melancia...
– Olha, olha estes de chocolate, que delícia! Ou um chupa-chupa!
A miúda olhava desalentada para a fruta e para os doces. E eu sofria baixinho com aquela crueldade. Não fosse a situação real, até seria engraçada, como se de uma cena cómica se tratasse.
– Mas, mas… Então não quero nada!
Mariana de Carvalho, 34 anos, Leuven, Bélgica msmfcarvalho@gmail.com

Enganada? Porque não?
Cristina, jovem, cabeleireira, sorriso aberto. Teresa, trinta e cinco anos, doméstica, ar cansado. Madalena, meia-idade, divorciada, notária, olhar decidido.
Em comum, desejavam um companheiro.
Conheceram-no na NET. Escrevia bem, tinha charme, falava ao coração das mulheres.
Marcaram encontros amorosos, mantinham uma relação estável, mas descontínua.
Certo dia, descobriram que andavam com o mesmo homem.
Ignoraram, fizeram de conta: Cristina, por divertimento e desafio; Teresa, porque este lhe pagava as contas; Madalena, por dificuldade em encontrar outro disponível.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Em contramão com a vida 
Cabisbaixa, arrastava os passos e os pensamentos; as lágrimas a correrem-lhe pelas faces e a inundarem-lhe a alma. Em contramão com a vida. Desempregada, só, desamada e desencantada.
Andar rápido, vivo, alegre; rosto aberto num sorriso matreiro e feliz. Uma boa vida – amor, viagens, profissão desejada. Tudo para se sentir encantada.
Chocam-se de frente. A jovial pára impaciente, e arrogante: ‘empecilho, anda aqui a espalhar tristeza. A outra ergue a cabeça, olhar triste, e sorri sem subserviência.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

Domingo de visita
Acordaram cedo, não conheciam o trajeto. Mas a estrada estava tão bonita!
Vazia, no domingo pela manhã. Em alguns lugares, prédios, casas bonitas,
a linha exclusiva do ônibus, estações modernas. Ou muitas árvores, verde.
Chegaram à porta, Maria e Luíza.
– Mamãe, é aqui?
– Acho que sim, é este o endereço.
– Toco a campainha?
– E se dá em apartamento diferente? Que vergonha!
– Se esta rua, se esta rua fosse minha...
A melodia atrai Celeste.
– Chegaram, lindinhas!
– Vovó, achamos!
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

Mafalda parecia uma barata tonta, de um lado para o outro. Pegava no telemóvel… mas logo de seguida, lançava-o para cima da cama. Não estava a conseguir ultrapassar tamanho constrangimento! Não tinha estudado, o exame era no dia seguinte, o receio, insegurança, apoderava-se dela.
Decide telefonar a uma amiga:
– És tu, Marta?
– Preciso da tua ajuda, estou com algumas dúvidas.
– Estás bem?! – Uma aluna de excelente com dúvidas?!
– Respira fundo e conta baixinho até 10! 
– Resultado perfeito!
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

Relógio dourado
Fazia festas na barriga e dizia ao bebé: “estamos no barco”. As palavras chegavam ao bebé pelo cordão umbilical. O bebé tranquilizava. De regresso a casa comia gelado de chocolate branco. A bebé lambia-se.
Dava de mamar, olhando o relógio dourado, da sua avó, para controlar tempos da mamada. Dez minutos cada mamilo.
Fixou os ponteiros: rodaram, rodaram, rodaram…
Passou tanto tempo!
“Força filha!”. Sua neta nascia. Palmada no rabo, choro.
O relógio dourado mudou de pulso.
Marina Delgado, 51 anos, Pucariça, Abrantes

Dia chuvoso! Um grupo de amigas quis aproveitar o dia para elas descansarem. Foram ao spa, às compras e comeram num restaurante super requintado dizendo sempre para pôr na conta da cunhada. No final do dia, voltaram a casa. As cunhadas estavam todas à porta. O banco tinha mandado uma carta a avisar que as suas contas estavam a zeros. Nesse mesmo dia, as amigas tiveram de ir trabalhar nas mesmas lojas onde tinham passado o dia.
Mariana Cipriano, 11 anos, Torres Vedras

Uma vez a minha avó foi as compras e encontrou uma amiga do seu antigo trabalho.
– O que faz aqui? – perguntou a sua amiga.
– Eu? Aqui? Venho às compras – respondeu a minha avó.
– E você consegue levar esses sacos todos? – perguntou a sua amiga.
– Consigo! Só que não encontro a chave de casa – disse a minha avó.
– Quer alguma ajuda? – perguntou a sua amiga.
– Não é preciso! Estive a pensar que afinal posso ligar ao meu neto. 
Leonor Santos, 11 anos. Torres Vedras

Era hora das Trindades, as duas encontraram-se, junto da pequena igreja, da aldeia.
– Então, Efigénia, já sabes a novidade?
– Não, diz lá.
– O filho da Adosinda, fugiu com a filha do ti Zé do moinho.
– Mas, ela não está prometida ao filho do Manel?
Até é rico, anda lá por Lisboa, dizem que vai ser Doutor.
– Pois é, mas conhece aquele ditado «quem vai ao mar, perde o lugar?»
– Eu sempre desconfiei, aqueles dois nunca me enganaram.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Nascer do dia
Liana levantava o pé, puxava a porta, um sol incandescente beijava-lhe o rosto ― desânimo esquecido, um dia cheio de bênçãos estava à sua frente! Organizava os mais valiosos bens, físicos e espirituais, saía de casa com alegria! Os queridos alunos mereciam, mimavam-na, adoravam-na!
No caminho encontrava D. Josefa, mulher ribatejana, sorriso largo, palavras fáceis ― servia-lhe um café com sabor ao longínquo "Pierre Loti".
Freneticamente, o dia começava vestido de sonho, para que as nódoas não o sujassem.
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Em campanha
As comitivas das duas listas concorrentes à associação de estudantes do colégio feminino cruzam-se num corredor. Um encontrão incendeia os ânimos. Começam as provocações. Esgotando-se os argumentos, vêm os insultos, que sobem de tom e baixam de nível.  
― Sua esta, sua aquela!
― Isso és e a tua mãezinha!
Até que surge o ultraje mais rasteiro, a ofensa suprema:
― Sabes o que és, sabes?
― Não, mas tu vais dizer-mo, não é?
― Vou. És uma grandessíssima e refinadíssima… po-lí-ti-ca!
Carlos Alberto Silva, ​59 anos, Leiria

Catarina e Carolina, irmãs gémeas, tinham uma relação pautada pelo ciúme e acérrima competição.
Carolina considerava que a mãe preferia a irmã, aluna brilhante, dedicada fada do lar. Ela limitava-se à demérita filha rebelde.
Finalmente vingar-se-ia... colocou cola no capacho.
Quando Catarina limpou os pés, entrou em casa sem solas nos sapatos.
Carolina regozijando perante esta visão, decidiu ser cientista, futuramente, contribuindo para a evolução humana.
Indubitavelmente, ela concebe planos mais geniais que as teorias de Curie.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Umbelina acabou de arrumar a cozinha, olhou para o relógio e bradou:
― Co’ a breca, a esta hora ela já meteu pés a caminho. E eu ainda aqui, presa aos tachos e às panelas… Sorte mafarrica a minha!
Fechou a janela – por via dos gatos – e abalou porta fora.
― Senhora Bina, oh, senhora Bina… Que lhe aconteceu, Criatura? Aonde vai vossemecê nesses preparos?
Umbelina estacou. Olhou para as pernas… e ficou verde.
Não é que ia em combinação?

Margarida Freire, 75 anos, Moita

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