10/05/15

EXEMPLOS - desafio Rádio Sim nº 25

Batias os dedos, tamborilantes naquele vidro. Foi o que me contaram as enfermeiras. 
Disseram-me que estavas tenso, apavorado. Cada minuto que passava, parecias empalidecer mais e mais. 
Insistias, não desgrudavas o nariz colado ao vidro, naquela incessante espera. 


Não te podiam atender, contaram-me depois. Estavam deveras ocupadas. 
E chegava Pedrinho. Banho, pesagem. 
Logo após, Horácio. Pensavas acabado, surgiram Diana e Flavinha. Finalmente a janela foi aberta. Pediam a presença do pai. Procuraram, estavas caído, desmaiado de susto!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

O receio era natural, sabias qual iria ser a minha reacção. Acredita que, ao ouvir o toque dos
teus dedos na vidraça, o desejo de abrir a janela foi enorme. Mas não, não posso ceder de novo, 
são já incontáveis as vezes que o fiz. Com os olhos molhados e ao ouvir os teus passos ao longe, corri para ver se ainda vislumbrava, ao menos, o teu vulto ao longe. Tarde demais... mas a saudade fica comigo.
Maria Cabral, Azeitão

Aprendeu a enfrentar o medo
O medo bateu muito de leve, como dedos num vidro cristalino, já com pouca convicção e receio de ser apanhado. Ainda assim, insistiu, na vã tentativa de abrir uma brecha no pensamento daquele homem e tolher-lhe a vontade, as decisões afoitas, corajosas. No entanto, o homem só abrirá a janela da sua confiança, quando o medo já estiver espartilhado e bem longe do seu sentir. Tal já está próximo, pois com firmeza aprendeu a enfrentar o medo.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Ovar

O silêncio dos seus dedos tentam riscar e desdobrar o tempo no embaciado da vidraça e pequenos pontos transparentes inscrevem caracteres do velho alfabeto da amizade. Latejam momentos e memórias no nó dos dedos de cujo ritmo, ora tímido, ora impulsivo, cintilam promessas de reconciliação.
De dentro, o refúgio no ressentimento ensurdece e, da persistência daquele bater, emergem flashes de cumplicidade futura. Corre para a janela. O amigo já foi. Resta a solidão e o presente adiado.
Graça Santos55 anos, Paço de Arcos

Through the time
Tantas vezes pensei em te procurar. Meus dedos, reticentes, ousaram te escrever uma carta ou e-mail. O coração quis dizer-te mais. Entretanto, quando te foste, fechaste todas as portas que pudessem me permitir te alcançar. Tua janela tão delicada qual porcelana, tentei bater, mas não quis persistir... Não resistiria a mais um estilhaçar, meu e teu. Confronto de janelas e coração. Em mim apenas a lembrança inteira do que fomos. Íntegra, pois que o amor a preservou...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Desencontro
Com passos indecisos aproximou-se da janela, com dedos trémulos bateu no vidro. Foram muitos os anos e os caminhos que o afastaram de casa. Agora, voltava, receando fazê-lo tarde demais. 
Voltou a bater ao de leve na janela. E se aquela já não fosse a casa dos pais? Preferia não saber.
De cabeça baixa, contornou a esquina, no momento em que uma face envelhecida surgia no parapeito, procurando em volta o rosto que há anos ambicionava rever.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Atravessaste a minha vida, sem eu quase dar por ti. Fazias parte dela como se fosses um dos meus sentidos.
Agora sei que deves ter batido à janela do meu coração indisponível.
Um dia parti para uma vida onde não tinhas lugar. Foi aí que senti quanto a tua ausência me era dolorosa. Voltei para te encontrar. Em vão esperei que batesses, mas tu não vieste...
Será que não tinhas passado de uma abstração na minha vida?
Isabel Lopo, 69 anos, Lisboa

Tempo perdido
Perdido no tempo, na vida!
Anos de ausência, silêncios recalcados na dor de quem não conseguiu esquecer.
Voltou envolto nas sombras duma noite de inverno, tal como tinha partido.
Culpa: a guerra, o destino, o orgulho?
Talvez...
Indeciso, bateu levemente nas vidraças como outrora. Tornou a bater afastando-se lentamente.
Junto à lareira, Amélia terminava o casaquinho de lã para o neto que não havia conhecido o avô.
Espreitou a rua. Era tarde. Amanhã era um novo dia!
Rosélia Palminha, 67 anos, Pinhal Novo

O comboio que o sargento tem de apanhar, partirá em breve. Minutos passaram e a sua inquietação crescia, pois ela prometera dizer adeus. O apito retumbou e, resfolegando vapor, moveu-se lentamente o comboio. De improviso, dedos bateram incertamente na janela. Os seus olhos amorosos entreolharam-se. Queriam trocar algumas palavras, mas a silhueta dela já era uma sombra ao longe quando ele conseguiu abrir a janela. Então, era um alívio grande, ao observar na vidraça o coração seteado.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia Bélgica

A saltar ao pé-coxinho e a precisar de um abraço, a criança reparou num vulto colorido dentro de uma velha carripana. Aproximou-se. Pela janela, viu um palhaço, com a cabeleira caída, agarrado a dois enormes balões. A medo, com os dedos pequeninos a tremer de emoção, bateu, ao de leve, no vidro. Repetiu o gesto. O palhaço sorria, imóvel, de olhos fechados. A criança foi-se embora, enquanto o palhaço sonhava que distribuía abraços pelas crianças suas amigas.
Paula Dias, 50 anos, Lisboa

Ajuda Aceite
Ia e vinha como se de uma vaga se tratasse. Habituada àquele cansativo vaivém, a filha do Senhor Doutor, não lograva alcançar a paz ou harmonia dos sentidos. Na fina vidraça que representava o seu sentir magoado, os apelos de cura suaves, persistentes, batiam em tom sincopado.
Só o eco respondia...
As ajudas cessaram.
Ela, quase soçobrando, deu-se conta que tinha que fazer algo; por si, pelos outros. E, a cura da depressão iniciou o seu caminho.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Era um rés-do-chão com quartos pequenos separados por um corredor frio e estreito. Passavam ali os dias num horrível isolamento. As portas estavam sempre fechadas. Quando passava na rua ouvia como que um bater de dedos muito ao de leve no vidro de uma das janelas sempre trancadas, que se repetia. Um dia, aproximei-me e não ouvi aquele toque. Soube, entretanto, que quando finalmente lhe abriram a janela, jazia no chão do quarto sem vida! Tarde demais!
Emília Simões, 63 anos, Algueirão-Mem-Martins

Primeiro não me apercebi. Gotas e a folhagem das roseiras velhas ainda com os frutos da flor em botão. O vento. Ao longe o som dos automóveis na nova via. Sempre aquele barulho. Tocara o telefone. Anotara a hora da reunião. Depois, novamente, aquela estranha sonoridade que não era nada do que deveria ser. Um silvo, uma angústia, uma ameaça de medo, quase. Abri a janela. Nada vi. Mas eu sabia quem era. Precisava que assim fosse.
Paula Coelho Pais, 53 anos, Lisboa

Foram quarenta e dois meses de desconforto e desacatos. Sensatos, reconhecemos que a dor era de todos…! Num clima de tristeza, decido voltar. Não entendo a razão deste conflito, interrogo-me com certo receio. É preciso coragem… acreditar e seguir em frente!
A humanidade está rodeada de incertezas fugazes que ultrapassa e sobrepõe a qualquer verdade no sentido da palavra. Cruel destruição em cada peito mora a fúria da ambição que os cérebros dominam. Abençoada luz da vida!
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

Disseram que sim...
Disseram que tinhas partido, disseram que sim… Incrédula, os meus dedos magoados batem ao de leve no vidro do quarto onde sempre entrei com convicção. Hoje é o receio que me reveste a alma. O mesmo temor impele-me a repetir o gesto, a bater suavemente… Não quero o vazio desse lado, não quero o vazio do teu lado! Fujo, derrotada, antes do final do combate.
Anos mais tarde, disseram que afinal não tinhas partido, disseram que sim…
Elisabete Bernardo, 47 anos, Santo António dos Cavaleiros

Batem de leve nos vidros da janela
Batem de leve nos vidros da janela
com dedos tão brandos como asas,
passos perdidos num caminho antigo.
O som é leve e quase hesita,
passa de manso a esvoaçar e nada fica.
Espreito surpreendida.
Não há ninguém lá fora!
Só o rumor que vem dos matagais e se demora.
Seria um queixume de alguém que já passou?
Presságios ou sinais?
Seria a voz do vento que me chama?
Ou o coração das pedras pulsando nos pinhais?
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Agora era capaz de o amar deixando-o livre. Não reclamava que fosse seu. Aceitava que ele tinha o direito de não a amar.
Como sempre, ao romper da aurora, batia com os dedos na janela do seu quarto produzindo uma melodia harmoniosa. Correndo, escondia-se atrás da Laranjeira.
Reproduzindo um ritual diário e apetecido, ele abria a janela radiante. Quando o caminho estava livre ela partia para a escola. Praticar o desapego trouxe-lhe o sentimento do verdadeiro amor.
Vera Viegas, 31 anos, Penela da Beira 

O Sem-abrigo 
Noite de Natal. O sem-abrigo seguia sozinho na noite, sozinho na vida. Não jantara, não conversara… sentia-se vazio, triste.
Queria tanto entrar numa casa, comer uma rabanada… aquecer o coração!…
Ao passar no casarão, bateu, leve e timidamente, no vidro da porta. Uma vez, outra…
Silêncio.
Algum tempo depois, a porta abriu-se e alguém perguntou quem era. Mas o sem-abrigo já tinha desaparecido. 
Restava-lhe a sua caixa de cartão, onde iria passar mais uma noite de Natal.
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Tua ausência 
Levantei-me repentinamente ao ouvir bater na janela. Batiam levemente como se temessem fazer barulho, como tu fazias quando vinhas visitar-me às escondidas. Abri a janela mas não vi ninguém, fui até à porta desejando que tivesses regressado. A rua estava vazia, só o vento gelado andava por ali movendo as folhas no chão. Senti-o trespassar-me. Abracei-me fortemente, imaginando os teus braços ao meu redor. Fiquei ali estremecendo sem saber se tremia de frio se por tua ausência.
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Esperei toda a noite que te fizesses presença. Imaginei, a cada compasso do tempo, o toque suave dos teus gestos na janela da minha alma, derramada na tua cruel ausência. A medo espreitei cada momento guardado, desejando reter-te em mim, em nós… E, nesse amor revisitado, esperei que chegasses. Senti o doce toque dos nós dos teus dedos… corri, escancarei a janela da esperança. Percebi-me envolvida no vazio que a saudade desenhou. Tinhas partido sem regresso anunciado.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Anoiteceu de repente. O sol durante o dia não abriu e o céu plúmbeo dava lugar a chuva intensa. Lá dentro por detrás das cortinas o som do cravo, ritmado e simples, vindo do fundo da casa. Mais próximo da janela o matraquear da máquina de escrever do avô. De repente, um ruído seco, de dedos no vidro. Espreitou para fora, e nada. Apenas o vento e a chuva intensificava a tristeza que tinha dentro de si.
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Noite sem resposta
Noite de trovões,
de arruaça nos céus.
Uma casa destacando-se,
na sua pequenez,
no meio da cidade.
Por entre as árvores,
fui-me chegando,
as mãos tremendo no gesto;
gesto contido,
os dedos acariciando o vidro,
mais do que batendo.
Repeti,
a voz sussurrada
a acompanhar o chamamento;
respondia-me o fragor,
anulamento da minha chamada.
O quintal,
as árvores-penumbra,
continham a sombra
que me seguia,
quase réstia de mim.
A janela abriu-se,
nem terão sentido
os meus passos.
Jaime A., 51 anos, Lisboa

A primavera timidamente se aproximou. Receosa, esta flor desabrochou. Como uma leve batida num vidro, pouco a pouco as pétalas se abriram. Como quem teme o que virá depois, de mero botão, a primor. Tão frágil, tão bela esta flor. Lentamente o seu doce aroma se dispersou. Mas só foi tomada consciência quando já não mais o vento soprou, e não mais o aroma se sentiu. Murchou a flor restando apenas semente, paciente, esperando a próxima primavera.
Liliana Macedo, 16 anos, Ovar

Toc, toc! Os prédios como presépio crescendo do Douro, cinzentos no relevo do céu. Toc, toc!
Não se ouvem aves e o ruído da cidade dorme. Não é manhã de santos. Toc, toc, Não estou.
Não quero estar, estou no inverno, estou para não voltar. Que chatice, batem nos vidros, quebram a chuva que vai chegar. O sol já se foi, não insistam, o dia fica bem, lilases murmúrios, prontos a chorar. Toc, toc! Ninguém, deste dia.
Constantino Mendes Alves, Leiria

Olhos suplicantes
A enfermeira ouviu um leve bater de dedos no vidro. Olhou naquela direção, mas só o vazio da outra parede lhe correspondeu o olhar. Continuou então a cuidar dos recém-nascidos.
Ali eram muitos, chegados antes das quarenta semanas determinadas. Os pais, apreensivos, também os avós, eram os que sempre alcançavam ansiosos a barreira transparente.
Tlim-tlim. Desta vez dirigiu-se à janela envidraçada, a tempo de ver uma menininha, que se voltou. Com os olhos suplicantes, perguntava pelo irmãozinho. Chamou-a.
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

Não sei o que fazer com a vida. Talvez pô-la numa gaveta, fechá-la à chave para nunca mais abrir. Penso nisso enquanto olho pela janela. As pingas de chuva a cair, formando poças de água. Bato com os dedos nos vidros, mas isso não melhorará esta situação. De repente fiquei sozinha num vazio, numa escuridão imensa sem ninguém à minha volta. Mas isto é só um pequeno mau momento numa vida inteira, cheia de grandes bons momentos.
Raquel Alves,12 anos, Escola Básica D. Pedro I Canidelo, prof Arménia Madail

As gotas escorriam pela janela
quando ao de leve, bateste nela
virei-me para ver quem tinha batido,
mas tinhas desaparecido.
Talvez arrependido 
pela traição cometida.
Ainda corri, para te apanhar
senti o coração bater
tão forte que quase saltava do peito
mas não, não tem jeito
nem tão pouco havia razão
para esse teu comportamento.
No fim, não te encontrei
e sem saber fiquei,
se as pancadas na janela
não seriam beijos 
que me mandavas
através dela.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Ideias, pensamentos são labirintos que avançam e retrocedem entre passado e futuro, lançando o caos no presente. Assim, anseio parar o tempo no presente. Começo a bater, levemente, na janela do coração com uma vaga esperança de aí residir o mapa que me conduz ou orienta neste labirinto.
A esperança renova-me a alegria e bato mais forte. Mas a janela mantém-se silenciosamente imóvel. Abandono as batidas e contemplo: a janela abre iluminando o que outrora estava escurecido.
Lourença Oliveira, 44 anos, S. João do Estoril

Lá fora a vida percorre o seu rumo numa azáfama que outrora lhe fora familiar. Deste lado, seus dedos que batem no vidro estão frios e ásperos, marcados pelo tempo. Assim como cada ruga do seu rosto encerra em si histórias que a idade teima em apagar. Porém seu olhar percorre não só o espaço mas também o tempo procurando conforto na singularidade de cada sorriso partilhado.
Luís Miguel Reis, 43 anos, Cascais

Naquela manhã, fui despertada por um leve repetitivo bater de dedos no vidro que refletiam pouca convicção ou receio. O gesto repetiu-se por alguns minutos e senti uma mistura de sentimentos. Mantendo sempre o mesmo ritmo calmo, o som repetia-se como uma melodia. Fiquei indecisa sem saber o que fazer. Deveria aproximar-me e ver o, ou quem era, ou pelo contrário deveria manter-me afastada. Por fim, decidi abrir e não encontrei nada nem ninguém. Tinha desaparecido.
Sara Catarina Almeida Simões, 28 anos, Coimbra

Por vezes, demoramos tanto a abrir a porta do coração que, pela delicadeza de quem bate, com elegância sutil, o tempo para a abertura ainda se torna sempre mais lento de acordo com a nossa vontade própria e caprichosa...
Resultado: quem bateu tão docemente, mesmo não se cansando de nos chamar, fica uma vida toda a esperar e nada da nossa parte...
Ainda bem que o Clemente fica uma vida, se preciso for, a nos chamar delicadamente...
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Amor Platónico
Tive uma ideia, um dia,
De sentir-me apaixonada,
Sem saber o que fazia,
Sentia-me aprisionada!

Era um amor tão sentido,
Com tantas palpitações
Que era quase possessivo
Nas diversas sensações!

Mas, olhava e pensava,
Sem grande convicção…
Porquê viver fascinada
Se era só minha a paixão?

Tantas vezes mergulhei
Nesse platónico amor
Que cansada desliguei,
Para não lhe dar valor!

Virei as costas, portanto,
E aí «abriu-se a janela»…
Mas quebrara-se o encanto,
Era tarde… fugi dela!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Sentada no sofá, embrulhada e de livro aberto sobre os joelhos, lia as peripécias do amor da Sara e do André. Concentrada no beijo, tremi ao ouvir um leve toque no vidro da sala e vi uma sombra. Não me levantei! Aguardei! Ouvi de novo o mesmo bater leve, quase arrependido de tão lento. Levantei-me, abri a janela e apenas vislumbrei ao longe a silhueta do que me parecia ser o rapaz que conheci na biblioteca ontem.
Fátima Fradique, 41 anos, Fundão

Sim, vi os teus dedos. Sim, ouvi o deslizar dos teus dedos.
Janela fechada, vidros embaciados.
Embaciados como o meu gesto indeciso. Abro?
Continuas a bater suave e lentamente nos vidros.
Estendo-me no sofá, o teu tímido dedilhar confunde-se agora com estes chuviscos.
Desistes.
Sabes que estou ali. Só não sabes que já não estou ali para ti.
Só isso me importa. Abro a janela para te ver partir.
Para me convencer que jamais me farás sorrir.
Carla Augusto, 48 anos, Alenquer

Ouvia-te sempre à mesma hora. Um toque, uma cadência e depois nada. Das primeiras vezes corria para te conseguir ver. Mas não. Perdi dias a pensar como serias. Contavam-se lendas sobre estes barulhos que se ouvem nos vidros em noites de tempestade. Que seriam nefastos, diziam. De mau agoiro, asseguravam. Mas eu sabia que eras um sinal bom. Uma luz na minha vida. Talvez fosses uma ave noturna, uma estrela, uma fada. Um dia a janela abriu-se.
Paula Coelho Pais, Lisboa, 55 anos

Um dia cinzento, morno, sem graça. Lá estavas tu, sozinho no sofá, longe de tudo. Fazias-te sentir pelo tilintar dos dedos na caneca de chá já meio vazia. Desencanto, tristeza, vazio, transpirava o teu olhar. Os minutos passavam mas não por ti. Os dedos continuavam como uma rotina nua e seca...
De súbito, um raio de sol atravessou a sala. O teu neto adorado, acabava de aterrar no teu colo. Só ele para te trazer de volta! 
Mariana Sanchez, 37 anos, Barcelona, Espanha

Encontrou a peúga perdida no meio dos lençóis de coralina mornos e entorpecidos.
Veio-lhe à memória o doce aroma do seu perfume quente.
Leva-a à ruína, com pedidos de amor de perdição eterno.
Saiu de casa aflita e apanhou o metro rumo ao rio.
Junto ao ralo do passeio, um livro morto jazia chamando-a.
Abriu-o e leu “a justiça está nos actos que fazes”.
Entrou no relojoeiro, deu a palavra chave e disse: matem-no; eu desisto.
Filomena Mourinho, 43 anos, Serpa

Dispersa pelos pensamentos, sonho acordada, enquanto me imagino dentro de uma bola, daquelas que costumamos ver com neve que suavemente cai quando a agitamos… Imagino como os meus alunos irão conseguir construir estas bolas… mas, de repente, eis que começo a escutar ao longe um leve bater no vidro da bola… quem será que me chama? Quem será que quer entrar? Subitamente, o chamamento abranda, até parar! E eu consigo sair de dentro da bola de vidro!
Raquel Candeias

Quem está a bater? Corri para a janela mas quando lá cheguei era tarde demais. Será que bateram? Foi tão ao de leve… não tenho a certeza.
Olho com atenção e está um pedaço de papel, cor-de-rosa, caído no chão. Contorno a sala e saio pela porta.
Entretanto começou a chover e quando saí para apanhar o papel, já estava todo encharcado. Havia, no entanto, uma palavra que se percebia no meio de todo aquele borrão: “AMOR”.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo, Alentejo

Acabei de sentir um ténue ruído no jardim. Fui espreitar e constatei que tu batias tímida e repetidamente no vidro da janela da sala.
Ignorei completamente este facto e voltei a ver televisão.
Eu sou solidária, quis dedicar a minha vida a apoiar as pessoas mais fragilizadas, por isso, tirei o curso de Serviço Social.
Mas, altruísmo não é sinónimo de ausência de amor-próprio.
Já me maltrataste muito... agora solicita amizade, apoio moral e auxílio a outrem.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

"Não fui a tempo de ti, não me deste o teu tempo, e ainda bem! A tua falta de convicção, as abordagens ambíguas, o querer e não querer. Doeu muito pensar que ao hesitar, falhei, que te desperdicei, que devia ter sido mais pronta na resposta. Porém, hoje sei que tardar-te foi o melhor que fiz: agradeço não ter chegado a tempo ao teu tempo. Agradeço o que a espera me trouxe; um marido e um filho. "
Paula Cruz, 42 anos, Viana do Castelo

Consumida por sentimentos antagónicos, procuro entender o significado de cada silêncio, do gesto incompleto, do sorriso desvanecido.
Mas é tudo tão fugaz…  As palavras enrolam-se na minha garganta como ondas colossais. Basta! O tempo urge! Agora os teus dedos não são mais do que atos falhados que preciso esquecer. Vai, despe-te de mim. Eu despeço-me de ti. Para sempre.

Carla Augusto, 49 anos, Alenquer

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