30/08/15

EXEMPLOS - desafio nº 97

AH! Que vida triste e tão cruel! 
Assim pensava e resmungava Dora, a cada fim de mês, quando seu salário faltava para as despesas enfrentar.
Então, lá ia ela até o gerente do banco, novo empréstimo pedir. Encalacrava-se cada vez mais!
Pagava cada vez mais juros sobre juros. Assim ela mesmo por teimosia, mais no fundo do poço se colocava.
Teimava em gastar mais do que ganhava e a realidade diante de seus olhos não sabia enfrentar!
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

“O segredo está em deixar que o momento chegue, naturalmente.”
O nó na garganta e o suor nas palmas da mão dizem-lhe que é chegado o tal momento. Ele respira fundo, aperta o botão do casaco e, convicto, leva um joelho ao chão.
– Carla, casas comigo?
O que lhe chega é um silêncio que entra pela porta dentro e se senta ao lado dele.
Levanta-se, irritado.
Naturalmente, João. Naturalmente.”
Suspira, ajeita o espelho e tenta outra vez.
Ana Pessoa, 37 anos, Alenquer

Viver
– Mas isto está tudo louco? Tu viste bem aquilo? É preciso ter muita lata. – Rodrigues só não arrancava os cabelos porque não os tinha.
– Esse barafustar resolve alguma coisa?
– O mundo pode acabar, que para ti tudo bem.
– Porque não experimentas enfrentar os desagrados com um sorriso, abrires-te a uma maneira diferente de fazer as coisas? No dia em que olhares mais em volta e menos para o umbigo, vais descobrir que viver é uma aventura maravilhosa.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Desafios
– Nem pensar. O que vou eu fazer com tanta dificuldade em caminhar?
Joana explicou-lhe, talvez pela décima vez, que havia lugares preferenciais no autocarro, que os museus podiam ser visitados em cadeiras de rodas, e que os participantes eram bons amigos dispostos a ajudar e com muito entusiasmo na sua participação. Não adiantou. Ficou a chapinhar na pena de si própria. Joana pegou nas canadianas e abalou. Perdera aquela batalha mas não iria perder a sua guerra.
Maria José Castro, 55 anos, Azeitão

A responsabilidade e o cumprimento absorviam e os seus pensamentos... Intersectando os seus passos presos à ratoeira.
Sentia-se formatado para tal… tentava fugir a essa realidade, mas rapidamente era apanhado pela teia disfarçada em pó. Sobrepunha-se, mas de nada valia.
Deixava-se abafar, inevitavelmente…! Lembrava-se das palavras dos amigos…
“Não leves a vida tão a sério!”. Tinham razão!
Mesmo sendo muito linear, precisava de estar atento aos sinais. As reticências tinham de ser desbloqueadas, ultrapassando as limitações impostas.
Prazeres Sousa, 52 anos, Lisboa

O Hélder conhecia um caminho secundário para ir a escola, mas só depois de termos prometido não contar a ninguém, nos mostrou a vereda onde poderíamos passar o caminho-de-ferro e ganhar tempo. Hélder riu-se de nossa argumentação, que era proibido pelos pais atravessarmos os carris onde não há uma passagem de nível vigiada. Ora, o rapaz obstinado não queria perceber, se ele fosse agarrado pelo comboio, só estaria tomando o caminho mais curto para acabar a vida.

Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia Bélgica  


Sempre o mesmo final de semana. Estava farto do queixume:
– Passas o domingo de roda do maldito carro! Pareces não ter família!
Não respondia. Não valia o esforço. Estava à espera de quê? Que fosse gastar dinheiro na lavagem do carro? Não usufruía ela também do transporte? Se ajudasse em vez de fazer aquele leilão todo? Talvez sobrasse mais tempo, não? Recusava-se a dizer-lhe o óbvio… percebera que há muito tinham deixado de olhar na mesma direção…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

O dia era de inverno, frio, escuro e triste, como a sua alma que transparecia através do olhar sem brilho, cansado. A decisão estava tomada. Nada a faria continuar a fingir, nem a contornar a solidão dos dias, preenchidos apenas com a lista de presentes de natal e aquela aflição dentro do peito. O casamento já há muito tinha terminado, manter as aparências neste momento mais não seria que prolongar a dor. E essa era apenas sua.
Alda Gonçalves, 48 anos, Porto

Tempestade
Para valorizar a vida interior mais do que às formas e rituais externos institucionalizados, homens e mulheres são igualmente responsáveis pela caminhada individual em intimidade com o respeito pelos outros.
A inclusão das mulheres no mercado de trabalho contribuiu para a elevação do respeito. No entanto, não contribuiu ainda para o elevado conceito social. Ainda que de maneira sutil, as seculares barreiras erguidas diante das mulheres se fazem socialmente aceitáveis ou por um ou pelo outro gênero.
Renata Diniz, 39 anos - Itaúna/Brasil

Por outra via
E subitamente você percebe que:

... Nada parecer coerente,
E nada é consonância,
Se não te sentires bem na roupa de vestir,
E aquele sol já não luzir tão fortemente,
E amar não provocar mais aquela alegria descomposta, indecente,
It’s time to change!

Virar à esquina, a página, a vida.
Trocar de calçada, de planos.
Mudar de sonhos,
Pular muro, pular fase.
Cruzar a ponte. Cruzar fronteiras.
Ir do conhecido ao totalmente misterioso.
Inesperado. Surpreendente.
Novo.
Ir!
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Ninguém à espera. Aproximo-me. Pergunto se posso passar. Dizem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Vou à máquina para tirar a senha e nada. Volto ao guichet, explico a situação. Repetem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Tento mudar o meu destino implorando. Repetem-me:
 – Sem senha, nada feito!
Pergunto se há solução e respondem:
– Quando tiver senha, eu atendo-a!
Quatro horas depois, senha na mão, nervos à flor da pele:
– Passe, por favor!
Podia ter sido muita coisa, decidi ser obediente!
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 34 anos, Salamanca

Esta coisa do machismo chegar às galinhas é o cúmulo! E o que farão os galos? Será que a experiência já foi feita… ou é melhor deixar assim mesmo e ficarmos todos, neste caso todas, quietas e caladas sem piar sequer. Quando era muito nova tinha o que os franceses dizem “le regret du pénis”, aos homens tudo era possível, a liberdade, a autoridade, a independência. Hoje, décadas passadas, tenho orgulho em ser mulher!
Helena Barradas, 79 anos, Cascais

Família Lemos 
Tudo vai dar certo
, dizia José Lemos.
Não parava em emprego algum.
Sua mulher sustentava marido e filhos.
Ela juntava, mensalmente, o dinheiro das parcelas do apartamento próprio.
José só efetuava o pagamento.
Finalmente, o apartamento estava "quitado", era só preparar a mudança.
Na manhã seguinte, chegou uma carta cobrança.
As parcelas intermediárias não haviam sido pagas. José havia gasto o dinheiro.
Quando descobriu a falcatrua, a mulher pediu divórcio.
José casou novamente.
Tudo vai dar certo...
Verena Niederberger, 64 anos, Rio de Janeiro - Brasil

Contornando certa situação
Era uma vez uma jovem camponesa que tinha conquistado alguns méritos devido a seu capricho em tudo o que fazia. 
Entretanto, morava distante de muitas coisas que lhe interessavam concluir e ampliar leque de conhecimento. 
Resultado: saiu em campo, batalhou um lugar na cidade para morar na residência de uma senhora que era comadre de uma amiga da faculdade recém formada e nada a impediu de realizar seus sonhos de estudante aplicada embora estivesse não tão confortável.
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Esperava-o na ponte. Acenava-lhe ao vê-lo atravessar o ribeiro no seu cavalo alazão. Ele ignorava-a. Tímida, guardava para si a deceção. Contaram-lhe que ele vivia ali desde que o desastre o cegara. Resolveu arranjar coragem para lhe falar. Treinou palavras, frases,respostas... Vestiu-se como se ele pudesse adivinhar as cores garridas da saia e do «baton».
Quando ele passou, faltou-lhe a coragem. Acenou-lhe apenas, e assim continuou a fazer até ao dia em que ele não voltou.
Isabel Lopo, 69 anos, Alentejo

Ó Luísa! Achas mesmo que o rapaz mais in do liceu quer saber duma totó, marrona, caixa d’óculos como eu, senão para pedir apontamentos emprestados?!
Cansei, Carla, qualquer dia anda novamente abraçado a uma oferecida qualquer… Olha, lá está ele. Vem aí… Diz qualquer coisa. Olá, Carla. Olá, Joel. Vens ao bar? Já lanchei. Tá-se bem, tchau. Xau. Não acredito, Carla! Recusaste outra vez?! Olha: lá vai a Sílvia atrás dele… Agora desfaz-te em nervos como sempre.
Cátia Penalva, 36 anos, Viana do Castelo

Mesmice
Como os rios que contornam os obstáculos, alimentando as suas margens, numa corredoura até à foz, desafiantes e corajosos, assim deveriam ser os dois irmãos a viver no Casal de Além. Gerontes ensimesmados, não enfrentavam as dificuldades, por inércia.
Certo nefasto dia, houve inundação. As águas sorveram o bom e o mau. 
Viram-se então obrigados a tomar atitude. E tomaram. À sua indolente maneira. Amorfamente mudaram de lugar.
Ao invés de ladear os escolhos. Como os rios.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

O túnel
Ouvir a criação do outro lado do muro, no quintal vizinho, agitada na disputa pela comida, deixava-a num frenesim. Queria a todo o custo vê-la. Era pequenina, embora comprida, e por mais que saltasse nunca conseguia subir para o muro. Gemia a pedir colo, pois, assim, espreitava numa alegria espantosa. Um dia o pedido teve como resposta ‘espera!’. Qual quê? Esgueirou-se numa toca no chão e desapareceu. Aí vai de escavar um túnel para o outro lado.
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

A visita
Já lhe tinham tirado a cama, agora o prato tinha de ficar daquele lado?! 
Se pensavam que iria mudar de sítio porque havia visitas estavam muito enganados!
O lugar dele sempre fora ali... a chegada de um estranho não era motivo para mudar tudo!
Até poderia considerar em mudar-se, mas se eram só uns dias a visita que ficasse noutro lugar! Preferiria não comer que ceder! 
Lá porque era arraçado não se iria submeter àquela caniche finória!
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Recuperação (quase) impossível 
Disseram-lhe: “Não vás!” “Está perigoso, louco.” Discordou da ameaça. Foi. Preparada para o pior. Mas o pior do pior?! Bateu à porta, identificando-se. De voz assustada, faz-lhe inquérito minucioso e psicótico. Passou. Abre-lhe a porta. Vê-o. Quadro gravíssimo. Reversível?! Lutaria tenazmente para inverter a situação. Improvável, mas acreditava possível ainda.
Estabeleceu diálogo de compreensão parcial. Conteve zangas… revolta abissal. Suportou, firme. Com gestos e palavras de afecto “aguentou-o”. No dia seguinte seguiu-se internamento inevitável. Acompanhou-o sempre. Recuperou.
Isabel Pinto, Setúbal

Esperteza de galinha
Pena Dourada, franguinha vaidosa, gostava de se destacar. Tinha por ambição conquistar Cocorocó, senhor do galinheiro. Este, adulado por um harém de galinhas mais velhas, nem reparava nela.
 Por isso, arquitectou um plano: lançou-se contra o vidro de uma janela, caindo em pose estudada, de patas para o ar, soltando um aflito cacarejar de socorro.
O galo, surpreendido, voou ao seu encontro. Deu-lhe pequeninas bicadas, apaixonando-se perdidamente. Foi assim que Pena Dourada se tornou rainha do galinheiro.
Isabel Sousa, 64 anos, Lisboa.

– Nunca fazes o que digo?
– Porque não sabes o que dizes.
– E tu, sabes?
– Sei. Não preciso da tua opinião
– Não queres dizer, não digas,
mas sabes que tenho soluções.
– Uma convencida, é o que tu és.
– Está bem, fica na tua que eu fico na minha.
– Sabes se a Luísa está em casa?
– Não. Já lhe ligaste?
– Sim, mas não atende.
– Combinámos encontrar-nos no café,
mas não disse a hora.
– Vais cedo, e esperas por ela.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Não conseguia ousar!...
Gostava da Catarina
E queria-lhe falar…
Ela era menina fina…
Não conseguia ousar!

Via-a sempre passar
Com um bonito rapaz,
Não parava de gostar,
Mas sentia-se incapaz!...

E, em certa ocasião,
Soube que aquele rapaz
Era mesmo seu irmão…
Mas, nem assim foi capaz!

Estava desanimado,
Rondava sem se cansar
E, ao notá-lo amargurado,
Resolveu ela atuar!

E, uma noite, à luz do luar,
Deu-lhe um beijo muito ardente,
Estrelas vieram espreitar
E o sino tocou contente!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

O engano da Quica
A Quica, baralhada, subiu à estante. Ela não sabia do filho adorado.
O seu ar de tristeza era acentuado. Não imaginam, a cara risonha, quando ela encontrou o pequenino.
O gatinho estava zangado, queria sossego! Virou a cara, espreguiçou-se, saltou para a cabeça do avô Aires, que gritou:
– Ó Riscas, estás por aqui?
– Quero estar sozinho, posso ficar? Não te importas? – perguntou o gatinho.
– Fica, dás-me ideias mais claras! – respondeu prontamente.
Claramente, a gata desiludira o filhote.
Cláudia Neves, 11 anos, Alcobaça - Prof. Fernanda Duarte

Encontrei o Carlos, o melhor aluno de Educação Física, a correr no ginásio. Ele informou-me que participará na corrida com obstáculos.
Quando lhe pedi uma opinião sobre o meu vestido novo, apenas me disse que estava a ficar gorda e carecia urgentemente de iniciar uma dieta.
Fiquei furiosa... afirmei-lhe imediatamente que o único obstáculo que necessita de transpor é a má educação. Não passa de um bebezinho que precisa permanentemente que a mãe lhe troque as fraldas!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

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