20/09/15

EXEMPLOS - desafio nº 98

Amizade aos livros
Antônia era uma mulher interiorizada em estado de ânimo, essência... 
Gostava de ficar metida em sua solidão povoada de livros, escritos meticulosos, apesar de espontaneamente elaborados,
saídos do fundo da alma. 
Ficava doente caso não pudesse ler, escrever como lhe convinha pois letras, palavras geravam nela saúde. 
Passeava muito mas, volta e meia, estava encubando, gerando livros... 
Seu mundo era povoado de histórias. 
Subia, descia escadas da sua casa e, lá do alto, lia muito, expressava-se animadamente...
Rosélia Bezerra, 61 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Em tempos aquela escada era um reboliço. Ora sobe, ora desce, ora escorrega desenfreadamente pelo corrimão. Os meus netos davam imensa alegria à casa. A poltrona era o lugar preferido de todos eles. Sentavam-se à minha volta para ouvirem com muita atenção histórias encantadoras que os levavam ao mundo fantástico. Entretanto eles cresceram, foram viver para longe. Eu envelheci e parti para outro mundo. Assim a casa acabou por ficar despojada de lembranças, risos e barulhos frenéticos.
Isabel Pinela Fortunato, 41 anos, Amadora

Regresso
A bolha causada pelo gingar sincopado do peso na mão direita e o rodar da outra mala pela gravilha, estrelejavam-lhe na cabeça como repreensões.
Saudades da terra, dissera ao partir. Mentira, coração e bolsos vazios e oportunidades gastas, isso sim.
Ao fim do caminho estreito, a casa a esboroar-se. Matagal e pedaços de mobília como jardim.
A imagem dos pais acenando na escadaria das despedidas e o habitual espeto no peito, eram a massa tenra da desilusão.
Isabel Figueiredo, 50 anos, Lisboa

Renovação
A casa parecia abandonada, ervas daninhas invadiram o quintal
O cato cresceu, as paredes enegrecidas pelo tempo húmido apelavam que a olhassem que lhe deitassem mão, enquanto tempo. Era urgente uma renovação, uma pintura porque não! Encheu-se de coragem subiu as escadas, ficou à porta ouvindo o choro que vinha lá de dentro. Bateu e disse: Abra não tenha medo, quero devolver-lhe o sossego. Amanhã começaremos a pintar, vamos tudo renovar, não terá mais de se preocupar.
Maria Silvéria dos Mártires, 69 anos, Lisboa   

Olhou-a com uma mistura de sentimentos. Ali vivera os mais felizes anos e também ali perdera o seu bem mais precioso: a sua amada. A dor apoderara-se de si. A erva tomara o lugar no cadeirão, onde tempos idos, se sentava a vê-la cuidar do jardim. A tristeza assumiu a dianteira, turvando de melancolia o espaço que outrora acolhia a felicidade. Sentou-se na escada onde ela morrera. Deixou-se levar, acreditando que muito breve a voltaria a ver…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Lembras-te, avô? Era naquele sofá que fingias ler o jornal enquanto espreitavas por cima dos óculos para observares as nossas brincadeiras e te orgulhares do chapinhar na piscina insuflável que preparavas para nós todos os verões. Já passaram tantos anos desde aquela madrugada em que o telefone tocou anunciando que o cancro vencera e que eu não ia poder abraçar-te mais! Vê como as ervas cresceram, avô. Assim cresce todos os dias a minha saudade de ti.
Catarina Azevedo Rodrigues, 42 anos, Venda do Pinheiro

Old memories
Reformar a vida em qualquer tempo, circunstância. Será possível?
É assim que se sente: Como um antigo casarão, onde alegria fluía em cascatas. E a parede amarela era como sol, rebatendo e possibilitando mil tonalidades, quer fosse a estação.
Foi casa de dar e receber amor.
E hoje?
É um canto vazio, em tons sépia, jardim sem flores, tomado pelo abandono, resquício de mobília, sobra de lembranças, portas e janelas cerradas... Corpo, alma e coração, puro desprezo...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

Essa fotografia duma casa abandonada. Talvez não te impressionasse muito. Mas foi aqui que o meu pai nasceu.
Naquele tempo ainda morámos sossegados, entre a verdura abundante com flores camponesas e uma grande vedação. Ainda criança, só desejava que esta vida sossegada nunca acabasse. Mas, provavelmente vivemos errados porque a aldeia foi modernizada, e a casa teria de se vergar a quadradas caixas de betão com grande janelas e uma ruidosa autoestrada através do jardim de antes.
Theo De Bakkere, 62 anos, Antuérpia, Bélgica

Velha poltrona
Costumava sentar-me naquela poltrona herdada dos meus avós. A velha poltrona onde se aninhava Lancelote, o gato amarelo que eu afagava nos dias frios de inverno. Junto à lareira, a poltrona ainda vistosa e confortável permitia longas horas de leitura. Muitos passaram por ali. Lembro-me do meu avô a fumar cachimbo, a minha avó a tricotar, o meu pai a dormitar.
Já não tem vida, restam-lhe as memórias e as ervas daninhas que a aconchegam no jardim.
Fátima Veríssimo, 54 anos, Seixal

Um dia
Todos os dias, o rapaz passava pela casa abandonada. Ali ficava tentando adivinhar historias passadas. Um dia ouviu barulho. Abeirou-se duma janela. Lá dentro a luz parda da tarde antecipava a chegada da noite. Havia sombras que se moviam numa dança de sussurros. Eram todos fantasmas...
O seu coração alarmou-se quando um deles o chamou. Entrou. Fechou os olhos entregando-se àquele momento único, sentindo-se envolvido pela sua sombra.
Mais tarde encontraram-no adormecido no velho sofá do jardim.
Isabel Lopo, 69 anos, Alentejo

Tempos que não voltam mais
Férias no casarão era diversão garantida.
Lembro de vovô descendo as escadas, sempre pronto para me acompanhar nas divertidas andanças pela fazenda.
Uma visita ao curral.
Lá vinha ele com o leite fresquinho.
Lembro me bem do meu cavalo Sazeria.
Partíamos juntos para longas cavalgadas.
Quando chegava, tudo era festa.
A comida de vovó era especial.
Goiabada cremosa, requeijão fresquinho deixavam o "gostinho de quero mais"...
Agora só restam doces lembranças.
Dos tempos que não voltam mais...
Verena Niederberger, 64 anos, Rio da Janeiro, Brasil

Abandono
– Não – murmurou Zarco para si próprio. – Não voltarei aqui.
Num último olhar, viu a filha aconchegada no sofá, que não cabendo na porta passara a integrar o jardim. Os olhares cruzaram-se por breves instantes, mas nem isso o detivera. Tinha uma vida para viver.
Agora, cansado de dormir em quartos que não o acolhiam, regressara, dando-se conta das marcas que o tempo escrevera. Sentado no sofá, reconheceu-o como parte de si, ambos votados ao abandono. Estava só.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

O velho casarão
O velho casarão guardava ainda as tuas memórias. As escadas com o seu patamar onde tantas vezes brincaste às bonecas, e o jardim de glicínias e hortênsias onde os gatos se escondiam nos dias em que o sol era tórrido e estendiam o pelo luzidio quando o outono apenas deixava passar um sol envergonhado. Lá dentro continuava tudo igual ao que deixaste. Os móveis na sala, a partitura que se mantinha aberta, no piano. Faltavas tu apenas.
Alda Gonçalves, 48 anos, Porto

Sou feliz
Sei o que estás a pensar, mas não é verdade. Não me sinto sozinho, não estou triste, nem fui abandonado nesta esquina. Estou cheio de boas recordações, passaram por mim beijos, carícias, segredos, sonhos, conversas, lágrimas e sorrisos de muitas gerações. Vi céus estrelados e noites de lua cheia, senti o calor do sol e a suavidade da chuva. Tive frio? Tive! E medo também, mas sentei a vida e o mundo ao colo e sou feliz.
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 34 anos, Salamanca, Espanha

Casa velha
Casa velha.
Espólio de amores e desamores, tolhida de sonhos passados.
Teus degraus contam histórias,
nas pegadas apressadas, decididas ou hesitantes.
As janelas confessam saudade, dos tempos de namoro.
Proscénio abandonado,
outrora palco de brincadeiras,
ornamentado por trepadeiras.
Tiveste na ribalta,
hoje vives de quimera no teatro da vida,
contado na poltrona
que outrora embalou crianças,
foi ninho de promessas de amor
e acomodou velhinhos no final da sua jornada.
Retrato de duas vidas, pintado a aguarelas!
Paula Gomes, 41 anos, Porto de Mós

Vamos caminhar? Passas demasiadas horas nesse sofá – dizias-me.
Detestava abandonar um livro, mas seria apenas pelo tempo de uma caminhada.
Adoravas caminhar. Dava tudo para voltar a fazê-lo, no ritmo do costume, pelos mesmos lugares, beber café no local habitual e voltar.
Aquela monotonia faz-me falta. Tal como tu.
Hoje, não te levei flores. Pedi para voltar a nossa casa.
Espero que o que me resta passe rápido. Quero voltar a ver-te, e continuar a caminhar contigo.
Pedro Emanuel Santos, 30 anos, Valongo

Feliz por milímetro quadrado
Engana-se, fica mais pobre quem mantém a arte somente como um oásis romântico.
Para resgatar a questão humana, a arte surpreende, cria o artista.
Brilhante é comungar arte do bem viver.
Se um problema lhe tira as pernas, siga vencendo por toda a vida.
Há mil possibilidades para compreender os reveses que a vida apresenta.
Mergulhe-se num estado mais feliz por milímetro quadrado, verás que bem viver é apetite, é saída para o que der e vier.
Renata Diniz, 39 anos - Itaúna/Brasil

Memórias alheias
Paro neste semáforo diariamente e é inevitável! O seu estado leva-me para os anos 50. Imagino a família abastada que ali vivia: o pai, homem de negócios, a mãe, cuja profissão seria só essa, os filhos, muitos... meninas envergando vestidos de cetim com lacinhos e um considerável número de empregados.
O sofá degradado que ali permanece convence-me que saíram inesperadamente.
Quanto doerá a cada um desses personagens o abandono real desta casa?
O semáforo ficou verde...volto amanhã!
Vera Viegas, 31 anos, Lisboa

Uma casa desbotada pelo tempo, que se assemelha tanto a uma outra onde ainda pulsa o amor. Não é que seja habitada mas, volta e meia, enche-se de animação sobretudo na noite de Natal, onde a mãe, pessoa muito idosa, congrega à sua volta três gerações. Foi sempre uma casa cheia, onde a par da alegria e do bulício, momentos de infortúnio houve que foram superados com elevação. Ainda hoje o sorriso acolhedor da mãe opera milagres.
Emília Simões, 64 anos, Algueirão-Mem-Martins

Para mim deixou de haver amanhã. Os móveis foram doados, a poltrona ficou sem serventia, destroçada. Nela, Emília foi pedida em casamento, descansou, mal regressou das núpcias, sentiu as dores de parto, amamentou a filha, observou-lhe as brincadeiras, chorou, riu, morreu.
Eu e ela. Abandonadas, nós que testemunhámos tanta vida. Encostado a mim, como um espectro, José nem se apercebe que tudo tem um fim. O Alzheimer permitiu-lhe esquecer as perdas. Vai partir para o lar. Inevitável.
Ana Paula Oliveira, 55 anos, S. João da Madeira

– Então? Gostas? Ficava bem na sala. – Na sala? Eu quero no meu quarto. Vou levar hoje à noite. – De certeza que não tem dono? Tão novinho... se calhar é roubado, pensaste nisso? – Não digas parvoíces, quem vai roubar um cadeirão e abandonar no pátio? – Mas não é o nosso pátio, nem o nosso andar, somos ocupas, nada nos pertence, lembras-te? Isso mesmo, vamos levar emprestado esse cadeirão, se alguém precisar, que diga, não é? Fica descansada.
Jesús del Rey, 46 anos, Salamanca, Espanha

Quase…
Assomou ao portão e o ar fugiu-lhe.
Inspirou mais forte e quase, quase, lhe chegou o cheiro da madressilva, das rosas do canteiro do canto, do pão quente da manhã.
Quase ouviu o seu nome cantarolado, o jantar anunciado. Quase lhe cheirou a “Madeiras do Oriente” e a roupa lavada.
Os olhos afagaram o couro polido do sofá onde viajara nas histórias que lia e inventava.
O caruncho gritou mais alto. E uma lágrima quase, quase, rolou.
Maria José Castro, 55 anos, Azeitão

Zifa 
De um lar de família restava aquela casa em ruínas. Lá vivera com o único homem por quem se apaixonara, com quem casara há mais de cinquenta anos e tivera filhos.
Aquele sofá ali, rasgado, abandonado. Aquele onde de mãos dadas tinham passado os últimos anos, os últimos minutos de vida. Sim, deixou de viver quando o seu homem fechou os olhos para sempre, quando deixou de sentir a sua mão quente, quando deixou de ouvir “Zita”.
Margarida Leite, 46 anos, Cucujães

Não sabia se subia as escadas ou se saltava pela janela da loucura quando ia ter com ela. Aquela correria fazia lembrar os namoros à antiga. A serenata no chão e os vizinhos no parapeito. Guardo saudades dos beijos às escondidas, e do chegar de mansinho de madrugada. A casa ruiu, as escadas caíram e as serenatas calaram-se bem alto nas ruínas. Tomara que a entrada na janela para a loucura ainda nos fosse uma possível saída.
Gonçalo Gil, 18 anos, Lisboa

Perenidade
Três irmãs e uma casa, unidas pelo múnus, numa aldeia de costumes e primórdios.
A instrução das meninas sem escola, era na Casa das 'Senhoras Mirandas'; as 
irmãs professoras, solteiras e altruístas; na Casa, alva de cal e sol, ou no quintal,
pelas tardes de verão, sob um confortável dossel de videiras.
Os anos germinaram nos alicerces e nos pertences, mas passadas muitas vidas,
a Casa continua...na neblina ou na claridade.
Sobretudo, na identidade da aldeia.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Chegou aquele canto do que outrora fora um jardim, um espaço de lazer e de descanso!
Revia-se de bibe, subindo e descendo as escadas e a trepar à nespereira para comer o fruto, diretamente da árvore!
A janela do primeiro andar tinha umas cortinas em renda deixando entrar o sol para a sala. Sim, era a sala de costura, de conversas, de leituras e comentários!
Tudo ficou para trás, escondido no bolor das paredes, das nossas memórias!
Ana Maria Santos, 61 anos, Seixal

De volta à casa onde cresci, onde fui menina e moça, filha e neta amada. Quantas memórias!
As janelas, cobertas de colchas em dias de procissão, num colorido que embelezava o cortejo.
O sofá, assento preferido do patriarca da família, jaz agora no quintal. A velha escadaria que subia e descia, ligeira, permanece, resiste ao abandono.
A rua, agora deserta, traz-me à lembrança o som rouco da velha carrinha da Gulbenkian, a grande janela de outrora.
Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Imagem
Partiste, deixando no teu quarto um vazio que até a luz se recusa a perturbar. Desde então, não vive ninguém no quarto, por baixo do teu, onde ainda moro. Apesar de gastas, insisto nas cortinas. Deposito, no seu patético balanço, a esperança com que me forço a respirar. Talvez voltes e possamos retomar os livros, entre o teu quarto e o meu, exatamente onde os deixámos. Chegas, resgatamos o sofá à floresta e, em triunfo, envelhecemos juntos. 
Nuno Longle, 41 anos, Odivelas

Um fio de vida
Lanço o último olhar para dentro da sombria habitação. O silêncio transtorna-me. O frio, entristece-me. Uma janela bate com o vento, trazendo o eco consigo. Não há lágrimas, apenas desgosto. Apenas vazio. Sinto-me perdido e tenho medo. Medo de acabar só, sentado numa habitação vazia olhando por uma janela baça, à espera que o tempo passe. As ervas crescem sem sentimentos, apagando o fio de vida que por ali passou um dia. Um fio de vida meu.
Tomás Borges de Castro, 42 anos, Cascais.

(Re) viver
Cabelos brancos, corpos curvados, seguiram o trilho, outrora debruado a miosótis e margaridas, agora com ervas daninhas. O portão descaído mas com brio de guarda à casa deixou-os entrar.
A escadaria onde as tardes de estio se faziam acompanhar de risos de crianças, agora estava silenciosa. Helena e Cristóvão olharam num esgar ternurento o sofá onde os serões se passavam de eterno amor, mãos entrelaçadas. A casa da aldeia voltará a viver. A casa voltará a sorrir!
Arménia Madail, 56 anos, Celorico de Basto

Todo o prédio sente a falta da música dos teus passos, pai. Os degraus das escadas recusam-se a ranger da mesma maneira; as ervas crescem para te tentarem ver pelas janelas; o sofá rasgado convenceu-se que é uma sentinela. É esta vista a preto e branco que te espera.
Por isso, pai, preciso que lhes expliques por que já não vens. Outra vez.
Até a cor voltar.
Até eu acreditar.
Ana Pessoa, 37 anos, Alenquer

Não cheguei a tempo 
Cheguei de madrugada, vinda do outro lado do mundo. De táxi, dirigi-me para casa, onde me criaste.   
A lua derramava sobre o quase amanhecer uma luz ténue.
O portão estava entreaberto facilitando meus passos indecisos.
Envolveu-me o aroma do alecrim que ambos plantámos. O teu sofá favorito estava no jardim. Senti que foi dali que partiste.
Mantinha o teu cheiro. 
Soltei lágrimas amargas, guardando em mim o seu sabor.
Desculpa, atrasei-me.
Vim do outro lado do mundo! 
Rosélia Palminha, 67 anos, Pinhal Novo

O velho jardim
Abri a janela do "meu" quarto, observei o velho jardim onde cresci. Agora abandonado como a maioria das casas por ali. Por uns instantes pareceu-me que ganhara vida.
O Sr. Teocrato sentado no velho sofá brincava com os netos. As gémeas subindo e descendo à vez as escadas confundindo a Dona Amélia... A minha tia cuidando do jardim. Olhei para a tua janela, até tu estavas ali dizendo-me adeus... Tanta recordação.
Fechei a janela e parti suspirando.
Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

Talhas do destino
Joana olhou o casarão abandonado. Criança órfã, fora outrora ali pedir esmola. Negaram-lha… por entre os canteiros do jardim, recorda, brincavam duas meninas.
Depois, a guerra… medo… a fuga… e na pressa, um sofá perdido no jardim… ela, órfã e sozinha, como o sofá, foi ficando... perdida, ignorada…
O tempo passou.
Agora, mulher, bem sucedida, encontrou as duas meninas. Mulheres elas também, mas pedindo esmola por entre as ruas de um país estrangeiro…
...Acolheu-as na sua mansão.
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Era uma vez uma casa muito bonita onde vivia uma família muito rica e muito feliz.
Um dia, enquanto tinham ido de férias, a casa foi assaltada. Ficaram sem dinheiro, sem nada...
Depois de pensarem, decidiram ir para outro país e a casa ficou abandonada. Os vidros partiam, as janelas abriam, as portas batiam... mas a chaminé fumegava, o fogão cozinhava e a televisão funcionava. E no sofá do jardim alguém ressonava.
Esta era uma casa assombrada!
2º A, Escola básica de Ramilos, Agrupamento de escolas de Búzio, Vale de Cambra, prof. Cátia Silva

No meio de um mato cheio de árvores, arbustos e plantas, havia uma casa abandonada.
Numa das suas expedições àquele mato, o Jorge, um explorador conhecido, encontrou a casa. Apesar de sentir receio, entrou lá dentro. Viu teias de aranha e as mobílias todas partidas e sujas.
Durante algum tempo, visitou a casa diariamente.
Uma vez que continuava abandonada, o Jorge resolveu chamar a produção do programa "Querido, mudei a casa!" e transformou-a num laboratório para exploradores.
2º/4º B, Escola básica de Ramilos, Agrupamento de escolas de Búzio, Vale de Cambra, prof. Cátia Silva

A mudança da dona Chica
– Vamos, mexe-te! – dizia a pulga Chica ao marido.
– Isso é fácil de falar... há horas que andamos aos saltos.
– Ai homem, cala-te!
– Podias ter esperado pelo cão do 5º B.
– Ele não vinha para estes lados, vês? Já chegámos. Que achas? Aqui até tens um cadeirão confortável para viveres, não há crianças fazendo barulho, ervas altas e ali no 3º andar mora um gato... Para as viagens mais longas!
– Parece que pensaste em tudo.
– Pensei, não foi?
Carla Silva, 41 anos, Barbacena, Elvas

Na bagagem dela já não tinham espaço.
A secular casa abandonada e desgastada pelo tempo guarda a memória fria e silenciosa da passagem solitária e sofrida daquela mulher por aquela moradia. Quem passa e se detém a olhar a fachada, nem imagina. Cada pedra, cada janela, cada ombreira testemunharam o seu arrastado viver em sofrimento naquela ‘habitação’. Feitas as malas – apenas duas – e fechada a porta, ficaram os dias de tormento. À casa não faziam mossa e na bagagem dela já não tinham espaço. 
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra 

Duas janelas paradas, fechadas em si.
Repartem o desabitado da vida.
Foram olhos vistosos, felizes, abrigam agora as memórias desses tempos.
 Amigas desde sempre, nunca se apartaram.
São histórias incontáveis, incríveis as que testemunharam.
Nos dias de sol, portadas escancaradas, eram a luz da vida.
Passa num rufo o tempo, não espera, corre, voa.
A jovem nespereira, esperança renascida, acredita na reconstrução.
Contaram-lhe uns passarinhos que em breve chegará a alegria,
trazida por uma família.​
Goretti Pina, 53 anos, Odivelas

Virando a página!
Este casarão foi o palco
De boas e más memórias,
Acolheu filhos e netos,
Viveu derrotas, vitórias!

E, tal como passarinhos,
Partiram para outro lado,
Deixando no interior
O casal com o seu passado!

E, estes fazendo o balanço
E lembrando um sonho antigo,
Deixam casa e bens para trás
E mudam também de abrigo!

Uma casinha pequena,
Plantada à beira do mar,
Para ouvir o som das ondas,
Ver o pôr do sol e o luar!
 Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

O tempo gastou a casa. Gastou as palavras das estórias contadas. Gastou as risadas inocentes.
A casa gastou-se, como as outras coisas, acabou. Visitei-a, demoradamente, em cada sala ecoava-as, as estórias, as palavras. Qualquer coisa que resistia ao tempo, morava-a. Não sou de pensar, de ter deus, de ser otimista. Mas quando cheguei de lá, mudei-me. Vesti, remocei-me, talvez a memória não seja tão íntima, egoísta, talvez venha do espaço, do que não se sabe nada, sim.
Constantino Mendes Alves, 57 anos, Leiria

O Primeiro Beijo
Jardim abandonado. Uma janela fechada ( outra aberta, cuidada) ou escura? Como o negrume do sofá onde conversando. De quê? Não se recorda. Certamente de si, tão hipercentrada estava. Escutou-a. De ouvinte sentiu-se ouvida, analisada pelas palavras por ele proferidas. O comportamento desinibido possibilitava o diálogo com um homem, quase, desconhecido
Pouco lhe permitiu dizer. Mas percebeu o fascínio por si. Mesmo assim foi inesperado o beijo na despedida desse dia.
Saiu perplexa! Que raio se passara?!
Isabel Pinto, Setúbal

O tempo de sonhos despreocupados,
aqui ficaram enterrados.
Tudo se varreu ao partir.
E o regresso traz à memória,
esse tempo que guardaste para ti, os
momentos em que o via sentado nesse sofá
lendo o jornal da manhã.
Saltava-lhe para o colo, não se zangava.
Que resta de ti, agora!!!
As tuas paredes? A janela onde o meu primeiro amor
me roubou o primeiro beijo.
Que devo esperar de ti, se roubaste essas coisas de mim.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Piso o local pela primeira vez, anseio pela água salgada. Vou de carro, depois a pé. A insegurança domina-me, mas o caminho chama-me.
Há uma propriedade privada, fabulosa, imponente, construída em dias felizes. A decadência é visível, as palmeiras há muito se despediram. Apesar de tudo, merece ser amorosamente requalificada. 
Em deslumbramento, atravesso-a!
Encontro um oceano brando ― o rio recebeu-o.
Na praia, há conversas esclarecedoras ― o local é paradisíaco.
Não tenho dúvidas, os anjos pegaram-me ao colo.
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Ali, na Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa, com uma família de pai e filhas, ficara a cadela que tanta alegria dera ao jovem casal que inicialmente a acolhera. Era um animal enérgico, que teve a sorte de diariamente galgar parques urbanos em correrias infantis. Caçadora nata e de temperamento nervoso e inquieto, só depois de uma tarde a pular nos arrozais se entregava a um sono profundo e embalado pelo crepitar da lareira antiga.
António Matos, 31 anos, Lisboa

Lembro-me do tempo em que aquele velho sofá era a poltrona do avô. O tempo passou e tudo envelheceu… A madeira das janelas degradou-se com a chuva e com o calor. A tinta da parede foi arrancada pelas intempéries. O jardim, que outrora fora resplandecente, graças ao tempo interminável que o avô lhe dedicava, é hoje abrigo de ervas daninhas e animais que ali encontraram a sua casa. Apesar de tudo, a casa permaneceu. Avô, onde estás?
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo
Hoje vim à casa dos pais já falecidos com o agente imobiliário para avaliar o imóvel.
Esta casa magnificente foi palco do amor dos meus pais, da minha infância feliz.
Actualmente, paredes negras acanham a moradia, ervas gigantescas pejam o quintal, espelhando a tristeza que o pai sentiu quando a mãe faleceu e da falta de apoio que lhe votei num momento difícil.
Desisto! Não venderei a casa, irei restaurá-la... o amor dos pais merece esta atitude!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

A casa da minha infância
A casa da minha infância era o meu castelo.Na escada de pedra ocorriam sangrentas batalhas. Os inimigos subiam os degraus mas, lá em cima, esperava-os o meu exército. Que prazer derrubá- los um a um, e, chegar-lhes ao pescoço, as nossss espadas de madeira. Um dia, levei lá o João. Olhou a casa abandonada e murmurou: "Pai, que chatice! Sem elevador?!?" Só me apeteceu deitá-lo ao chão e encostar-lhe ao pescoço a minha espada de madeira. Palavra! 
Elsa Alves, 70 anos Vila Franca de Xira

Refugiaste-te num local de podridão. Foi aí que te conheci, entre destroços, sujidade, janelas e portas vandalizadas. O cheiro que emanava do recinto afastava qualquer um que não roedor, réptil ou humano à beira do abismo. Entrei para fotografar a realidade; hesitei, vendo-te enrolada num canto, andrajosa e trémula. Fitaste-me em pânico. Paralisado, foi o teu grito que me moveu: “Ajuda-me!”
Hoje, vendo-te renascida, feliz, celebro ― sem perguntas, sem conselhos, sem juízos ― a amizade que nos une.

Helena Rosinha, 66 anos, VFX

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