30/04/16

EXEMPLOS - desafio nº 106

O sol já ia alto, a manhã bastante adiantada.
Eles desconcertavam-se, com o desmotivar de alguns deles,
ainda meio dormentes.
Talvez motivados, pelos dramáticos 
acontecimentos da noite anterior.
Saíram um pouco martirizados,
no veículo motorizado,
porque eram mais que a conta,
e bem ornamentados.
Estavam tão compenetrados
com as ideias de mudar o mundo,
que não deram pela proximidade
dos exames complementares.
E sem se lembrarem que, para mudar o mundo,
é preciso mais atitudes que palavras.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

O escaldão
Sentia saudade do sol sobre a pele. Numa zona isolada, tirou a camisola, fechou os olhos e adormeceu ao som das ondas. Acordou, horas depois, vermelha como um tomate maduro.
– Perante tal queimadura solar, administraríamos anti-inflamatórios e contra-indicaríamos roupas justas – aconselhou o médico.
Trocara os dermoprotectores pelo protector solar! Desorganizadamente, tinha-os misturado. Tinha-se transformado num triste pimento andante.
Recordou os tremendos sermões da mãe, os que ouvira na juventude. Tinha tantas saudades dela… até dos ríspidos raspanetes!
Margarida Leite, 47 anos, Cucujães

De imediato
Após os ataques às escolas e aos teatros o discurso fora mais ou menos assim:
“Não demonstro somente meu desagravo, tudo aconteceu desastrosamente. Eu diria, foi uma monstruosidade, um acinte!
Novos redimensionamentos acontecerão, tentaremos redemocratizações nos partidos e regiões atacadas.    
Subentenderemos se formos alvos de muito ataque. Temporizadores irão atuar. Antigamente torpedeávamos palavras, agora torpedearemos gestos de reconstrução! Ações!
Não ficará transparecendo qualquer desatenção ou descaso!
Nós lutaremos incansavelmente, até o fim pela paz! Juntos seremos fortes!”
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Extremo Norte do Brasil

No parque, cada dia três velhos marotos preenchiam juntos umas palavras cruzadas.
Horizontal
– Perder a virgindade: Desvirginamento.
– Instrumento para medir distância entre dois pontos: Distanciómetro
– Graus: Doutoramentos
Vertical
– Terreno onde crescem mostardeiras: Mostardal
– Que fugiu: Tresmalhado.
Embora ele se não fizesse um omnisciente, só um conheceria todas as respostas. Desavergonhadamente, apesar do seu defeito de pronúncia, falava cada palavra com suas sílabas todas sem perder um quinto de vogal, como lhe foi ensinado ainda jovem pela logopedista.
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia Bélgica

Martirizados
Se tivéssemos observado os indícios de prepotência, contraindicaríamos deixar as crianças à guarda do major. 
Enquanto ele aproveitava para demonstrar quem mandava, o sorriso dos miúdos tornava-se exíguo. É fácil desmotivar-se em tal ambiente.
De dedo em riste e mão no cinto, o major procurava domesticar os pequenos seres, como se os seus atos fossem dramáticos para o mundo. Martirizados os miúdos encolhiam-se, num sentimento misturado de angústia, medo e esperança de que a salvação enfim chegasse.
Quita Miguel, 56 anos, Cascais

Não posso correr o risco de desconcentrar-me do que é essencial. Cumprirei o desafio, pensou. Aquele era o grupo de letras que iria usar. O descuramento ao compromisso parecia ganhar força. Tinha que desmontar aquele quebra-cabeça. Ali estavam as letras desorganizadamente colocadas. Necessitava domesticar a vontade de desistir. Era preciso encontrar palavras com sentido, onde as letras existissem. Tinha os olhos dormentes de tanto procurar. Os neurónios martirizados ameaçavam bloquear qualquer atividade mental. Sem dar conta, adormeceu.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Preito
Numa viva demonstração de apreço e gratidão, onde não havia desestimadores, serviram os dormitórios dos alunos, de local de reunião. Os mandatários cumpriram o que fora acordado.  O Reitor do colégio iria receber a justa homenagem.
Ornamentadas as salas, os corredores, a festa seria de arromba. Não houve retardamentos e tudo se realizou ao pormenor.
O Reitor de nada suspeitava.
Tudo a postos.  E... transbordantemente tocou a sineta de entrada.
O Reitor, surpreso, reconhecido e agradado, rejubilou!
Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Palavras de afirmação
Palavras de afirmação enchem o tanque de amor.
Jorravam decâmetros da fonte pura e cristalina.
Decímetros, sofisticadamente aprimorados.
De grande valia, os trabalhos motivadores da família.
Nada de esbanjar, senão alegria.
Afinal, não era medida pelos hidrômetros, mas sim pelos corações.
Corações mantenedores do amor, estão próximos, muito íntimos de Deus.
monstruosidade do conflito que atingiu Adão e Eva no jardim do Éden, acabou.
Quando terminados os tempos proféticos, o novo Adão reinou vencedor para sempre.
Renata Diniz, 40 anos - Itaúna/Brasil

Transformando-me
Tens esse dom, basta uma palavra para desmotivar os demais.
Esse teu feitio destemperado faz-me lembrar os apresentadores dos documentários televisivos ou um domador de leões, tentando domesticar tudo e todos.
E eu vejo-me misturado, nesse corrupio de crises de que és acometido repentinamente. 
Pode não parecer, mas estou cansado, e se me chega a mostarda ao nariz sou capaz duma monstruosidade da qual me arrependerei. 
Vislumbrando apenas os rendimentos finais, vais-me transformando num ser que desconheço 
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

Silencios de allá
Estanterías, maravillosos mentideros. Páginas reservadas como durmientes ideas argumentándonos qué pasiones esperan alguna voz. Acaso vendrán a soñar o dormirán desmemoriadamente sobre nuestros pechos recién besados. Qué palabra sucedió al nombre perdido para inventarnos otros, transmutándonos en qué personaje. ¿Soy? Vendré a morir aquí, esté donde esté; no distanciaremos confidencias que perduran en el corazón. Meditaremos en gran oscuridad. Deslumbramiento en noches evadidas que apenas rozaron los labios del hablante, complacido o maldito de preámbulo a fin.
José Ignacio M.G., 57 años, Valencia de Alcántara, Cáceres, España

Bom gestor
Era um administrador
Incapaz de admoestar
Aquele trabalhador
Amigo de trabalhar!

Proporcionava aumentos,
Era reto, imparcial,
Citava agradecimentos,
Dava prémios no final!

E passou a formadores
Antigos atormentados,
Teve úteis comentadores
Que foram recompensados!

Ao entrar, este gestor,
Melhorou departamentos,
Tornou-se entusiasmador,                       
Mudando comportamentos!

E aqueles mortificados,
Com precários rendimentos,
Constataram, dedicados,
A mudança dos aumentos!

O grande transformador,
Transformou-lhes os direitos,
Passou a dar-lhes valor
Após tremendos defeitos!

Dinamizou operários,
Mudou mentalizações,
Restituiu honorários,
Aumentou exportações!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

 Motards 
Zezé Carapinha, o administrador do clube, anuncia:
Desmontar…  Azar… mas desmotivar nem pensar…
– Começo a desnortear-me… – proferiu um dos motoqueiros.
– Calma! Foi do nevoeiro…
– A culpa é do chefe…
– Claro, de quem havia de ser?… – grita outro. – Das mitocôndrias, coitadinhas?
– Minha?!... Essa agora… se me chega a mostarda ao nariz…
… bla-bla…
Estes motards são uns cromos!… Saíram de Portimão rumo à concentração de Grândola, mas andaram às voltas e, quando deram fé, estavam de novo em… Portimão.
Domingos Correia, 58 anos, Amarante

Leviandade
A tua demonstração de leviandade está a ser convincente!
Que descaramento!
Tenho uma sensação de nostalgia de quando eras sensata, tinhas um brilho singular, rosto pálido e ingénuo.
Achas que és um deslumbramento?
Podias desfrutar da vida, ter uma postura adequada, ser uma figura incontornável da nossa sociedade!
Para não te desmotivares segue no encalço de uma madrugada romântica, deixa-te de desculpas esfarrapadas.
Deixa o sedentarismo age com desportivismo.
Domesticar na penumbra, pensativamente, ardilosamente, rir às gargalhadas.
Cristina Lameiras, 50 Anos, Casal Cambra

Esta noite foi ilustrada por pesadelos, mais tortuosos que o Adamastor; adormeceste molestado por acontecimentos geradores de sonhos atormentados, mais horripilantes que o monstro dos Descobrimentos!
Recentemente, foi diagnosticada uma doença oncológica à tua esposa, mas ordenamentos profissionais obrigar-te-ão a viajar para o estrangeiro.
A fragilidade clínica, a dor da separação, originarão, de dia e de noite, pensamentos ornamentados por imagens pesarosas.
Num momento funesto, a relação será transformada pela distância... como é possível não ficarem traumatizados?
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

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