30/07/18

EXEMPLOS - Desafio nº 146


Engano fatal
As coisas não andaram bem dessa vez para o abalizado doutorzinho.
A paciente, induzida pela vaidade, acedeu que a cirurgia fosse feita fora do hospital.

O doutorzinho afoito tratou de realizá-la em sua casa e claro,
deve ter cobrado, já antecipadamente.
A paciente morreu.
O caso virou uma barafunda, manchete global.
Era tudo uma bela farsa e ele era um portento apenas nas redes sociais.
Ele preso, ela morta.
Todo cuidado é pouco com as propagandas enganosas!
Chica, 69 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Se, de facto, há notícias espantosas, todos os dias, esta, embora ABNÓXIA, é, sem dúvida, uma daquelas que os nossos espectadores terão de se ESTORCEGAR para acreditar no sucedido. Numa escola da cintura da capital, um rapazinho de dez anos, classificado por professores e familiares, como INSURGENTE, tornou-se um verdadeiro PRÓFUGO, quando encetou, sozinho, uma escapadela até terras de Espanha.O miúdo foi interceptado, junto à fronteira, tendo-se ZUMBRIDO às autoridades. Argumentou, veementemente que queria ser herói!
Elsa Alves, 70 anos, Vila Franca de Xira

Um caso peculiar
Logo que a porta abrisse o repórter interrogaria a moradora sobre um caso peculiar.
― Então, foi aqui que viste o ALIEN?
― Sim, perdera seu caminho na GALÁXIA, e queria telefonar para os seus. Porque não tinha cara de ser MALVADO convidei-o para o jantar.
― Ah!
― Sim, gostou muito do bacalhau. Apenas à noite se despediu. OXALÁ pudesse encontrar na escuridão seu avião espacial porque andava em ZIGUEZAGUE, não por causa da gravitação da terra, mas do vinho.
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia – Bélgica

Projeto inovador
Bernardo sempre advogou bondade, equidade, libertação. Na faculdade, via-se grego. Legislação e regras a cumprir.
Que sarilho ― aprovação no curso, não erradicando os princípios ― tarefa inexequível.
Precisava de ideias. Propôs um sonho. 
Objetivou ficar dia e noite nas instalações, por três anos. Dormia no terraço. Ajudava colegas desmotivados, impedindo a desistência. Não usava dinheiro, fazia reciclagem. Acabou a licenciatura com excelência. Aplicou o tirocínio num país excluído.
Decorridos três anos, tinha um país turístico, procurado pelos pacíficos.
Helder Bernardo, 57 anos, Sines

Durante o estio, em dias de grande canícula, e em período de férias deixo de ser loquaz. Sento-me regularmente com um bom livro à sombra e em evasão, deixo-me enlevar pela literatura. Por vezes, toscanejo, adormeço mesmo. As narrativas transportam-me para outro nível, as páginas, as fantasias da ficção misturam-se com pensamentos oníricos. De repente transformo-me nas personagens, transfiguro-me, vivo noutras eras, noutros espaços. Um misto de desejo e de inverosimilhança, mensagens simbólicas e subliminares para decifrar.
Filomena Galvão, 57 anos, Corroios

O Joaquim vivia APORRINHADO, sozinho, solteirão. Tinha as mulheres que queria, mas nunca se apaixonou por nenhuma.
Um dia, no baile da aldeia, conheceu a Arminda, sempre muito ESPARTILHADA, era boa como o milho.
Convidou-a para comer CHICHAROS com peixe frito, na tasca do Zé Bento, a mais fina da aldeia.
A Arminda, que já pensava ficar para tia, lá aceitou. Marcaram o casamento e assim andava feliz o Joaquim, tão feliz como um JERICO aos PINOTES.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela

Para onde vais todo ancho, ó João António, assim a modos que a arremedar os galãs da televisão?
Camisa arremangada, boina ao lado... agora não te metas em gadunhas e não voltes pra casa com a roupa numa lodrice que a mãe não é pra brincadeiras.
Nada disso! Vou-me encontrar com a Ana ali na “fonte de baixo” e pedir-lhe namoro porque me constou que andam por aí uns manhouvas, a rondar. Hoje não há retouças, mano!
Amália da Mata e Silva, 63 anos, Vila Franca de Xira
ancho-vaidoso; arremedar-imitar; arremangada-arregaçada; gadunhas-brigas,confusões; lodrice-porcaria,sujidade; manhouvas-abutres; retouça-divertimento,brincadeira

“Jovem alija a raiva estorcegando o pescoço a um colega”
Eis o título da notícia em letras garrafais.
Conheço o Pedro, é calmo, não costuma resolver assim os problemas, mas foi demais!
Rui atazanava-lhe a paciência, diariamente. Nefrítico desde criança, educado sem mimo, raramente osculado, resolvia as dores provocando dores nos outros. Uma vez, outra vez, paulatinamente. Foi junto dos rododendros do parque. Pedro não aguentou, encarniçou-se e despejou no colega tudo o que suportara durante meses.
Ana Paula Oliveira, 57 anos, S. João da Madeira

Assassinaste o meu menino!
Ainda agarrado à argêntea Magnum 44, rosto cinábrio, olhar coruscante, revia desordenadamente a sua mais recente existência.
Obrigaram o seu menino a travar uma guerra que não era dele, um jogo sujo.
João perdera a vida. Artur jurou vingança.
Preparou em detalhe aquela manhã. E quando o Ministro da Defesa ia a sair de casa, rebentou-lhe os miolos.
Agora naquele ambiente silente, ouvia a jornalista tartamudeando – Notícia… de última… hora…
Encostou-se e aguardou!
Paula Castanheira, 54 anos, Massamá

Comunicado das autoridades algarvias põe termo a atoardas sobre estranhos avistamentos nocturnos ao largo da praia da Lota. Assinale-se que, ultimamente, a população tem enxergado formas luminosas indefinidas emergindo intermitentemente da água. O fenómeno é acompanhado por estranhos silvos, que azoam os mirones. Desde alimáriasgalfarros e maraus muito tem sido aventado. Afinal, comprovou-se ser uma praticante de mergulho, trajando roupa fluorescente. A desportista, que se desloca num xaveco, usa ainda uma zarabatana como amuleto da sorte.
Helena Rosinha, 65 anos, Vila Franca de Xira

A constipação do craque
Após uma alvazelha, interrompendo uma borrasca, o craque maior do futebol contraiu, numa ilha paradisíaca, grave constipação, acompanhada por espirros, quando vivia um amor solapado com nova namorada.
Acometido de súbitos calores, tudo piorou, após beber uma zurrapa servida pelo safardana do barman. Os espirros tornaram-se crónicos.
Na sequência, terminou a relação amorosa, pois não conseguia expressar verbalmente o amor.
O seu treinador recorreu à magia negra, tentando que os espirros não o impeçam de marcar golos.
Domingos Correia, 60 anos, Amarante

Alentejanices
― Tá-me a vir à alembradura, vi passar o Manel a correr. Passa-se alguma coisa?
― Não sei. Ouvi-o a gritar à mulher que uma porta estava escancarada.
De repente, começam a passar cabras pela rua, para grande espanto da aldeia. E o Manel atrás.
― Aí, magano! Tal não é a moenga! Se apanho o pantemineiro que me fez isto, vai levar uma sova, avi, vai.
Rindo do pobre, ambos olham para a esquina, por onde espreita uma cabecinha.
Manuela Santos, 43 anos, Almada


Hesitações
Manteve-se abnóxio apesar do negócio, o seu ganha-pão, ter ido para o beleléu. A ideia de não dever ter-se metido naquele error tomava forma. Mas a grazina se o atazanava, também o encantava. E quanto! Fora amor à primeira vista e não pensara, muito menos medira, as consequências de abandonar tudo às mãos de terceiros. Mesmo assim, tergiversava sobre a melhor decisão a tomar. Viver pauperizado e em devaneio ou começar de novo? Começaria do zero...com ela!
Maria Loureiro, 63 anos, Lisboa
(abnóxio – inofensivo; beleléu – fracasso; error – viagem sem rumo; grazina – pessoa faladora)

Energúmeno espantalho inamovível petulante obstinadamente sagacidade selvajaria
O maior energúmeno fazia agora de espantalho. Desde que passou a presidir à Associação Regional das Falésias Algarvias (arfa) ninguém lhe tocava. Inamovível no seu cargo. E fatal como o destino, todos os dias havia notícia de nova derrocada. Petulante no ser e no dizer, envergonhava qualquer um público. Obstinadamente nada fazia para recuperar os morros ou colocar barreiras de protecção. Até que a praia virou selvajaria, com a população a empurrá-lo do alto da sua sagacidade.
Alda Goncalves, 50 anos, Porto

Rufina estava atabalhoada com o que ouvira. Naquele momento tudo lhe pareceu desproporcionado.
O vestido, o local, a hora, o pedido... parecia-lhe um pouco estapafúrdio tudo aquilo. Até eles! 
Eram amigos desde crianças e há algum tempo que sonhava com uma vida a dois, principalmente depois duma vidente vaticinar o casamento dela com um zíngaro. E acertara. Ele ia casar e permanecia sorrindo esperando resposta. Apenas falhara num pequenino pormenor. Ela seria a madrinha não a noiva.  
Carla Silva, 44 anos, Barbacena, Elvas

Um carteiro em apuros
Sabem daquela sensação de ser observado? Foi isso que aconteceu a Cipriano Silva, carteiro, quando deixou a carta na porta da vivenda.  Subitamente, um cão apareceu e adentou-o. Espaventado, o carteiro escalou uma árvore. O cão rosnava. Nem as ameaças, nem as boas palavras, nem o boné arremessado, lhe valeram de nada. Anoitecera quando desceu da árvore de ossatura dorida, depois de um pegadilho com o dono do animal. De rompante, afastou-se furioso, resfolgante, ameaçando queixar-se por maus-tratos.
Isabel Sousa, 66 anos, Lisboa

Desemprego
Casal desempregado implica austeridade  a duplicar.
Sinto-me conspurcada , amarga com o preconceito de alguns.
Sinto um desassossego enorme, vontade de praguejar quando ouço sussurrar e olhares desdenhosos.
Vamos desmistificar a situação, satisfazer a curiosidade sem ressentimentos.  
A liberdade de expressão permite-me explicar que quem trabalhou e descontou para a Segurança Social tem direito ao subsídio, não nos estão a favorecer.
Para alguns é hilariante assistir à desgraça alheia.
Estou confusa, baralhada mas com vontade de juntar sinergias.
Cristina Lameiras, 53 anos, Casal Cambra 

Era a primeira viagem de fiacre, era a primeira vez que saía da sua cidade natal. À sua espera, estariam novos colegas, novos professores, aprenderia álgebra, estudaria minuciosamente cada teorema, cada equação.
Tacitamente aceitava uma nova vida de estudo e de investigação, como um monge cuja religião era a sua Matemática. Mas era um jovem, ingénuo do mundo ainda na sua vagem, à espera de descobrir o derradeiro logaritmo de equação universal. Então explodiria o seu zesto.
Constantino Mendes Alves, 60 anos, Leiria

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