20/10/18

EXEMPLOS - Desafio nº 152


Pobre Palmira! De coração desfeito
O sorriso dominava-lhe o rosto excitado!
Escondeu o voucher na almofada dele.
Palmira tinha finalmente sido promovida! Era hora de comemorar. Iriam passar o próximo fim-de-semana a Paris, onde, anos
antes, tinham ficado noivos.
Enquanto esperava Filipe, ligou o computador de casa para ver as previsões do tempo e descobriu a troca de mensagens entre o marido e uma qualquer Tânia. Encontros dissimulados, juras de amor…
De coração ferido, deixou que as lágrimas lhe queimassem o sorriso!
Paula Castanheira, 54 anos, Massamá

Quando a noite acontecia, invadia-o uma enorme saudade da filha. Oferecera-se para aquela missão de resgatar refugiados e não tinha vagares para sentimentos piegas... As horas demoravam. Os ponteiros marcavam os minutos desapiedados. Envelhecia naquela longa espera. Até avistar o bote.  Frágil, instável, parecia um brinquedo à deriva. Quando o alcançou, sentiu uma emoção tremenda ao agarrar a menina, lembrando-se da filha. Então sentiu o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida que não mais o largaria. 
Isabel Lopo, Lisboa

A última
Aos noventa anos ela era, salvo alguns sobrinhos emigrados, a última da família e última serrana na aldeia de xisto. Lágrimas amargas que apenas lhe avivaram a solidão, não as chorava mais. A única consolação, um cão abandonado com que partilhasse por vezes sua refeição.
Um dia, ficou a porta fechada. Nenhumas lágrimas no funeral, apenas o pároco, o coveiro, e um cãozinho que se deitou ao lado da cova e não se deixava expulsar por seixos.
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica

Tinha tido vários problemas familiares com as mesmas pessoas, mas sempre perdoara-lhes.
Entretanto, eles sempre remexiam-lhe sua marca na alma de tristeza, tratavam-na como se não tivesse memória afetiva sequer.
Lágrimas de fogo ardiam-lhe na face sofrida, quisera que eles a deixassem em paz definitivamente e não a subestimassem tanto.
Daria um fim naquela condição, pois confiava muito em Deus e não suportava mais ser tão injustiçada por eles.
Aquela ferida maldosa precisava ser cicatrizada de vez.
Roselia Bezerra, 64 anos, ES, Brasil

Fez um chá. Sentou-se frente à lareira que crepitava acesa e bebeu-o de um trago, bem quente. Queria aquecer-se por dentro e por fora. As vicissitudes da vida deixaram-no fragilizado. A vulnerabilidade que sentia refletia-se-lhe na alma e no corpo. Definhava a olhos vistos. Os olhos começaram a verter. O gato enroscou-se aos seus pés. Este conforto despertou a sensibilidade e o choro foi convulsivo. Sentia agora o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida da solidão.
Filomena Galvão, 57 anos, Corroios

Ontem, a Isabel ligou-me, pela primeira vez, desde que me deixou. Disse que a nossa separação é irrevogável. Gritei-lhe. Insultei-a. Depois calei-me. As lágrimas corriam-me, cara abaixo. Não conseguia falar. Espero que ela não tenha percebido. O seu lema é "Um homem nunca chora." Diz sempre isso ao miúdo, quando ele se aleija. "Olha, domingo, o Nunito vai almoçar contigo." As lágrimas secaram. A tristeza desapareceu. À tarde, podia levá-lo ao Oceanário...  "Adeus, Isabel. Tenho de desligar."
Elsa Alves, 70 anos, Vila Franca de Xira

Atento ao mundo, esperando sempre notícias diferentes, centrou a atenção nos sons do Rádio. Não, infelizmente, o amigo não se enganara. A loucura tomara conta daquela terra imensa a que chamava de Irmã – o Brasil.
João sentia o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida, sentia revolta.
O Homem não tem emenda? Tem sempre de ser carrasco do seu Irmão?
NÃO! A Esperança é a ultima a morrer…
João levantou a cabeça, sorrindo. Força, Povo do Brasil! 
Margarida Freire, 76 anos, Moita

Fogo Que Arde e Que se Vê
O gesto mecânico de Rosalice, ao pegar, displicente, a bata de florzinhas miúdas ao dependuro no costal da cadeira, denunciava o fraco ânimo que a minava. Sozinha estava desde a perda do único amor na estúpida guerra, mas ver-se agora sem metade da casa, reduto apaziguador que o fogo vivo indecorosamente gualdripara, plantava-se-lhe no peito a angústia inevitável, tornada contumaz companheira. 
À soleira da meia-casa de horizonte esfumado, sentia o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida. 
Elisabeth Oliveira Janeiro, 74 anos, Lisboa

Nunca sentira uma dor assim. Ela partira e agora o mundo era um sítio desconhecido. Faltava-lhe a voz e o sorriso e as suas mãos perdiam-se no vazio da ausência. Sabia-a doente e imaginara tantas vezes como seria perdê-la. Assustado como num filme a que nunca tinha querido assistir até ao fim. Mas naquela madrugada, naquele corredor de hospital, as lágrimas tinham vindo abraça-lo, uma a uma, quase ternas, como se fossem a única hipótese de consolo.
Paula Coelho Pais, 57 anos, Lisboa

Há feridas que sempre recordaremos; da infância, as esfoladelas nos joelhos, cotovelos em chaga - como chorávamos! As lágrimas rolavam, rasgando sulcos na sujidade do rosto… Crescemos e aprendemos a engoli-las, de orgulho ferido; respondemos ao fracasso, às frustrações, refugiando-nos na nossa concha, indiferentes a tudo, alheados das questões ambientais que ferem o planeta. Pois as lágrimas também rolam na Natureza, sujeita, como está, ao egoísmo do tal homo sapiens, que explora recursos, provoca guerras, polui, extingue habitats…
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira

Pingava de amor por ela. Em gotas mal medidas. Soltava-se no seu regaço. Acordava às escuras para se sentir liberto. Ensopado, alagado. Escondia-se nas almofadas do desejo. Lavava tudo o que sentia. Era de ir e não voltar. Era de não suster. Enxugava o que tinha que enxugar. Menos o amor que lhe rolava pelas faces, húmido, quase quente. Sal na ferida já fria, pensava ele. E a mágoa a queimar, numa chama que não conseguia apagar.
Violeta Seixas, Lisboa

Sempre ouvira que: um homem não chora e era o que sempre tinha feito...
Mas, na quietude do seu quarto, deixava que as lágrimas viessem de mansinho e fossem aumentando e, as suas mágoas, parece que se iam esvaindo e tudo ficava mais claro. Sempre se lembrava de como, ao entrar no mar, se tinha uma uma pequena ferida, essa lhe ardia muito, mas, depois, sarava mais rápido. Agora teria outro lema: as lágrimas lavam-nos a alma.
Amália da Mata e Silva, 63 anos, Vila Franca de Xira

Debatia-se com a saudade, todos os dias, e as noites eram ofuscadas com o terror da solidão que lhe apertava a alma.
As feridas ainda abertas e inflamadas pelas lágrimas que ao caírem, queimavam-lhe as entranhas, sentia-se impotente perante tamanha dor que lhe sufocava o peito.
Desejava que o fim estivesse próximo, quem sabe, no outro lado, no paraíso encontrasse a paz e o descanso merecido e que a vida cruel lhe roubara um dia. Quem sabe.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela

A ferida era recente. Mal te via desatava a chorar. Quanto mais te ignorava mais aparecias e isso era bom porque te queria… quero…
Mas piorava… Cruzávamo-nos, eu ignorava-te. Ridícula.
Ridícula: eu por achar que seria diferente, tu por não perceberes a minha dor. Que parvoíce tentar gritar, não me ouvias… Talvez deva continuar a ignorar-te, talvez resulte se deixar as lágrimas correrem sem me conter, talvez resulte se o grito não morrer na minha boca. Talvez…
Francisca Reis, 17 anos, Cantanhede.

Dormia de cabeça reclinada para baixo, triste pelo buraco que nele havia. Teve medo que assim para sempre fosse ficar, vazio, e começou a chorar. Da sua face lágrimas escorriam. Salgadas elas eram, e o fundo que há pouco o fogo cavara ia enchendo. É o que o fogo faz às vezes, cava, leva, mas não por mal. Durante muito tempo o sal arde, incha a ferida, mas, no entanto, foi assim que se fez o mar.
Laura Mota, 18 anos, Amadora

Relacionamentos
Furtivamente, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Felícia usava o silêncio dos dias, nervosa, em sobressalto, lamuriava-se continuamente. Pálpebras pesadas, impulsionada pela injustiça, gritava furiosamente contra a ingratidão do seu amor.
Os intensos laços que criaram eram fingimento, feriram a sua dignidade. Exausta, mas consciente entendeu o pesadelo e os infortúnios da sua relação.
Intempestivamente tinha amado vertiginosamente sem reparar nas repercussões da relação.
Sentimento desleixado, tranquilidade ridícula ou inconsciência?
Relutante, limpou arestas e incertezas.
Consciente?? Ou Inconscientemente??
Cristina Lameiras, 53 anos, Casal de Cambra 

Dor
Teve de a deixar partir, aliás , não podia fazer outra coisa.
Continuava a amá-la perdidamente.
Por ela, as lágrimas que chorava, ardiam-lhe como fogo pelo rosto.
Olhou para a outra, sentiu, e percebeu, que o amor tanto se pode sentir numa vida como noutra.
Aquela não está, esta está.
Limpou o rosto com as mãos, sorriu tristemente. Nada do que fizesse nesta vida a traria de volta.
Mas na sua alma, essa raíz, viveria até ele viver.
Celeste Bexiga, 68 anos, Alhandra

Ardia-lhe o sol na boca, trazido pelas lágrimas já secas. Mal se mexia. A brisa, apesar de leve, aguçava ainda mais aquela dor viscosa e negra das feridas abertas no seu corpo. 
Encontraram-me finalmente, pensou, ouvindo ao longe sirenes e vozes.
Chegou já inconsciente ao hospital. Mas, soube depois, todos torceram por si.
Demorou a identificação do assaltante pois nenhuma mulher queria apresentar queixa. Mas foi apanhado. 
E as suas vítimas puderam, por fim, dormir descansadas.
Rosário P. Ribeiro, 60 anos, Lisboa

Meu querido pai
― Conheço-te?
Perante aquelas palavras, Otília perdeu o sorriso e beijou o rosto que tanto amava.
Durante os últimos anos, o pai confundira-a imensas vezes.
Inicialmente com membros de família, depois com colegas de trabalho e de escola, ouvira confidências, desabafos... Ouvira de tudo, mas não contava ouvir aquilo.
O pai não tinha culpa, era aquela doença, que parecia mofar deles, ora permitindo-lhes conversar como sempre fizeram, ora arrebatando-lhes as recordações vividas como se nunca tivessem sucedido.
Carla Silva, 45 anos, Barbacena, Elvas

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