20/02/19

EXEMPLOS - nº 164


Fora seu grande sonho desde menino.
Dificuldades para sobrevivência cada vez mais o afastavam dele.
Estudou, dedicou-se. Focava subir na vida e assim seguiu, levando o velho intuito avante.
Finalmente seu sonho estava perto: conseguiu emprego em um navio.
Assim, uniria o útil ao agradável.
Não contava com o infortúnio.
Uma grande tempestade, ventanias, furacão, correrias, pavor, depois o silêncio.
Queria subir na vida, mas afundou!
Afundou o navio e nele, no fundo do mar, seus sonhos.
Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Querido Mar,
Hoje converso contigo,
Calmamente.
Todos os dias o faço,
Estou diante de ti sempre.
Posso refletir sua ternura
Ou posso ser tão bravia...
Não ouso sê-lo, entretanto...
Posso te pedir algo?
Não me deixes naufragar
Nem aos que tanto amo.
Abraça-nos
Com suas ondas brandas
Rendadas...
Sejam marolas delicadas,
Não mais,
As que venham nos banhar!
Nas águas do mar da vida,
Nada nos faça afundar,
Definitivamente.
Muito obrigada, Mar amado,
Mantenha-nos em terra firme!
Roselia Bezerra, 64 anos, ES Brasil

Ora bolas! Até quando tenho que ficar aqui? A culpa é do armeiro que me construiu sem robustez suficiente, da tempestade que nos fustigou, do comandante que não me soube manobrar, do rochedo estúpido que se atravessou na rota, de Deus, do Diabo, sei lá. Eu, que devia estar agora a singrar os mares, veloz e soberbo, aqui estou, esquecido, ignorado, substituído, reduzido a esconderijo de peixinhos idiotas. E se nunca me encontrarem? Se nunca me descobrirem?
Natércia Tomás, 65 anos, Caldas da Rainha

Sou caçador de tesouros. Esta manhã aventurei-me e mergulhei nas profundas águas do oceano. Estava um dia luminoso, céu muito azul e o sol que incidia nas águas deixava-as tão transparentes como jamais havia sonhado. Senti-me levitar no meio de tamanha beleza. Peixes de todas as cores e formas, corais, areias brancas como nunca imaginara. De repente um vulto assombrou-me. Assustei-me, mas refiz-me prontamente. Talvez naquele navio afundado estivesse o tesouro que há tanto tempo eu perseguia.
Emília Simões, 67 anos, Mem-Martins

No fundo do mar
O mergulho levou-me no fundo do mar, onde encontrei aquele barco misterioso do qual luz brilhava. Estaria habitado?
Através da escotilha vi uma fantasmagoria. Um cardume de néones que se encarregava da luz no camarote passou em frente meus olhos. Na cozinha caracóis limpavam copos, enquanto à mesa um cavalo-marinho arranjou uma jarra com anémonas. O chão arenoso foi arrumado por um caranguejo zeloso. No meio dessa azáfama, uma sereia, sentada numa ostra, cantava sua canção estupefaciente.
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica

Lisboa carregava um céu de chumbo. Nada do que a Mãe lhe prometera. “Tem o sol de Angola, vais-te sentir em casa!” Na sala dos retornados sentou-se num buraco apertado entre gente desconhecida. Tentou lembrar-se das figuras do livro que perdera. Era sobre o mar, barcos, navios. Vinha-lhe à cabeça o naufrágio. Um barco triste no fundo do mar rodeado de azul e silêncio. Mas ele, naquela multidão barulhenta, sentia-se só. Devia ser isso “a solidão acompanhada”...
Isabel Lopo, Lisboa

“Deveríamos adotar a mudança e adaptarmo-nos a ela como fazem os oceanos. Um navio naufragado pode transformar-se num local onde a vida marinha se abriga e evolui.”
Helder Severo era, por detrás dos óculos tartaruga, um discreto biólogo marinho de reconhecida fluência científica e começava assim mais uma palestra sobre oceanos, no Grande Auditório Gulbenkian.
Plateia silenciosa, olhos atentos.
Jovens, na procura de inspiração profissional, encontravam ensinamentos preciosos de vida.
Aplausos, abraços, agradecimentos… Severo embaraçado. Severo feliz!
Paula Castanheira, 54 anos, Massamá

Não lhe saía da cabeça aquela imagem. Recordava-lhe a avó, a viagem dos pais em busca de sonhos realizados.
Esses sonhos se afundaram com o navio repousando no fundo do mar, onde uma linda sereia, em noites de luar, saudosas melodias vinha entoar.
― Queria tanto conhecer essa sereia, avó.
― Não te preocupes, meu tesouro, essa sereia sempre cuidará de ti.
A avó já não conta a história, mas sabe que uma estrela no céu olha por ela.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela

Há um navio no fundo do mar: desde da primeira viagem que fez com o Comandante Vasco Mocoso de Aragão, o nosso navio de longo curso sonhava ficar ali, exatamente naquele lugar.
Era um lugar maravilhoso: só oceano - água profunda e plena de vida – sentia-se ali uma energia única.
Nenhum fim lhe parecia mais de digno que um naufrágio: o fim último para qualquer barco.
Um dia decidiu e pronto, afundou ali, e ficou lá para sempre.
Ana Seixas Silva, 45 anos, Nelas

É isso que desejas ou procuras? Baixas o teu olhar, alimentando a tua decisão e certificas-te de que a certeza é mais do que isso, pura convicção. Afinal, o teu olhar confessa-mo... Sei que vais seguir em frente e que procurarás o que almejas verdadeiramente indagar!
Francisca S., 10 anos – Colégio Paulo VI, Gondomar, prof.ª Raquel Almeida Silva

O velho navio jazia submerso naquelas águas calmas e cristalinas, que em nada nos faziam antever a história do naufrágio. Hoje estes destroços não passam de recifes onde criaturas marinhas se abrigam entre os velhos cascos.
Navios de guerra, comerciais ou piratas, os despojos de navios afundados, sempre serão o fascínio de pessoas que auspiciam conhecer melhor as suas histórias, interessantes, por vezes trágicas, mas que o seu ultimo capitulo de vida ficará para sempre porventura por desvendar.
Graça Pinto, 60 anos, Almada

Eu, navegava efusivamente no meu majestoso navio,
em alto mar sereno sem baloiçar.
Mas, lá bem do alto, surgiu uma mortífera tempestade,
que minha vida pretendeu apagar...

Teimosamente e forçando a mais fiável de todas as probabilidades
chorei, gritei, lutei, esperando até o mau tempo passar...

Encontro-me agora com um novo barquinho,
aqui, junto à margem a flutuar.
Quero para sempre esquecer, aquela maldita tempestade,
e, continuar teimosamente a remar, fazendo de novo a minha vida avançar!...
Celeste Silva, 55 anos, Gondomar

Heranças secretas
Está a chover! Paciência...
Não é uma chuva que vai destruir a excursão há muito programada.
Mergulhar aos tropeções nas profundezas do mar, sentir a água gelada, procurar heranças secretas, riquezas proibidas, rasto insistente partilhado por gerações.
É maravilhoso procurar esconderijos no navio naufragado, sensação de felicidade, harmonia com o meio ambiente.
Está na hora de descansar, trocar os dias insípidos e bucólicos do campo, partir para a aventura.
Gritar liberdade, viver brincadeiras no fundo do oceano.
Cristina Lameiras, 53 anos, Casal de Cambra 

Conheço-os desde o princípio dos tempos. Conheço-lhes a ambição, os planos, as dores. Ignorando augúrios, aventuram-se por rotas tenebrosas, desafiam marés, intempéries, a ira dos deuses... Têm as terras incógnitas no pensamento.
Vede como estoutro lesto se abalança, destemido; o equipamento inovador, supostamente indestrutível, aguça o atrevimento, transmite-lhes confiança. Ah, humanos crédulos, proferi as vossas preces, pois não tardareis a defrontar o guardião das profundezas, reduto de muitos sonhos, ganância e fraquezas. 
Estes são os meus domínios!
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira

Talvez 
Naquele momento questionou a compra impulsiva. Algo naquele quadro a incentivara a comprá-lo. 
Talvez o motivo estivesse no facto do pai ter sido pescador. Ou porque a mãe dizia sentir-se como um navio no fundo do mar após a morte do marido. Talvez porque ela própria, devido ao seu desastroso casamento, se sentia a nadar em águas profundas. Ou talvez simplesmente tivesse gostado dele... 
Talvez no fundo entendesse, talvez fosse por tudo isso ou talvez por nada. 
Carla Silva, 45 anos, Barbacena, Elvas

Navegante
Seguia o Navegante
Com toda a tripulação
Em ondas de mar errante
Perdido na escuridão!...

Das pessoas esbracejando
Só conta quem se salvou:
Duas crianças boiando
Que outro navio avistou!...

Entregues ao capitão,
Duas meninas de tranças,
Nunca largaram a mão
E hoje carregam lembranças…

A mãe tinha-lhes faltado,
E sendo muito pequenas
O pai tinha-as embarcado,
Ficando o irmão, apenas.

Salvas por uns pescadores,
Atónitos, esbugalhados,
Contam ainda terrores,
Aos bisnetos fascinados,
Ouvindo dramas e amores!...
Maria do Céu Ferreira, 63 anos, Amarante

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