03 agosto 2016

Escoada de afetos

O peso da vida escoada de afetos tornava-se, vezes sem conta, insustentável. A força que o dever emprestava fazia-a mais forte, mais aguerrida, mais surda ao desânimo. Uma família grande redopiava à sua volta. Surda ao cansaço cumpria os dias desenhados pelos que a rodeavam. Existia simplesmente. Apenas o seu desempenho denunciava a sua existência. Uma existência somente habitada pelo alheamento dos outros. Sem lugar para si mesmo foi derretendo o desejo de viver. Deixou-se subsistir vazia.
Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

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