15 agosto 2018

Manuela Santos ― desafio 133


Rumo memorizado e sem razões para alertas, a minha cabeça flutuava por pensamentos alheios ao percurso.
Verdade seja dita, não sei se foi acaso ou desdita.
O momento passou, veloz como o felino que vislumbrei.
Caí. Corrijo… voei. Tal querubim despojado de qualquer senso e delicadeza.
Dei por mim em desalinho, guiador na mão e rodas no ar. Embalada em folhas e espinhos.
Caí nas silvas. Como quem cai em desamor, imobilizando a dor e a vida.

Manuela Santos, 43 anos, Almada

Desafio nº 133 ― cair nas silvas

Filomena Galvão ― desafio 147


O passeio marítimo continua lá. Porém, a sua vida não é a mesma. Construíram, ao seu lado, um passadiço enorme. Quase ninguém o trilha. Todos o preteriram. Resistiu o Ti Chico, um velho pescador que ainda se sentava lá todas as manhãs a consertar as redes. Costumava contar-lhe muitas histórias da faina e das artes piscatórias. Há pouco tempo também ele partiu. Restam-lhe as memórias desse tempo. Imagina-se, agora, envolto em criaturas marinhas, aconchegado pelas flores silvestres.
Filomena Galvão, 57 anos, Corroios
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

Ana Paula Oliveira ― desafio 147


NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR!!!
Foi com este grito de libertação que Rita fechou estrondosamente a porta e o seu casamento de 30 anos.
Manias! Cigarros, sofá, televisão, futebol, jantares à mesma hora, férias no mesmo local, rotinas!
Ela não suportou mais as manias de uma pessoa eternamente insatisfeita, logo, eternamente infeliz. E solitária.
A sua vida já não é a mesma, mas o passeio continua, agora rodeada de flores silvestres. Basta de rosas falsamente perfumadas.
Ana Paula Oliveira, 57 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

Theo De Bakkere ― desafio 147


Num leito de flores silvestres
Atropelado no passeio do regresso, sua vida pendurava-se num fio fino. Em coma, ouviu sua mãe falar em voz baixa para não o deixar sozinho, mas já recostado num leito de flores silvestres, ele viu-se num clarão além das nuvens, entre um véu de astros e com a ideia aconchegada de que planava a caminho da sua avozinha, que o havia precedido naquele dia do acidente.
A avó teria sabido que ele seguiria o mesmo destino dela?
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

13 agosto 2018

Celeste Bexiga ― desafio 1


Tinha oitenta anos.
Como sempre saiu cedo, para comprar pão.
Hábitos...
Direita, elegante, cheia de vida.
Quase a chegar à padaria, a mota aproximou-se devagar, o jovem arrancou-lhe a mala da mão, acelerando rapidamente.
Amélia, no momento, assustou-se, seguidamente o seu rosto esboçou um
SORRISO....
Oitenta anos de sabedoria.
O importante que levava, ia no bolso interior do casaco. A mala fazia parte do
conjunto que vestia.
Teve PENA do jovem, do FOGO mau que lhe ardia no peito.
Sentada na esplanada sentiu a mala cair-lhe aos pés.
Celeste Bexiga, 68 anos, Alhandra
Desafio nº 1 – palavras impostas: pena, sorriso, fogo

Jaime A. ― sem desafio


Sereia
É  aqui que o rio
encontra o mar e,
nem sequer a sereia  
sabe do bater dos seus corações.
É aqui que se enrolam
grãos de areia
e torvelinhos de água.
É aqui que o sal
saboreia a água doce,
a sereia vislumbra
o amor.
Na passada,
esta corrente do mar,
entre frondosos sonhos, 
sorri à luz
e a uma sereia
que não capitula
ante o esquecimento
de um saber ancião:
que dizem as águas 
entre si? 
Jaime A.
Veja a fotografia correspondente, e mais textos em: www.soprodivino.blogspot.com

Celeste Bexiga ― desafio 4


Sou um bule rachado sou.
Tenho dois amigos, o pires e a leiteira.
Por vezes, o pires vem ter comigo, no seu andar saltitante, fica a olhar tristemente para o meu estado.
Eu ali estou, na cristaleira, ainda lindo, brilhante, de cores e flores belas.
Colaram-me, devido à minha beleza, não sirvo para o chá, sirvo para alegrar
os olhos de quem me vê.
A leiteira, um pouco pesada, também me visita, abana a cabeça:
― Que desperdício…!
Celeste Bexiga, 68 anos, Alhandra
Desafio nº 4começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

Isabel Sousa ― desafio 141


Só por ela
Quando me voltei, meu coração  teimou  em bater mais forte.
Dias a fio, havia mourejado para obter o seu adorável sorriso e nada tinha conseguido.
Meus olhos velejei nas ondas revoltas do seu cabelo e nos jeitos do seu corpo,  quase me perdi. Uma tossidela irritada fez-me acordar: tinha bloqueado a fila do supermercado só para olhar para ela.
A lista de compras que elaborara, estava ainda por cumprir. Envergonhado,  afastei-me  e comprei um quilo de Araçás.
Isabel Sousa, 66 anos, Lisboa
Desafio nº 141 ― 3 letras do fim no início da palavra seguinte

Paula Castanheira ― desafio 146


Assassinaste o meu menino!
Ainda agarrado à argêntea Magnum 44, rosto cinábrio, olhar coruscante, revia desordenadamente a sua mais recente existência.
Obrigaram o seu menino a travar uma guerra que não era dele, um jogo sujo.
João perdera a vida. Artur jurou vingança.
Preparou em detalhe aquela manhã. E quando o Ministro da Defesa ia a sair de casa, rebentou-lhe os miolos.
Agora naquele ambiente silente, ouvia a jornalista tartamudeando – Notícia… de última… hora…
Encostou-se e aguardou!
Paula Castanheira, 54 anos, Massamá
Desafio nº 146 ― palavras que não usamos

Programas Rádio Sim - semana 13 agosto 2018


Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

12 agosto 2018

Carla Silva ― escritiva 34


Januário Periroxo, inspector da policia judiciária, parou abruptamente ao entrar na estufa.
Pequenos e grandes salpicos vermelhos bordavam o chão até chegarem a formar uma poça vermelho brilhante.
Estremeceu enquanto caminhava cuidadosamente observando qualquer indício que pudesse considerar como prova. Levou uma mão à cabeça ao avistar uma parte arredondada junto à mesa. Nunca vira tamanha maldade. Quem teria coragem de cometer tal acto atroz?! 
Quem teria assassinado, exactamente no dia do concurso, a sua bela melancia? 
Carla Silva, 44 anos, Barbacena, Elvas
Escritiva nº 34 - policial

Maria Loureiro ― desafio 147

Sem dramas, interroga-se sobre o propósito da sua existência. Detesta as rotinas do trabalho e o voluntariado está a tornar-se demasiado exigente. Ainda não conseguiu pôr um travão. É como se tivesse dois empregos, só um remunerado. Tem algumas moléstias tratadas sem a devida disciplina. Aleatoriamente, ao final do dia, caminha. Às vezes pacifica-se, surpreende-se, sorri, conversa, observa as pessoas, os edifícios, os animais, as árvores e as plantas. É quando o caminho se transforma num passeio.
Maria Loureiro, 63 anos, Lisboa
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

Natalina Marques ― desafio 147


Não tenho saudades do passado. Faz-me lembrar os sonhos inacabados, que foram ficando pelo caminho, esquecidos pelo tempo.
Prefiro o tempo de agora, os meus caminhos floridos, meu passeio vão alegrando, porque novas flores vão nascendo, e o meu sonho de agora é que as flores do meu caminho, (mesmo sendo silvestres), não murchem, para que eu me envolva nelas.
O meu passeio continua, na  estrada da vida, orgulhosa dos meus feitos e do meu dever cumprido.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

Isabel Lopo ― desafio 147


Parecia-lhe a estrada não ter fim. Ou seria a sua vida sem sentido que a não deixava parar? Perdera tudo, o trabalho, o amor, a casa... Espantava o tempo percorrendo trilhos, caminhos desconhecidos, sentindo só o seu inexistir... Exausta, adormece numa berma qualquer. A noite fria  cai sobre ela. Mas as flores silvestres, apiedadas, cobrem-na como uma manta de retalhos. Quando acorda, reconhece a Primavera. O sol brilha e invade-lhe o coração de esperança. Recomeça a andar.
Isabel Lopo, Lisboa
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

11 agosto 2018

Jaime A. ― desafio 147


O passeio era contínuo.
Já nem tinha a mesma vida,
o céu nem lhe parecia azul,
ou as flores pintalgadas 
os guaches que lhe haviam dado
havia tanto tempo.

Era um passeio contínuo,
já nem descalça podia andar,
eram as botas que lhe haviam calçado
a sua obrigação.
Uma quase tropa naquela que fora a sua casa.
Tanto tempo perdido,
tantas palavras por dizer.

E uma marcha contínua,
sempre...
mais do que um passeio veloz,
uma fuga!
Jaime A., 52 anos, Lisboa
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…
(mais textos em www.soprodivino.blogspot.com)

Carla Silva ― escritiva 34


Simplesmente acontecera
As palavras ainda ecoavam na sua cabeça.  
― Não acredito! Não se deixa de amar de um dia para outro.
Lara sabia que ele tinha razão.  Acontecera gradualmente, sem que ela o planeasse... A indiferença instalou-se pouco a pouco entre cada discussão, entre cada lágrima derramada. Tomou consciência que não o amava quando elas cessaram. Dizer-lho trouxe-lhe alívio, não sentia culpa pelo fim.
Sabia que ele era o culpado. Ele tinha assassinado o amor que um dia sentira. 
Carla Silva, 44 anos,  Barbacena, Elvas
Escritiva nº 34 - policial

10 agosto 2018

Chica ― desafio 147


Nos caminhos da vida
Filhos criados com preocupação constante com horários, alimentação, aconchego, amor, carinho, bem divididos.
Costumava divertir-se em cada caminhada pelas fases da vida... E assim vai passando por elas... Olha pra trás, sente um aperto no coração. 
Olha para a família, hoje se vê envolvida com netos, de adolescentes a pequeninos.
Vê-se recomeçando noutro tipo de preocupação... Na cidade, os caminhos não são feitos apenas de "caminhos floridos"...
Mas, enquanto ela aqui estiver, espera poder vê-los alegrias colher!
Chica, 69 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

Desafio nº 147

Desta vez, o texto baseia-se nesta frase:
O passeio continua. A sua vida já não é a mesma. Imagina-se aconchegada/o pelas flores silvestres.

Pode ser completamente ignorada ou modificada, é só o «empurrão» de início.

Saiu-me assim:
Avançou pelos campos ser imaginar o que provocara. Não pretendia desiludir os fiéis, apenas lhes disse que partiria para uma vida sem deuses. Sofria. Não se apercebeu de que o seguiam. Ninguém se imaginava a viver sem a sua orientação. E quando, exausto de sofrer na dor de ter perdido o seu amor secreto, atirou-se no abismo. Atrás de si, cegos de desconsolo e desorientação, caíram os outros. No chão, envoltos em flores silvestres, sepultou-se a comunidade.
Margarida Fonseca Santos, 57 anos, Lisboa
Desafio nº 147 ― frase: o passeio…

09 agosto 2018

Concha Cassiano Neves ― desafio 145

A noite começou quando ela acabou de calçar os sapatos novos e se viu ao espelho.
Com olhos brilhantes e sorriso atrevido, rodopiou fazendo voar a saia rodada.
Correu escada abaixo respirando aquela música que tal como um cheiro lhe encheu os sentidos.
Vinha do salão de onde se escapavam também gargalhadas e vozes felizes.
Parou, fechou os olhos. Quis saborear o instante, tão cheio de promessas...
Fazia 16 anos. Empurrou a porta. A festa vai começar.
Concha Cassiano Neves, 71 anos, Lisboa
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Dânia Vicente ― desafio 133


Após cair nas silvas, passarinho migratório levantou voo. A passarada estupefacta alternava entre bicos espantados e murmúrios de maledicência. Passarinho migratório tinha coraçãozinho luminoso, vibrante de alegria.
Sentiu que a vida desfazia alguns companheiros, resolveu dar-lhes ânimo. Tarefa difícil!
O encontro com pedra multicolor potenciou-lhe os dons. As cores não tinham luz ― após o encontro, as cores iluminaram-se. Ficou divina. Um par perfeito!
Naqueles dois, a positividade era regra. Cada pensamento conjunto, uma bênção para a humanidade.
Dânia Vicente, 44 anos, Penamacor
Desafio nº 133 ― cair nas silvas