22 outubro 2018

Programas Rádio Sim - semana 22 outubro 2018


Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Diário 77 ― 106 ― Saiu

Saiu
Podia pedir-lhe que deixasse de chorar. Seria incapaz. Cada lágrima caía no colo dela como se desabasse na sua ferida, a ferida aberta por ter de a deixar. Nunca poderia contar-lhe a verdade. Só o que inventara, levando-a à tentação de verificar, encontrando as pistas falsas que construíra. Tentava apaziguar-lhe a dor, imaginando-se a salvá-la da situação, mas nunca poderia apaziguar a sua, embutida no amor que lhe tinha. Agarrou no casaco e, sem poder ficar, saiu.
Margarida Fonseca Santos

Desafio nº 152 – frase de Lídia Jorge
OUVIR

20 outubro 2018

Sandra Nunes ― desafio 133


Caiu da estrada para um monte de silvas. Atordoado, procurou os óculos, gemendo de dor a cada movimento. Conseguiu descobrir o brilho das lentes que se escondiam por detrás da bicicleta, de folhas, amoras e picos… Colocou os óculos no rosto e percebeu que a bicicleta não teria arranjo possível. A mãe ia ficar furiosa. Olhou para as amoras e pensou que seria boa ideia levar uma mão cheia delas para adoçar o seu regresso a casa…
Sandra Nunes, 46 anos, Loures
Desafio nº 133 ― cair nas silvas

Elisabete Anastácio ― desafio 87


Era Inverno e estava-se bem na cabana da montanha, mas decidiram ir dar um passeio, mesmo assim. Ouviram o rio que corria cheio e forte e caminharam pela sua margem até à ponte romana que outrora ligara as duas margens. Agora, era só um destroço por onde já ninguém caminhava. Exceto aquela cabra, parada com ar hesitante, mesmo no meio da ponte. Logo perceberam porquê. Mesmo atrás dela, duas cabrinhas bebés saltitavam, olhando-os meio divertidas, meio curiosas. 
Elisabete Anastácio, 56 anos, Setúbal
Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra

Sandra Nunes ― desafio 129


No Natal havia sempre tempo para serenatas às raparigas da região. De lanternas na mão e protegidos do frio com grossas mantas, saltavam vedações e plantas de jardim pelo caminho. Era uma maratona todos os anos. Alguns grupos cantavam e outros tocavam sonatas de Mozart e Beethoven. A afinação era inatacável, tão perfeita e bela como um momento de natação sincronizada. Por isso, não se percebia o que pretendiam os signatários da petição para proibir aquela tradição…
Sandra Nunes, 46 anos, Loures
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

Helena Rosinha ― desafio 98


Refugiaste-te num local de podridão. Foi aí que te conheci, entre destroços, sujidade, janelas e portas vandalizadas. O cheiro que emanava do recinto afastava qualquer um que não roedor, réptil ou humano à beira do abismo. Entrei para fotografar a realidade; hesitei, vendo-te enrolada num canto, andrajosa e trémula. Fitaste-me em pânico. Paralisado, foi o teu grito que me moveu: “Ajuda-me!”
Hoje, vendo-te renascida, feliz, celebro ― sem perguntas, sem conselhos, sem juízos ― a amizade que nos une.
Helena Rosinha, 66 anos, VFX
Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Sandra Nunes ― desafio 27


Abraçado à sua companheira, Miguel não adivinhava o triste fim daquela noite.
A sala de cinema estava repleta e o filme entusiasmava o público presente. Miguel só tinha olhos para Joana.
Ela nem olhava a tela. Pesava-lhe o braço de Miguel e refletia na inevitabilidade das relações falirem sem que se conseguissem recuperar os bons momentos.
Ouvia atrás de si os pais refilarem com o filho que deixara cair pipocas e pensava como a vida era estranha.
Sandra Nunes, 46 anos, Loures
Desafio nº 27 – palavras que crescem (em anagrama)

Elisabete Anastácio ― desafio 136


cosmos é infinito, mas isto é um tolo microcosmos!”contra-atacou de cabeça quente. “Não precisas de atacar assim!”, ripostou. “Ora! Ele é os supostos produtos antienvelhecimento, quando o envelhecimento é a coisa mais natural, ele é cremes protetores disto e daquilo, ele é dietas prometendo a vitalidade eterna… Isto ultrapassa os limites do razoável e pressupostos éticos de base. Não é preciso ser-se sobretodado ou dotado de um 6.º sentido para ver e perceber logo tudo.
Elisabete Anastácio, 56 anos, Setúbal
Desafio nº 136 – 5 pares de palavras, sem e com prefixo

Sandra Nunes ― desafio 134


Chegou demasiado tarde. O técnico não esperara por si.
Entrou em casa, desanimado. Mais um dia sem net, sem televisão… Que aborrecimento. Esperavam-no mais umas horas a ouvir a mesma música vezes sem conta.
Largou o telemóvel na mesa da cozinha e abriu o frigorífico. Tirou uma cerveja e avançou para a sala. Que silêncio. Faltava-lhe o ruído de fundo da SIC notícias. Olhou a estante repleta de livros, hesitou alguns segundos, e foi buscar o telemóvel.
Sandra Nunes, 46 anos, Loures
Desafio nº 134 ― «Chegou atrasado…»

Desafio nº 152


Há frases que me tocam, nos livros que leio, e que sublinho.
Partilho convosco esta, do livro «Estuário», de Lídia Jorge (2018)

«Ele sentia o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida»

Não precisam de a usar, é só deixar que ela vos empurre para o texto.

Tentei esquecer o contexto (por estar a ler o livro) e escrevi assim:
Podia pedir-lhe que deixasse de chorar. Seria incapaz. Cada lágrima caía no colo dela como se desabasse na sua ferida, a ferida aberta por ter de a deixar. Nunca poderia contar-lhe a verdade. Só o que inventara, levando-a à tentação de verificar, encontrando as pistas falsas que construíra. Tentava apaziguar-lhe a dor, imaginando-se a salvá-la da situação, mas nunca poderia apaziguar a sua, embutida no amor que lhe tinha. Agarrou no casaco e, sem poder ficar, saiu.
Margarida Fonseca Santos, 57 anos, Lisboa
Desafio nº 152 – frase de Lídia Jorge

19 outubro 2018

Um conto na rádio ZigZag

Os livros da coleção «Na minha Rua» estão também disponíveis em formato de áudio digital, através do podcast da Rádio ZigZag! 

Os três primeiros volumes já estão disponíveis e o livro do mês é o título «Rua do Silêncio», que escrevi com muito carinho. 

Sigam o link e oiçam, espero que gostem: https://goo.gl/2g9M8U

Diário 77 ― 105 ― Frik e o Natal

Frik e o Natal
Frik estava desconfiado. Afinal, aquilo entrara sem pedir licença, motivara grandes festas, ficara enfeitado como um rei e, agora que se chegava a ele, não lhe dirigia a palavra. Nem parecia dar pela sua presença. Ora, como cão inteligente que era, Frik resolveu falhar-lhe com voz grossa, a usada para afugentar ameaças aos donos. Rosnou-lhe, avançou, ladrou e… Zás! Aquilo atacou-o. Frik fugia agora a ganir, levando a memória da picadela de agulha de pinheiro no nariz!
Margarida Fonseca Santos
Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano
OUVIR

18 outubro 2018

Rosélia Palminha ― desafio 141


Mal por mal
Malaquias, 55 anos, visão diminuta. Atrevido.
Assíduo na esplanada onde passava a maioria da rapaziada do liceu. 
Viu passar uma "mini saia", fez chacota. Foi inconveniente. Os presentes riam a bandeiras despregadas, então cheio de prosápia comentou: ― Aquele adagio deve ser modelo "Giovani". 
Em casa olhou pertinho para a mulher. Aquela saia, que se apressou a tirar, era a mesma que…
Figura de otário. Ia haver sarrabulho. Havia de ter piada! 
Bem, melhor era adaptar-se às modernices!
Rosélia Palminha, 70 anos, Pinhal novo
Desafio nº 141 ― 3 letras do fim no início da palavra seguinte

Maria do Céu Ferreira ― desafio 148


Presépio no cartão
Era ainda pequenino,
Com a bisnaga na mão,
Colava o seu pinheirinho
Num caixote de cartão!

Trabalhava pelo chão,
Sentado às escondidas,
Enfeitando um cartão
Com bolinhas coloridas!

Bolinhas bem recortadas,
Com tesoura apropriada,
Estrelas muito douradas,
E palhinha amarelada!

Queria tudo colorido,
Ia fazer a vaquinha,
Recortar tudo escondido,
Com o Jesus na palhinha!

Queria tornar-se importante
Como o mano Juvenal
Que diziam ser brilhante!...

E de surpresa, então,
Mostraria no Natal
Seu presépio no cartão!
Maria do Céu Ferreira, 63 anos, Amarante
Desafio nº 148 ― associação de palavras (bisnaga)

Carla Silva ― desafio 149


Apesar de detestar o trabalho, Samantha vestiu-se e sorrindo saiu para trabalhar. Seriam apenas umas horas, depois disso regressaria para junto de Nicolau, que saía do roupeiro todas as noites para estar com ela.
Depois de meses entregues à tristeza, ele finalmente sentira piedade dela e regressara. Ela estava consciente que não passava de um sonho. Mas não se importava, porque durante aquelas horas voltava a sentir a felicidade que sentira antes do acidente que lho roubara. 
Carla Silva, 44 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 149 ― ficção e realidade

Elisabete Anastácio ― desafio 133


“São mazelas da vida, filha!”, disse ele enquanto esfregava a canela da perna onde a bisneta de 5 anos, tentava colocar-se para andar de cavalinho. “Um dia, ia eu na minha bicicleta novinha em folha, quando passa uma carroça puxada por um burrito. De repente, o bicho assusta-se, ultrapassa-me a correr, e lá fui eu, da estrada para um monte de silvas. Quando de lá saí, parecia um ouriço cheio de picos e de canela à banda.”
Elisabete Anastácio, 56 anos, Setúbal
Desafio nº 133 ― cair nas silvas

Elisabeth Oliveira Janeiro ― desafio 151


Era uma casa amarela no meio do campo, PÁGINA florida em qualquer conto da floresta. Para se lá chegar, havia que TREPAR um pequeno monte e estreita vereda AFUNILADA, bordejada por alegres mimosas, MISSANGAS que rebrilhavam de orvalho e luz. Joana, a do CAPOTE cerúleo, dava GRITOS de júbilo se lhe permitiam correr até lá. E em dias de maior sorte, esperava-a uma aromática fritada de ovos e ESPARGOS, gostosamente cozinhada pela avozinha. Um regalo.
OH, paraíso!!
Elisabeth Oliveira Janeiro, 73 anos, Lisboa
Desafio nº 151 ― palavras com espargo

Elsa Alves ― desafio 150


Reconhecia que fora muita ingenuidade, da sua parte,acreditar nele. Até lhe parecia mentira... Logo ela, que se julgava perita em avaliar personalidades. Bem a tinham avisado... Que ele era um galdério não era segredo para ninguém. Contudo, ela não quisera acreditar. Preferira manter - se aconchegada pelas palavras doces do fidalgo, pelos seus beijos ternos, pela graciosidade dos seus gestos. Afinal, era tudo fingido...Que desgosto! Sentiu-se enganada... Mas ficou-lhe de emenda. Passou a enamorar-se só de plebeus...
Elsa Alves, 70 anos,Vila Franca de Xira
Desafio nº 150 ― 6 palavras com Gilda

Elisabete Anastácio ― desafio 129

Vinha da aula de natação a imaginar-se no papel de governanta. “Às tantas ainda vou ser a protagonista da peça de Natal.”, pensou, enquantojá em casa, preparava o seu abatanado, como habitualmente, ao qual decidiu juntar, excecionalmente, natas. “Depois, vem a peça passada no sultanato. E eu posso ser a bela sultana!”, disse, sorrindo. “Um dia, o malvado bruxo lança sobre todos o anátema de nunca mais poderem sorrir e eu serei a grande heroína, claro.”
Elisabete Anastácio, 56 anos, Setúbal
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

17 outubro 2018

Diário 77 ― 104 ― Agradeço-vos imenso

Agradeço-vos imenso
No momento em que escrevi este texto, outubro de 2018, o blogue já fazia sete anos e a parceria com a Rádio Sim cinco. Pelo caminho, ficavam perto de doze mil histórias, 200 desafios, milhares de participantes, alguns muito assíduos, outros mais esporádicos, todos com algo em comum: o prazer de escrever em 77 palavras. Dedico-vos estas 77 e agradeço-vos a amizade – sem as vossas histórias, este blogue não faria sentido. Voltem sempre! São só… 77 palavras.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 26 – dedicatória para alguém
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