05/04/20

Razões para Ler

«Razões para Ler» (1 e 2)

Projeto Re-Word-It da Associação Cultural Trilhos das Palavras. Comigo estão duas grandes mulheres, Isabel Peixeiro e Rosário Padinha Ribeiro.

São histórias metafóricas para o ensino, a terapia, os serões de histórias.

As histórias metafóricas tocam-nos no consciente e no inconsciente, produzem efeitos a nível emocional. Porquê? Porque trabalham a empatia. Porque estimulam a curiosidade e a criatividade. Porque se prestam a muitas interpretações, sempre as de que precisamos ao ouvi-las. Porque nos levam a entender o outro e, assim, a entender quem somos. E isso é aprender. É crescer. Precisa de mais razões para ler?

Podem encontrá-las aqui.

Ilustração e design de Carla Nazareth, edição de Nós na Linha.

03/04/20

Isabel Lopo ― desafio 203

Arrisquei quando fugi contigo. Risquei a minha família os meus amigos, o meu Porto de abrigo.
Confiei na firmeza do teu traço e do teu carácter. Fui atrevida, pois mal te conhecia. E quando me apercebi do perigo, já era tarde. Não vi o precipício em que caíra. E, o desenho que fizera da nossa vida, bastou um sopro para o apagar. Regressei e hoje relembro-te apenas como uma pintura que o tempo vai esbatendo e diluindo.
Isabel Lopo, Alentejo
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Helena Rosinha ― desafio 192


Abria o postigo, manhã cedo, e lá estavam elas, nas pedras, dando-lhe os bons-dias. A casa da praia não era um luxo, tampouco segunda habitação, era a casa dele. Ali nascera, brincara, iniciara a arte. Um dia, vieram engenheiros e arquitectos, depois chegaram tractores, escavadoras. Arrasaram-lhes a vida. 
Uma estância turística ocupa agora o espaço do antigo bairro dos pescadores. Não sobrou barraco para contar as suas histórias. Quem sabe, elas não ressoam no grito das gaivotas?
Helena Rosinha, 67 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 192 ― gaivotas em pedra

Celina Silva Pereira ― desafio 203


História inacabada
O menino estava em silêncio. A mãe viu que havia um risco na página. Olhou com atenção.
A página tornava-se vermelha. A primeira linha se multiplicava e enchia a folha sem que a mão da criança se movimentasse.
Ele pegou outra e em pouco tempo duas páginas estavam preenchidas. Mais folhas muito rubras se juntavam às anteriores. Urgente contê-las. Rápido o menino agiu cobrindo tudo com aguarela branca. O perigo parecia contido.
Respiraram enquanto olhavam com cuidado.
Celina Silva Pereira, 69 anos, Brasília, Brasil
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

02/04/20

Marta Rodrigues ― desafio 203


… E se eu fizer mais um risco? É um risco. Mas também isto não passa de um esquisso. Vou arriscar e traçar já a tinta. A inquietação que é estar em branco e não saber o que se há de desenhar. Podia ser que a partir daquele rabisco saísse alguma coisa. Às vezes é a partir de riscos ou de manchas ao acaso que desbloqueamos.
E eis que de sobressalto surge uma ideia! Agora é que é!
Marta Rodrigues, 21 anos, Albufeira #euficoemcasa
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Lica ― desafio 203

O maior risco que corremos, é poder faltar-nos o ar, a água, o amor ou a alegria. São vitais para a nossa sobrevivência. Enquanto vivemos, temos que fazer a escolha do que é mais importante para nós: desde que a fazemos, devemos aprender a admirar o que nos rodeia, a aceitar o que é menos bom, mesmo as dúvidas. E eu tenho uma ― o risco é o marido da risca?
Corri o risco de dizer uma parvoíce. 
Lica, 81 anos, Lisboa #sempreemcasa
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Alex Santi ― desafio 203

Risco é ferida no papel. Ínfimas fibras rasgam-se com o passar do lápis, como o bisturi, que ao deslizar sobre a superfície da pele, abre expondo o que dentro do corpo palpita. O papel expõe entranhas distintas: íntimas, impalpáveis, implacáveis, pulsam conforme o ritmo de disposições até então desconhecidas. As palavras buscam vertiginosamente abarcar, conter, ordenar o que jorra do interior profundo, sem limite, matéria, contornos, ainda fora do tempo, puro magma, a emergir sobre o papel.
Alex Santi, 28 anos, Ericeira, Mafra
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Theo De Bakkere ― desafio 203


Os nossos comportamentos
Guardava um vazio obscuro dentro de mim. Engripei-me, na altura das primeiras notícias sinistras da Itália. Aquele vírus novo fez-me impressão. Talvez devêssemos ponderar mudar drasticamente nossos comportamentos. Ora! Não só ataca nossos queridos, também separa-nos um do outro. Além disso, não lhes podemos dar coragem  no seu isolamento, nem abraço. Tudo deve passar sem riscos. Enquanto o neto mostrou um coração grande que desenhara com um lápis, seus avós, por trás da vidraça, acenavam à família.
Theo De Bakkere, 68 anos, Antuérpia - Bélgica
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

João Bernardo ― desafio RS 13


Desvairado. Descontrolado. Fora de si. Completamente enlouquecido. Enfim, o que se pode dizer? Estava apaixonado. Já estava decidido a declarar-se à tal rapariga, moça de gentil e formosa graça, rainha do seu coração, havia uns meses, mas e coragem? Essa ainda lhe faltava. Pelo menos até agora. Caminhava com firmeza, o rosto determinado. Nada nem ninguém lhe podia fazer frente. Aproximou-se confiantemente dela, abriu a boca para falar, as palavras atrapalharam-se dentro de si… não disse nada.
João Bernardo, 18 anos, Lisboa
Desafio RS nº 13 – … palavras atrapalharam-se dentro…

01/04/20

Filomena Galvão ― desafio 203


Frente ao espelho, olho o cabelo e hesito. Risco ao lado, risco ao meio?
Ele tem vontade própria, um emaranhado de fios. Não o consigo domar.
Passo a outro ― o do eyeliner, traço-o delicadamente  com o pincel, mas está a ficar tudo esborratado. Pego no desmaquilhante e zás, limpo tudo. Volto ao início, desta vez  ficou bem. Apresso-me a vestir e a ir para a rua. Ao sair ia sendo atropelada.  Que desastrada,  sou um perigo!
Filomena Galvão, 59 anos, Corroios
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Isabel Preto ― desafio 203

A reunião virtual começou. Sentia-me entediada e tracei um risco no papel. Que fazer? Um desenho? Não era lá grande artista, mas decidi inventar um mundo colorido de flores e corações prontos a pulsar. Parecia um sonho! O lápis criou magia e a aventura começou! Nasceu um rio e uma aldeia, a aldeia da minha infância. Desenhei amigos e brincadeiras de outrora, dos meus tempos de menina simples e sonhadora, dos meus tempos de felicidade! Tão bom!
Isabel Preto, 51 anos, Casal do Marco/Seixal
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Joana M ― desafio 199

Era uma vez uma rã…
Que parecia um assaltante!
Invadia as casas…
E era apavorante!

Tentava morar em baixo dos sofás…
Era inconveniente e ninguém gostava dela!
Um dia encontrou uma família…
Que a tratou como uma Cinderela!

Nessa casa, sentiu-se mimada e consolada…
Sentiu que tivera muita sorte…
No sofá se instalou animada,
E tornou-se muito forte!

A rã ficou muito feliz!
Decidiu ir passear,
O amor da sua vida encontrou,
E com ele quis ficar!
Joana M, 6ºB, Escola Básica Dr. António Augusto Louro, professora Isabel Preto
Desafio nº 199 ― rã no sofá

Carlos Alberto Silva ― desafio 203


Ela sabia que a sua decisão era um risco que corria, embora calculado. Queria ser livre, ao menos por uma noite. Passou o lápis pelo contorno das pálpebras e avermelhou os lábios. No espelho, parecia uma figura acabada de compor na tela de um pintor.
Pegou no pedaço de papel, desceu as escadas numa corrida e entrou no táxi. Quando se sentou na plateia do teatro, sentiu que passara uma borracha sobre o marasmo da sua vida.
Carlos Alberto Silva, 61 anos, Leiria
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Verena Niederberger ― desafio 203


Era uma vez um Bicho invisível.
Em um enorme navio apareceu.
Chegou de mansinho o Intruso
A todos, num instante, em Risco colocou.
Era preciso alguns cuidados tomar.
Para o Inimigo derrotar.
Os passageiros trataram logo de obedecer.
Foram tomados de Medo.
Se atacados, de infecção, poderiam morrer.
Mas, uma bela hora, o Comandante em alto e bom som falou:
"Fiquem  tranquilos.Vamos relaxar "
É Bichinho inofensivo
Nada vai acontecer,
Deixem de sofrer
Não se deixem abater.
Verena Niederberger, 69 anos, Rio de Janeiro, Brasil
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Dinah Azevedo Neves ― desafio 203


Risco é uma linha directa onde marco os dias, sem ver fim...
Corro risco se atravesso sem olhar, se entro nas ondas, se apanho sol ou se não tomo os remédios. Risco é não aceitar as limitações ou ter sonhos que nunca serão realidade.
Corro também risco se digo piadas a quem não tem sentido de humor ou se faço um discurso ou um bolo sem preparar.
Olho para a minha saia e penso: gosto de riscos.
Dinah Azevedo Neves, Lisboa
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

31/03/20

Ana Paula Oliveira ― desafio 203


Quando o bicho nasceu, achou-se o mais poderoso do mundo. Mais poderoso que os poderosos.
De imediato, partiu mundo afora, num JOGO em que as peças são a VIDA e a morte e que, para ele, se tornou um VÍCIO que não quer largar.
E não poupa nenhum país por onde passa a uma VELOCIDADE estonteante. Revestido de ADRENALINA, põe todos em PERIGO. Destrói a economia. Destrói afetos. Não permite abraços.
O mundo atual vive no RISCO.
Ana Paula Oliveira, 59 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Helena Nunes ― desafio 203


Não sei se risco ou se me deixo riscar.
Se procuro a liberdade de riscar a minha vida ou se me deixo apagar
num enredo sem emoção.
De quanta coragem preciso para escrever a vida tal como a imagino?
E quanto medo tenho de sentir para fechar o meu livro?
Quanto de mim terei de ser para viver?
A vida é um instante e eu não quero ficar na estante.
Por isso, pego na caneta.
E risco.
Helena Nunes, 26 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Toninho ― desafio 203


Vários pomares na redondeza. Ali morava o menino aventura. A mãe vivia em agonia, devido à gravidade dos meninos quando se reuniam. Numa manhã recebeu notícias de um ataque de cães aos meninos. Temerosa passou pela angústia de pensar no filho. Correu pelo caminho na louca aflição. Assustada o viu numa árvore em risco. O short rasgado mostrava o bumbum ferido. Com chinelo à mão em transe sorria e gritava. Voltaram abraçados com deliciosas mangas na sacola.
Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia, Brasil
Desafio nº 203 risco + 6 palavras
Publicado aqui: Desafio 203

Natalina Marques ― desafio 203


Não SUBAS tão ALTO
que podes cair.
E o teu amigo
de ti, vai se rir
nem sempre o que pensas
podes sempre FAZER.
e o muito que sabes
não deves OMITIR.
e não leves tanto
a vida a CORRER.
Pois de repente
podes vir a PERDER
o que tanto te custou
para adequirir.
Ao longo da vida,
de muito aprender.
Todos sabemos
que a vida é um RISCO
mas também sabemos
que temos, que o correr.
Natalina Marques, 60 anos, Palmela
Desafio nº 203 risco + 6 palavras

Matilde C ― desafio 137

O sol já havia nascido naquela aldeia. No topo da colina, numa pequena casa cor de rosa, vivia um homem pobre e doente que levava uma vida cinzenta. Havia perdido tudo, amigos, família, trabalho e até saúde. Passava seus dias na janela da casa onde um dia havia construído uma família. De isqueiro na mão, acendia um cigarro e ficava ali especado, feito burro, à espera que a vida lhe devolvesse tudo aquilo que lhe havia roubado.
Matilde C, 13 anos, Odivelas
Desafio nº 137 ― rosa, isqueiro, burro