02/10/22

José Pinto – desafio 1

Encostado à minha palmeira, numa noite sem feira,

Vejo a estrela do norte que me guia e norteia;

Vejo-a brilhante e pequena como se espreitasse por uma fechadura terrena.

E se esperares na escuridão para veres a imagem de mais estrelas,

Consegues perceber a direção para onde podes vê-las.

Para glorificar esta bonita ilustração,

Compro um cinto brilhante de paixão.

Não tenho roupa a condizer, mas quem me conhece

Não pode ficar espantado pois bonito me parece

José Pinto, 56 anos, Oeiras

272 – palavras encadeadas, com palmeira

José Pinto – desafio 1

Não acreditava no que ouvia, não acreditava.

Numa tarde, que parecia um dia primaveril

As árvores, os frutos e as flores

Estavam cobertas de insetos e pássaros cantores.

Os pássaros cantam uma ode ao sol

No jardim, chilrear e crianças a brincar

Estava eu a ler e a estudar

E um gato se aproxima a ronronar.

Desperta o meu interesse, pelo belo felino 

Que decidi batizar o dito de Avelino

Saltou entretanto noutra direção, dizendo que não.

José Pinto, 56 anos, Oeiras

273 – 11x7 com frase inicial dada

José Pinto – desafio 1

Tenho o meu corpo a arder de FOGO frio.

São sentimentos e pulsações que me avariam.

O afastamento é uma consequência de uma longa dormência.

É provável que não exista alegria, que não esboce um SORRISO, mas o que ainda me move é um qualquer desafio.

A comunicação é pobre, a leitura rica é, encher uma folha de letras, partilhar e tomar café.

Escrever uma frase ou cantilena é como vencer uma barreira, mas não tenham PENA.

José Pinto, 56 anos, Oeiras

1 – palavras impostas: pena, sorriso, fogo

28/09/22

Sérgio – desafio 1

Por onde começar? Perante si apenas uma folha em branco e uma pena para escrever. Voavam palavras dentro da sua cabeça, vários sentidos e sentimentos que queria expressar, mas um vento interno insistia em manter as ideias baralhadas. Debatia-se com o desafio, poderoso e ilimitado, como um fogo difícil de pegar apenas com um fósforo, mas que depois consegue aquecer uma multidão. Precisava de libertar o pensamento. E assim fez, prosseguiu escrevendo sem parar, esboçando um sorriso.

Sérgio, 46 anos, Azeitão 

1 – palavras impostas: pena, sorriso, fogo

26/09/22

Carla Silva – desafio 253

A surpresa 

alegria de receber a prima, que dissera ter uma surpresa para ela, desapareceu quando viu quem a acompanhava. Perante aquela visão sentiu o corpo estremecer. 
Nunca imaginara que
 gelaria com tal rapidez! Também não imaginara reencontrar o rapaz que conhecera, e partira sem se despedir dela, deixando-a de rastos, numa galeria na Argélia e, no entanto, ali estava ele caminhando para ela. Podia perceber que tinha o nariz vermelho. Seria mais um ataque de alergia?

Carla Silva, 48 anos, Barbacena, Elvas

253 – anagramas de ALEGRIA

23/09/22

Sérgio – desafio 265

Certo dia conheci um cisne que descansava à beira de um crisântemo. Contemplava ensismesmado a luz defronte do enorme lago, e abordou-me para conversar acerca do sentido da vida. Segundo ele, tudo decorria imprevisivelmente na nossa existência. De que valeria a virtude se poderia ser um simples néscio em modo de contemplação? Pensei em lhe ensinar o caminho para o nirvana, mas ele recolheu-se para dentro da flor, com um vago ar senil. Respirei fundo e prossegui.

Sérgio, 46 anos, Azeitão 

265 – palavras com i+n+s+e

Sérgio – desafio 3

Vivi seis longas noites de insónia, os olhos mantinham-se abertos. Não conseguia perceber porque só tinha sono às cinco para as quatro da manhã. Mas era certinho: a partir dessa hora, adormecia até às dez para as sete, e nesse tempo, sonhava sempre com oito unicórnios, que me cantavam três óperas clássicas, dentro de dois barcos fenícios, ficando eu maravilhado com as cantorias. Ao acordar sentia-me revigorado e feliz. Só tinha um reparo: porque não eram nove?

Sérgio, 46 anos, Azeitão 

3 – números de 1 a 10

22/09/22

João M – sem desafio

Problemas com galinhas malucas

Então não é que as galinhas, em vez de porem ovos, começaram a pôr zeros?! 

Como não paravam de aprender Matemática, exaltaram-se e foram longe demais. Por isso, como um ótimo dono que sou, comecei a procurar professores de Português para lhes ensinar. 

Passada uma semana à busca, não encontrei ninguém. Mas, quando eu menos esperava, apareceu um excelente tutor de Português. Uns dias depois já sabiam Português e retomaram a pôr ovos. 

João M., 13 anos 7°ano, EBI da Bobadela, Lisboa

Sem desafio

Carla Silva – desafio 255

Poucas eram as coisas que a tiravam do sério. Pouquíssimas mesmo. 
Mas se havia algo que lhe fazia chegar a mostarda ao nariz, ou como dizia a sua avó, que lhe fazia subir a temperatura, era o facto de a deixarem à espera. Não era bonito deixar uma senhora "pendurada" na entrada do cinema! Mas quando ele chegasse... não haveria palavras doces que a calassem. Ah... quando esse momento chegasse não haveria água que lhe acalmasse a fervura.

Carla Silva, 48 anos, Barbacena Elvas 

Desafio nº 255 – temperatura e fervura

12/09/22

Joana – desafio 3

Estava eu na aula de matemática, quando a professora me pergunta: quanto é 1 + 4? Eu digo: 10! Não! Tenta de novo. Então eu digo: 5! Sim! Então e 2 + 7? 9! E a professora diz: correto! Então diz-me lá quanto é 3 + 6. Eu penso muito, muito, e quando ia responder, o miúdo de trás, que sempre fala com a parede, com ar Marreca, diz: mas que fácil, é 8, pois claro! 

Joana, 12 anos, Palmela

3 – números de 1 a 10

06/09/22

Zelinda Baião – desafio 268

Viu-o chegar, em trote cadenciado e trajetória reta. Gigante, deslizou, resfolgando, engolindo o espaço. Alice estremeceu. Porte altivo e expressão rebelde, aproximou-se. Ao transpor porta, sabia que a sua sorte mudaria para sempre. Ia agora seguir uma nova rota. O rumo ficava a norte. Era um voo raso pois só se afastava o suficiente para esquecer as vivências passadas. As marcas na pele e na alma. Nunca seria uma torna-viagem.  Estridente, o sud-express partiu, levando Alice.

Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha

268 – anagramas de transporte

31/08/22

Luís Vicente – desafio 272

palmeira oscilava, soprada pelo vento Norte, levantando as raízes de terra por entre os sulcos da terra gretada, suspirando por uma gota de água que abrisse a fechadura da sua própria vida. A paisagem parecia desfocada, qual imagem de um último suspiro que quebrasse o cinto das suas amarras. Uma gota desprendeu-se bem lá do alto, caindo suavemente e em espiral sobre ela. Espantado com esse gesto de esperança, o vento acariciou-a num sopro de vida.

Luís Vicente, 58 anos, Barcarena

272 – palavras encadeadas, com palmeira

27/08/22

Zelinda Baião – desafio 272

Passava por ela todos as manhãs, a caminho da praia. Singular e imponente. Debruçada sobre o mar. Uma única palmeirano jardim, virado a norte. Perdida no tempo, uma chave, enorme, permanecia, eterna, na fechadura. Cogitava:  Um crime? Uma morte? Uma fuga insensata era a imagem que me assolava com mais frequência. A noite era um cinto que a envolvia e adensava a aura. Sombras dançantes, feéricas, agigantavam-na. Hoje, soube, espantado, que mistério encerra a casa azul.

Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha

272 – palavras encadeadas, com palmeira

Zelinda Baião – desafio 262

Traçara um risco. Mais um. Ténue, mas vivo na memória. Afastou-se e o seu pensamento percorreu-os a todos. Tantas aventuras! Sonhos de uma vida! Deteve-se, demoradamente, em cada um deles. Aqui, servira de isco numa peripécia que nunca esquecerá; ali, o convívio com um local mais arisco e além, a travessia de funambulista, onde, repetidamente, se tinha perguntado:” arrisco?”. Não tinha, todavia, hesitado. Porque cada lugar era um reencontro consigo.  No mapa, cada ponto, era uma viagem.

Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha

262 – isco, risco, arisco, arrisco

Zelinda Baião – desafio 266

Serpenteavam, diariamente, cada espaço. Subiam e desciam, num frenesim constante. Habitavam interstícios. Por vezes, detinham-se numa narrativa mais empolgante, tentando desvendar um mistério, enredar-se numa aventura ou num drama, perder-se numa viagem, deslumbrar-se com uma paisagem ou, então, decifrar esquemas complexos, teorias, tratados eruditos, devoções ou, ainda, sonhar com versos, rimas e estrofes. Serviam-se de histórias, bebericavam ideias e enchiam-se de pensamentos que cada relato proporcionava. Cada livro, um acontecimento. Nas estantes, os bichinhos dos livros deliciavam-se!

Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha

266 – excerto de Isabel Peixeiro

Maria Teresa Portal Oliveira – desafio 264

Embrulhado em azul, o avião esvoaçava o Porto, cuja flor – a camélia – ornamentava o jardim nas múltiplas cores.

Sentada num dos bancos com cheiro a infância, tirei do cesto o meu bordado, uma confusão de linhas. O gato Pinóquio tinha novamente ensarilhado o meu trabalho. Mais uma asneira.

Nem com feitiço, houvesse ali alguma fada, a tapeçaria em Arraiolos voltaria a parecer-se com essa peça que trabalhava com amor.

Escapou sem castigo. Ninguém o viu naquele dia.

Maria Teresa Portal Oliveira

264 – sequência de palavras

Zelinda Baião – desafio 275

Aurora regressava ali todos os anos, nas férias grandes. O Monte, como o designavam, era um pequeno aglomerado de casas térreas que uma encosta escarpada protegia da nortada. Eram longos meses livres de horários, meninice solta de obrigações, plena de manhãs claras e cheiros telúricos. Agora, indiferente, uma máquina, em nome do progressorevolvia e aplanava aquela que outrora fora uma vastidão cantantesem horizonte, de homens e mulheres curvados. Nostálgica, Aurora voltou, então, costas ao passado! 

Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha                                                           

275 – sílaba TE em 5 posições

Carla Silva – desafio 265

Um dia como qualquer outro. 
Após três horas no meio do trânsito 
congestionado precisava urgentemente de ir à casa de banho e simultaneamente repor as energias. Mas teria que esquecer a primeira necessidade. Quanto à segunda... Bom, sempre tinha os folhados imensamente amanteigados que comprara por impulso à saída do consultório. Talvez porque o médico lhe dissera que precisava de ser mais consciente. Optar por alimentos mais saudáveis. Posteriormente assim faria, mas até lá seria bastante atenciosa com os desejos brindados por aquela gravidez.  

Carla Silva, 48 anos, Barbacena Elvas 

265 – palavras com i+n+s+e

Chica – desafio 23

Preparativos do almoço, vovó temperava porco com seus temperos secretos. Retirava rolha da garrafa e misturava o seu líquido às especiarias num almofariz. Precisavam macerar! 

Com sua cabeça já cansada, colocou despertador para que lhe avisasse após duas horas.

Enquanto isso, Bob, seu cãozinho, brincava com bola de tênis

Quando à cozinha voltou uma vespa rondava o porco e foi preciso um grosso rolo de papel para enxotá-la dali.

Conseguiu com sucesso, comprovado à mesa ao servir!

Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

23 – percurso de palavras obrigatório: de leitão a papel

Publicado aqui: https://colorindonossosdias.blogspot.com/2022/07/receita-secreta-da-vovo.html

15/07/22

Elizete Guimarães – desafio 64

Depois do fim, Tiraram-me a terra, e o chão e também o cheiro aquele da terra molhada, e até me tiraram o pôr do sol, um dia quem sabe eu vou voltar, já não com os mesmos cheiros, mas vou pisar o chão aquele onde nasci e os meus pais foram tão felizes, vou a nossa ilha ver o pôr do sol, sim é o meu sonho que me foi negado, tudo pela ganância dos homens e o poder, para que se as pessoas não ouvem não escutem o cheiro da terra das coisas boas que a vida nos oferece... 

Elizete Guimarães, 51 anos, Seixal

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”