26/09/20

Fernanda Malhão – desafio 132

Abro pela última vez a janela de dava para o adro. Saio por ali fora com a cabeça a andar à roda. Paro, vejo as andorinhas a voar, o rio raso pela falta de chuva. Tantos anos a trabalhar nesta roça, conheço cada ramo, cada tora como as palmas das minhas mãos. Mas chegara a hora de partir, a minha afro-descendência e sua tradição oral chama por mim. Espero não pagar caro esta decisão. Orai por mim!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 132 ― AOR + 1

Fernanda Malhão – desafio 131

Um casal improvável

Hermengarda Pirraça era cantora de ópera, detentora de uma voz tão arrebatadora como o mau feitio que a caracterizava. Tinha uma face bruta, carrancuda e de acordo com o boato que corre nunca sorriu na vida. Quando abria a boca era unicamente para comer, rezingar ou cantar (era perita a fazer as três). Um dia o coração de pedra da cantora caiu na rede do amor. Quem diria que um cantor pimba iria mudar permanentemente seu futuro.

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 131 ― Hermengarda Pirraça sem S e L

Fernanda Malhão – desafio 130

Trigo

Um enorme grupo de nutricionistas crucificam o que foi por séculos considerado a espiga dourada, o pilar da alimentação: o trigo. O brilho deste cereal esbateu-se com o tempo, já não tem o mesmo valor, é mesmo considerado um vilão. O pão foi alimento que garantiu o sustento de muitos povos. Hoje, as recomendações são que devemos evitar ou eliminar o trigo pelo glúten que contém. Nos países mais pobres a espiga dourada continua a ser esperança!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 130 ― de espiga a esperança

Elsa Alves – desafio 105

Razões do coração

Sabia-se teimosa. Aceitava este seu traço, embora preferisse adoçá-lo, dizendo-se" persistente". Diziam-lhe as amigas: " Tu és parva!!!". Teriam razão neste apontar-lhe alguma insanidade? Demonstravam-na culpada." Continuas a fazer o mesmo, todos os dias... A desculpá-lo. Esperas que ele mude e passe a tratar-te bem? Até hoje, ele tem-te maltratado. Enganado. Mentido. " Reconhecia-lhes razão, quando pensava mais friamente. Como podia esperar um resultado diferente, se continuava sempre a agir da mesma forma? Mas... o coração toldava-lhe a razão...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 105 – frase de Einstein

25/09/20

Fernanda Malhão – desafio 129

A descoberta

Ana já desconfiava que o marido tinha uma amante. Mas alimentava uma esperança que fosse só a sua imaginação. Mas começaram a surgir tantas situações, que cada vez mais acentuavam as suas dúvidas. Já não aguentava mais aquela situação. Um dia finge estar adoentada para não ir trabalhar e poder fazer de detetive seguindo o marido. E bingo! Viu o marido entrar no carro de uma loiraça, anota a matrícula e agora vai recorrer a serviços profissionais.

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar 

Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

Carla Silva – desafio 203

A Pintura

Podia ser a pintura mais bonita da galeria. A pièce de resistence segundo os entendidos na matéria. 

Mas para ela estava muito longe de ser tudo isso. Ela nem percebia o que representava!

Se bem que ela nunca percebeu de arte. Olhou novamente para a pintura... 

Não adiantava. Ela apenas via um borrão preto numa tela branca. 

As caricaturas, feitas a lápis, do vizinho eram bem mais perceptíveis. Até o risco no seu carro fazia mais sentido.

Carla Silva, 46 anos, Barbacena, Elvas

Desafio nº 203 – risco + 6 palavras

Elsa Alves – desafio 104

Dilema

Antecipava tudo em múltiplos pormenores: os sentimentos, as tentações e, mesmo, procedimentos. Ora... sozinha alcançaria tudo? Embaraçada, muito pensava Ofélia, sentindo-se aflita. Tonta! Esperava milagres? Pateta! Odiava sentir aqueles terríveis enigmas. Magoada, preferiria obter soluções adequadas. Tamanha espera... Maligna. Pensou: "O suplício atenuar-se-á? Talvez encontre mais pessoas odiando sofrer." Atraía-a tal expectativa? Mentira. Preferiria ouvir saudações amáveis. Talvez elogios. Multidões prestáveis. Ombros solidários. Atreveu-se, temerária, em manter posição. Ousou suster as terríveis emoções. Manifestava pânico ou sabedoria?!?

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 104 – letras obrigatórias: A T E M P O S

23/09/20

Fernanda Malhão – desafio 220

Gostava que…

Gostava que me levasses à sério, pelo menos uma vez. O que te conto são os mais sinceros sentimentos, não sei porque não acreditas em mim. Gostava que me levasses contigo no teu regresso, não suporto mais estar longe de ti tanto tempo. Se isso não for possível, gostava que me levasses pelo menos dentro do teu coração e que pensasses seriamente na possibilidade de me dares uma oportunidade para fazer-te feliz. Faço qual coisa por ti!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Fernanda Malhão – desafio 128

A libertação

Sentia um alívio na garganta. Viveu anos em profunda asfixia, com sentimentos guardados na gaveta do seu coração. O azedume das palavras, aquela aparente idiotice, era na verdade dor arquivada. Tudo isso está agora finalizado!  Conseguiu ir buscar a réstia de amor próprio. O rio transbordou, não quis mais ficar contido na margem. O sol voltou à sua vida! Pasmado o outro ficou a olhar, não imaginava que aquele homem submisso teria coragem de tal corajosa atitude!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 128 – 12 palavras com 

Elsa Alves – desafio 102

– Não tem tido cuidado com a sua prótese. Veja esta protuberância...

O ortopedista olhava-o, com ar reprovador. Respondeu-lhe, envergonhado.

– Tenho abusado um bocadinho com o neto ao meu cargo.

– Assinou algum protocolo com a sua filha? Tem de obedecer-lhe cegamente? Proteja a sua saúde. Nada de esforços desnecessários. Vamos reforçar as proteínas na sua alimentação com este suplemento. 

Odiava sentir-se protagonista naquela cena. Não podia protestar, mas, como resistir a andar com o bebé às cavalitas?!?

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 102 – muitas palavras com PROT

Theo De Bakkere – desafio 220

A Sara

Ó memória! Gostava que me levasses à terra onde vive minha Sara tão longe do meu coração.

Ali, numa tarde quente de verão, ali na sombra do carvalho, encontrámos o amor.

Ora, gostava que me levasses para ela, antes que essa recordação doce me escape.

De repente uma voz respondeu: estou aqui, eu também gostava que me levasses ao tempo feliz de antes.

Os olhos abriam-se, e ele olhava para a cara preocupada da Sara, sua esposa.

Theo De Bakkere, 69 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Mais textos aqui: http://blog.seniorennet.be/lisboa

Rosário P. Ribeiro – sem desafio

Estranhou o escuro.  Gostava tanto de luz…

Estremeceu, sentindo-se arrefecer sem sol,

E na janela, já só adivinhou o céu…

Estranhou o silêncio. Gostava de adivinhar o voo das gaivotas e

Do arrepio trazido pela estridência dos seus gritos. 

Apercebeu-se então que não via nem ouvia, num frenesim quieto demais.

Sentia a vida mais longe, a despedir-se,

E os passos estrondosos da morte a chegar.

Não me chorem, pensou, sorrindo.  

Recordem-me. Feliz.

Rosário P. Ribeiro, 63 anos, Lisboa

Elsa Alves – desafio 103

Aparências

Nada mais havia a fazer... Durante anos, a situação tinha--se mantido estável. Estável?!? Só aparentemente... Os outros julgavam que, lá em casa, eram só rosas. Ela sabia bem dos espinhos. Pensava, hoje, que, se ambos tivessem evitado certos silêncios, se tivessem promovido o diálogo, se, em palavras trocadas com sinceridade, tivessem exposto os seus sentimentos...

Se, se, se... Mas, afinal, fora sempre isso que os dois tinham evitado fazer. Agora era tarde. Já só restava a indiferença.

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Cristiana Rodrigues – desafio 220

Acordou tarde. Não lhe apetecia o frio que espreitava pela porta entreaberta. Lá fora, sem reconhecer a que distância, ouviu: “Gostava que me levasses.”
A curiosidade destapou-a e fê-la abraçar o escuro… “Gostava que me levasses”, ouviu-se novamente e a luminosidade despertou-a.
Sara sorriu ao livro debaixo do telemóvel: “Gostava que me levasses” percebia-se agora na voz do marido que substituía o toque do despertador.
Ele sabia mimá-la, pena ser desatento. Sara leu aquele livro há semanas.

Cristiana Rodrigues, 38 anos, Lisboa 

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

22/09/20

Fernanda Malhão – desafio 127

O mistério caçador de pérolas

Era mestre em encontrar ostras com magníficas pérolas no seu anterior. Não as mostra a ninguém! Tinha uma sala de aceso restrito, onde passava tempos infinitos a dar lustre às suas pérolas. Só fazia demonstração das pérolas à clientes muito selecionados. Um dia, algo sinistro aconteceu, ouviu-se um grande estrondo, o chão estremeceu, um cheio nauseabundo alastrou pela casa. Senti o suco gástrico subir à boca antes de desmaiar. Fomos todos transferidos para o hospital do distrito!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

Elsa Alves – desafio 101

– Tatá, pressinto que a menina vai adorar aquele restaurantezinho...

– O que fica junto à ponte?

– Exacto. Não resisto... digo-lhe que a especialidade da casa é...

– Robalo?!?

– Adivinhou, queriducha... Com o seu acompanhamento preferido...

– Puré de batata?!?

– Exacto. Vá, docinho, troque essa bata cheia de pó por uma roupinha toda sexy...  Vamos? 

– Robalo com puré de batata... E um copo de vinho tinto...

– Tatá, tenha tino!!! Com o peixe, vinho branco!!!

A Tatá não percebia nada de vinhos...

Elsa Alves,7 2 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 101 ― partindo das palavras BATATA e PRESSINTO

Vanda Figueira – desafio 220

Gostava que me levasses aonde fores. Não precisas de me levar atrás de ti para todo o lado. Não quero ser esse tipo de mãe galinha. Só gostava que me levasses no coração e que quando te encontrares em horas de aperto ou de reflexão e queiras um conselho amigo, uma palavra de consolo ou opinião me encontres lá dentro do teu coração. Meu filho,gostava que me levasses contigo no teu coração e nas tuas asas.

Vanda Figueira, 46 anos, São João da Talha

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Mónica Santos – desafio 220

Bom dia! Abriram-se as portas e estás cá de novo.
Esse olhar melancólico, hesitante. Porque negas a tua vontade?
Gostava que me levasses.
Sei que me imaginas ao teu lado quando escurece. Faço o teu género, encaixo no teu estilo. Gostava que me levasses. Passeias-te pelos corredores, ofegante, enfias as mãos nos bolsos e sais para almoço. Regressas. Devoras-me com os olhos mas não avanças. Porquê? Gostava que me levasses. É hoje! “Candeeiro em promoção só €70.”

Mónica Santos, 43 anos, Matosinhos

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Ana – desafio 220

O teu mundo

Gostava que me levasses contigo, para aquele lugar onde os sorrisos e as lágrimas são verdadeiros. 

Gostava que me levasses contigo, para aquele lugar onde o sonho nos comanda, a alegria, o amor e a confiança imperam. Onde não há pessoas zangadas e tudo se resolve com um beijo. 

Gostava que me levasses contigo, nem que fosse por um só dia, para onde existem as fadas dos dentes e das chupetas, o Pai Natal e os duendes.

Ana, 41 anos, Mealhada 

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Natalina Marques – desafio 220

Gostava que me levasses 

novamente ao nosso lugar

ver as estrelas no céu,

apanhar conchas à beira mar.

 

Lembro tanto, aquela tarde

em que subimos ao monte

e um beijo me roubaste

ao beber água na fonte.

 

Gostava que me levasses 

de novo àquele jardim,

de mãos dadas passear

e ter-te junto de mim.

 

Gostava que me levasses 

e dançasses para mim.

Ouço teus passos chegar,

o meu sonho, chega ao fim,

mas, GOSTAVA QUE ME LEVASSES.

Natalina Marques, 61 anos, Palmela

Desafio nº 220 – gostava que me levasses