22/08/19

Eurídice Rocha ― desafio 39

Foho encantada
Criança tentou tocar-lhe mas  ansião olhou-a nos olhos e paralisou-a. Galinha cacarejava como se fosse sua dona... Jemichia com machadada transformou-a em canja. Habitantes andavam agitados como se céu tivesse caído na cabeça. Nunca ninguém vira objecto tão brilhante... como oiro. Quando  sol lhe reflectia  lançava raios em todas  direções....
Sol derreteu-o ― afinal, era só um ovo de  oa ― coberta ficou foho de chocolate. Física transformou ovo num milagre ― peregrinação anual: Santo Doce Foho Chocolate Sem Fim!
Eurídice Rocha, 53 anos, Dili  (Timor)
Foho (tétum) - Montanha (português)
Desafio n.º 39 história que contém a frase: “Afinal, era só um ovo de  Páscoa”

Maria Silvéria dos Mártires ― desafio 182

As peras são fadas
Uma árvore do meu pomar
Sacode as peras para o chão
E quando as vou apanhar
Choro de pena, de dor e emoção.

Por as ver deveras amachucadas.
Mas em menos de uma hora
Ergo aos céus braços e mãos
Deus manda-me peras às braçadas.

As machucadas renovo-as ponho-as novas.
Quero-as boas não mando nenhuma embora.
São agora como jovens fadas abraçadas.
De cor branca, verde maduras e rosadas.
São doces, ouro puro e não requerem provas.
Maria Silvéria dos Mártires, Lisboa
Desafio nº 182 ― 3 histórias sem i, t, l – versão em texto livre

Maria João Cortês ― desafio 160


FIGUEIRÓ estava em festa. Os FOGUETES não paravam e as cozinheiras iam de FUGIDA atear os FOGAREIROS para assar as febras e corriam FUGAZES para o REFOGADO, não fosse ele queimar-se.
As FAGULHAS saltavam, mas nada havia que pegasse FOGO.
De sobremesa havia uns belos FIGOS moscatel a rebentar de bons, fazendo uma bela FIGURA. As FIGUEIRAS tinham ficado depenadas.
As crianças AFUGENTAVAM as moscas, pois também elas queriam fazer parte da festa.
FUGIAM, mas logo voltavam.
Maria João Cortês, 75 anos, Lisboa
Desafio nº 160 – plvrs com FAG, FIG, FOG, FUG

Alda Gonçalves ― desafio 182


Febre e Varvarruga agora concorreram aos óscares da peugada. Para ganhar o esforço será enorme. No percurso apareceu o Pepe vagaroso. A Varvarruga na conversa com Pepe, esqueceu de chegar a horas ao concurso. Febre nas suas pegadas pesadas, andou, andou sempre sem parar. E para seu grande horror o medo varreu-se. Ganha quem é audaz, pensou ao chegar ao desfecho e ver no fecho a Varvarruga e o Pepe a beber cerveja na sombra da cabana. 
Alda Gonçalves, 51 anos, Porto
Desafio nº 182 ― 3 histórias sem i, t, l

20/08/19

Desafio nº 182

Agosto está a meio e eu vou acabar com a vossa paciência… Sim, uma ideia diabólica.

Que versão em 77 palavras conta uma destas histórias sem usar o I, o T e o L?

Pode ser: Branca de Neve ou Tartaruga e lebre (com outras personagens) ou Cinderela.
Preparados? Claro que sim!

Para não estarem sozinhos a dar voltas à cabeça, eu fiz assim:
Candereza chorava: não poder mover-se para o sarau do monarca pareceu, e bem, uma ofensa. As megeras abonecavam-se com esmero, achando-se com chances de ganhar o coração do jovem. Foram embora. Num sopro de anjo, apareceu a fada dos desejos. Fez de Candereza uma formosura capaz de convencer o jovem monarca. Mas a jovem pôs-se em fuga sem razão, desprendendo uma concha. O monarca procurou-a sem descanso. Recuperou-a, casou-se sem demora. As megeras nunca perdoaram a cena…
Margarida Fonseca Santos, 58 anos, Lisboa

Desafio nº 182 ― 3 histórias sem i, t, l

19/08/19

Maria João Cortês ― desafio 167

Cheguei ao nascer do sol ao alto da montanha. Eram sete da manhã.
Que espetáculo! Os cumes todos cobertos de neve em pleno Agosto, e a temperatura a rondar os cinco graus. Fazia mesmo frio ali.
As pessoas começaram a chegar. Estávamos ali reunidos para uma aula de Yoga. O professor queria mostrar-nos que o poder da respiração aqueceria de tal forma o nosso corpo que acabaríamos a aula em calção ou t-shirt ligeira.
E assim aconteceu.
Maria João Cortês, 75 anos, Lisboa
Desafio nº 167 ― «chego ao nascer do sol»

Maria João Cortês ― desafio 145


O dia começou quando te vi pela primeira vez. Até lá sentia-me um patinho feio e não me atrevia sequer a olhar para quem quer que fosse.
Tu viste qualquer coisa em mim que te agradou e não descansaste enquanto não meteste conversa.
A partir desse dia não me largaste mais e andámos juntos durante algum tempo.
Mas o que é bom acaba depressa.
A noite começou quando te encontrei embevecido com outra mulher.
Nem queria acreditar.
Maria João Cortês, 75 anos, Lisboa
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Eurídice Rocha ― desafio 38

Em Timor
Descobri neste mundo novo sentir, reforçada força!
De pé, descrente, obriguei-me ripostar negro destino.
Pisei em unguento de São Fiacre*, rochedos, espinhos ferozes rumo ao Norte…
Cravo semente entra na terra rebentando luz a emergir ― revolto fogo de arcadorado ―. Novo folgo, pulmão velho, transforma sangue, luta e resistência. Vendaval no peito guia futuro bem presente… afronta velha ordem, caça novos sonhos, eternos desejos.
Movimento circular leva e traz antiga dor… caminho achado dilui-a neste novo sentido.
Eurídice Rocha, 53 anos, Ermera (Timor)
Desafio nº 38 – partindo de uma frase, utilizar os pares de letras desta para o texto
*Unguento de São Fiacre – barro e bosta amassados para vedar os golpes feitos nas árvores (fonte: https://dicionario.priberam.org)

18/08/19

Helena Rosinha ― desafio 49

Agosto
Partimos de madrugada ― as quatro, tenda e mochilas ― no velho VW do pai da Susana. Após revisão completa, o carocha ficou impecável, como novo!
Susana conduzia concentrada, nós galhofávamos.
Um solavanco repentino, uma roda a passar ao nosso lado ― Susana guinou para a direita, travou a fundo. Fora do carro, constatámos que faltava uma das rodas traseiras; vimo-la mais adiante, ultrapassara-nos! 
Porcas encontradas, roda colocada por um camionista prestável, seguimos viagem com mais uma história para contar.
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira 
Desafio nº 49 – história louca de férias!

Graça Pinto ― desafio 181

O sol timidamente empurrou as nuvens fazendo exibir todo o seu esplendor, contudo, num golpe atrevido, grãos de areia soprados pelo vento fustigaram-me a visão de um lavar de alma sobre um imenso mar azul.
A leitura de final de tarde teria de ficar adiada.
Bem que a minha amiga avisou: ...”A ilha verde é o fim da picada.
Amanhã irei ao ilhéu, levando no farnel aquelas queijadinhas típicas, com um creme de fazer lamber os beiços.
Graça Pinto, 61 anos, Almada
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

Isabel Lopo ― desafio 181


O SOL queimava-lhe o corpo, o coração. A AREIA grossa magoava-lhe os pés nus. Fugia daquela terra maldita. ”O MAR levava as pessoas para longe”, LERA um dia. Deixava a terra, os AMIGOS, a vida destruída. Fora o fim da PICADA, perdera a cabeça e matara quem lhe roubara a mulher...
Fugia de si próprio, carregando o FARNEL que a Mãe apiedada lhe arranjara. No fundo, o CREME das queimaduras. Mas a honra, essa já ia queimada...
Isabel Lopo, Algarve
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

Ana Rita Nápoles ― desafio 181

Ao nascer do sol, um grão de areia fui encontrar.
Era diferente de todos os outros tive mesmo de o guardar.
Com o mar diante de mim precisei de o lançar
Tinha um desejo guardado
Prontinho a se realizar.
Na leitura das marés um amigo descobri
Vinha picado na crista da onda com um farnel preparado para mim.
Foi uma tarde maravilhosa difícil de imaginar
A conversa fluiu
Com o creme da bola de Berlim a saltar.
Ana Rita Nápoles, 35 anos, Torres Vedras  
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

Alda Gonçalves ― desafio 181

Pelas ravinas do Douro
O sol ardente queimava nas costas e o balde da areia pesava toneladas. Naquele mar verde onde os cachos de uvas brilhavam na folhagem, em contraste com o céu azul. Esforço válido. 
Lá em cima era um paraíso para a leitura na hora da sesta do amigo. Aos noventa tudo se perdoa, dizia ele. 
Andar naquela picada onde ao redor apenas se vislumbravam vinhedos, convidava a esmerar no farnel. Iguarias únicas onde não faltaria o leite creme. 
Alda Gonçalves, 51 anos, Porto
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

Ana Paula Oliveira ― desafio 181


A aldeia tem muito sol e, embora não tenha areia nem mar, atrai turistas, os poucos que se querem sentir perdidos na direção da paz.
É o local ideal para ler ou passear com um amigo especial ao longo das ruas empedradas ou do silencioso rio. Aqui nada importa. Nem as possíveis picadas das abelhas que rondam o farnel, atraídas pelo convidativo leite creme.
A luz realça o aveludado das rosas dos jardins. E tudo é suavidade!
Ana Paula Oliveira, 58 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

15/08/19

Margarida Leite ― desafio 52


MOMENTOS
Que cansaço…
Não aquele de quem carrega uma botija de gás por uma montanha de escadas. Não.
Aquele que nos impede de sorrir nos sonhos; de vibrar com o ruído da multidão a cantar Xutos & Pontapés; de dançar aquela música agarradinhos, como quando éramos putos com estilo.
Talvez ajudasse um ombro, para pousar pensamentos sem vida.
Ou uma mão quentinha, para aquecer o coração com ternura.
Mas restava somente a solidão e o som do silêncio…
Margarida Leite, 50 anos, Cucujães
Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio

Helena Rosinha ― desafio 60

Procuraram-no pelo parque, alargaram depois as buscas aos campos vizinhos, contornaram vedações, saltaram valas, utilizaram cães. Do músico nem sinal. Tiveram então conhecimento de que, numa aldeia afastada, o novo organista tocava dia e noite sem cessar. Montaram guarda à igreja e, no momento apropriado, abordaram-no, perguntaram-lhe o nome. Ele, apreensivo, ergueu o braço, mostrando a pulseira da clínica com a identificação rasgada ao meio:
 “Agora sou apenas Sebastião, o meu apelido ficou preso no arame farpado.” 
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira 
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Margarida Leite ― desafio 181

O PIQUENIQUE
D. Luisinha tomou um calmante, que o dia ia ser muito difícil. Maldito piquenique! Nada de sol ou areia no corpo. Iam para longe do mar. À sombra, tencionava dedicar-se à leitura. A amiga levava a manta e o spray para as picadas da bicharada! Ela, que só come dieta, preparou um farnel invejável: croquetes e bolos com creme caseiro. Mas alguém levou champanhe fresquinho. D. Luisinha bebeu o primeiro gole, o segundo… e foi só galhofar!
Margarida Leite, 50 anos, Cucujães
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

Rosélia Bezerra ― desafio 181


Nos dias de sol, saio a passear, devorando com os olhos, toda beleza da criação. Pela areia, ponho-me serena depois de agradecer a Deus pelo mar de bênçãos. Após percorrer os quilômetros da ida, paro num banco do calçadão para fazer alguma leitura.
Anteontem, não fosse o amigo salva-vidas alertar-me, quase fui picada por abelhas numa lixeira, no calçadão, mudei rumo. Sempre levo meu farnel, normalmente água e maçã.
Renovo, muito feliz, meu creme de protetor solar.
Rosélia Bezerra, 64 anos, ES, Brasil
Mais textos aqui: www.escritosdalma.com.br
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

14/08/19

Isabel Sousa ― desafio 181


Teresa caminhava ao ritmo do Sol, que despertava no horizonte. O seu coração, sem areia, mergulhava num mar de afetos.
As leituras incentivavam Teresa ao deleite dos sentidos ― a brisa serrana insistia na presença do amigo António.
Estranhou uma dor aguda ― seria António com as suas brincadeiras?
― Uma picada de inseto! ― exclamou tristemente.  
farnel e o creme protetor haviam ficado na bagageira ― equacionou voltar.
Não, nem pensar!  António perseguira-a, banhando-lhe a alma num mar de luz.
Isabel Sousa, 38 anos, Lisboa  
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia

13/08/19

Helena Rosinha ― desafio 181


Sol dum raio!”  Encandeado, o taxista pragueja, os pneus a derrapar no chão de areia. “Daqui prá frente só a pé.”  
Sigo um mar de gente com sacos, cestas repletas de livros: vai tudo participar no festival de leitura. Mas que caminho! Demasiado tarde para aceitar conselho amigo: “O acesso parece uma picada, leva sapatos práticos… e farnel.” 
Eu, de stilettos, desequilibro-me, aperto a pochette contra mim ― tchaak! Agora, nem o triângulo de queijo creme se aproveita.
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 181 ― sequência imposta sem praia