19 setembro 2018

Diário 77 ― 90 ― Semáforos

"Odeio os semáforos!", livro de crónicas António Lobo Antunes

O trânsito parecia decidir por mim: não iria chegar a tempo. Ainda pensei: “odeio os semáforos!”, seria verdade? Não só não pretendia encontrar-te, como teria detestado despedir-me de ti. Fora uma relação breve, estranha. Não chegara a ser nada. Quando o verde apareceu, acelerei. O coração também. Uma vertigem levou-me para a tua rua. Vi-te, parado no semáforo que se pôs verde para te permitir saíres da minha vida. “Odeio os semáforos”, repeti, desta vez a sério.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 15 com frase retirada de um livro


18 setembro 2018

Marta Sousa ― desafio 35


Há palavras que nos beijam. Levam-nos na sua loucura, na sua mentira. Levam-nos ao céu, deixam-nos ver o paraíso para depois deixar-nos cair, sem compaixão. Toda a descida somos inundados pelas tristezas profundas. Por todos os pensamentos que no fundo eram sonhos. Sonhos nossos, só nossos. Fantasias mais profundas da importância que queremos ter nos olhos de outro alguém,do que queremos ser e sentir. Ao embater no chão tudo se estilhaça... A mais nobre ilusão morre... desfaz-se…
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor
Há palavras que nos beijam – Alexandre O´neill
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... – A Vida de Florbela Espanca

Carla Silva ― escritiva 35

A varanda 
Ao avistar a varanda outrora florida, agora coberta por uma trepadeira,
recordou as conversas ali mantidas com a avó, e uma lágrima deslizou pelo rosto. 
Após um período conturbado, regressara na esperança de sarar feridas, de encontrar alguma da tranquilidade perdida.
Mas tudo mudara, até o seu porto de abrigo. Apenas a avó continuava igual a si mesma. Como tal, envolvera-a num abraço apertado enquanto lhe sussurrava:
― Tem fé. Nada dura para sempre. Nem mesmo a dor. 
Carla Silva, 44 anos, Barbacena, Elvas
Escritiva nº 35 – varanda florida

Marta Sousa ― desafio 15

O mago chegou a correr. Tinha esquecido da sua vassoura lá atrás e apenas gritava o nome do diretor da escola: Magnus! Magnus! Quando todos se afastaram dele e Magnus chegou-se à frente o mago ainda a tentar recuperar a respiração disse: “ Vermilon está a planear atacar! Pelo que ouvi dizer “será uma coisa terrível, nunca vista!” Magnus assentiu e pediu para os seus companheiros ajudarem o pobre mago que desmaiava de cansaço ou de nervos.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 15 com frase retirada de um livro
“Será um coisa terrível, nunca vista.” A Abadia de Northanger de Jane Austen 

Diário 77 ― 89 ― Duas vidas


No primeiro encontro, acharam graça à coincidência de terem idades inversas. Juntos, podiam ser uma capicua, brincaram. Era uma amizade bonita. Aqueles encontros começavam a ser tão importantes que mediam os dias em minutos de espera até ao próximo. As confidências cresciam, a aproximação também, a amizade evoluiu.
Quando António se viu em frente ao juiz, percebeu o que fizera. Estragara duas vidas, a sua e a da aluna Joana, que mudava de terra para o esquecer.
Margarida Fonseca Santos 
Desafio nº 14história onde entram duas personagens de idades: 14 e 41


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17 setembro 2018

Marta Sousa ― desafio 11


– Sempre vamos fazer o combinado?
– Não sei… Achas que fazemos bem?
– Claro!
– Não, mas… Não me agrada muito este plano…
– Já sabes eu falo com a Mia e tu com o Joaquim. Nada de deslizes!
– Achas que o Joaquim vai acreditar em mim?
– Claro que sim, tu sempre foste o certinho do grupo!
– Por isso mesmo acho que levá-los assim antes do casamento é um pouco…
– Pouco o quê? Vai ser divertido!
Partiram então em direções opostas.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 11 – diálogo com frase final imposta: Partiram então em direções opostas.

Maria Loureiro ― desafio 149


Mensagem tua?... não pode ser!
Chamam-lhe ciclo da vida. Angustiados e impotentes, sentimos abanar a nossa parede de afetos. Partem os mais velhos amados, homens e mulheres, próximos ou não, a quem devemos alicerces do pensamento e estar, os nossos pares, os amigos da juventude, os cúmplices das nossas lutas, amores, maluquices e heroísmos. Tu, S., acabas de partir. Aqui longe, não te acompanhamos à última morada terrena. Recordar-te-emos com grande amizade, essa forma sublime de amar.
Maria Loureiro, 63 anos, Lisboa
Desafio nº 149 ― ficção e realidade

Marta Sousa ― desafio 6


De dia viam-se pouco…era sempre à noite que se encontravam. Só falavam de livros um com outro, os outros amigos eram para brincar à apanhada e ao futebol. Falavam sobre livros como quem fala de segredos, baixinho. Iam para a arrecadação ao lado da casa de Casimiro. Quando um dia se distraíram e adormeceram com livros a fazer de lençóis e as caras felizes, cheias de histórias. Os pais que nada desconfiavam quando viram disseram: Quem diria!
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 6 – Início e fim: De dia viam-se muito pouco …….. Quem diria!

Rosário Oliveira ― desafio 134


Chegou demasiado tarde. O medo não esperara por si. Tinha subido todas as escadas sem olhar para trás nem para baixo, com os olhos virados ao alto, o coração aos pulos e o suor a pingar pelas virilhas, descontroladamente. Quase que se pôs de gatas no último lance mesmo antes de o ver, ali, à sua espera, pronto para lhe pisar as mãos. Levantou-se e correu com a força toda que tinha e, da varanda, gritou: consegui!
Rosário Oliveira, 52 anos, Amor, Leiria
Desafio nº 134 ― «Chegou atrasado…»

Marta Sousa ― desafio 94


Vi um clarão tão forte e vi um anjo, senti uma paz enorme… todo o meu ser se iluminou. No entanto, logo a seguir vi uma porta a bater fechando toda a luz e o estrondo assustou-me. Acordei a ver olhos ansiosos a verem-me e a dizer que acordei de um coma. Foi tudo um sonho, uma ilusão. Quase tive pena, porque ver um anjo tão acolhedor e cheio de carinho dava mesmo vontade de ficar lá…
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 94 com clarão, porta a bater e ilusão

Programas Rádio Sim - semana 17 outubro 2018


Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Diário 77 ― 88 ― Sexta treze

Sempre ouvira dizer muita coisa acerca das sextas-feiras 13, nunca ligara a isso. Gostava de fazer a sua vida independente de boatos e palermices, sempre se dera bem com essa indiferença.
Contudo, ao ver-se naquele aprumo, desconfiou. Então não fora encurralada entre a vassoura e o canto da cozinha por mãos que denunciavam um ódio de morte?!
Se fosse borboleta, ou bicho-de-conta… Pois, mas sendo como era, que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata...!
Margarida Fonseca Santos 
Desafio nº 13 – Frase para terminar: Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata!

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16 setembro 2018

Marta Sousa ― desafio RS 24


Esqueceu-se do guarda-chuva. Ao correr à chuva nem reparou que ao passar por entre dois carros prendera o vestido no guarda-lamas. Que chatice! Chegou a casa e colocou o vestido rasgado no lixo e dirigiu-se ao guarda-vestidos, escolheu a roupa e depois passou pelo guarda-joias e finalmente retirou do guarda-pratas um abre-cartas e escondeu-o na mala. Estava perfeita. Quando estava no átrio do prédio se apercebeu trazido o guarda-sol na mão… Abandonando o chapéu correu para o carro.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio RS nº 24 – 6 palavras com GUARDA-

Natalina Marques ― desafio 149


Quem me dera
que  o amanhã fosse diferente
com uma nova quimera
traga sol a toda a gente.

Semear para colher
trigo para o nosso pão
e no ventre da mulher
bata sempre um coração.

E na hora da tristeza
dos problemas ou da dor
haja sempre uma certeza
que tudo tem solução
pela força do amor.

Viver num mundo sem esperança
que já não tem solução,
é como os sonhos de criança
que são apenas ficção.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Desafio nº 149 ― ficção e realidade

Marta Sousa ― desafio RS 31


Comecei o dia com um furo e o reboque a moer-me juízo. Estava a puxar a maçaneta da porta, o chefe apanhou-me para falar de um problema e me massacrar pelo atraso, enquanto ria-se Ana Bispo. Senti um peso no estômago, como tivesse uma pedra e mo deixasse todo torcido. Pedi para me trazerem o almoço, mas trouxeram-me uma caixa com um conteúdo indecifrável, os palermas. Contentei-me com o livro escondido na minha secretária para me abstrair.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio RS nº 31 – 14 palavras com ordem imposta

Filomena Galvão ― desafio 149


Sapateiro e coveiro vivera no reinado de D. João V. Via-se agora num caminho estranho, repleto de pedras alinhadas, lisas. A terra desaparecera, não via excrementos, bestas, ou carruagens. Havia coisas com rodas, não eram carroças, deitavam fumo, faziam muito barulho. As casas amontoavam-se umas em cima das outras. As pessoas andavam com pequenas caixas na mão, batiam-lhes com um dedo. 
Pedro prosseguia o tpc de português : introduzir uma personagem do século XVIII no século XXI.
Filomena Galvão, 57 anos Corroios
Desafio nº 149 ― ficção e realidade

Marta Sousa ― desafio 5

A vida é uma viagem, aproveite-a bem. A primeira noção é essa, não ficamos com nada na vida. É apenas uma passagem sem igual sem hipótese de repetição. É uma aprendizagem profunda sobre as sensações de ser humano. Uma viagem da nossa alma, do nosso ser enquanto crianças que somos. Viagem em que se pode aprender com os erros e evoluir. Aproveite-a. Pode ser a razão desta viagem tornarmos melhores e bem sorridentes em vez de deprimidos.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 5frase de sete palavras, cada palavra está depois de 10 em 10 palavras

Carla Silva ― desafio 148


Marlene guardou a bisnaga e espalhou o creme tentando aliviar a dor que martirizava o corpo dorido após o abraço de Anatólio. 
Conhecendo-o, devia tê-lo afastado mas naquele momento precisava dum amigo. Conheciam-se desde a adolescência e já nesse tempo depositava total confiança nele confidenciando-lhe os seus segredos
Segredos que provocavam gargalhadas mal contidas. Mas aquele originara um profundo silêncio. Silêncio apenas superado pela escuridão instalada no seu olhar perante a descoberta da doença da amiga. 
Carla Silva, 44 anos, Barbacena - Elvas 
Desafio nº 148 ― associação de palavras (bisnaga)

Marta Sousa ― desafio RS 5


Estava no transporte para a escola a transcrever o caderno. Era difícil transmitir a raiva que sentia a transbordar, mas tinha de lhe dizer! Fui transviada das aulas para ajudar o pai a transformar um monte de madeira numa arrecadação. As paredes eram tão lisas, quase eram transparentes…. Como se fosse importante! Assim que transpus a porta do autocarro, vi o meu irmão a acenar e a gozar comigo por ter a cara manchada de tinta. Ahh!
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio Rádio Sim nº 5 – 7 palavras com TRANS–– (no início, não necessariamente prefixo)

15 setembro 2018

Marta Sousa ― desafio 89

Se ao menos aquela tosse seca a largasse! Agarrou o agrafador a custo e perguntar-se o que poderia ter sido que despertou a sua alergia. Arrumou o agrafador atrás do enfeite de elefante que a sua filha lhe dera. A olhar para o enfeite, lembrou-se deveria ter sido quando a levou à escola e a deixou ao lado daquele jardim com belos lírios brancos! Depois preocupou-se com o mais importante: onde tinha colocado a medicação para alergia?
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 89 – hist c tosse+lírio+elefante+agrafador