18 junho 2018

Diário 77 ― 73 ― A porta aberta


Não conseguia esconder o que sentia. Havia um sorriso desconcertante a nascer-lhe no rosto, escapando-se da censura rigorosa que imaginava obrigatória quando, sozinha, caminhava em espaços públicos.
Tudo começara meses atrás. Um ponto final numa carreira, um ponto de interrogação no futuro e umas reticências nas ideias. Agora, tudo mudara. O projeto fora aceite, abrira-lhe uma porta para a qual escolhera bem a chave: a sua criatividade.
Cruzando-se consigo na passadeira, alguém lhe devolveu o sorriso. Corou.
Margarida Fonseca Santos

Programas Rádio Sim - 18 maio 2018

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

16 junho 2018

Dânia Vicente ― desafio RS 28


Procura-se bruxa
Naquele reino tudo florescia, exceto alguns habitantes. Os jardins perfumavam-se, as árvores doavam-se. Olhavam tudo com desdém! Alguns, até exclamavam:
― Para que é isto! Coisas que vêm e vão! Admirar isto, só de malucos!
Sentiam urgência em criar uma bruxa. Ter ali, mesmo ao pé, uma pessoa muito má, suja e a cheirar mal, isso sim, ia dar-lhes verdadeiro prazer.
Trabalharam intensamente, e conseguiram. Perversão aqui, invenção ali, palavra acolá. Pronto, tinham a bruxa Josefa! Sentiam-se felizes!
Dânia Vicente, 44 anos, Penamacor
Desafio RS nº 28 – Josefa, intriguista e bruxa

Zé Maria ― desafio 5


Acompanhar cantar vagabundo daqueles que alegram mundo
Acompanhar a presença daqueles dois era privilégio.
Cantar músicas juntos que lhes despertassem alegrias tornara-se imperativo.
Vagabundo éramos, não havia nem Eu nem Ela, éramos Nós; não tínhamos lar, éramos de onde estivesse o outro;
Daqueles com quem sabe bem viver, isso sabia-lhes bem saber; já existiam melhor por saber que um e outro existiam,
Que amam, sabem ser amados,
Alegram qualquer espaço,
Mundo lindo e Mágico: Amor!
Zé Maria, 37 anos, Sintra
Desafio nº 5frase de sete palavras, cada palavra está depois de 10 em 10 palavras

Dânia Vicente ― desafio 35

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos ― repetia incessantemente Justina.
Ela sabia que era utopia. Em cada esquina, chat ou esplanada, havia palavras como bombas, pisando os ouvidos, o coração ― a existência.
Justina refletia vezes sem conta ― como era possível! Contaminam o ar que respiram - aquilo que ainda resta da divina criação ― sem pudor!
A cumplicidade desaparecera, a bondade amesquinhada, a beleza repudiada e assim ia o mundo, como as flores mortais, com que se enfeita
Dânia Vicente, 44 anos, Penamacor
Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor
Sophia de Mello Breyner Andresen ― Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos ― in 'Dual' 
Antero de Quental ― Como as flores mortais, com que se enfeita ― in "Sonetos"

Carla Silva ― desafio 142


Jerónimo Continente permaneceu parado na porta, incrédulo.
No rosto expressava a incredulidade que sentia.
Tudo parecia saído de um filme fantasmagórico.
Pestanejou esperançoso mas a miséria continuava ali.
O cortinado, além de roto, estava nojento. 
No frigorífico um prato de rins esquecido.
Junto à mesa jazia uma travessa partida.
Começava a achar aquele retiro péssima ideia. 
Quem pensara alugar a casa naquele estado?!
Uma mera limpeza não resolvia a situação.
E ele que se prometera uns dias...
Carla Silva, 44 anos, Barbacena 
Desafio nº 142 ― 11 palavras para frases de 7

Zé Maria ― desafio 5


Ah, era um ouriço, fiquei mais descansada!
Ah, que susto, nem imaginam!!! Aquele som, que se ouvia,
era assustador, e eu não percebia quem o podia fazer.
Um leão, não era de certeza… Seria então uma cobra? Um
Ouriço?! Estava a delirar, já se vê, era tudo mentira…
Fiquei quieta, a pensar que aquele fruto da minha imaginação
mais uma vez me distraíra. Voltei ao trabalho, queria ficar
descansada, acabá-lo. E não é que o som voltou?! Bolas!!!
Zé Maria, 37 anos, Sintra
Desafio nº 5frase de sete palavras, cada palavra está depois de 10 em 10 palavras

Helena Rosinha ― desafio 142


Atrás do cortinado do dormitório, Julinha cismava. Não se conformava com a miséria circundante. Liberto de amarras castradoras, o pensamento voava. Sabia que o poeta chegava do continente. Determinada, saltaria pela janela, correria Travessa fora. Encontrar-se-iam no porto, lembrá-lo-ia da promessa feita. Num golpe de rins resolveria a situação. Esquecer tudo, todos, seria uma limpeza geral.
Denso nevoeiro cobre agora Fajã do Retiro. Um navio desaparece engolido por fantasmagóricas volutas. Incrédula, sentindo-se ultrajada, Julinha expressa desesperada consternação.
Helena Rosinha, 65 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 142 ― 11 palavras para frases de 7

Zé Maria ― desafio 77


Eu: Porquê este número?
Ela: Porque 50 é muito difícil e 100 muito fácil... e porque é divertido.
Porque se fosse outro poder-se-ia perguntar porque não era este,
Porque gosto da ideia de não ser redondo como 6 ou 8 e ser dobrado.
Porque razão as coisas são assim e não de outra maneira!?
Porque se corre bem não é preciso mudar as regras.
Porque sim, porque ainda não encontrei motivos para querer mudar.
Porquê essa pergunta!?
Zé Maria, 37 anos, Sintra
Desafio nº 77 – texto sobre o blogue

Mafalda Domingues ― desafio 134


Chegou demasiado tarde.
dia não esperara por si.
Tinha uma ferida que arde
Muito correu até ali.

As horas, os minutos e os segundos
Não esperam por ninguém,
Nós pessoas de mundos 
Temos de nos despachar para chegar além.

Onde será que chegou atrasada?
À escola, ao comboio, ao avião...
Será que antes estava muito atarefada?
Que grande frustração!

Eu acho que aquela ferida
Também a prejudicou,
Ficou bastante perdida
Perdidamente ficou.
Assim o dia acabou!
Mafalda Domingues, 6º A, Escola Dr. Costa Matos, Gaia, prof Cristina Félix
Desafio nº 134 ― «Chegou atrasado…»

Zé Maria ― desafio 4


Sou um bule rachado, sou...
Mais coisas a melhorar que coisas partidas.
Mais inícios que fins, continuações, até jás.
Uma falha, um caco: a melhorar.
Um levantar digno, um erguer.
Uma abertura para um mundo novo.
Comparando-me, é um erro, pior, melhor, diferente.
Que podemos e queremos fazer-nos outros!
Que temos pouco conhecimento do nosso interior e quisas do nosso exterior.
Que tanto existe no mundo que nos torna pouco importantes.
Sou uma boa forma de regar.
Zé Maria, 37 anos, Sintra
Desafio nº 4começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

Diário 77 ― 72 ― Atacadores

Bolas!!! Se não tivesse sido tão teimosa! Se tivesse ouvido outra vez!
Matilde não conseguia lembrar-se. Era por cima, depois dava a volta… Não! Tinham de fazer umas orelhas, disso lembrava-se, e depois?
Nada feito! Os atacadores recusavam-se a colaborar. A voz da mãe chamava:
– Então? Chamo o elevador?
Matilde encheu-se de coragem. Avançou pelo corredor, qual soldado derrotado. Os atacadores, mortos de cansaço, iam de rojo pelo chão.
– Ai, Matilde, desculpa, esqueci-me. Que cabeça a minha!
Margarida Fonseca Santos


14 junho 2018

Diário 77 ― 71 ― Pobreza

A rua deserta, o ar pesado. Ao longe, sons de passos apressados. Revolveu-se, por dentro e por fora. A noite aborrecia-o sempre, esquecendo a ladainha do dia. Um novo som, desta vez mais enigmático, aproximou-se. Um andar desarticulado, desarrumado, como se a cadência do andar mostrasse como a vida o cadenciara. Observou-o com atenção. O coxo cruzou-se com ele sem lhe dirigir a palavra, sustendo a respiração para evitar o cheiro da pobreza. A noite continuou, deserta.
Margarida Fonseca Santos


12 junho 2018

Mariana Batista ― desafio RS 7


A Rita acordou, vestiu-se e foi calçar-se, mas tinha desaparecido uma das suas socas. Chamou-lhe o caso da soca perdida. Desceu as escadas e foi tomar o pequeno-almoço. A mãe disse-lhe:
― Enquanto coas o teu leite sem asco, eu preparo a teu lanche para levares para a escola e coloco num saco.
― Sim, mãe. Depois cosa, por favor, as minhas meias. Procure-as naquela gaveta que está um caos.
― Diverte-te com os teus amigos e não sejam cabeças ocas!
Mariana Batista, 6º A, Colégio do Vale, prof Andreia Ferreira
Desafio Rádio Sim nº 7 – anagramas com S C O A

Natalina Marques ― desafio 143


Levantou-se cedo, para fazer a corrida matinal.
No jardim perto de casa, sentou-se num banco, preocupada com o assunto do tribunal.
Ia ser julgada por um crime que não cometeu.
No caminho de regresso, encontrou um trevo de quatro folhas, deu-lhe um pouco de ânimo, pensando que lhe daria sorte se a justiça não fosse cega.
A mãe, quando a viu entrar com o trevo, só disse:
― Se a JUSTIÇA falha, não há TREVO que te valha.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Desafio nº 143 ― novo ditado popular

Madalena Pinto ― desafio RS 7


A casa da Sofia e do Miguel era pequena, mas estava sempre um caos, era uma soca para aqui, outra para ali. A mãe Carla, zangada, dizia:
Cosa os calções! Ponha o lixo no saco e não responda com asco… Por que é que as vossas cabeças são tão ocas? Por favor, este caso está cada vez pior! Vocês os dois estão de castigo, tu coas o leite e tu varres o chão. Têm de ser mais organizados.
Madalena Pinto, 6º B, Colégio do Vale, prof Andreia Ferreira
Desafio Rádio Sim nº 7 – anagramas com S C O A

Mariana Carvalho ― desafio RS 7


Naquela manhã a cozinha estava um caos.
Coas o leite? ― perguntou a minha mãe. ― Calça a soca, vocês são umas cabeças ocas!
Só tinha calçada uma soca e fiz cara de caso. Coei o leite, mas lembrei-me que não tinha pão. Antes de ir à mercearia, peguei no meu saco azul, que estava roto, e fui ao sapateiro.
Quando cheguei, pedi-lhe:
Cosa o meu saco, por favor.
Ele olhou para mim com asco, mas coseu o saco.
Mariana Carvalho, 6º B, Colégio do Vale, prof Andreia Ferreira
Desafio Rádio Sim nº 7 – anagramas com S C O A

Luísa Conceição ― desafio RS 7


No dia 25 de maio, estava um caos no sapateiro da baixa.
 A Rita queria arranjar a sua soca. Para não a perder durante o caminho longo, levou-a dentro de um saco colorido. Quando chegou a sua vez resmungou com asco:
― Pode resolver o meu caso rapidamente?!
― Claro que sim.
Cosa as minhas socas ocas.
De seguida, a Rita foi ao café da sua avó e perguntou à sua irmã:
― Tu coas o meu leite, por favor?
Luísa Conceição, 6º B, Colégio do Vale, prof Andreia Ferreira
Desafio Rádio Sim nº 7 – anagramas com S C O A

Theo de Bakkere ― desafio 143


O rei em terra de formiga cega
O provérbio diz "Em terra de formiga cega não há justiça, quem tem um olho é rei". Mas o dito não fazia menção do facto que esse zarolho era um grilo vadio. O dia inteiro cantava sem que se levantasse da poltrona. Ora, tão preguiçoso, só lhes indicou o caminho para instituto para os cegos. Ali aprenderam o braille e o andar com pau branco e cão-guia.
Coitado, o grilo estivera cantando a sua última canção. Devoravam-no.
Theo de Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 143 ― novo ditado popular