25/10/18

Elisabeth Oliveira Janeiro ― desafio 152


Fogo Que Arde e Que se Vê
O gesto mecânico de Rosalice, ao pegar, displicente, a bata de florzinhas miúdas ao dependuro no costal da cadeira, denunciava o fraco ânimo que a minava. Sozinha estava desde a perda do único amor na estúpida guerra, mas ver-se agora sem metade da casa, reduto apaziguador que o fogo vivo indecorosamente gualdripara, plantava-se-lhe no peito a angústia inevitável, tornada contumaz companheira. 
À soleira da meia-casa de horizonte esfumado, sentia o ardor das lágrimas a avivar-lhe a ferida. 
Elisabeth Oliveira Janeiro, 74 anos, Lisboa
Desafio nº 152 – frase de Lídia Jorge

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