Velha, alcoolizada, trepa a
escadaria do mercado com o capote imundo varrendo o chão;
atado à cintura, um cordel de onde pendem um funil, chaves,
bugigangas. Desgrenhada, quase cega, avança aos gritos, vê-se-lhe
a boca sem dentes, as gengivas descarnadas. As vendedoras atiram-lhe as sobras
que ninguém quis, maçãs meio-podres, espargos meio-secos.
Fez 66 anos hoje. Como eu. Já noite, frente ao
espelho, dispo o top de missangas, retiro maquilhagem, brincos,
pulseiras. Há páginas duras de virar.
Helena Rosinha, 66 anos, Vila
Franca de Xira
Desafio nº 151 ― palavras com
espargo
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