20/02/13

Corpo e Alma



Sentir tudo de todas as maneiras, não deixar um poro da pele, um fragmento da alma, sem respirar o encantamento do prazer, numa espécie de orgia moderna.

Os corpos oferecem-se, despudorados, na mesa do tempo; só a gula dos dias os pode salvar da tempestade que o espelho, teimoso, devolve.

As almas vendam os seus deuses - cegos esperarão - e deixam-se seduzir pelo esplendor da festa; fingem-se eternas ainda que desfeitas, como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

Bau Pires, Porto

Peguei no verso "Sentir tudo de todas as maneiras" do poema "Passagem das horas" do Álvaro de Campos, liguei-o com uma prosa atabalhoada minha e fechei com "como recém-saídas de um naufrágio de sangue" do poema "Aurora de Nova Iorque" do Garcia-Lorca.