17/04/12

histórias recebidas - abril 2012 V


As 12 histórias da Vanda Pinheiro/Maria Jorge, 35 anos, Póvoa Santa Iria

A CAMISOLA DE LÃ
 O estendal da Rita estava cheio. Pijamas, camisas, toalhas, peúgas e calcinhas enchiam os arames baloiçando ao vento e secando ao sol. Estavam felizes e alegres, exceto a camisola de lã. Pendurada pelos ombros, tentava não ouvir o que resmungavam as calças de ganga. Presas pela cintura, as novíssimas calças gritavam para que todos escutassem que não pretendia fazer par com a camisola. Quando as gémeas peúgas perguntaram porquê, respondeu que ela estava velha e sem cor.

A CÂMERA FOTOGRÁFICA
 Quando parou de chover e o sol irradiou o dia, Joana pegou na trela e levou a caniche a dar um passeio. Estava um lindo dia primaveril para libertar risos e sorrisos, travessuras e brincadeiras. Assim que pisou o chão, Canita desprendeu-se da dona e correu para um caixote do lixo. Chateada, Joana foi atrás dela, pois não gostava de vê-la roer ossos. Mas surpresa, o osso escondido era uma máquina recheada de fotos com maravilhosas paisagens.

O ELÉTRICO
 Quando o comboio chegou à aldeia todas as pessoas juntaram-se na estação para admirar de perto aquela metálica lagarta. O dia seria de festa e de alegria, pois não havia ninguém que não quisesse viajar nele. O entusiasmo era tanto que depressa se esqueceram do pequeno elétrico amarelo acostumado a levar toda a gente pelas aldeias ao som da sua melodiosa campainha. No furor da agitação, não pensaram num funeral digno, mas ele agora era uma relíquia.

FÉRIAS

Ainda o galo não tinha cantado, já o Paulo e a Lara estavam na estação à espera do comboio. As aulas tinham terminado e aqueles momentos eram sempre de ansiedade até à chegada dos primos que vinham de férias. Tinham ajudado a avó a colher maçãs, amoras e morangos para os doces, e estavam desejosos pelas brincadeiras. Mas antes teriam de pôr o Tomás na banheira. Ele não resistia à tentação de aparecer com o rosto mascarrado.


A AVÓ MATILDE
 A avó Matilde gostava de passar as tardes sentada à janela de onde mirava o vaivém das pessoas na rua. Ria com as crianças ao mesmo tempo que escutava o som dos pássaros empoleirados nos ramos das árvores do jardim. Sem nunca perder a atenção do exterior, ajeitava os óculos na ponta do nariz para voltar aos seus afazeres. Lindos trabalhos de bordados e croché que as talentosas mãos da avó Matilde faziam quando manejavam a agulha.

DOCES DE NATAL
 João adorava o Natal. Via os presentes antes da hora, e devorava os doces. Naquela tarde, quis ajudar a avó na confeção das filhoses, ou melhor dizendo, quis atrapalhar.
— Não tens com que te entreter lá fora?! — ralhou a D. Felisberta.
— Aqui dentro é mais divertido — respondeu, com um sorriso maroto. — Posso ajudar a amassar?
— Podes ir embora.
João não resistiu e colocou a mão no alguidar. No fim, saiu com o rosto também recheado de massa.

O LAGO
 Quando o nevão caiu cobrindo de branco os telhados das casas e gelando os lagos, todas as pessoas correram à rua. Crianças construíam bonecos de neve com a ajuda dos pais e jovens tiraram do armário os patins. Filipa tinha seis anos e ainda não podia patinar. Mas por 10 minutos conseguiu esse desejo, e exibindo lindas piruetas pôs a aldeia a aplaudir. No regresso a casa teve uma surpresa. Iria para uma escola de patinagem artística.

O LIVRO MISTERIOSO
 Quando a mãe da Sofia obrigou-a a arrumar o sótão, fez uma careta que durou uns 10 minutos. Só até ao momento em que descobriu um enorme livro de capa grossa e páginas amarelecidas. Desinteressou-se logo das limpezas, largou a vassoura e sentou-se no chão. «Que livro seria aquele?» Parecia antigo, mas só havia uma maneira de descobrir. Abri-lo e desvendar os segredos que ele estava disposto a revelar-lhe. As palavras sussurravam uma estória inacabada. Sofia sorriu.

O PALHAÇO
— Despacha-te! — gritou a mãe para o Francisco. — Ou vais chegar atrasado à escola.
— Já estou pronto! — respondeu, enfiando à pressa uma colherada dentro da boca.
— Não, não estás. Ainda não te calçaste!
Na atrapalhação, Francisco derrubou a tigela, e espalhou os cereais e o leite sobre a mesa.
No regresso, pôs a mãe a rir.
— Tu vais para a escola ou para o circo?
— Escola. Não tenho cara de palhaço.
— Mas tens um sapato de cada cor!


AS NOTAS MUSICAIS
Numa manhã, toda aldeia despertou soalheira. O céu estava azul, as árvores verdes e as flores viçosas. Mas algo errado se passava. Os rouxinois cantavam e não se escutavam. Os canários entoavam e não libertavam nenhum piar. Os trovadores tocavam os alaúdes e as cordas não gemiam. As pessoas teriam ficado surdas? Todavia, os gatos miavam e os cães ladravam. Descobriram que Mozzarin, o senhor do castelo, tinha roubado as notas musicais e fazia-as desaparecer das pautas.

JARDIM DE PALAVRAS
 Às 17h04m, Januário levantou-se da cama. Descalço, percorreu o soalho morno do quarto até aos azulejos frios da cozinha. Passara o dia a dormir para estar acordado à noite. Pegou no pacote de leite do frigorífico e sorveu dois golos. Dirigiu-se até à sala, sentou-se em frente da máquina de escrever e colocou a folha branca no rolo. No fim, estacou com o dedo a pairar sobre uma tecla. Como seria o seu próximo jardim de palavras?

PIANO
 O senhor Zé escolheu uma das mais antigas e belas profissões do mundo. Quis ser carpinteiro e durante cinquenta anos construiu armários, móveis, camas, mesas, cadeiras e tudo o que as pessoas da aldeia e arredores lhe pediam. Certo dia, teve o pedido mais surpreendente, mas também o mais grandioso que alguma vez podia ter tido. Construir um piano. Parecia difícil, mas como nas mãos habilidosas do senhor Zé não havia impossíveis, todos os desejos eram concedidos.

*P.S.: As histórias Palhaço, Doces de Natal e Piano, tirei de acontecimentos verídicos.