De dia, viam-se pouco, mas bastava um
pensamento sobre as noites que transcorriam lado a lado para sorrirem. Guiados
pela batuta perspicaz do maestro Ladeiro, a orquestra ensaiava, para afastar o
estigma da derrota no festival do Outono. Desembainhavam-se arcos, afinavam-se sopros, exercitavam-se dedos. A
melodia enchia a sala e irreverente saía para a rua.
Tudo parecia perfeito no ensaio, no
entanto para Carmen algo faltava. De repente percebeu o quê. O calor dos
aplausos.
Quem diria…!
Quita Miguel, 52 anos, Cascais
De
dia, viam-se pouco mas isso
não importava.
Ela esperava ansiosamente que a noite chegasse
e o encontro era mais intenso. Os seus afazeres profissionais não lhe permitiam
que se cruzassem mas, assim que entrava em casa, depois de um dia de trabalho
cumprido (e comprido!), logo ela se lhe dirigia, numa enorme vontade de lhe
tocar, de o afagar, de o possuir até se cansar. E pensar que, há bem pouco
tempo, detestava computadores! Quem diria...!
Ana Paula Oliveira, S. João da Madeira
O GRILO E A CIGARRA
De dia, viam-se
pouco. Ele trabalha de noite e com o Sol dorme, ela de dia e com a Lua
adormece. Nunca se encontravam, pois da aurora ao entardecer ela faz a
chinfrineira, ele, do anoitecer ao amanhecer. Era assim a vida da cigarra
Justina e do grilo Justino. Até que certa vez, ele coloca-se a seu lado e sem
cerimónia solta a goela. Justina despertou e irritou-se, mas ao invés de o
expulsar, apaixonou-se. Quem diria!
Maria Jorge
E uma sem desafio:
E uma sem desafio:
Foi ontem, hoje, aqui estou a dizer-te que te vi pelo encanto do
que me escreveste sem registo, do que me disseste sem falar, do que me
desenhaste sem nenhum risco... e, tudo vejo sem estar em nenhum espaço físico.
Registo em mim, nos recantos de não sei de quê nem de onde, o que fica guardado
e, de vez em vez, partilho por aqui, no ali que sou, no acolá que gosto de ser,
sendo eu.
Lucrécia Alves
Sem comentários:
Enviar um comentário