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03/08/20

Maria João Cortês – desafio 211

– Olhe menina, por favor ligue-me ao 43 de Braga.
– O serviço está demorado, quando for possível faço a ligação.
As horas passaram e a ansiedade aumentava, até que toca o telefone.
– Faz favor, tem o 43 de Braga.
– Está? É a tia Augusta?
– Não, aqui não há nenhuma Augusta.
– Então não fala do 43 de Braga?
– Não, aqui é do 85 do Porto.
– Desculpe, mas está a falar com o 37 de Coimbra.
Desesperada, desligou e desistiu.
Maria João Cortês, 77 anos, Lisboa
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

14/07/20

Helena Rosinha – desafio 211

O avô preparava-se para um acontecimento extraordinário quando eu, correndo à sua frente, subi a um banco e peguei naquela espécie de corno acoplado à parede donde saíam ruídos estranhos, vozes:
— “Raimundo!” — “É Você?” — “Fale!” —“Ligado?”
— “Avô!” — gritei, agarrado ao aparelho, o banco a inclinar-se perigosamente. Estatelei-me ao comprido. Enrolado nos fios, vejo o avô olhando, incrédulo, os buracos na parede.  
A histórica transmissão ficou reduzida a quatro participantes, o avô ficou de fora. Consequências dum trambolhão.
Helena Rosinha, 67 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

24/06/20

Filomena Galvão ― desafio 211

- Está lá? Está? Está sim?
- Sim. Está, sim. Diga, por favor.
- Bom-dia. É da loja de cuecas e soutiens Vogue?
- Bom-dia. É sim.
- Ó menina, qual é a sua graça?
- A minha graça? Eu chamo-me Carmem, o meu nome é Carmem.
- Ó menina Carmem, eu gostaria de falar com a menina séria.
- Menina Séria? Aqui não há nenhuma menina Séria. Deve ser engano.
- Meu Deus, não me diga! Uma loja onde só trabalham meninas. Nenhuma é séria?
Filomena Galvão, 58 anos, Corroios
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

23/06/20

Theo De Bakkere ― desafio 211

A chamada telefónica
Como se fosse um antigo telefone, o som ensurdecedor rompeu o taciturno sossego. O proprietário dessa irritação já tinha o telemóvel ao ouvido e gritou "estou."
― Sim doutor, sou eu próprio.
― Já conheço o resultado!
― Como! Tenho pedras nos rins?
― Cal no sangue e água nos joelhos
Aparentemente, fiava-se pouco no médico.
― Ó doutor, encontrou tudo isto no sangue. Talvez ache também cimentos nos meus bolsos e então poderei construir uma casa.
Havia risos abafados no comboio
Theo De Bakkere, 68 anos, Antuérpia-Bélgica
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Paula Castanheira ― desafio 211

- Cesariny. Não?
- Saramago?
- Mestre… sou eu.
- Eu… Eu…
- Watson! Esses dois… desculpe, mas ainda não nasceram!
- Elementar, meu caro Watson!
- Mas, mas… eu, não sou o John.
- Claro que não!
- Mestre, está? Eu sou… o Thomas.
- Thomas?!
- Sim. Estou aqui…
- Não o vejo.
- Valha-me Deus! Na sala ao lado. Os diapasões, as palhetas, lembra-se?
- O telefone?
- Sim, Mestre! Inventou-o!
- Meu Deus, isto fala!
- A patente. Tem de a registar.
- Mr. Watson, venha cá, eu preciso do senhor!
Paula Castanheira, Massamá
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Toninho ― desafio 211

Aquela coisa negra tocava insistente trim trim trim.
 Jacira pegou invertido o aparelho, ouvia mal.
Do outro lado uma insistente voz de alô e alô.
Você foi sorteada para primeira ligação.
Fala mais alto não tô ouvindo nada nessa coisa
Eu sou o Graham Bell de Londres
Ah sim Sir. Guilherme Tell eu gosto de ver cinemascope.
Não sua surda sou Graham Bell inventor do telefone.
Ah, Sir. Guilherme não vi flecha nenhuma aqui
Tum tum tum.
Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia-Brasil
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones
Postado em Desafio 211

22/06/20

Natalina Marques ― desafio 211

TELEFONES
― Alô, querida,
sou o teu Afonso
e tu és a minha vida.
― Olha para ele,
todo derretido 
a mudar de cor.
― Deve estar a ouvir
uma conversa de amor.
― Pois deve… ― dizia outro
cheio de curiosidade.
Só é pena que este tempo
voe como o pensamento.
― Porque dizes isso,
não sejas agouroso.
― Um dia seremos trocados,
por outros mais glamorosos,
e ficará nas memórias
pedaços dessas histórias.
― Pois sim, e com isso ficaremos
quando na sucata estivermos.
Natalina Marques, 61 anos, Palmela
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Verena Niederberger ― desafio 211


Trim, Trim, Trim, campainha toca.
Pombinha corre até a porta.
Ninguém aparece...
e
Novamente ela ouve
Trim, Trim, Trim.
Finalmente percebe o toque do telefone na mesa de canto.
― Alô!
Do outro lado da linha, uma voz metálica pergunta:
― Quem fala???
― Aqui é a Pombinha.
Pardal pergunta:
― Aí é a Andorinha???
― É engano.
Aqui não tem nenhuma Andorinha.

Clic e o telefone desliga.
Trim, trim e
Pombinha atende
― Quem fala??
― Aqui é a Águia.
Andorinha me ligou????
Verena Niederberger, 69 anos, Rio de Janeiro - Brasil
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

20/06/20

Fernanda Malhão ― desafio 211

Grande rebuliço de pessoas a volta daqueles telefones. Algo que poderia mudar o rumo da humanidade estava prestes a acontecer! Depois de tudo testado, o tal esperado momento chegou! E pela primeira vez puderam comunicar via telefónica em simultâneo 4 pessoas em lugares distintos! Aqueles homens nem imaginavam que passados 143 anos estaríamos todos a comunicar em vídeo-chamadas, com imensas pessoas em todo o mundo! Um sonho que começou pequeno e que hoje é uma grande realidade!
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Chica ― desafio 211


Vovô Bell no sótão da casa que abrigava a grande família.
Ali guardava tudo que encontrava pois quem sabe um dia daquilo iria precisar para suas construções...
Nos últimos dias estava envolvido. Mas chegou a hora... Colocou aparelho na sala. Lá do sótão, conseguiu emitir som, ouvido por todos. Crianças espantadas chegaram perto.
Bell gritava: Sou eu! Quem me ouve?
Todos voaram pra mais perto do invento ficar!
Emitiam sons e vovô se divertindo do outro lado!
Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Margarida Fonseca Santos ― desafio 211

Estou? Estou sim?
Estou! Estou, sim!
Eu estou, sim…
Sim, sim, estou!
Raios, isto avariou-se? Estou? Estou sim?
Estou! Estou, sim!
Eu estou, sim…
Sim, sim, estou!
De que número fala?Um!
Estou a perguntar de que número fala!
Um!
Ó homem, qual é o seu número?
Número um!!!
Bolas, podia ter dito logo. Daqui fala o dois.
Dois quê?
Número dois.
Eu sou o um.
Sim, já percebi. O que deseja?
Eu?! Nada. E você?
Hum?...
Margarida Fonseca Santos, 59 anos, Lisboa
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones

Rosélia Bezerra ― desafio 211

Ela, elegantemente, senta-se no sofá.
Põe aparelho no colo, pesado ela o sente.
Retira do gancho parte dele que se encaixa no aparelho novo na sua estreia.
Seu dedo percorre orifícios com números aleatórios.
Põe aparelho no ouvido.
Do outro lado da linha, tem sensação de que voz masculina está pelo fio.
Ouve delicado alô!
Ela, atônita, nada diz.
Com aparelho no ouvido, sonoro tum, tum, tum, invade seus tímpanos.
Não entendeu revidar cumprimento. A outra desligou.
Rosélia Bezerra, 65 anos, ES, Brasil
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones
Publicado aqui: https://espiritual-amizade.blogspot.com/2020/06/saindo-do-isolamento.html

Desafio nº 211


Se pensarem na primeira transmissão telefónica entre quatro telefones, que aconteceu há 143 anos, que texto, de 77 palavras, conseguem escrever?

Por aqui, saiu assim:
Alberto ajeitou o laço antes de pegar naquele aparelho que parecia falar sozinho. Endireitou-se e clareou a voz.
– Bom dia, caro senhor – começou, acompanhando com uma vénia profunda para se recompor logo de seguida, ao recordar-se que os restantes participantes da linha não se encontravam presentes.
– TEM DE FALAR MAIS ALTO! – gritava Bernardo, com a boca encostada ao aparelho.
– Não é preciso gritar, senhor Antunes.
– Antunes? Não sou o Antunes.
– Então para quem liguei?
– Para mim, óbvio.
Isabel Peixeiro, 37 anos, Mafra
Desafio nº 211 ― 143 anos da 1ª conversa entre 4 telefones