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31/07/20

Fernanda Malhão – desafio 74

Percorria aquele salão com as memórias a sobrevoarem a sua cabeça. Os vidros partidos das janelas deixavam entrar o frio vento do inverno. As tábuas do chão rangiam a cada um dos seus passos e até um rato atrevido cruzou-se no seu caminho, mas estava tão embriagado com as imagens que lhe apareciam que nem notou. Pudera, quem viu aquele salão cheio de música, de pessoas, de gargalhadas custava a crer no nada em que se transformara.
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

06/10/19

Micaela Cosme ― desafio 174

Olho-me ao espelho e deparo-me contigo. O medo invade-me.
Quem és tu? – eu queria ignorar-te , mas conheço-te bem.
És como um conto de fadas, nunca desapareces, és eterno!
No pé, deixaste-me uma vírgula – nunca mais me deixou adormecer, sem nela pensar.
Com as palavras, descobri um alfabeto que não queria. Com os teus sorrisos, levaste-me a pensar que sorrir nem sempre é pura alegria.
Aprendi a enfrentar-te e cresci contigo, hoje acompanhas-me e eu chamo-te de amigo.
Micaela Cosme, 17 anos, Alcobaça
Desafio nº 174 ― história de Bullying

18/08/17

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 74

Quando te conhecemos, eras alguém bem-sucedido, integrado num núcleo familiar equilibrado, com namorada e amigos, possuidor de vínculo laboral.
Contudo, desvalorizavas e criticavas tudo e todos; tu eras um génio que superava Einstein. Ninguém deveria ousar questionar a tua inteligência!
Mas tudo mudou... o desemprego assomou no horizonte, as pessoas que te rodeavam, cansadas de maus-tratos, seguiram outro caminho.
Hoje, é o sábio que mendiga afecto de quem anteriormente desprezava, ignorando no nada em que se transformou.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

01/07/17

António Matos ― desafio nº 74

Iam juntos para a escola desde bebés. O 7.º ano foi um ano de emancipação também nisso. Iam juntos na mesma, mas sozinhos. Aos olhos de hoje, o 10.º trouxe a emoção dos primeiros e verdadeiros desgostos de amor, que partilharam. A conquista da entrada na Universidade também foi vivida a dois. Apercebem-se, hoje, que a vida naturalmente os afastou metodicamente. Aos 35, não faz sentido suspirar pela amizade antiga, nem pelo nada em que se transformou.
António Matos, 31 anos, Lisboa
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

25/06/17

Sofia Martins ― desafio nº 74

Romeu e Julieta nas “Montanhas da Cabra”
Era uma vez duas montanhas longínquas, as “Montanhas da Cabra”. No vale por elas formado, corria um rio de água transparente, no qual as cabras costumavam ir beber água.
Lá, morava um gato preto que adorava passear à noite. Num dos seus passeios noturnos perto do rio, avistou uma gatinha branca na outra margem. Ao olharem um para o outro, apaixonaram-se. Porém, não se podiam tocar, pois não havia uma 
ponte para atravessarem. Então, ficaram ali... tristes!"
Sofia Martins, 13 anos, Montijo, Escola Secundária Jorge Peixinho, prof São Almeirim

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Matilde Pires ― desafio nº 74

O rio e a cabra
Lá estava eu no meu moinho, situado junto a uma ponte que atravessava o rio Douro de um lado ao outro.
Ali próximo, havia um prado deserto, onde apenas passavam os pastores, juntamente com as suas cabras. Uma delas era especial. Aquela cabra, sempre que por ali passava deitava-se junto ao rio e olhava para ele seriamente.
O que será que aquele rio tinha que tanto fascinava o animal? 
Seria o seu reflexo? Seria a sua beleza?  
Matilde Pires, 13 anos, Montijo, Escola Secundária Jorge Peixinho, prof São Almeirim

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

30/05/17

Vera Saraiva ― desafio nº 74

Finalmente os ovinhos eclodiram, que alegria! As visitas regulares à amoreira da aldeia para ir recolher algumas folhas para os bichos-da-seda, voltaram. Ao longo dos próximos dias observo os
bichinhos a crescer, até que um dia fazem o casulo. Volta a espera e por fim nascem as borboletas, segue-se o acasalamento e surgem os primeiros ovinhos, que lindo! Num dos dias seguintes cheguei a casa… que tristeza… ali fiquei a observar no nada em que se transformaram.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

09/05/17

Rita Afonso Botelho ― desafio nº 74

Era uma vez um senhor, muito egoísta. Tinha muito dinheiro. Tinha uma grande mansão, com empregados e uma grande piscina. Todas as semanas tinha viagens de negócio pois era o diretor de
uma empresa. Era noitadas sempre que possível e muitas noites acordava com um rosto diferente ao seu lado. Um dia a empresa abriu falência. Perdeu tudo, casa, dinheiro, viagens e noitadas. Não tinha família, não tinha ninguém, ou seja, no nada em que se transformou.
Rita Afonso Botelho, 35 anos, Moita
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

20/04/16

Tempestade de vida

Fechou a velha agenda na qual registava momentos e pequenas emoções. Era o seu castelo de juras, um tributo às conquistas do tempo, furando os dias e as noites mais difíceis. Grande e feliz o sonho que a conduzia. Nada mais importava, nem os degraus do medo, nem os sustos da dor. Seguir em frente e construir a jangada sobre a tremenda tempestade da vida, olhando-a sorrindo por percebê-la enfim rendida no nada em que se transformara.

Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa
Desafio nº 74 – nada em que se transformara


Um nada

Apareceu esgrouviado. Cabelo desfeito, roupa manchada. A mãe teve um sobressalto!
 – Meu filho, o que aconteceu?
E ele nada discorria. Atirou-se para o sofá e sentiu-se de novo criança mimada.
A mãe abanou-o, clamou pelo seu nome. Ele suspirou! – Permitira-lhe a bonança.
A longa noite gélida, tal o rosto do filho. Caíam lágrimas no papel de mãe.
O álcool gatuno! Chegou sem que ela denotasse. Seria tarde demais?
Escutou-se o gemido, do nada em que se transformara.

Andrea Ramos, 39 anos, Torres Vedras

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

28/03/16

Tudo muda

Tudo muda, sem o querermos.
O vento que não sabemos de onde vem,
nem para onde vai, mudam-se as marés.
Muda a natureza, que se renova, de ano para ano.
Muda o tempo, quando faz sol e devia fazer chuva.
Ou quando chove e faz sol para nascer um arco-íris,
faz renascer a esperança, de um amanhã melhor.
Mudam-se palavras de uma canção, menos os segredos
escondidos no coração. Tudo muda 
no nada em que se transformou.

Natalina Marques, 56 anos, Palmela
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

13/09/15

Ainda cá estou...

Não se reconhecia. A perda inesperada do seu filho Luís levara-lhe parte de si. Os dias sabiam a saudade. As saudades, dolorosamente, deslapidavam o seu coração. Havia um vazio inexplicável que a demolia de cada vez que tentava reerguer-se. Tinha a Maria e era preciso ficar por ela. Não reparou no nada em que se transformara senão quando Maria lhe suplicou:
– Mãe, ainda estou cá. Não me deixes…
E metade de si, apenas metade, ficaria…Viveria morrendo…

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 74 – nada em que se transformara


27/02/15

Tudo o que ela teve

Foste tudo o que ela teve. Salvaste-a no precipício e envolveste-a como se de uma jóia tua se tratasse. Mas, onde estás? Onde ela está ou onde ela pensa estar? Em lado nenhum, porque foste dela, sem ela te querer. E, agora, que ela te quer, embora foste. E, como ela sente, como ela fecha os olhos, e sem medo deixa as lágrimas cair. Como ela te querer. Como ela vive no nada em que se transformou.

Ana Sofia Cruz, 17 anos, Porto

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

20/02/15

Viagem pelo tempo e pela vida

Pensava agora em tudo que fora. Em poucos, pouquíssimos minutos, tudo terminaria. Sentia um misto de alívio e dor. Esperara com demasiada ansiedade aquele dia, a próxima hora, o minuto derradeiro. Com a cabeça tomada pelas tantas lembranças, fez uma longa viagem pelo tempo e pela vida, em tudo que fora.  Quis o destino que eles não comparecessem, foi melhor.  Assim não testemunhariam tamanha derrocada. Era desolador, ultrajante, sentir, ver o completo nada em que se transformara.

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil.

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

30/01/15

Desvendada pelo tempo

Admirava-a! Confiava nela! Aparentava uma generosidade e integridade implacáveis e pensava unir-nos uma amizade incondicional e sem juízos de valor com respeito pelas diferenças que caracterizavam cada uma de nós. Mas o tempo foi desvendando o seu verdadeiro eu! Os meus olhos choravam perante a perceção da maldade gratuita e da inveja silenciosa. Presenteava-me com comentários destruidores e gratificava-se com o meu sofrimento que a elevava ao trono real. Desolava-me assistir ao nada em que se transformara.

Fátima Fradique, 40 anos, Fundão

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

09/12/14

Liberdade

A Liberdade vivia exilada em Paris, varrendo os boulevards, espreitando
montras, tiritando de frio, chorando saudades do jardim à beira mar
plantado. De repente troam as trombetas, o povo é quem mais ordena,
podemos voltar, votar, acontecer, viver no nosso país. Alegria a rodos,
a liberdade espraia-se, estende-se a todos os cantos, toca a todos,
somos todos iguais.
Devagar, mansamente, a noite cai! A Liberdade… De manhã consternado
apanho os restos do nada em que se transformara!

Pedro Paiva, 60 anos, São Brás de Alportel
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

13/11/14

Programa Rádio Sim 385 – 13 Novembro 2014

OUVIR o programa! 


No site da Rádio Sim

Nunca é tarde
Sonhava entrar na igreja de branco e ter uma família grande. Conheceu-o e tornaram-se namorados. Apesar de reconhecer as enormes incompatibilidades, Filipa acreditava que não eram intransponíveis. O amor não tinha esse poder? Mas, não teve. Era uma relação de dor e sofrimento. Para quê? Nem pareciam duas pessoas inteligentes. Após anos de luta, psicológica, verbal e até física, ganhou coragem e terminou a relação. Agora é uma nova mulher, renascida do nada em que se transformara.

Margarida Leite, 45 anos, Cucujães
Desafio nº 74 – nada em que se transformara


22/10/14

Encontro insólito

Num acaso insólito, um estranho interpela-a. Porquê? Curiosidade? Estranheza? Humanidade?
Fez-lhe perguntas. Muitas. Que chatice, pensou. Porra! Respondeu sempre, aparentemente, com um discurso lúcido. Desse diálogo resulta uma caminhada conjunta, almejando ela obter o que necessitava e que ele possuía.
Depois de alguns dias, contactou-a. Contactaram-se. Acedeu a uma aproximação invulgar. Desta, iniciam sozinhos, ainda, uma relação ambicionada de amizade, mas no essencial mantém-se indecifrável (?). É afecto(?). Talvez?! Assim alertou-a do nada em que se transformara.

Isabel Pinto, 47 anos, Setúbal

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

19/10/14

Sentimentos ocultos

Olhou em redor, sua filha via televisão, seu genro lia o jornal e a netinha brincava. Desde o AVC, há 5 anos, que ficara assim, vendo tudo e todos mas sem conseguir dizer ou demonstrar qualquer sentimento. Não demonstrava, mas eles estavam lá!
Com 80 anos, levara uma vida completa e feliz, tivera a bênção de uma família unida.
Consciente da sorte tida, agradecia intimamente a Deus – há muito que aceitara o nada em que se transformara.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

13/10/14

Programa Rádio Sim 363 – 13 Outubro 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

Medo de armários
Abriu o armário. Que estranho! Não pensou que uma assombração pudesse desaparecer sem recorrer a bruxas, diabos ou exorcistas. Espreitou melhor. Ainda via a marca do fogo na madeira, de quando a assombração a assustara pela primeira vez. Tudo começara por causa daquela frase, «as crianças têm medo de armários», dizia a vizinha, de braços cruzados sobre o peito. Estúpida! Não há mais assombrações! Fechou o armário com força, sem reparar no nada em que se transformara…

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa 
Desafio nº 74 – nada em que se transformara