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20/09/18

Escritiva nº 36

Há palavras em português que nos dão pano para mangas, e uma delas é a palavra “ponto”.
Já viram quantos sentidos diferentes pode ter? E com quantas expressões distintas a podemos usar?
Isto sim é que é riqueza e ponto final!
A proposta é essa, usar o mais possível a palavra ponto com diferentes sentidos num texto de 77 palavras. 

Não comecem já à procura do ponto fraco deste desafio e leiam o meu exemplo:
Aquela família era um ponto: a mãe passava o dia a dar pontos a testas endiabradas, o pai a pôr os pontos nos is lá na esquadra, o filho, que não dava ponto sem nó, a cortar e a coser no atelier, onde a avó, mestra da costura era um excelente ponto de apoio. Até o avô, já reformado, não punha ponto final ao dia, sem picar o ponto no café do Nunes, às 8 em ponto.

Paula Cristina Pessanha Isidoro, 37 anos, Salamanca
Escritiva nº 36 ― os «pontos» na história

23/08/18

Theo De Bakkere ― escritiva 35

O aquecimento mundial
Nocauteado pelo calor escaldante, ninguém estava capaz de fazer alguma atividade, mesmo na sombra da tília ao pé da varanda ninguém falava, demasiado cansativo. Apenas meu tio tentou animar a gente para conversarmos com sua teoria absurda, que o aquecimento mundial, segundo ele e um tal Donald, não é criado pelo homem.
Somente a minha tia sonolenta reagiu.
― Ó marido, esteja calado! A única contribuição positiva do homem para ecologia, é quando está soterrado sob o gramado.
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica
Escritiva nº 35 – varanda florida

Natalina Marques ― escritiva 35

Minha mãe tricotava, outra vizinha costurava, o marido, barbeiro, fazia também os fatos aos homens da aldeia.
Lembro com saudade, uma dessas tardes, o meu irmão (desenhava belissimamente)
desafiou uma menininha (por acaso nossa priminha) para fazer-lhe o retrato.
Muito orgulhosa de si, fez pose para o retrato, mas o que viu foi uma bela égua...! (Verdade se diga, muito bem desenhada.)
Ela é não achou piada nenhuma à brincadeira, mas ainda hoje nos divertimos com ela.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Escritiva nº 35 – varanda florida

Isabel Lopo ― escritiva 35

Parece entretida a bordar, mas não está. Apenas vai cosendo os seus sonhos naquele bocado de linho velho. Também não ouve a conversa da amiga, nem da criança tagarela que atira palavras ao ar. O mar, esse parece-lhe cada vez mais distante. A esperança de o ver chegar desaparece quando a sombra bate nas flores coloridas da varanda. Agora sabe que ele não virá. Resta-lhe remendar o coração com os pontos que foi dando no trapo amarrotado.
Isabel Lopo, Lisboa
Escritiva nº 35 – varanda florida

Maria Loureiro ― escritiva 35

Tempos meninos
― Olha aquela varanda! Tantas flores!
― Linda. Lembra-me a tua com a sombra das duas buganvílias entrelaçadas, flores roxas e vermelhas.
― Se me lembro! Refugiávamo-nos lá quando fazíamos malandrices.
― No cantinho, atrás dos vasos com alegrias da casa.
― Onde ficávamos montes de tempo a rebentar as cápsulas das sementes. Aquele som, poc, poc…
― Ah, ah! E quando a tua mãe nos apanhou a falar de namorados?
― Fomos a correr à Sé rezar para ela não contar à minha…
Maria Loureiro, 63 anos, Lisboa
Escritiva nº 35 – varanda florida

21/08/18

Margarida Leite ― escritiva 35

Linhas Cruzadas
Luisinha procurava bordar o presente com linhas coloridas, já que o seu coração estava negro como carvão.
― Já te disse que o vi a conversar com a Ana, coladinhos um ao outro.
― Ó rapariga, tem juízo! Lá porque estavam a conversar não quer dizer que ele esteja apaixonado por ela!
― Tá bem! Que eu não vi aqueles olhinhos… eram mel!!!
― Parem com isso. Preciso de me concentrar…
Calaram-se. Sabiam que ouvir falar no Miguel estilhaçava-lhe o coração.
Margarida Leite, 49 anos, Cucujães
Escritiva nº 35 – varanda florida

20/08/18

Chica ― escritiva 35

Essas crianças
― Mamãe, por que paramos aqui?
― Ora, o calor está muito forte e precisamos descansar. Tua tia, carrega João ao colo e ele já pesa nos braços.
― E a cesta no chão?
― Isa, estás muito curiosa! Mas te digo:
Descansamos, ela amamenta  e  mostra o artesanato que faz para vender.
Essa escadaria leva ao mosteiro. Vários turistas passam, talvez algum deles se interesse!
― Tomara, mamãe!  Se ela vender, teremos dinheiro! Podemos ir ao parque e na roda gigante!
Chica, 69 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Escritiva nº 35 – varanda florida