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03/10/19

José Valente ― desafio 156

O asseio do estábulo era uma emergência, o cheiro nauseabundo vagueava na quinta. Ninguém entrava, Benfeita defendia-o energicamente, mostrando-se agressiva e teimosa.
Luzia, ativa e destemida, engendrou um esquema. A vaca ficava atada até à higienização.
Ninguém imaginava, mas a rede ganhou asas. Benfeita voava alegremente na quinta. Rostos aterrorizados divagavam nos arredores.
Luzia, corajosa, deixou o curral num brinco. Benfeita, onde estaria? ― banhava-se no rio.
Contrariada, lá veio ― muito lavadinha. Feliz e amistosa, mugindo com alegria.
José Valente, 20 anos, Alcobaça
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

21/01/19

Carla Silva ― desafio 156


Pseudocantor
Biba colocou algodão nas orelhas e deitou-se. Estava fartíssima daquela gritaria. Não havia um único dia que aquela voz estridente não lhe invadisse a toca. Já tinha usado todos os argumentos que conhecia mas sem efeito. Nada menos duradouro. Nada lhe trouxera a calma necessária. Sentia-se enlouquecer! Naquele momento, mais que tudo, queria dormir! Fazia duas semanas que não fechava olho. Mas quem mandou escolher casa logo ao lado dum macaco uivador com mania de cantor?
Carla Silva, 45 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

31/12/18

Cristina Lameiras ― desafio 156


A Todos os "Norbertos"
Quem se lembra do Norberto, amigo verdadeiro da Margarida Fonseca Santos?
O Norberto vai às escolas, conversa com a criançada, fala dos medos do "Malhadinhas", gato amigo, muito assustadiço.
O "Malhadas" esconde-se atrás das árvores, tem medo de tudo e de todos. Foge das tartarugas, aranhas, mochos e muitos outros animais.
Norberto sai de dentro do livro, conta a sua história aos meninos graúdos e miúdos.
Ensina os cuidados a ter na floresta, aldeia, cidade.
Sem medos...
Cristina Lameiras, 53 anos, Casal de Cambra
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

29/12/18

Maria do Céu Ferreira ― desafio 156


A minha gata
Tenho uma gata branquinha,
Criada com estudantes,
Que se entregava sozinha
A estudos estimulantes!

Ao terminarem o curso,
Também ela terminou,
Não lhe foi dado recurso
Nem as regras alterou.

Herdou belas brincadeiras,
Traquinices com meninas,
Artes e boas maneiras
A bordar lãs e cortinas.

As saudades de Coimbra,
Quais mágoas acumuladas,
Marcaram a sua vinda
Carente das boas fadas.

A minha gata branquinha
Como neve ou algodão,
Sorri de novo, mansinha,
Enrola-se, enroladinha,
Segredando ao coração.
Maria do Céu Ferreira, 63 anos, Amarante
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

24/12/18

Domingos Correia ― desafio 156

A magia de um olhar
Chovia, ventava e o frio entranhava-se na alma dos transeuntes. Eu abrigava-me debaixo da beirada duma casa, aguardando que a chuva abrandasse.
Foi então que vi um gatinho bebé tiritando encostado à roda duma carrinha. A carrinha arranca e eis que, no último segundo, o gatito dá uma corrida, salvando-se de morrer esmagado… assustado, olhou à volta e acabou fixando seu olhar no meu.
Bem, não tive como ignorar… agarrei nele ao colo, afaguei-o e levei-o comigo.
Domingos Correia, 60 anos, Amarante
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Ana Pegado ― desafio 156

Que Ser seria aquele que ali jazia?
Quase imóvel,
Nem um som fazia…
Seria terreno,
Animal?
Ou Divino,
Celestial?...
Volto atrás. Olho a escuridão de frente.
Mas…
Onde está o Ser que antes ali jazia?
Olho ao meu redor…
Escuto o vento. Levanto a cabeça em direção ao céu e eis que…
Algo voa ao largo.
Cada vez mais alto. Longe de mim.
Seria este o Ser que antes ali jazia?
Que Ser aquele, que Ser seria?
Ana Pegado, 32 anos, Lisboa
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

20/12/18

Rosário Morujão ― desafio 156

Era uma vez o cão Titó e o gato Laçarote. Mal se viam um rosnava, o outro bufava. Um dia o Titó adoeceu e foi internado. Durante uma semana, o Laçarote foi o senhor da casa. Mas andava triste, cabisbaixo, mal comia. Só voltou a estar alegre quando o Titó voltou. Recebeu-o a bufar, claro. O Titó rosnou, evidentemente. Daí a nada dormiam aninhados lado a lado. Tinham descoberto que não conseguiam viver um sem o outro.
Rosário Morujão, 52 anos, Lisboa
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

16/12/18

Celina Silva Pereira ― desafio 156

Tudo é animação. Há trinta dias, Benji deixara um vazio. Dengo, vira-latas, chegou sozinho de fora. Em seguida, foram muitas ruas andadas, enquetes com vizinhos, anúncios, choro, orações, visitas de amigos, solidarizando-se.
Um dia, o chefe da família viu o vulto do cãozinho na sala, só miragem – ou visão. O certo é que no dia seguinte houve telefonema do site, que deu a localização de onde trouxeram de volta o chiuaua, já no mês do Natal.
Celina Silva Pereira, 68 anos, Brasília, Brasil
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

13/12/18

Paula Castanheira ― desafio 156


― A refletir na morte da bezerra?
― Que absurdo, Raimundo! Contigo ou entra mosca ou sai asneira!
― É verdade, lembras-me uma barata tonta. Nunca mais foste o mesmo!
― Fiz figura de urso com a Maria!
― Vocês davam-se como cão e gato. Foi melhor assim.
― Sim, ela fazia de mim gato chinelo!
― Chinelo? Macacos me mordam, estás mesmo atrofiado das ideias!
― Só quero é dormir. Esquecer.
― Não me digas que te vais deitar com as galinhas. Vamos é divertir-nos!
Paula Castanheira, 54 anos Massamá
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

11/12/18

Maria Loureiro - desafio 156


Alguém da vizinhança brindou-nos um gatito, através da sebe do quintal.
Lembro-me que à noite lhe demos as sobras do frugal jantar. Vivia-se em guerra, tudo escasseava, só a insegurança e o medo, mas também a coragem, eram grandes. O gato, solidário, deve ter assobiado aos familiares… nos dias seguintes contavam-se catorze…
O solidário ganhou o direito de ser único a entrar em casa, detestava festinhas com as mãos, deliciava-se quando, sentados a estudar, o acariciávamos descalços.
Maria Loureiro, 63 anos, Lisboa
Desafio nº 156 – hist de animais sem P 

Ana Paula Oliveira ― desafio 156


O mundo tem-se confrontado com bizarros animais! Consideram-se seres líderes, autodenominam-se inteligentes, criam mil artefactos, inventam máquinas, invadem outros mundos…
Todavia, tais como os outros (os denominados irracionais), dão evidências de selvajaria: marcam o seu território, humilham os que consideram hierarquicamente inferiores, atacam, dissimuladamente, quando ameaçados, matam, até, a fim de alcançarem os seus intentos.
Os machos dominantes são, geralmente, uns cretinos. Acreditarão eles que a cretinice os favorece sobremaneira?
Tão racionais e tão imbecis, estes animais!
Ana Paula Oliveira, 58 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 156 – hist de animais sem P 

07/12/18

Teresa Fontinha ― desafio 156


Uma história e, simultaneamente, uma terna recordação de infância!  
Cresci numa quinta, rodeada de muitos animais, entre eles uma mula  
castanha. Era elegante e muito meiga, filha de uma égua, a quem dava  
ares, e de um burro. Descobri novinha que as mulas não têm filhos, o  
que muito me sensibilizou, tanto que o meu irmão mais velho, quando  
queria irritar-me, bastava chamar-me o nome desse animal e logo eu  
gritava:
― Mula não! Eu quero ter filhos!
Teresa Fontinha, 44 anos, Faro
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Filomena Galvão ― desafio 156


Alba é o seu nome. É uma rena branca que vive na Escandinávia, animal muito raro devido à cor, mas não é albina, a cor advém-lhe de uma condição genética. Adora a neve e gosta muito do Natal. No entanto, anda cabisbaixa, triste. Rodolfo, a líder cujo nariz é vermelho e brilhante, não a contratou, não irá auxiliar nos trenós, não deslizará na neve, carregando as tradicionais oferendas natalinas, não a seguirá a voar e a cantar. 
Filomena Galvão, 57 anos, Corroios
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Helena Rosinha ― desafio 156


Hora de confusão em Animália. Agitam-se ramos de árvores, escancaram-se tocas, trotam-se carreiros, segue a romaria; chegados ao largo das ruínas, aguardam. Soa a trombeta de Elefante e logo Galarote, vaidoso de mil cores, salta a vedação;  faz vénia à assistência enquanto, do lado contrário, surge curioso, Lobo Açaimado. Galarote salta, esvoaça sobre Lobo, finca-lhe reiteradamente violentas e fundas bicadas. Animais na bancada aclamam, berram, rugem. Chamam-lhe demonstração artística.
“Demonstração de dor e sangue…” contesta Garça-branca, retirando-se.
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira 
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Francisca Reis ― desafio 156


Amanhecia na selva. Inalei, exalei. Medo
Verifiquei o calendário. Era mesmo O dia.
Tocou a corneta. Lambi-me e fui.
Trocámos um daqueles olhares. Soou a corneta. Sangue fresco. Crias maduras ainda com o sonho de virem a ser alguém. Sangue. Nesta selva só há sangue. À minha volta todos lutam: querem assistir na fila da frente.
Olhei as crias. Só desejo que encontrem bons amigos. Isolados não sobreviverão. Eu sobrevivi. Já tive amigos; mas a selva levou-mos…
Francisca Reis, 17 anos, Cantanhede
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

05/12/18

Marta Sousa ― desafio 156

A lagarta lembrou-se das amigas que se tinham transformado. Admirava as suas asas coloridas, a sua alegria, mas imaginava que tais transformações deveriam doer muito. Sentia-se a encolher enquanto tecia o seu casulo. A altura estava a chegar. A verdura do seu alimento rodeava-a, mas sentia que o céu a chamava. Um azul muito maior do que o verde a que se acostumara. Veria outros mundos, outros verdes. Talvez, até outros tons de azul. Será que conseguiria?
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro.
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Theo De Bakkere ― desafio 156

O gato da Virgínia
Um dia, vizinha Virgínia, deu baixa na clínica mas nunca mais voltou a casa. Sem convite, seu gato abandonado sentia-se à vontade em nossa casa e mudou de morada. Embora estivesse bem-educado tinha suas esquisitices. Então, nunca te atrevas a mover-te quando ele dorme ao teu colo, dado que resmungará, muito feroz. Evidentemente, aborreceu-me a sua caça em tudo o que tem asinhas. Não obstante, ficou meu bem, sobretudo quando queria jogar o jogo das escondidas comigo.
Theo De Bakkere, 67 anos, Antuérpia - Bélgica
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Natalina Marques ― desafio 156

O sorriso morreu-lhe nos lábios, quando abriu o embrulho e viu o que estava lá dentro, mostrando a desilusão no rosto ansioso.
Disse com um sorriso amarelo...
― É giro.
Não ficou convencido, evidentemente sabia que não era aquilo que ela queria.
Mas, contrariá-la, era o que ele mais desejava, dava-lhe um certo ar de dono do seu animal de estimação.
Vendo-lhe no rosto aquele sorriso maquiavélico, disse-lhe com toda a calma que conseguiu ter...
― Sua  grandessissima  cavalgadura.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

01/12/18

Elsa Alves ― desafio 156

Era um animal. Não agia como um homem. Sôfrego, comia com a boca cheia. Não usava talheres: era à mãozada que enfiava a comida, goela abaixo. Violento, metia-se em bulhas e batia, diariamente, à mulher e aos filhos. Malcriado, dizia asneiras, a torto e a direito. Avarento, amealhava cêntimo sobre cêntimo, não fazendo ofertas, esquecendo aniversários e até o Natal. Emendo o que disse inicialmente. Os animais não agem assim... Uma grandessíssima "besta" é que ele era!!!
Elsa Alves, 70 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 156 – hist de animais sem P

Constantino Mendes Alves ― desafio 156


Do que se sabe é que era um animal que vivia no continente antártico, vestia de casaca e o seu nome rimava com amendoim. Tinha uma vida difícil, gelada, mas nós achávamos que ele se divertia muito, ia a muitas festas, o seu ar enganava-nos. Vivia muitas semanas, meses, no mar frio do sul, outros meses tratava de chocar ovos e cuidava das suas crias. Tanto macho ou fêmea. Vidas muito difíceis, duras numa constante de sobrevivência.
Constantino Mendes Alves, 60 anos, Leiria
Desafio nº 156 – hist de animais sem P