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16/07/20

Carla Silva – desafio 207

Ignorando os demais sentou-se no banco gelado. Ali sentia um rasgo de tranquilidade como se a dor da perda fosse desaparecendo. 
Sabia o que diziam dele. Que era um pobre diabo sem ter quem se preocupasse com ele. Outrora tivera... Daí o vazio, desejo de ir ali, onde a conhecera. 
Tinha plena consciência do absurdo da situação. Não estava louco. Apenas queria fingir que ela chegaria. Que como sempre, eram dois mas só tinham uma sombra.
Carla Silva, 46 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

09/06/20

Helena Rosinha ― desafio 207


Madrugava. No corpo o cansaço da véspera, e da outra véspera, o cansaço de todas as vésperas. Saía para vender peixe na cidade longe, como fizeram antes mãe, avós, bisavós. Na cubata, entregues a ninguém, ficavam os mais velhos, filhos gerados à razão das vindas do homem, sempre fora. O mais novo, de poucos meses, levava-o colado a si;  no caminhar, o mesmo balanço, o mesmo respirar. Nunca se separavam. “Eram dois, mas só tinham uma sombra.”
Helena Rosinha, 67anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz 

21/05/20

Toninho ― desafio 207

Paula e Bebeto, amigos enamorados. Tinham em comum paixão pela natureza. Bebeto, jovem sonhador, trocou a capital pela vida rural. Paula, uma patricinha, não pensou duas vezes, pegou sua mochila partiu para junto dele. Foram viver na Serra da Canastra junto da nascente do São Francisco. Eram soldados do ecossistema. No verão quando dos incêndios naturais eram os primeiros no combate. Eram guias aos bombeiros e voluntários. Ali sabiam que eram dois, mas só tinha uma sombra.
Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia-Brasil
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz
Publicado aqui: Desafio 207

19/05/20

Helena Nunes ― desafio 207

A distância é apenas uma palavra.
Não sabe onde estás mas sabe que estás aqui.
O teu perfume ocupa o ar que o rodeia.
O teu toque ainda acaricia a sua pele.
O teu riso faz-lhe cócegas e puxa o seu.
A tua voz embala os seus sonhos nas noites escuras.
Caminha na rua e não te vê.
Mas estás aqui.
O sol abraça-vos, aquece-lhes o corpo e a alma.
Eram dois, mas só tinham uma sombra.
Helena Nunes, 26 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

18/05/20

Lica ― desafio 207

Eram dois mas só tinham uma sombra quando ela saltava do seu trapézio para agarrar as mãos do outro trapezista. O seu baloiçar debaixo da iluminação do circo, fazia uma sombra só. Era só um momento, mas aquele momento era uma prova de confiança absoluta. 
Se todas as pessoas- casais, pais, filhos, amigos- confiassem cegamente umas nas outras, haveria muito mais luz no mundo, porque haveria muito menos sombras. A sombra cansa, porque está sempre agarrada a nós. 
Lica, 81 anos, Lisboa
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Marta Rodrigues ― desafio 207

Viam-se todos os dias. Todos os dias o mesmo transporte, o mesmo percurso, mas não se conheciam. Tirando o "bom dia" e "boa tarde" nunca tinham falado. Ficavam na mesma paragem à espera em pontas opostas. 
Até que chegou o Verão. E para fugir à torreira do sol juntaram-se os dois à sombra. Pela primeira vez conversaram enquanto esperavam. 
Desde então deixaram de ser estranhos e ficaram amigos. 
Tudo porque eram dois mas só tinham uma sombra. 
Marta Rodrigues, 21 anos, Albufeira 
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Mónica Marcos Celestino ― desafio 207


Ter queria o navio
ao mar por fiel companheiro
e, cativo, nos seus braços baloiçantes
o seu rumo prosseguia.

Envolto nas prateadas espumas
que o mar luzia galhardo,
até a sonhada longínqua terra
o seu timoneiro incerto dirigia.

As suas matreiras águas dançarinas
percorria com passo temperado
contudo os aromas de sal
cobriam os seus vergados mastros.

Livre aquele navio vogar ansiava
mas o malandro mar
nas ondas sempre persegui-lo-ia.

Eram dois, mas...
só tinham uma sombra.
Mónica Marcos Celestino, 47 anos, Salamanca (Espanha)
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

15/05/20

Fernanda Malhão ― desafio 207

De manhã, um queria acordar cedo e se arranjar depressa para a azáfama dia cheio de compromissos urgentes e inadiáveis, o outro queria esticar a noite só mais um bocadinho, podia ser que conseguisse acabar aquele sonho que estava a ser tão bom de sonhar. Mas o outro puxou-lhe pelo braço, levou até o espelho da casa de banho, olharam-se bem nos olhos um do outro e sem dúvida descobriram: Eram dois, mas só tinham uma sombra
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

14/05/20

Isabel Lopo ― desafio 207

Eram gémeos muito especiais. Um chumbava, o outro também. Separaram-nos em escolas diferentes. Nada resultou. Um dia apaixonaram-se pela mesma rapariga. Mantiveram o namoro a meias. Na hora do noivado tiraram a sorte .O felizardo convidou o outro para padrinho. O Noivo atrasou-se e o gémeo recebeu a bênção. O primeiro apareceu. Disfarçadamente recebeu as alianças. Só os Pais perceberam, guardando segredo, pois sabiam haver qualquer coisa diferente naqueles filhos: Eram dois mas tinham a mesma sombra.
Isabel Lopo, Alentejo
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

12/05/20

Rosário P. Ribeiro ― desafio 207


Eram grandes amigos. Amigos desde que foram trazidos para ali, dentro de uma caixa de sapatos. Partilhavam cama, comida e donos. As brincadeiras não tinham razão de ser se não estivessem os dois. Quando tinham frio, aninhavam-se um no outro, para se aquecerem. Eram tão unidos que os donos, inspirados, chamaram a um “cão” e ao outro pincher. E, em dias de muito sol, havia mesmo quem jurasse que eles eram dois, mas só tinham uma sombra.
Rosário P. Ribeiro, Lisboa
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Verena Niederberger ― desafio 201

Desde tenra idade Pedro e Elisa eram inseparáveis.
Na idade escolar nada mudou.
A pequena Elisa só queria saber de ficar na sala do irmão.
No recreio os irmãos permaneciam, sempre, unidos.
Quando um passeio era programado,
Elisa só iria se o irmão, também, lá estivesse
E assim o tempo foi passando...
Foram morar no exterior.
Mamãe convive com a saudade.
Dia das Mães, quanta emoção.
Chegam flores...
O remetente???
Eram dois, mas só tinham uma sombra.
Verena Niederberger, 69 anos, Rio de Janeiro, Brasil
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Theo De Bakkere ― desafio 207


Tiozinho
Eram dois, mas só tinham uma sombra. Quiçá um quebra-cabeças!
Todavia tornava-se um agradável primeiro encontro com a tia do Afonso Cruz.
Meu tio também adorava ver passarinhos, tinha o aviário cheio de diversas aves canoras.
Podia imitar cada canto desses seres alados, mas também viveu com essa contradição humana, sendo um incorrigível passareiro. Usava cada meio de caça sem qualquer remorso, redes, esparrelas e ramos lambuzados com visco.
Mesmo quando foi proibida, tiozinho continuava a captá-los.
Theo De Bakkere, 68 anos, Antuérpia Bélgica
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Desafio nº 207

Nada como a leitura para nos levar à escrita.
Deixo-vos uma frase que terá de aparecer no início ou no fim do texto:

“Eram dois, mas só tinham uma sombra.” (A contradição humana, de Afonso Cruz)
Toca a escrever, já só faltam 70 palavras.

Eu fiz assim:
Eram dois, mas só tinham uma sombra. Caminhavam juntos, de passo sincronizado. Quando um andava mais depressa, o outro acelerava. Depois, paravam, olhavam-se nos olhos, procuravam pistas. Adivinhavam-se.  Se um pensava num salto, o outro imaginava um pulo. Um esticava-se, o outro alongava-se. Os minutos passavam, o nervoso crescia. Dois corações palpitantes anunciavam a hora de agir sem pensar para pôr fim à sincronização. Sabiam que só um poderia ganhar. Afinal, era a última fatia de bolo.
Isabel Peixeiro, 37 anos, Mafra
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

11/05/20

Margarida Fonseca Santos – desafio 207

Andavam nas frases dos colegas, por todo o lado, talvez misturando inveja com admiração, ou mesmo raiva e indignação, por serem tão amigos, pelo amor tão grande, por a harmonia por eles plantada como casal ser cuidada dia após dia, ou por nada em especial, só por ser preciso falar de qualquer coisa, e eles serem um alvo fácil, um alvo que tanto podia ser abatido como glorificado, talvez… E eram dois, mas só tinham uma sombra.
Margarida Fonseca Santos, 59 anos, Lisboa
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Natalina Marques – desafio 207


― Porque choras? ― perguntou ansioso.
― Não é nada ―  respondeu ela, tentando disfarçar.
― Que se passa, sabes que não gosto que estejas triste. Foi ela, não foi? Humilhou-te de novo.
― Não tem importância, e eu também não quero aborrecer-te com os meus problemas.
― Os teus problemas, são os meus problemas, o teu sorriso, é o meu sorriso, a tua dor é a minha dor,  tudo  superamos juntos com o nosso amor.
Porque ERAM DOIS, MAS SÓ TINHAM UMA SOMBRA.
Natalina Marques, 61 anos, Palmela
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Alex Santi ― desafio 207


Fixava-se na imagem retida na retina do espelho e buscava descobrir o sentimento na expressão do rosto, alguma transformação impercetível ao outro, não a ele próprio; algum sinal discreto na superfície. Era como se investigasse um desconhecido: olhares e gestos que servem para compor a unidade, da pluralidade que se vai revelando. Na cumplicidade do espelho eram dois (consciência e corpo), mas só tinham uma imagem; na indiferença da cidade eram dois, mas só tinham uma sombra.
Alex Santi, 28 anos, Ericeira
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Patrícia Marques ― desafio 207

Àquela hora da tarde, a planície alentejana fervia sob a tirania de um sol que não vacilava jamais. O rio corria ao longe, atirando melodias frescas ao céu que, em tons de azul abençoado, observava ternamente os dois adolescentes, ali deitados, junto à oliveira de copa larga. Não era o sol que os queimava. Era aquele inquestionável sentimento que os trouxera até ali e lhes mudaria a vida para sempre. Eram dois, mas só tinham uma sombra. 
Patrícia Marques, 48 anos, Entroncamento
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Filomena Galvão ― desafio 207


Nunca se deram mal. Eram amigos de longa data. Acabaram por fazer o mesmo curso e exercer a mesma profissão. Ambos eram palhaços, a diferença é que um era pobre, o outro era rico. Mas em palco completavam-se. Aquilo de que mais gostavam era do riso das crianças. Aproximava-se a hora de entrar em cena, tinham que acabar a maquilhagem. Em cima da hora aperceberam-se que Eram dois, mas só tinham uma sombra. Implicaria isso alguma discórdia?
Filomena Galvão, 58 anos, Corroios
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

10/05/20

Paula Castanheira ― desafio 207


“Eram dois, mas só tinham uma sombra.”
Falava sobre os pais e quase de rajada, saiu-lhe esta frase.
Era um jantar de amigas. O destino tinha-as colocado num mesmo caminho, desesperadas à procura de romance.
Paula acabada de sair de um tortuoso divórcio, cambaleava ainda por terrenos incertos.
60 anos juntos, amigos, cúmplices.
Todas atentas, todas aos ais. Todas a desejarem aquela história de paixão para elas, e nem a panacota da sobremesa lhes desviou a atenção.
Paula Castanheira, Massamá
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz

Paula Isidoro ― desafio 207

Eram dois, mas só tinham uma sombra. Um verdadeiro problema, na verdade, dado que sendo ambos albinos, ficar ao sol todo aquele tempo não era particularmente agradável e menos ainda aconselhável. O chapéu e as camadas de protetor com que a mãe, cuidadosamente, os tinha barrado, qual torrada de café, ajudavam um pouco, mas não o suficiente. Como resolver então a questão? Se é para estarmos ao sol, que seja, pelo menos, em ação. Mister, posso entrar?
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 39 anos, Salamanca
Desafio nº 207 ― frase de Afonso Cruz