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14/10/17

Susana Sofia Miranda Santos – escritiva 19

Comecei a minha vida sendo um gigantesco livro de colorir.
Gina, a educadora de infância, ofereceu-me à sua filha e, carinhosamente, na sua companhia, coloriu com dezenas de marcadores os meus desenhos. Através da pintura, mãe e filha evidenciavam afecto mútuo.
Posteriormente, Gina levou-me para a creche, recortando as minhas páginas para construir chapéus para uma festa divertida!
Quando a festa terminar os chapéus irão para o lixo.
Após a reciclagem, qual será o meu novo destino?
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos


27/09/17

David Prudêncio Espírito Santo - escritiva nº 19

A t-shirt
Eu era uma t-shirt bem tratada, lavada sempre que usada, era como se fosse a número um das t-shirts que havia no roupeiro, levava-me sempre vestida, no inverno levava-me debaixo da swet, da camisola de gorro e do casaco, na primavera em cima da swet e no outono debaixo da camisola de gorro.
Houve um dia em que eu deixei de servir e atiraram-me pela janela. Passei dias a voar até que parei à porta de um mecânico, e agora usam-me como pano.
David Prudêncio Espírito Santo, 11 anos, Torres Vedras

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

26/08/17

Quita Miguel ― escritiva nº 19

Quadro roubado
Eva sempre adorou feiras de rua. Todos os sábados percorre locais onde se reúnem pessoas que procuram desfazer-se de coisas para as quais alguém talvez ainda encontre utilidade.
O melhor negócio que Eva fez e que, por um tempo, a deixou verdadeiramente orgulhosa, foi a aquisição de dois quadros com molduras de talha dourada.
Mas a alegria duraria pouco já que a polícia bateu-lhe à porta, reclamando as obras de arte roubadas e exigindo a sua devolução.
Quita Miguel, 57 anos, Cascais
Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» https://www.smashwords.com/books/view/595005

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

12/06/17

Amélia Meireles ― desafio escritiva nº 19

Com vinho branco ou tinto, conseguia sentir o prazer que os lábios exalavam quando mergulhados no líquido que unia as risadas à volta da mesa. Naquele dia, algo correu mal e, sem dar conta, sentiu-se rasgado. A sua dor acompanhou o desalento das mãos que o envolviam. Terminara o seu destino como copo. Agora, no parapeito da janela da cozinha, acolhia a avenca. Sentia saudades do que fora, porém, percebia que, enquanto vaso, continuava a ser útil.
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

01/05/17

Maria Azenha ― desafio escritiva nº 19

Era uma bota de borracha que nascera com um grave defeito: tinha um buraco na biqueira. Ninguém a achava útil e por isso estava abandonada num canto da fábrica onde nascera.
Até que um dia tudo mudou. Um rato começou a armazenar nela os seus queijos preferidos. Atraídos pelo cheiro, outros ratos passaram a frequentar aquela bota.
Passado algum tempo, a bota tornou-se o restaurante mais conhecido de todos os roedores da zona. Passou a chamar-se "Pé-de-Queijo".
Maria Azenha, 9 anos, Sintra
Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

30/04/17

Elisabeth Oliveira Janeiro ― desafio escritiva nº 19

A Arca do André
Corria um ano da graça do século vinte, numa vila do Porto, berço do Infante, o Navegador... No quarto de solteira da irmã do nosso herói, havia uma mala misteriosa, que ia guardando o bragal,

25/04/17

Reutilizar livros

Lá em casa, já não havia espaço para mais livros. Estantes a abarrotar, nas mesas, nos quartos, no sofá. Por todo o lado, só livros. Livros de história, de histórias infantis, poesia, ensaios, romances. O avô sempre que os visitava, dizia: ― há livrarias com menos livros. A avó exclamava: ― credo! Nesta casa não se vê mais nada...
Até que um dia a mãe resolveu reutilizar os livros, fazer um armário para livros, com livros. Adoramos. Ficou giríssimo!
Alda Gonçalves, 49 anos, Porto

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

Ana Paula Oliveira― desafio escritiva nº 19

Nasci flor. Vermelho em todo o seu esplendor. Discreta e sem vaidade, de suave odor mas com muita cor. Cor do amor.

Regina Gouveia ― desafio escritiva nº 19

― Adereço bonito!
― Fi-lo, usando uma ágata e um botão da minha avó, herdado por uma filha que o guardou junto de outros. Poderiam dar jeito... Nunca o reutilizou.

Maria do Céu Ferreira ― desafio escritiva nº 19

A sina da boneca
Nasceu boneca vistosa,
Elegante e enfeitada,
Perfumada como rosa,
Sendo muito estimada.

22/04/17

Isabel Lopo ― desafio escritiva nº 19

O velho copo de cristal recordava-se de fazer parte do melhor serviço da casa. Agora, por ser o único que sobrara, vivia numa vitrine, mesmo baço e lascado.

Theo de Bakkere ― desafio escritiva nº 19

Um maço de poemas
Queria ressurgir como um maço de poemas, escrito na língua materna de Camões de qual sou amante. Além, nas terras lusófonas, encontrarei sempre um leitor ou um ouvido dócil que tal prosa saiba

Natalina Marques ― desafio escritiva nº 19

O teu dono nunca repôs a letra que perdeste.
Foste posta de parte, esquecida num canto, porque agora há um novo teclado.

20/04/17

Chica ― desafio escritiva nº 19

Os velhos cucos
Reentrou na casa dos pais. Fechada. 
Mãe na clínica, pai morto. 

Margarida Fonseca Santos ― desafio escritiva nº 19

Estou tramado com isto. É uma despromoção e tanto! Quando era importante, fechava uma embalagem de preciosos conteúdos informáticos (dizem, que a mim nunca me deram informação

Desafio Escritiva nº 19

Eu confesso que gosto de reutilizar tudo e mais alguma coisa, que fico feliz quando posso dar uma segunda vida ao que quer que seja e adoro, adoro, adoro, comprar coisas em segunda-mão. Ora, isto faz com que eu imagine muitas vezes como foi a vida anterior de um determinado objeto, como era o seu dono, se foi bem ou maltratado, esse tipo de coisas inúteis para o progresso do Mundo, mas que a mim me deixam bastante mais tranquila.

Ora é exatamente isso que proponho desta vez: imaginem como foi a vida de um determinado objeto, por que atribulações passou, que sacrifícios teve que fazer. Eu deixo-vos aqui um dos muitos exemplos que vos podia dar, já que me dedico a imaginar vidas passadas em objetos do quotidiano.

Tinha nascido para ser lata, coisa herdada de família a que não se atreveu a dizer que não chegado o momento de acolher, mesmo contrariada, aquelas sardinhas. Se ainda fossem umas lulas recheadas, um bacalhau com grão, mas sardinhas... O que não imaginava é que acabaria no meio do mato, numa ração de combate convertida finalmente em cinzeiro. De repente, sentiu saudades do mar e das sardinhas, respirou fundo e conseguiu ainda sentir aquele cheiro a escama.
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 35 anos, Salamanca
Desafio Escritiva nº 19 - vidas passadas de objetos