20 fevereiro 2017

Desafio Escritiva nº 17

Desculpas de mau pagador, desculpas esfarrapadas, histórias da carochinha, conversa fiada são todas expressões de que me lembro quando penso em desculpas ― e eu penso frequentemente em desculpas. 
Não porque as use muitas vezes (ou talvez isto seja uma desculpa?), mas porque as oiço todos os dias, mais do que uma vez por dia: sou professora e está tudo dito!

Ora, pensando bem no assunto e como estava um bocadinho cansada de ouvir sempre as mesmas desculpas para as perguntas de sempre, decidi mudar de estratégia e passei a pedir uma “boa desculpa” a cada aluno que não fazia os trabalhos de casa, que chegava tarde à aula, que não trazia o material, que não trazia as mensagens assinadas pelos pais.

E o resultado foi “fantástico”! Sim, sim, porque eles inventaram histórias do arco da velha!
Deixo-vos uma pequena amostra do que podia perfeitamente ser uma das desculpas deles:

― Estás “relativamente” atrasado ou sou eu que tenho o relógio adiantado?
― Sabe professora, o problema é exactamente esse: o tempo é relativo! Sei isso porque o meu tio acabou de construir uma máquina do tempo e fui com ele ao futuro e vi coisas extraordinárias. Só que era uma viagem experimental e demorámos mais do que o previsto. Mas tenho uma coisa para lhe contar: vou ser Primeiro Ministro e vou convidá-la para ser Ministra da Educação?

Paula Cristina Pessanha Isidoro, 35 anos, Salamanca
Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

Programas Rádio Sim - 20 Fevereiro 2017

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 17h45, todos os dias

Quer saber que histórias foram lidas? Vá por aqui:

19 fevereiro 2017

Filatelia e 77 palavras - todos os 7 textos


Ao chegar ao fosso do castelo, o cavaleiro estacou. Embora tivesse a certeza de que era ali que deveria entrar e pedir ajuda para a demanda, um arrepio agitara-lhe a coluna vertebral e os receios. E se não o quisessem ajudar? Se tudo não passasse de uma ideia pouco realista? Pior… E se ele, cavaleiro do Rei, não fosse suficientemente experiente ou corajoso para cumprir o que Sua Majestade lhe confiara? Um cansaço doentio abateu-se sobre ele.

Margarida Fonseca Santos, 55 anos, Lisboa

 

Para o segundo excerto, era necessário incluir isto: (aquele/o/um) rosto não era preciso. Quem seria?

 

O ranger sombrio dos pesados portões invadiu-o de maus pressentimentos. Agarrou as rédeas com garra – mantendo-as curtas –, tocou o cavalo, incitando-o a caminhar, e lançou um último olhar aos arredores submersos em neblina e mistério. Quando os portões se fecharam atrás dele e o pajem segurou as rédeas do animal voltou a sentir um frio na nuca ao reparar numa figura sinistra que, apesar do elmo, sabia que conhecia: o rosto não era preciso. Quem seria?

Maria José Castro, 56 anos, Azeitão 

 

Para o terceiro excerto, era necessário incluir isto: E nada mais poderia fazer, precisava de o enfrentar.

 

Não haveria outra chance, restava-lhe apenas prosseguir, ainda que totalmente tomado pela sensação de pânico, e, tendo a nítida impressão de conhecer a figura que se escondia por de trás das ferraduras, seu sexto sentido não o traíra jamais. Respirou longamente.  Com esforço sobrenatural tentou descer do cavalo, mas sentia-se completamente paralisado. As pernas pareciam congeladas. De súbito já não sentia as mãos. Travara inteiramente. Seria um desmaio? E nada mais poderia fazer, precisava de o enfrentar.

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil


O quarto texto, de 77 palavras, claro, teria de incluir (no fim) isto: 

... Era uma fraqueza sua ou do atacante?


Ao longo do adarve, os guardas beligerantes rufaram nos escudos. Com o clamor estrondoso, o cavaleiro sentia-se voltar a si. Embora sempre tentasse evitar aquelas brigas armadas, desta vez não lhe davam outra solução. Apenas desceu do cavalo e já devia entregar-se a uma luta, espada contra espada. No entanto, estava visto que nenhum deles venceria. Talvez ainda surgisse uma viragem inesperada na luta, e pudessem acabá-la sem que soubessem: era uma fraqueza sua ou do atacante?
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia, Bélgica

O quinto texto (perto do final) as 77 palavras teriam de incluir (no fim) isto: 

Poderiam agora começar a construir uma estratégia. O Rei esperava, e juntos poderiam vencer.


Na verdade, não seria fraqueza, pelo contrário, era sinal de inteligência. A defesa do reino estava em causa e porquê escolher o melhor para a disputa com o inimigo quando uma equipa de aliados se tornaria uma alternativa mais forte. Lançou a espada para longe como se esteasse a bandeira branca, levantou os braços em sinal de paz e chamou o seu opositor.

Poderiam agora começar a construir uma estratégia. O Rei esperava, e juntos poderiam vencer.

Mara Domingues, 36 anos, Lisboa

O penúltimo texto, teria de acabar assim:
...Cansados mas vitoriosos souberam que só faltava um pequeno detalhe.

Sentaram-se a debater a melhor forma de viver em união, afinal ambos visavam o mesmo objectivo.
As conversações mantiveram-se acesas até altas horas da madrugada. Teve momentos que pensou que perderia esta batalha, mas quando o sol nasceu apertavam as mãos em sinal de acordo. Naquele instante, embora se sentissem cansados mas vitoriosos souberam que só faltava um pequeno detalhe.
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

Para o último texto, o fim será:
Das mãos do Rei, mais do que uma recompensa, recebeu um aperto de mão. Conseguira.

Tinha de encontrar o Rei o mais brevemente possível, não podia perder mais tempo. Guardava em sua posse o foral que fora roubado e que recuperara durante uma batalha sangrenta. Mantinha-o junto ao peito envolto em cabedal, pois o rei confiou-lhe esta função em segredo. Este documento era essencial para o desenvolvimento e importância da Vila de Olivença. Ajoelhou-se com orgulho e, das mãos do Rei, mais do que uma recompensa, recebeu um aperto de mão. Conseguira.
Isabel Pinela Fortunato, 43 Anos, Amadora



Trevo da Sorte

Estava presa, acorrentada,
Mesmo sozinha comigo,
Encontrava-me pisada
Numa espécie de castigo.

Uma polémica interna,
Juntando falsos amores,
Insatisfação extrema,
Desfiando dissabores.

Confusão estabelecida,
Acompanhada sozinha,
Ao saber-me subtraída
Da alma gémea da minha.

Simples para alguma gente?...
Eu queria «trevo da sorte!...»
Numa luz incandescente,
Apontando-me o Norte.

Mudança era questão,
Mesmo sem nesga de fé…
Indagava o coração:
«O chinelo do meu pé?...»

Apareceu finalmente!
Tremeluzi a galope…
Misterioso, diferente,
Ei-lo ― «meu trevo da sorte!»
Maria do Céu Ferreira, 61 anos, Amarante

Desafio Rádio Sim nº 46 – 12 palavras impostas

Recomeçando

O sono envolve-nos, como quem agarra a vida. Apodera-se de nós, com a sua magia, e num estalar de dedos, faz com que adormeçamos após um árduo dia de trabalho.
Espera-nos o dia seguinte. Aí, o sol só finge nascer. Uma manhã repleta de ternura com o pipilar dos pássaros e o doce zunido dos moscardos já nos enche a alma. O ciclo recomeça e, com esforço, alcançamos os nossos objetivos, após inúmeros obstáculos que conseguimos ultrapassar.
Sofia Silva (13 anos) e Leonardo Martins (14 anos), Colégio Paulo VI, professora Raquel Almeida Silva, Gondomar

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

Encontra-me

ONDULA ONDA ONDULANTE, ONDE VAI... ONDA CAI!
Ondula a tua mão no meu cabelo "cutucando" desejos meus.
Onda que levanta ebulição, semeando borboletas em frenesim pelo corpo.
Ondulante, baralhas fios, teces um coração sofrido. Sinto-te nu, amor!
Onde anda aquela paz que te invade quando me sente?
Vai, amor meu, apazigua tuas insónias...  vai e busca Afrodite.
Onda que semeia ebulição... levanta borboletas pelo corpo em frenesim...
cai-me nos braços de seda, deixa-me levar-te pela melodiosa brisa.
Eurídice Rocha, 50 anos, Coimbra
Desafio nº 5frase de sete palavras, cada palavra está depois de 10 em 10 palavras

Asas na lua

Olha e vê…
Caminho estreito, tipo queda livre.
Não é gozo, é só ler a cara já sem cor.
Fugaz razão, devastadora, aniquilando verdades apaziguadas.
Tem de ter alma por si só, como um raio de sol.
Sofrimento contido, odiando avareza perante mundo perdido.
Ser ou não ser… som que nos leva!
Faz-se ouvir, música reciclada, pouco percetível, quase abafada.
Cai o pano, algo fica no ar.
Leitura enraizada, enriquece, expande sabedoria.
Voar nas asas da lua.
Prazeres Sousa, 53 anos, Lisboa

Desafio RS nº 35 – até 4 letras, mais de 4

Sou bule

Sou um bule rachado, sou... destino do qual me orgulho, pois estou mais maduro.
Deitavam-me água a ferver... tudo se esvaía!  Duma vez, colocaram-me plantas: enrolei-as meticulosamente; coloquei-as a vedar a dita cuja; NÃO HÁ RACHA QUE RESISTA!
Na feira da ladra comprei uma torneira de cobre, coloquei-a no fundinho da racha. Até hoje vêm gentes do estrangeiro para me degustar fel-de-terra.
Triste é continuar a ver lágrimas de vapor no bico, substituído pela torneira de cobre...
Eurídice Rocha, 50 anos, Coimbra

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

Coisas que deviam ser proibidas…

Houve (nas duas, penso) um entusiasmo carinhoso que nos aproximou assim que te conheci, Isabel. Ao longo dos anos, conhecendo-te melhor, encontrei-me com a tua simplicidade divertida, com a generosidade infinita com que tratas os outros, com a beleza do que escreves (ainda não aprendeste a reconhecê-la, lá chegaremos). É um privilégio ser tua amiga. Mas devia ser proibido o esquecimento do dia de anos, proibido! Desculpa-me. No fundo, estás sempre comigo. Espero que saibas disso! Parabéns!
Margarida Fonseca Santos, 56 anos, Lisboa
(um atrasado envio de parabéns a uma pessoa especial, Isabel Mendes de Almeida - amiga e assídua companheira por aqui)

18 fevereiro 2017

Sorriso

Talvez seja o derradeiro sorriso que trocámos, jamais haverá outro igual.
Uma luz no tempo, no espaço, nas fantasias, o nosso sorriso.
Sorriso claro, sem reencontro marcado ― talvez, um dia, no reino Luz.
Numa esquina, num café, no meio da multidão ― o teu sorriso.
Às vezes parece alienação, fixação, imaginação, mas é o teu sorriso.
Um sorriso dilema ― ora teimo em lembrá-lo, ora rezo para esquecê-lo.
Incertezas sem dúvidas, admitam, mas é o sorriso que eu mereço.
Laura Garcez, Lisboa, 44 anos

Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida

17 fevereiro 2017

Magia

Tinha um sonho grandioso, mas estava preso no medo da minha alma. A confusão esmagava-me. Receava a mudança. Parecia-me um abismo. Era doloroso! Saber que não conseguia mudar, era coração dilacerado, pisado, triste… não via uma luz que me animasse.
Magia? Talvez. Uma nesga de sorte bafejou-me: achei um trevo de quatro folhas!
Aproveitei a maré, juntando as peças deste puzzle, desfiz a polémica do meu viver, cumpri meu sonho simples: subir o Nilo até à nascente!
Domingos Correia, 59 anos, Amarante

Desafio Rádio Sim nº 46 – 12 palavras impostas

A História da menina que queria ser bailarina

Demorou para nascer, uma semana, uma menina. Foi mimada, feliz, cresceu, quis ser bailarina, mas não deixaram. Ficava mal nas meninas. Estudou, conheceu o amor da sua vida, casou vieram dois filhos, vinte anos depois, casamento falhado. Os filhos cresceram. Um casou, já tem netos, mas afastou-se muito. Tantas as lágrimas doídas da mãe, secaram. Um está perto segue seu caminho contra ventos e marés, é feliz. A mãe envelheceu, mas nunca descansou até ser feliz dançando.

Isabel Maria

Calmante natural

Uma boa noite de sono tem um poder especial. A passagem para o dia seguinte deixa para trás o que me incomoda. Vejo tudo com outra perspetiva, fico com uma visão mais positiva do que corre menos bem e relativizo todos os meus problemas. É como se fosse um filtro, apenas deixo comigo o que me deixa feliz ou o que não me aflige. Funciona, para mim, como um calmante natural, saudável e de muito fácil acesso.
Daniela Costa (13 anos), Colégio Paulo VI - Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

Simples

Estava preso no trânsito. Buzinava e desesperava. Nada. Confusão total. Quando há chuva é assim. Juntando os papéis, no colo, suspirou. Luz. É para avançar. Mais um pouco. Mudança de direcção. Que alívio. Afinal era fácil. Simples. A mania de complicar é sabida. Polémicas à parte, somos todos uns maricas. Pisado e espezinhado estava o piso molhado. Coração a bater e tão forte! Uma nesga de espaço livre e pimba! Um trevo da sorte encontrado!
Margarida Vale, 55 anos, Seixal

Desafio Rádio Sim nº 46 – 12 palavras impostas