12 julho 2018

Manuela Branco ― desafio 145


A noite começou quando o Diogo acabou de pisar na sala escura e o meu mundo alinhado desabou.
A probabilidade dele estar naquele lugar era ínfima. Desejei que fosse a saudade e a dúvida sobre o meu enlace na semana seguinte a atormentar-me.  
Cena de filme, pensei. Mas, era ele, e mais uma vez me foi colocada a hipótese de fuga e de viver uma paixão.
A noite acabou, um aperto no peito e a dúvida até hoje!
Manuela Branco, 61 anos, Alverca
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Amélia Meireles ― desafio 145

A noite começou quando Matilde acabou o jantar. Aquela noite tinha tudo para dar certo. Esperava o noivo para ultimar a viagem de sonho. Há muito que desejava sair e percorrer países, sem projeto definido, apenas com a vontade de conhecer o mundo. Iriam começar por África, terra onde Maria crescera. Naquela noite, o dia fez-se de ausência. Maria carregou as lembranças da sua África, fez as malas e resolveu partir em missão. Uma viagem sem regresso…
Amélia Meireles, 65 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Theo De Bakkere ― desafio 145


Reynardo, a raposa
O dia começou quando Reynardo acabou a sua incursão de ladrões nos arrabaldes à beira da mata. Tinha descoberto que ali uns paisanos criam galinhas para servirem como transformadores dos restos de cozinha. Embora essas não sejam tão gostosas como os galináceos no pátio, Reynardo aproveitar-se-á da negligência daqueles habitantes para roubar suas galinhas. Consternação geral, porque de noite uma besta sanguinária provocara um massacre. Reynardo, a raposa não percebeu nada disso. Também sua prole deve comer!
Theo De Bakkere, 66 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Amélia Meireles ― desafio 144


Estava pronta a tomar o destino nas mãos. Há muito que andava a remoer a situação. A tristeza povoava a sua vida. Deprimir era o verbo mais conjugado ao longo da sua existência. Sentia necessidade de privar com a alegria há tanto arredada de si. Para isso tinha de somar sorrisos no tempo. Precisava roer o laço que a prendia ao desalento. Perdoar a vida era um começo. Deixou de depreciar cada dia. Privilegiava, agora, cada momento.
Amélia Meireles, 65 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 144 ― 10 verbos com certas características

Isabel Lopo ― desafio 145


O dia começou quando os Heróis acabaram a missão. Resgatar aquelas treze pessoas foi um pouco como resgatar os nossos corações. Saber que, algures por esse mundo fora, há homens muitas vezes anónimos com um enorme coração, dispostos a arriscar a vida por nós, pelos nossos filhos, pelos nossos netos, é uma coisa maravilhosa. A única homenagem que lhes podemos prestar é a de os ter para sempre presentes no nosso pensamento como grande exemplo de vida!
Isabel Lopo, Lisboa
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Amélia Meireles ― desafio 137


Não suportava aquela camisa rosa. Como lhe havia de dizer? Tinha que engendrar alguma coisa para que a famigerada camisa desse à sola. Não podia falhar, pois ele não era burro e podia perceber a trapaça. Naquele abençoado jantar, a vela do candelabro apagou. Pediu-lhe o isqueiro e fingindo tropeçar tombou a cera na sua estimada camisa. As desculpas saíram em catapulta. Ele, suavemente apaziguou o seu falso arrependimento. Odiava a camisa que a mãe lhe dera.
Amélia Meireles, 65 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 137 ― rosa, isqueiro, burro

Sérgio Felício ― desafio 15


Alma
“Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma.”
Pássaro nem sempre apetece voar. Outros pássaros dão-lhe confiança! Oportunidade para propagar-se.
Pássaro tem sonho. … gaveta do amor… acredita ser possível… nem sempre tem o que deseja.
Não abre? Abre-se gaveta da tristeza. Perde vontade de voar.
Vai lutar! não desiste do amor, nem dos sonhos… nem do outro pássaro.
Apela bravura à gaveta de guerreiro… volta a acreditar que vai dar altos voos.
Sérgio Felício, 37 anos, Coimbra
Desafio nº 15 – com frase retirada de um livro
Frase do livro “O pássaro da Alma” de Michal Snunit
“Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma.”

Amélia Meireles ― desafio 139


Talvez eu fosse capaz de ser melhor. Tu acreditavas cegamente nessa premissa e repetias. Talvez faltasse o mais importante, eu acreditar. Tu insistias pensando que me conseguias mudar. Talvez eu fosse capaz de o fazer. Tu querias mostrar formas diferentes de viver. Talvez eu tivesse muito medo do diferente. Tu conhecias muito para além do sofrimento. Talvez me tivesse deixado refém do egoísmo. Tu ficaste cansado do meu constante desistir. Talvez por isso acabamos em caminhos diferentes.
Amélia Meireles, 65 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 139 ― todas as frases com 7 palavras ― Talvez… + Tu…

11 julho 2018

Natalina Marques ― desafio 145


QUANDO saíste sem me dar satisfação,
fiquei só, no silêncio medonho e triste,
que a pouco e pouco
tomava conta do meu pobre coração.
Pensando que estava louco,
não me saías do pensamento,
nem dos meus sonhos também
porque não sei se dormia
ou se acordado te esperava.
Mas dei tempo ao tempo,
sabia que não me enganava
e na profunda solidão,
sem saber o que pensar,
dizia-me o coração
que haverias de voltar.
Natalina Marques, 59 anos, Palmela
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

10 julho 2018

Helena Rosinha ― desafio 36

coração balançava, saltava dentre o cavado sulco dos seios. O próprio andar fazia-o oscilar para cá, para lá, para cá… Ondulando no seu irresistível jeito de diva, saiu do aeroporto. No fluxo de turistas, no trânsito intenso, sentia-se o pulsar da cidade. O taxista, sem senão, levou-a à morada em Gondomar. Aí, enquanto ouvia explicações não solicitadas, ela, que não falava português, mas sabia o que queria, pegou no coração e, encostando-o à orelha, disse: Arrrrecadas!
Helena Rosinha, 65 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 36 – uma frase de um conto de autor, usando as palavras por ordem inversa
Mas ela não ouvia senão o pulsar intenso do seu próprio coração.
Ernest Hemingway, As Neves de Kilimanjaro

Chica - desafio 145


A noite começou quando Rosa acabou de deixar os filhos no colégio, de onde sairiam, para um hotel fazenda com a turma.
Ela chega em casa, toma um banho, coloca a mais bonita roupa de dormir e sonhava com a chegada do marido. Enfim teriam uma noite à sós!
Tudo certo, os dois jantados e já aconchegados, clima romântico, quando a campainha toca insistentemente: a sogra, com malas e bolsas decidira fazer uma “bela” surpresinha!
Conseguiu surpreender!!!
Chica, 69 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Filomena Galvão ― desafio 145


O dia começou quando o Doutor Mário acabou o serviço de banco e pôde finalmente ir descansar. A idade já não lhe permitia grandes folias, nem o trabalho árduo de turnos em dose inumana. No entanto, a catástrofe tinha-o obrigado a socorrer uma série de vítimas de derrocada. Teria agora direito ao merecido repouso. Aquele a que todos os guerreiros têm direito. Chegou a casa exausto, entorpecido atirou-se vestido para cima da cama e num ápice adormeceu.
Filomena Galvão, 57 anos, Corroios
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

Domingos Correia ― desafio 143


“Se a Justiça falhar, alguém a há de encarnar
O larápio Zé Lampas escapava sempre à Justiça. De dia, esquivava-se como cobra. De noite, dormia dentro das medas de palha ou no meio de um cedro plantado no cemitério.
Acontece, porém, que alguém descobriu o seu segredo. Assim, uma noite, quando subia o cedro, caiu tolhido de medo, quando esse alguém lhe agarrou firmemente uma perna.
A partir daí, nunca mais foi visto. É caso para dizer: “Se a Justiça falhar, alguém a há de encarnar!
Domingos Correia, 60 anos, Amarante
Desafio nº 143 ― novo ditado popular

Elsa Alves ― desafio 100


Preciso de escrever-te ou escrever-me... Isto num tempo em que escrevo para a frente, apenas porque me faz acreditar que, um dia atrás do outro, é ir para a frente, mas sabe-se lá... o mergulho é para trás, para um tempo de descoberta, onde te espero reencontrar e te possa resgatar. Porque a ideia do amanhã contigo, essa foi-se-me no dia em que abriste os braços para já não me abraçares. E foi assim que me escrevi...
Elsa Alves, 70 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 100 – «e foi por isso que me escrevi»

Helder Bernardo ― desafio 35


Repartiram entre si as suas vestes, copiaram o seu poder, marginalizaram-na. Inventaram atos perversos, adulteraram o seu trabalho, culparam-na de todas as anomalias - odiaram-na. Anularam pormenores de beleza, ampliaram defeitos - murmuravam, abanando a cabeça. 
Como se sentia Eunice?
Os bancos de vento lembravam-lhe a presença divina, os passarinhos chilreavam, a brisa aveludava a sua pele, os desconhecidos sorriam-lhe.
Registou a Luz da sua alma, adornou a bondade do seu caráter - encontrou a bela e pura palavra Poesia.
Helder Bernardo, 57 anos, Sines 
Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor
Novo testamentoRepartiram entre si as suas vestes João 19: 23, 24
Sophia de Mello Breyner Andresen - Encontrou a bela e pura Palavra poesia - in "Mar novo"- 1958

Desafio nº 145

Hoje, trago um desafio com muita liberdade! Vamos lá ver o que sai assim…

Que texto terá de começar por:

«O dia/A noite começou quando ele/ela/nome acabou…»

Eu escrevi assim:
O dia começou quando Zeferino acabou o turno. Não havia meio de se habituar a trabalhar assim, semanas de dia, outras de noite, na fábrica, ou no armazém. O problema era não conseguir de surpreender a mulher com um presente especial. Gostava tanto dela, tanto…
Naquela manhã, encontrou-a ainda em casa. Afligiu-se, mas afinal era uma surpresa muito maior do que a que imaginara: iam ser pais!
― Foi o melhor presente que me deste!
E Zeferino ficou em transe.
Margarida Fonseca Santos, 57 anos, Lisboa
Desafio nº 145 ― o dia/noite começou quando…

09 julho 2018

Programas Rádio Sim - semana 9 julho 2018

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).

Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

07 julho 2018

Carla Silva ― desafio 143


O problema culinário
― Quem não tem vaso, planta trevo em taça.
Fora a resposta que Teocrância, afamada cozinheira, dera para resolver o seu problema culinário.

Ela, Deodata, conhecida pela perfeição dos seus pratos mas muito atrapalhada, encontrava-se na difícil situação de encontrar um sustituto para o molho de cogumelos. Molho feito com os cogumelos da vizinha Eucresta. Com a ausência desta, onde iria arranjar cogumelos?!
"Quem não..." Era isso! Se não tinha cogumelos faria o seu delicioso molho ao café.
Carla Silva, 44 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 143 ― novo ditado popular

Rodrigo Santiago ― desafio 144

Tenho comigo uma mágoa, que me remói o pensamento.
Não sei se deva verdadeiramente perdoar quem tentou magoar-me tanto.    
Neste turbilhão de emoções, pretendo privilegiar sensações positivas, domar minha fúria, minha mágoa, sem deprimir meu ser. Somo e subtraio sentimentos, depreendendo da minha vida todo o alento.
Nesta breve introspeção, cheguei a uma simples conclusão: não vou corroer a minha mente com sentimentos doentios. Vou privar-me de tudo o que é negativo, para ficar de bem comigo. 
Rodrigo Santiago, 11 anos (Colégio Paulo VI – Gondomar, prof Raquel Almeida e Silva)
Desafio nº 144 ― 10 verbos com certas características

06 julho 2018

Dânia Vicente ― desafio 100


Empurrões
Amava-me, sentia gratidão, era feliz! Gostava de rostos banhados pela luz. Os sonhos eram bênçãos ― tinham Vida.
Na esquina, apareceram despedidas. Inacreditável! Nunca tive colo, mas sempre detestei vitimizar-me.
Sempre me renovava, superava obstáculos, reaparecia cheia de projetos. Agora, com tantos empurrões, duvido de mim. Sinto medo!
No prolongamento do oceano, abro a janela para sentir o nevoeiro. Por detrás do invisível, há uma fonte de luz, que promete rejuvenescimento e foi por isso que me escrevi.
Dânia Vicente, 44 anos, Penamacor
Desafio nº 100 – «e foi por isso que me escrevi»