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16/06/20

Elsa Alves ― desafio 22


FREQUENTEMENTE SOPRAVAM VENTOS TURBULENTOS...
A pior recordação da sua infância: os pais a discutirem. Ela, acalmando a irmãzinha escondendo-a das palavras feias, fugindo da violência que escurecia a luz vinda da porta do quintal. Com sorte, aparecia a vizinha. Numa corrida, levava-as, às escondidas, para o conforto da sua cozinha. O copo de leite, o pão com marmelada. A mãe, aparecendo, envergonhada. As nódoas negras. "O chão molhado... escorreguei nos brinquedos das miúdas..."
TURBULENTOS VENTOS SOPRAVAM FREQUENTEMENTE...
Elsa Alves, 71 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 22 – frase simétrica

10/06/20

Fernanda Malhão ― desafio 22

Quando era pequena era muito sonhadora, conseguia inventar realidades paralelas em qualquer lugar onde estivesse. Era fácil imaginar, em segundos me transformava de professora em criança, de pediatra em doente, de bailarina em apresentadora de televisão. Que divertido que isso era! Com o crescimento fui esquecendo desta fórmula mágica que usava tão bem… até a perder por completo. Mas agora, aos pouquinhos, estou a recuperá-la, e juntei-lhe mais um ingrediente: a realização. Sonhou e realizou e sonhou….
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 22 – frase simétrica

09/07/19

António Azevedo ― desafio 22

A campainha anunciou o intervalo da manhã. Os petizes, assim que puderam, saíram disparados porque a brincadeira os esperava. A professora olhou para o pátio agora pejado de crianças. Reparou na menina sentada no lancil com um sorriso na cara e uma flor na mão. Lembrou-se de si mesma naquela situação, desfolhando uma flor e perguntando sobre o Carlitos: “Gosto? Agora sim… agora não… agora sim… Agora gosto!” Um novo toque esvaziou o pátio. O trabalho recomeçou.
António Azevedo, 54 anos, Lisboa
Desafio nº 22 – frase simétrica

16/09/17

Eurídice Rocha - desafio nº 22

Cadáver à vista
Sentada comodamente fiz que a curiosidade fosse uma lupa. Uma. Fosse curiosidade a que fiz… comodamente sentada.
Menino anuncia bisbilhotice de olho aberto e voz vibrante. Voz e aberto. Olho de bisbilhotice? Anuncia menino!
Vala, aquela, cheia de estrume humano. Estrume de cheia… aquela vala.
Alma e corpo de recém-nascido assassinado… recém-nascido de corpo e alma.
Saiu arrancado, podre, ao lixo. Ao podre arrancado saiu.
Dor maldita quão condena corpo de mulher de corpo. Condena quão maldita?
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 22 – frase simétrica

30/07/17

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 22

Poesia sem música... sem poesia? É impossível, pois são duas realidades indissociáveis.
Quando quero escrever os meus poemas, a criatividade apenas nasce, flui, percorre nas veias se estiver integrada num ambiente calmo, pleno de luminosidade, acolhedor e, em torno de mim existir melodia.
Mas, a música não pode limitar-se à acústica agradável; tem ainda que ser a pátria das palavras criativas.
Já compus várias músicas com inúmeras letras poéticas e o amor por ti sempre as edificou!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 22 – frase simétrica

23/04/16

Não contes...

– Onde foste?
– Não te interessa.
– É claro que interessa.
– Se eu te disser, vais contar à mãe.
– Não sei, depende.
– Está bem, eu falo, mas fica um segredo só nosso.
Jura que não dizes a ninguém.
– Juro, diz lá.
– Eu e o Manel fomos aos ninhos, ele descobriu
um com três melros.
– Roubou os melros do ninho, foi?
– Não, levou-os com o ninho.
HOJE, NÃO CONTO, NADA CONTO. NÃO HOJE!
Mas amanhã, vou contar tudo ao pai.

Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Desafio nº 22 – frase simétrica

19/02/16

Pastora linda!

Vais onde linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Andas à chuva, à neve
E enfrentas vendavais?

Vais onde, linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Matas a sede no rio
Se o calor te queima mais?

Vais onde linda pastora,
Pastora linda, onde vais?
Arranhas-te nos silvados
Atrás dos teus animais?

És bonita como Sol,
És sonho e fantasia…

Pede um desejo ao vento,
Que é tua companhia,
Para te fazer princesa,
Nem que seja por um dia!

Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Desafio nº 22 – frase simétrica

01/12/15

Uma decisão difícil

Estava decidido a deixá-la. Há muito que a sentia distante. Decidiu-se a pedir o divórcio. Não passava daquele dia. Como sempre, ela chegou carregando o mundo. Na discussão, apenas ele gritava com o silêncio dela. O que a fazia ficar tão amordaçada? Acabara-se o amor? Exigiu a verdade. Em soluços, ela respondeu que o amava mais que à própria vida. Meses atrás descobrira o cancro e o filho que iria anunciar. Não podia abandoná-la… Abandoná-la, podia? Não!

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 22 – frase simétrica 

06/08/15

Falemos sobre camaleões verdes

Adormecido sobre troncos esverdeados, o camaleão veste-se de verde, porque gosta de se disfarçar. As moscas voam à volta do camaleão, mas ele permanece estático. Permanece estático, mas à volta do camaleão as moscas voam distraídas, pensando que ele dorme. Quando menos esperam, ele lança a sua língua pegajosa e come-as vivas. Come-as vivas como o medo, de repente, nos come disfarçado em qualquer esquina. Como temos medo do medo é importante que falemos sobre camaleões verdes.

Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa

Desafio nº 22 – frase simétrica

22/06/15

Um destino feliz

Tinha nascido do rio quando o sol aqueceu a água. Separada do rio sentiu-se rio separado, água tornada única, pronta para partir.
Era uma gota elevando-se com um arco-íris brilhando na sua pele transparente.
A sua ambição era atingir a nuvem alta, a alta nuvem algodão, leve e pura, correr no céu azul arrastada pelo vento, viajando fascinada pelas terras por onde passaria.
Depois a sua morte seria doce e regressaria ao rio que a viu nascer.

Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Desafio nº 22 – frase simétrica

14/05/15

Mais amor!

Quando na vida a pensar
Lição encontro tão perto
Amor, quanto mais se dá.
Mais se multiplica, é certo!

Ter o coração ardente
Bem vivo e alegre é bom
Achar o que te fazer contente
Viver! em alto e bom som

Ficarem paz, fazer o bem.
Beber muita água, muito rir.
Cuidar da saúde também
Pisar rumo aonde quer ir

Prefiro então esse primor
Pois que amor nunca é demais
Assim multiplica-se mais
Dá-se mais, Quanto amor.

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

09/02/15

Programa Rádio Sim 443 – 9 Fevereiro 2015

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

Agora, que o dia chegava ao fim, apetecia-me gritar que tudo não passara de um desperdício! E de quem era a culpa? Minha, como sempre. Deixara-me levar pelas ideias dos outros, pela ideia que fazia dos outros, pela ideia que tinha sobre o que os outros pensavam de mim. Ignorei-me. Agora era tarde, o dia passara, a oportunidade também.
Sonhei? Nem hesitei… nem sonhei.
À minha frente, os sonhos dos outros ocupavam o meu espaço. Aprendi? Talvez…

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa

Desafio nº 22 – frase simétrica

06/12/14

Podia, não podia

Bem podia sair dali, sair podia. Não era o mais difícil, o mais difícil era ele próprio, os fantasmas, domar as emoções, com as emoções domadas tomar outro caminho. Já não se sentia em casa, a casa não a sentia, tudo lhe era estranho, mesmo as coisas mais mesquinhas tão mesquinhas como coisa de sentar-se num sofá ou ler um livro na varanda. Fazia anos de eternidade ali, uma eternidade que se fendia ali. Podia, não podia.

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Desafio nº 22 – frase simétrica

23/01/14

Programa Rádio Sim 180 – 23 Janeiro 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim


O céu e as nuvens
Como não há nuvens sem céu, hoje elas apareceram tornando o céu cinzento e triste. O Sol tímido esconde-se por detrás delas que muitas das vezes choram num pranto desalmado. E de vez em quando, o céu lança trovões como que a resmungar. O Sol, com medo, apaga a luz. No dia seguinte, para ser diferente, um brilho surge do alto iluminando toda o planeta! Porque céu sem nuvens, há? Não são estes os dias mais alegres?

Maria Jorge, 36 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 22 – Começar com uma frase e terminar com a mesma frase, mas agora simétrica (palavras por ordem inversa)

25/10/13

Dúvidas galináceas

GANSOS E GALINHAS PARTILHAVAM A QUINTA pacificamente, mas um dia instala-se a discórdia.
– Onde já se viu? – diz a gansa.
– É pela nossa segurança! – diz a galinha.
– Qual segurança, qual quê?!
– A raposa...
– Medricas! Um cão, valha-nos Deus!
– Mas os nossos filhos...
– Queres um cão correndo com os teus filhos??
– Sempre é melhor que uma raposa...
– É impossível falar contigo!
– É pela segurança e harmonia da quinta.
– Pois sim! – afastou-se resmungando. – QUINTA? A PARTILHAVAM GALINHAS E GANSOS!

Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Évora

Desafio nº 22 – frase simétrica

24/10/13

Prioridades

Carro e casa escolheu ele, quando casou trabalhou para dar à esposa o necessário e mais ainda, seguindo o conselho de seu pai "o homem traz o dinheiro, a mulher gere-o". E assim foi por 15 anos. Hoje apercebe-se de que deu demasiada importância ao que não tinha importância alguma. E em consequência, sua esposa cansou-se da falta de carinho, de passar noites sozinha. Pediu o divórcio e deixou-o com o que ele escolheu: casa e carro.

Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Évora

Desafio nº 22 – frase simétrica

30/07/13

Vida de miúdo = Vida bela!

Os meninos brincavam por aí, deixando-me roídinho de inveja...
Aqueles momentos doces na minha cabeça me deixavam filosoficamente estranho... Que bom!
Era maravilhoso como se jogava ao pião e às caricas...
E sem esquecer, quando à maioridade chegávamos, os amores e desamores e as meninas que espremiam espinhas...
Até que a minha mulher os chamou para lanchar.
E eu levantei-me decidido e disse:
– Deixa-os brincar!
– A vida é bela... Aproveitem... Bela é, vida, Aaaaaa…!
E eles continuaram!

Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG


Desafio nº 22 – frase simétrica

25/10/12

A Festa


A chuva levou minha alma... Alma minha, levou chuva a todos os dissabores e viu, do rastro que deixou, pegadas de incerteza e dor serem apagadas e escorrerem pelo ralo. Cabelos molhados e pele arrepiada, em ti, alma que agora está limpa como se acabasse de ter sido parida, desejo depositar as alegrias que não vivi, os sonhos que não realizei e vesti-la para a festa que a vida está a nos preparar. Venha linda... e sorridente!

Bia Hain, Brasil

24/10/12

Virar de Página



O meu país está morrendo? Morrendo está… País o meu! …
Impávidos, assistimos ao luto que lhe vestem. Onde está o meu país a preto e branco que um dia tirou a mordaça que o calava e cantou versos de poetas numa madrugada de Abril, revestindo de sonhos  todo um povo?
Está sucumbindo meu país, sua mudez encobre gritos abafados dum povo cansado que se vai deixando abater.
Viremos a página desta morte anunciada do meu país.


Graça Pinto, 54 anos, Almada

Onde...?


À minha volta negrume: o céu, a alma. Não sei como ficar aqui, nem como encontrar outro onde. Onde fica o meu onde? Onde, meu, fica perto do amor? Duvido: o meu onde é tão intrínseco, está tão escondido entre os meus pensamentos sombrios, que se tornou um buraco negro sem fundo. Ouço um riso, alegre e cândido; deixo-o penetrar no nevoeiro cerrado da minha mente. Ouço o meu coração a bater: encontrei o meu onde.

Maria José Dias