Mostrar mensagens com a etiqueta desafio nº 213. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta desafio nº 213. Mostrar todas as mensagens

05/08/20

Ana Castela – desafio 213

Seguem paralelas, as linhas. Seguem o seu caminho, serenas, ou contorcendo-se de forma, mais ou menos, brusca desviando-se do que lhes impede o caminho. Umas, apenas, sofrem desvios ligeiros, não se perdendo da sua rota. Outras endurecem, quase se perdendo. E perdiam-se, se não fossem as suas paralelas, ali, a guiar-lhes o caminho, a servir-lhe de amparo no contorno do intruso, na superação dos limites. E seguem, de novo. Aliviadas. Não estão sozinhas. Seguem paralelas, as linhas.
Ana Castela, 41 anos, Mealhada
Desafio nº 213 – imagem de madeira

20/07/20

Helena Rosinha - desafio 213

Reagi mal, claro! Perante aquela figura — cabelo escorrido até ao peito, olhos atrás dumas lentes de garrafa, a ponta do nariz a empurrar o lábio superior, as bochechas a esparramarem-se pelo maxilar — só podia reagir mal. 
– Eu, mas como? É assim que me vês?
Então ele disse que via o que ninguém conseguia ver e, por isso, aquela peça representava um amor imensurável. Não sei se percebi, mas fiquei orgulhosa do prémio que alcançou com a “figura”.
Helena Rosinha, 67 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 213 – imagem de madeira

14/07/20

Toninho – desafio 213

Menino do mato do lugar sem energia elétrica, a Lua alumiava. Destemido zombava dos casos de assombrações. Onde tinha defunto lá estava. Devido tosse crônica foi ao médico da cidade. Medicado sentiu-se prosa. Ouviu caso sobre aparição da mulher de tábua. Naquela noite andou pelas ruas, ouviu sussurros, quando sentiu toque no ombro. Tentou correr, faltou pernas. Gritou desesperado, acordou assustado. Olhou a tábua com duas brocas¹ na parede com zombaria deu um beijo e sorriu aliviado.
Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia-Brasil
Nota – Broca: Larva que ataca o tronco ou as raízes de certas plantas.    
Desafio nº 213 – imagem de madeira
Publicado aqui: mineirinho-passaredo

13/07/20

Theo De Bakkere – desafio 213

Um nó marcante
É uma regra não escrita que crianças, graças à sua rica fantasia, podem observar marcianos. O que mesmo aqueles ufologistas ainda não conseguiram, embora eles vejam em tudo ÓVNIS.
Nunca se sabe, cada contacto será examinado, também o relato do menino que hospedara um alienígena no sótão. Descreveu-o assim: cabeçudo com olhos castanhos, nariz amplo, sorriso amável e um pescoço extremamente longo. Os pesquisadores, todos adultos, encontravam ninguém, salvo um nó marcante numa das tábuas da parede.
Theo De Bakkere, 69 anos, Antuérpia Bélgica
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Isabel Lopo – desafio 213

Passava horas sozinho em casa. Com a velhice viera novamente a solidão. Ele compreendia. Filhos a trabalhar, netos na escola... Ainda tinha sorte por o não terem posto num lar. Assim sempre se entretinha a reconhecer os cantos da casa. Como aquela velha tábua do soalho, que sempre lhe parecera sorrir. Recordava os tempos de criança, em que, também solitário, esperava o regresso dos Pais. Então invocava de novo aquele amigo secreto, a quem podia confiar segredos...
Isabel Lopo, Lisboa
Desafio nº 213 – imagem de madeira

12/07/20

Verena Niederberger – desafio 213

Final feliz
Zefa, a benzedeira, foi chamada.
Era conhecida.
Rezava crianças nos arredores da fazenda.
A pequena Melina estava com coqueluche.
A Doença era altamente contagiosa.
Zefa escolheu aquela árvore, diferente, para aos seus pés rezar.
Pediu que a menina fosse levada para ali.
"Dona Árvore" atenta observava.
De "olhos" bem abertos acompanhou a prece.
No dia seguinte, Melina pulava e dançava de alegria.
Tudo era festa na fazenda.
A doença horrível, para longe, partiu.
"Dona Árvore" satisfeita sorriu.
Verena Niederberger, 69 anos,Rio de Janeiro – Brasil
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Paula Castanheira – desafio 213

Finalmente iam construir a casa da árvore!
A figueira já estava robusta o suficiente.
O menino gritava de excitação. A primavera transmitia uma energia contagiante. Era grande a azáfama.
– Mãe, Mãe, esta tábua está a rir-se. É o ET!
– Disparate, Francisco, mostra lá.
Avô e neto parados de boca aberta.
A natureza e seus caprichos. Nós e veios da madeira formavam um rosto… quase humano.
E assim Francisco de uma assentada ganhou uma casa e um amigo.
Paula Castanheira, Massamá
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Teresa Caeiro – desafio 213

Estás a rir-te para mim!
Ou a rir-te de mim…
Com esses olhos tão grandes que fingem ver e um sorriso que encena felicidade.
Que desastre!
Nem as rugas que te descaem do rosto conseguem esconder essa tua insensibilidade atroz.
Pareces esboçar um sorriso, quem sabe anseias por ser um ser humano…
Sai dessa casca. Aventura-te no mundo real e talvez possamos ter alguma coisa a dizer.
Mas não me olhes com esses olhos de não ver!!!
Teresa Caeiro, 61 anos, Lisboa
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Ana Paula Oliveira – desafio 213

Gemeu quando a cortaram, mas os seus gemidos foram em vão. Ninguém a ouviu (ou ninguém a quis ouvir!). O destino estava traçado e, em breve, a árvore seria uma peça de mobiliário ou o chão de uma casa qualquer.
Então, ousou sonhar. Não queria que lhe matassem a alma e só haveria uma forma de continuar viva. Desenraizada da terra, desejou ser transformada num barco. Enraizar-se-ia no mar, viajaria, veria mundo e poderia continuar a sorrir.
Ana Paula Oliveira, 59 anos, S. João da Madeira
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Natalina Marques – desafio 213

– Mãe, está uma bruxa no chão do meu quarto.
– As bruxas não existem.
– Existem sim, ela fala comigo todas as noites.
– E que te diz ela?
– Não posso, é segredo, ela diz que os segredos não se revelam.
– Porquê?
– Porque deixam de ser segredos.
– Assim não posso acreditar em ti.
– Então esta noite vou perguntar-lhe se posso contar-te.
– Olha, já consegui tirar as duas nódoas irritantes no soalho do teu quarto.
– Então, esquece a revelação do segredo.
Natalina Marques, 61 anos, Palmela
Desafio nº 213 – imagem de madeira

10/07/20

Fernanda Malhão – desafio 213

O jequitibá-rosa era a árvore mais antiga do bosque, também era a mais sábia e simpática. Vinham seres de todos os cantos do mundo pedir conselhos a anciã, tinha sempre um sorriso a oferecer a quem vinha a sua procura e com serenidade ajudava todos com os seus conselhos. Aquela árvore mesmo enraizada ao solo, conhecia tudo pelo mundo, sendo uma excelente ouvinte, durante os seus séculos de vida já tinha ouvido imensas histórias do mundo inteiro.
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Rosélia Bezerra – desafio 213

Março pôs meu lar estar de portas fechadas. Contraditoriamente, meu coração aberto ao amor. Sou assim: portas cerradas, alegre por ter um hóspede dentro dele, em meu ser. Minha residência está ficando bonitinha, do meu jeitinho, ouvi bem assim: minha porta sorriu, abriu, recebeu paz, carinho, delicadeza, doçura sem fim. Quisera todos os lares estivessem fechados por solidariedade, porém escancarados a tudo de melhor que há na vida doce e bela como espiar numa janela no campo.
Rosélia Bezerra, 65 anos, ES, Brasil
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Chica – desafio 213

Tantos dias confinada... Tanto, tanto tempo em casa trancada.
Ali dentro a mesma rotina... Limpar, cuidar, cozinhar, passar, lista de compras organizar.
A cada remessa que chegava, limpar, desinfetar, antes de tudo guardar.
Seu rosto mal e porcamente tratava. Cabelos, com crescimento, uma fixa branca a mostrar. Por fim, já nada aguentava e até com as paredes ficava a cismar.
Numa via nitidamente um rosto ameaçador, pensando face do vírus ser, nela se punha bater! Quebrou mão!
Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 213 – imagem de madeira

Desafio nº 213

Gosto muito desta imagem...

Se vos desse esta imagem como sugestão para o novo desafio?

Eu escrevi assim:
Olá, sou eu, a alma da madeira do chão do teu quarto. Teu quarto, que tontice, nunca foi teu, mas sim meu. Podes andar por aí, decidir onde pôr os móveis, convidar outros para entrar no meu terreno. Contudo, no dia em que te quiser expulsar, nem vais hesitar. Sim, sou uma alma penada, dizemos que somos almas empenadas, mas podes chamar-se assim. Serei a tua cruz!, não em sentido literal, entenda-se, não me desperdiçarei em ti.
Margarida Fonseca Santos, 59 anos, Lisboa
Desafio nº 213 – imagem de madeira