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21/11/18

Diário 77 ― 119 ― Pintos e papéis


Pintos e papéis
Seria uma PENA deixar que um PAPEL causasse tanto TEMOR junto dos filhos. Era uma mãe-galinha, ou uma galinha-mãe, e os pintos ainda nem haviam PERDIDO o amarelo que ORGANIZAVA a hierarquia na capoeira. O PENSAMENTO deles: era verdadeira a TEORIA de haver uma lista de pintos a abater. Deixara-os na INCERTEZA. O melhor era aprender a ler, disse a mãe-galinha. Foi FORTE, a importância da dica. INEBRIADOS, correram para a escola, ficando a galinha nas NUVENS. 
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 155 – palavras em sequência
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20/11/18

Diário 77 ― 118 ― Outro


Outro
Foi de noite que se desconstruiu, que o seu mundo ruiu: escuros futuros envoltos em sonhos sem fim nem tino; presentes chuvosos sem um fio de sentido; hojes de ontem sem regresso. Tudo ruiu.
Foi deste modo que Jorge se ergueu do leito, mergulhou no seu depois e se infiltrou no novo mundo. Fê-lo sem remorso ou sentimentos escondidos. Fê-lo sim como um verme que emerge dum fruto podre.
Foi recebido em tumulto por todos. Sentiu-se outro.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A
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16/11/18

Diário 77 ― 117 ― O nosso mundo

O nosso mundo
Pareceu-me demasiado pequeno o mundo que reservaras para mim. Acabavas de me enfiar num armário, teu, num espaço de ninguém. Aquele nem sequer era um mundo verdadeiro. Era um espaço fechado ao exterior, esse exterior de mim onde te encontras e onde encontras a tua vida. Este passou a ser eu. Guardo-o. Sei que é só meu porque não mais te vais lembrar de quem sou. É o que sei, que o tudo, o nosso, nunca regressará.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 36 – uma frase de um conto de autor, usando as palavras por ordem inversa

14/11/18

Diário 77 ― 116 ― O deserto


O deserto
A palavra não pode traduzir o que sente quem se abandona ao abandono que lhe pertence por desamparo ou convicção, ou mesmo apenas por apego, um apego que habita dentro de si e ao qual se habituou, deixando na névoa a dor, a saudade, as razões, agora sem nexo ou justificação, e deixando também uma esperança perdida numa esquina esquecida da vida, nesse lugar onde um dia, sem olhar para trás, desistiu, retirando-se enfim para o deserto.
Margarida Fonseca Santos

Ana Luísa Amaral, Inversos (Março 2010) – A palavra não pode traduzir
+ Maria Teresa Maia Gonzalez, Retratos Imperfeitos (Novembro 2001) – Retirando-se enfim para o deserto
Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor
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12/11/18

Diário 77 ― 115 ― Passageiros à margem

Passageiros à margem
Sentia que o estavam a manietar, só para o manterem debaixo de olho e rentabilizarem o investimento. Teimara nas suas ideias, sem ser ouvido. Sim, o metro estava lindo, com estações pintadas por artistas, imagens que enterneciam os passageiros, mas não haviam sido capazes de materializar o sonho. Tudo atrasado! Os tremores do chão, anunciando nova composição, desentorpeciam a espera infindável dos passageiros. Seria preciso neutralizar a imprensa… Iam desfazer as novidades! Que importância tinham os passageiros?!
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 154 – palavras com M E T R
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09/11/18

Diário 77 ― 114 ― Sem poder recomeçar


Diga, 33, diga
Quis passar ao largo do ombro que me oferecias para me consolar. Ou seria apenas para me distraíres do que acontecera? Querias que tentasse esquecer o que de simples passara a improvável, as frases sem esquinas que se haviam transformado em atrapalhações, os sítios onde já não cabíamos. Quisemos ser pacientes, sem sucesso, arrastando assim connosco o que procurávamos contar. Agora só nos resta ralhar, pois nunca soubemos aconselhar e não nos conhecemos o suficiente para recomeçar.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 34 – grelha de 16 palavras obrigatórias
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07/11/18

Diário 77 ― 113 ― Diga, 33, diga


Diga, 33, diga
– Diga, 33, diga, não se acanhe…
Pobre soldado. Já perdera o nome, passara a 33, sem identidade para lá da cama onde dormia na caserna e de ser mais uma cabeça na parada.
– É que…
– Ó homem, fale! Só para a morte não há solução, não é o que dizem?
33 calou-se. O problema mesmo era a morte da ratazana de estimação do capitão que dormia a seus pés e comia do bom e do melhor. Atropelara-a…
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 33 – Pegando em “Diga 33”, ou qualquer outra versão do 33
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05/11/18

Diário 77 ― 112 ― A tartaruga

A tartaruga
Uma tartaruga aceitou algo muito estranho…
Iria fazer uma corrida completamente louca.
Uma corrida contra a lebre, imaginem!
Logo ganhou grande avanço, aquela lebre.
A tartaruga ia ficando para trás.
Resolveu descansar, tinha tempo para isso.
Aproveitando esta soneca, a tartaruga continuou.
Ultrapassou-a em bicos de pés, devagarinho.
Mesmo devagarinho, cada vez avançava mais.
Ao acordar, a lebre ficou desesperada.
Via a tartaruga perto da meta!
Fez um grande sprint, desvairada.
A tartaruga vencera.
Ficou mesmo desvairada.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 32 – 11 frases se 6 palavras + o que resta
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02/11/18

Diário 77 ― 111 ― Vou-te vender


Vou-te vender
Jesualdo contou de novo – 1000 menos 230, menos 45, menos 138, menos 508, menos 93, menos… nada! Não sobra nada!
Depois de pagar renda, eletricidade, passes, alimentação do Carlitos e dele, água, nada sobrava. Foi à arrecadação procurar algo para vender, safando aquele mês. Nada! Começou a olhar para o Carlitos, o Carlitos para o pai, aquilo complicou-se, complicou-se, até que, apontando um para o outro, disseram:
– Vou-te vender!!!
Não se assustem, isto é só uma história…
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 31 um conto com matemática…
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31/10/18

Diário 77 ― 110 ― Adília Texto

Adília
Adília Pôs-se Onde, Tinha Esperança, Reuniria Associados.
Ainda Poderia Obter, Talvez, Esses Renegados Azarados.
Adiantou Propostas Obtusas, Tendo Enredado Realmente Alguns.
Agora, Proferia O Tremendo Esquema Reabilitador Apoteoticamente.
As Pessoas Ouviram Tudo E Reagiram, Alarmadas.
Afinal, Para Obter Tanto Eleitor, Regurgitara Aldrabices!
Ah, Pensava Orlando, Tinha-a Enleado, Ria, Ausente.
Adília Pensava-se O Terror Em Ravina, Alucinada.
Após Palavras Onde Todos Evidenciavam Revolta, Alarmou-se.
Até Protelou Outra Tentativa, Era Realmente Assustador.
Adiou Profecias Oníricas, Tentando Enfim Recuperar Amigos…
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 153 ― frases com APOTERA
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29/10/18

Diário 77 ― 109 ― A gata

A gata
Não, escusas de insistir, não
solução, acabou-se.
Mal percebi
Que andavas assim,
Sempre com olhinhos de carneirinho parvo, percebei: não tenho paciência que
Dure o tempo suficiente para te aturar,
Nem quero ter de te partilhar com aquela bola de pelo.
Bem podes chorar, não me afeta. Quero
Que sejas muito feliz, ou coisa parecida,
Não quero é ficar a ver.
Se tiveres saudades minhas, chora. Talvez a estúpida gata
Acabe por te deixar em paz!
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 30 – provérbio à esquerda na folha imposto
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26/10/18

Diário 77 ― 108 ― Partiu


Partiu
Estava numa aflição. Acabar-se assim o seu reinado parecia-lhe prematuro. Ficara tanto por fazer. Mas precisava de entrouxar os tarecos. Depressa se apercebeu de que não cabiam na maleta com que chegara. Decidiu-se por levar apenas as coisas boas que haviam acontecido. Foi preciso apertá-las, afinal eram mesmo muitas! Pôs-se a caminho. Cruzou-se com o Ano Novo que chegava. Já fora assim, pensou. Cumprimentaram-se e, num impulso, deu-lhe a mala. Pareceu-lhe a solução certa. Partiu, então, descansado.
Margarida Fonseca Santos
Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano
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24/10/18

Diário 77 ― 107 ― Novo ano

Novo ano
O novo ano estava angustiado. Nunca um ano fora tão indesejado! E ele lera as histórias de outros que, antes de si, tinham entrado nesta corrida estranha de alinhar os tempos dos homens. A tarefa parecia fácil, mas agora, com tanta gente a receá-lo, custava! As últimas horas do ano anterior correram mais depressa do que o previsto, talvez fartas do ano que se fechava. O novo ano suspirou fundo. Era agora. E agora?! Inspirou... Entrou!
Margarida Fonseca Santos
Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano
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22/10/18

Diário 77 ― 106 ― Saiu

Saiu
Podia pedir-lhe que deixasse de chorar. Seria incapaz. Cada lágrima caía no colo dela como se desabasse na sua ferida, a ferida aberta por ter de a deixar. Nunca poderia contar-lhe a verdade. Só o que inventara, levando-a à tentação de verificar, encontrando as pistas falsas que construíra. Tentava apaziguar-lhe a dor, imaginando-se a salvá-la da situação, mas nunca poderia apaziguar a sua, embutida no amor que lhe tinha. Agarrou no casaco e, sem poder ficar, saiu.
Margarida Fonseca Santos

Desafio nº 152 – frase de Lídia Jorge
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19/10/18

Diário 77 ― 105 ― Frik e o Natal

Frik e o Natal
Frik estava desconfiado. Afinal, aquilo entrara sem pedir licença, motivara grandes festas, ficara enfeitado como um rei e, agora que se chegava a ele, não lhe dirigia a palavra. Nem parecia dar pela sua presença. Ora, como cão inteligente que era, Frik resolveu falhar-lhe com voz grossa, a usada para afugentar ameaças aos donos. Rosnou-lhe, avançou, ladrou e… Zás! Aquilo atacou-o. Frik fugia agora a ganir, levando a memória da picadela de agulha de pinheiro no nariz!
Margarida Fonseca Santos
Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano
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17/10/18

Diário 77 ― 104 ― Agradeço-vos imenso

Agradeço-vos imenso
No momento em que escrevi este texto, outubro de 2018, o blogue já fazia sete anos e a parceria com a Rádio Sim cinco. Pelo caminho, ficavam perto de doze mil histórias, 200 desafios, milhares de participantes, alguns muito assíduos, outros mais esporádicos, todos com algo em comum: o prazer de escrever em 77 palavras. Dedico-vos estas 77 e agradeço-vos a amizade – sem as vossas histórias, este blogue não faria sentido. Voltem sempre! São só… 77 palavras.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 26 – dedicatória para alguém
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15/10/18

Diário 77 ― 103 ― A pen


A pen
Tinha tudo numa pen, pensou que assim estaria a salvo de qualquer ataque à sua pessoa, à sua integridade.
Contudo, não contou que as finanças passassem a pente fino os seus bens, as transações, tudo!
Nunca imaginou tão pouco que o diabo levasse a cabo um plano tão potente que o fizesse ficar a penar pelas culpas de outros, para além das suas.
Ninguém o salvaria, nem o prepotente cúmplice. Agarrado à pen, atirou-se no vazio
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 27 – palavras que crescem (em anagrama)
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12/10/18

Diário 77 ― 102 ― Ai, as contas


Ai, as contas
Não queria acreditar! Parei, tentei raciocinar. Que choque! Acabavam de nos dizer que, depois de tanto esforço, tudo o que queríamos para o futuro ia ser adiado, senão mesmo cancelado. Foi mostarda para o meu nariz, e vi que Daniela, qual latina furiosa, estava pronta a enfiar naquele narigudo patrão um soco que lhe desse a volta ao miolo. Não deu… Acabámos o domingo a remendar roupas e deitar contas às contas que já não conseguíamos fazer.
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 25 – palavras com sílabas encadeadas
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10/10/18

Diário 77 ― 101 ― Emílio Espargo

Emílio Espargo
Não quis mostrar a missanga que encontrara, pois sabia que fora oferecida à tia pelo Emílio Espargo. Como eu odiava o homem, com uma soberba encapotada, que correra comigo do jornal aos gritos, e tudo por causa de uma página de pernas para o ar (e que muitos tinham achado divertido)… Se pudesse, rachava-lhe a cabeça e, munida de um funil, metia-lhe areia no cérebro. Era vê-lo trepar às paredes com o medo de não ser inteligente.
Margarida Fonseca Santos

Desafio nº 151 ― palavras com espargo
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03/10/18

Diário 77 ― 100 ― Umas parvas

Umas parvas
Melgona, gorda e anafada, estava farta daquela conversa de Delgada, a melga escanzelada que se queixava por tudo e por nada, dizendo que era uma desgraçada que nem alimentar-se sabia. «Que aborrecida!», pensou Melgona, tentando descobrir forma de escapar da outra.
De repente, uma agitação inesperada, uma língua de sapo e… um fim para Melgona. Acabara como refeição! Delgada, espavorida, fugiu sem pensar e foi enfiar-se na teia da aranha. De longe, o grilo ria-se: umas parvas!
Margarida Fonseca Santos
Desafio nº 24duas melgas à conversa, uma gorda e outra escanzelada

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