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05/02/15

O bicho faz-de-conta lido na Antena 1

Gravação gentilmente cedida pela Antena 1 - leitura de Raquel Morão Lopes
OUVIR

Era uma vez um bicho faz-de-conta…
Não, não era um bicho-de-conta, era mesmo um bicho faz-de-conta! Passava os dias a fazer de conta que era grande, ou que era pequeno, ou peludo, ou careca, ou feroz… Às vezes até fazia de conta que era um bicho-de-conta, coisa que não era – era um bicho que ninguém conhecia. Tinha nascido de um lápis afiado, e a borracha branca acarinhava-o muito.
Dizem que é imaginado! Vocês acreditam? Pois… eu também!

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

Esta história saiu na revista Pais & Filhos em Maio de 2011, na rubrica histórias em 77 palavras que deu origem a este blogue e cuja ilustração, da Francisca Torres, serve hoje de rosto a este projecto.
Imaginem, foi hoje lida pela Raquel Morão Lopes no noticiário das 9h da Antena 1. Porquê? Porque se falava do 1º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia, tendo como comissário José Fanha.
Ora, a Antena 1 foi a casa do meu programa Bicho-de-Conta, com Filomena Crespo e Mª José Dionísio, assistência de Umbelina Dias. Dois anos de histórias, de entrevistas e muitas amizades, uma delas a do José Fanha, que provocou tal reacção nos ouvintes que, na semana seguinte, estivemos todo o programa a ler textos provocados pelos desafios que lançou aos ouvintes.

17/06/14

P 280 – 17 Junho 2014 – sem desafio – Margarida Fonseca Santos

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim

(Revista Pias & Filhos, Janeiro de 2012)
– Poupamos muito se formos de autocarro – concluiu o pai. – O que é que achas?
– Mesmo assim, é pouco – alertou a mãe. – Temos de pôr algum dinheiro de lado…
O pai ficou calado. Para amealhar, tinham de fazer mais qualquer coisa.
Foi nesse momento que Carolina reapareceu. Nas mãos, um maço de notas do Monopólio.
– Fiquem com estas. Estavam ali numa caixa, não devem ser de ninguém… São muitas! Olhem…
E Carolina recebeu um beijo em cada bochecha.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

15/04/14

Programa Rádio Sim 238 – 15 Abril 2014

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim

– Meu Deus! O chão todo molhado! Olhem para isto!
Duas cabeças espreitavam da borda da banheira. Um lago… A casa de banho estava transformada num lago.
Deixaram-se ficar, de queixo encostado à banheira, espiando os movimentos da esfregona que, impiedosa, removia a água sem descanso.
– Estão contentes?! Quantas vezes já vos disse para terem cuidado, digam lá?
As duas caras nem se mexeram, sempre de queixo apoiado.
Só então o Manel disse:
– Estava mau tempo, mãe …
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres - Revista Pais&Filhos, Novembro 2011) 

07/04/14

Programa Rádio Sim 232 – 7 Abril 2014

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim


Aconteceu-lhe assim, sem aviso. O trânsito parado, a chuva a disparatar contra o vidro, o cansaço a gastar-lhe a serenidade. Deu um murro no volante.
Chega!
Estacionou sem ligar aos sinais. Saiu para a chuva, desafiando-a a manter-se disparatada. Usou-a para lavar o cansaço, mudando-lhe o aspecto. Atreveu-se a procurar a serenidade. Largos minutos passaram.
Quando voltou ao carro, estava diferente. O trânsito também. A chuva, agora tímida, levava consigo a recordação daquilo a que chamamos antes.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres, na Revista Pais&Filhos, Setembro 2011)

29/11/13

Programa 145 – 29 Novembro 2013

OUVIR o programa!   Uma forma boa de passar o dia de anos!
Ouvir no site da Rádio Sim


O mar enredou-lhe os pensamentos, e ela deixou. Descartou-se de momentos passados e exaltou-se com momentos desejados. Sentiu-se diferente – já não era um ponto final suspenso na rocha. Não encontrou o vazio que carregava, nem questionou a vontade que surgia.
Deixou-se ficar, quieta. Abandonou o olhar nas ondas, deixou que lhe trouxessem outras verdades. Transformou-se num mar mais forte, mais azul, tão mais possível.
E reencontrou-se em cada onda que sentiu e que não deixou para trás.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 


29/03/12

março 2012 - pais e filhos


– Estás cheio de febre… Pai!!!
Quim abriu os olhos com dificuldade. Miguel, de sobrolho carregado, abanava o termómetro, esperando que ele o pusesse debaixo do braço.
– Vá, vou buscar a aspiradina.
– Estou de certeza com febre, nem percebi o que disseste – queixou-se Quim, voltando-se na cama onde os dois tentavam curar uma constipação valente.
– Aspiradina, aquele remédio que aspira a febre. Volto já!
De cabeça a latejar, Quim verificou o que Miguel já sabia – agora era ele!
histórias - Margarida Fonseca Santos; ilustrações - Francisca Torres

28/03/12

março 2012 - pais


Joana estava desconfiada. O trânsito não fora caótico, os semáforos levaram-na depressa até à estação, o comboio apresentou-se vazio e até com um aspecto relaxado, não lhe custou subir a rua até ao escritório, nada… Nem um obstáculo se atravessara entre ela e o emprego, nem um!!!
Mas quando viu a porta fechada, disse:
– Eu logo vi! Só podia ter acontecido qualquer coisa!
Uma voz respondeu-lhe, do outro lado da rua:
– Vem trabalhar hoje, menina? Ao domingo?!
histórias - Margarida Fonseca Santos; ilustrações - Francisca Torres

27/03/12

março 2012 - filhos


Bolas!!! Se não tivesse sido tão teimosa…! Se tivesse ouvido outra vez…!
Matilde não conseguia lembrar-se. Era por cima, depois dava a volta… Não! Tinham de fazer umas orelhas, disso lembrava-se, e depois?
Nada feito! Os atacadores recusavam-se a colaborar. A voz da mãe chamava:
– Então? Chamo o elevador?
Matilde encheu-se de coragem. Avançou pelo corredor, qual soldado derrotado. Os atacadores, mortos de cansaço, iam de rojo pelo chão.
– Ai, Matilde, desculpa, esqueci-me. Que cabeça a minha!
história - Margarida Fonseca Santos; ilustração - Francisca Torres

28/02/12

fevereiro 2012 - filhos

Francisca espiava o irmão de longe, interrompendo a sua brincadeira.
Tomás agarrava nas peças e tentava que encaixassem nos espaços que aquele brinquedo lhe apresentava. As tentativas tinham começado há dois dias, embora o truque estivesse por desvendar.
Foi nesse instante que Francisca avançou. Ela levava dois anos de avanço a Tomás, que brincava com a bagagem que os seus treze meses lhe proporcionavam.
Um exemplo, dois exemplos, e Tomás riu com gosto – estava decifrado o engenho!!!
(texto: margarida fonseca santos; ilustração: francisca torres)

27/02/12

fevereiro 2012 - pais e filhos

– Porque é que o autocarro vai à nossa frente, pai?
– …
– Porque é que o semáforo mudou agora, pai?
– Tinha de ser, Filipa.
– Porque é que não vais pela rua da tia?
– Fica muito longe…
– Porque é que está escuro?
– É noite…
– E porque é que…
– Porque é que fazes tantas perguntas, Filipa?
– … Estão aqui – disse Filipa, apontando para a cabeça. – Saem sozinhas…
– Sozinhas?!
– Sim. Saem de repente. … Pai, porque é que elas saem sozinhas?
(texto: margarida fonseca santos; ilustração: francisca torres)

26/02/12

fevereiro 2012 - pais



A poesia que escrevia era a única coisa que não partilhavam. Não por vontade dela, que começou por mostrar e depois guardou sem esconder. Também não por vontade dele, pois apenas se sentia incomodado nos versos que lhe tocavam fundo mas que não conseguia explicar com a razão. Em tudo o resto, as almas achavam-se gémeas. Contudo, há sempre um dia que desarruma as histórias das pessoas, e nesse dia ele leu e entendeu com o coração.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

01/02/12

janeiro 2012 - filhos


– Como é que sabes que ela volta?
– Foi o que ela disse… – respondeu Pedro. – Deve ter ido arrumar a casa.
Estavam de cócoras, entretidos a olhar para um buraquinho minúsculo por onde, momentos antes, desaparecera uma lagartixa.
– Mas ela falou mesmo contigo? – quis saber Filipa. – Pode ter ido dormir.
– As lagartixas não dormem!
– Ah…
Continuaram à espera. Segundo Pedro, ela sairia dali a nada.
– Estou farta de esperar, Pedro…
– Pois… eu também… Se calhar, mentiu-me…
– Se calhar…
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

28/01/12

janeiro 2012 - pais

– Aaaahhh!!!!
– Então?!
– Cheguei à estação, perdi o comboio. Depois, vim apertadíssima. Quando saí, deixei cair a mala ao chão, tudo espalhado, um filme!!! Agora, esbarrei com a dona Gracinda, que me esteve a falar dos problemas dos filhos, sempre a queixar-se, sempre a lamuriar-se, que seca!!!
O marido, com um sorriso malandro, ouvia.
– O que foi?!
– Queixou-se muito, foi…?
Filipa deixou-se cair no sofá. E com uma voz mimada, disse:
– Não sou igual a ela, pois não…?
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

26/01/12

histórias recebidas - janeiro 2012 IV

 Diogo, dos Reguilas da Mata, de novo!!! (1º ciclo)

Cana de pesca mágica
No domingo, o Frederico foi pescar achigãs na barragem do Alqueva, com a família.
Quando foi lanchar encontrou uma cana de pesca perdida.  Esta murmurou:
- Olá! Queres pescar comigo?
- Quem falou?! - exclamou o Frederico.
- Eu, a cana de pesca.
- Boa! Contigo vou pescar uma tonelada de achigãs…
- Só?! Eu sou capaz de pescar duas toneladas.
- A sério! Vamos lá ver isso…
Não é que conseguiram mesmo!
Frederico, dos Reguilas!!!

Será que estou louco?
– O quê? O cano falou?
– Sim falei, algum problema?
   Jacinto beliscou-se pela segunda vez. Seria mesmo verdade?
– Não te magoes. Arranja-me!
– Será que estou louco? - perguntou-se Jacinto.
    O cano furioso, já sem paciência, disse a Jacinto que tinham de fazer um acordo.
– Está bem. Mas o quê?
– Tu tentas substituir-me e eu fico teu amigo!
– Mas para que é que eu quero um amigo que é resmungão e mandão?
– Juro! Se ficarmos amigos vou ser super-simpático!
 Catarina Colaço, 11 anos, Ext. Marista de Lisboa


– Mãe, estão ali duas pretas – disse Bia, menina perspicaz de quatro anos, quando entrava no infantário.
– E estão aqui duas brancas – respondeu a mãe.
E foi assim que começou uma colorida lição sobre cores que iluminam o mundo. Diferenças de pele, corações iguais, iguais sorrisos rasgados, iguais gestos de amor.
E foi assim que, um mês depois, Bia desembrulhou a prenda de Natal e abraçou o simpático boneco negro, tão risonho, vestido com o arco-íris.
 Ana Paula Oliveira – 51 anos, S. João da Madeira

20/01/12

janeiro 2012 - histórias recebidas III

Numa aldeia vivia uma rapariga, chamava-se Madalena e passava os tempos livres a escrever poesia.
Quando chegaram à escola, a professora perguntou que profissão queriam ter, todos diziam  que queriam ser futebolistas, bailarinas, veterinários, mas quando chegava a vez da Madalena a turma ria-se porque ela queria ser escritora. A professora, vendo aquela algazarra, pediu à Madalena para ler, a turma ficou espantada com o seu talento e no dia seguinte pediam-lhe para ler e ensinar-lhes poesia.
Catarina Luís, 12 anos, Escola Básica da Venda do Pinheiro

– Como se inventa uma estória?
– Primeiro a ideia germina na célula mais pequenina do cérebro. Cresce, desce pela nuca e quando chega ao pescoço vira à direita escorregando pelo braço. No cotovelo tem que se encolher que o espaço é apertado. Quando chega ao pulso respira fundo e sorri feliz, está pronta a sair pelos dedos.
– Mas como fazes, afinal?
– Acho que as ideias andam no ar à procura de uma cabeça. Às vezes escolhem a minha.
Quita Miguel, 52 anos, Cascais

João e Toni encontraram-se no Nosso Café para a habitual tertúlia. João julgava-se erudito. Toni era um sábio humilde. Quando dialogavam sobre a essência de cada um, Toni afirmou: João, és um altruísta! O interlocutor registou como metalinguagem: egoísta! João remoeu o “vitupério”. Toni tinha cancro no pâncreas. João distanciou-se… Toni faleceu. Tempos depois, relembrando-se do amigo, João sentiu-se impelido a procurar no dicionário a “ofensiva”. Diante da ignorância e mau proceder, chorou, pediu perdão. Grande lição!
Elvira Camarinha, Braga, 45 anos

Calça azul apertada, blusa branca, lenço amarelo ao pescoço, ténis roxos, sorriso aberto, cabelo loiro despenteado, olhos verdes em cara morena, todo o autocarro olha para ela, a correr para a paragem, ofegante. Cheia e mal fechada, a mochila azul no braço chocalha e reclama com os seus passos acelerados e sacudidos. Salta, entra, mostra o passe, o “laranja” anda, trava, oscila, ela desequilibra-se, a mochila cai ao chão, abre-se e numa algazarra, esparramam-se as 77 palavras!
João Paulo Chora, 52 anos, Estoril

O Simão tinha 10 anos e umas orelhas enormes. Os amigos provocavam-no por causa disso. Os inimigos gozavam com ele pelo mesmo motivo. Mas a Francisca adorava contar-lhe segredos, segredos que eram reservados apenas àquelas orelhas, as únicas sempre disponíveis para a escutar, para a entender.
O Simão tinha umas orelhas enormes, mas a Francisca gostava dele assim e, com o tempo, ele também aprendeu a gostar…
E a opinião dos outros? Bem, isso nunca mais interessou!
Rita Vilela, 46 anos, Paço d'Arcos

26/12/11

dezembro 2011 - pais

 – Gostava que me contasse tudo desde o primeiro sintoma.

Uma ruga apareceu de imediato na testa de Clarisse.

– Tudo…?!

– Espero que se lembre – brincou a médica do centro de saúde.

Era nova, acabadinha de entrar no sistema, herdando casos que a outros sobravam, determinada em ouvir as pessoas que a consultassem.

– E deixam-na fazer isso? – questionou Clarisse, a prever que alguém entraria pelo gabinete pedindo que a médica se despachasse.

– Não imagino outra forma…

E Clarisse contou.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

dezembro 2011 - filhos


Ensaiara muito bem a conversa – tinha de lhes contar o que acontecera. Das outras (três) vezes, ouvira alguns ralhetes, frases que começavam com “tens de ter mais atenção”, outras que acabavam em “que não se volte a repetir”.
– Mãe…?
– Diz!
– Perdi a chave do cacifo… Outra vez… Desculpa.
Depois de um olhar espantado, chegou um sorriso:
– Estas? – Na mão da mãe, as chaves… – Vê lá tu, fui eu que lhes peguei sem querer, que cabeça a minha!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

dezembro 2011 - pais e filhos



– Diz-me tudo!!! O que é que faço?

Pedro esquecera-se dos seus seis anos, ajudava com coragem.

– Telefona ao pai… Argh…!

– Dói muito?

Nenhuma resposta.

– E depois?

– Não, espera, telefona primeiro para o 112!

– E digo-lhes o quê? Que a Joana está a chegar?

– Não, Pedro, argh… diz-lhes só que estou em trabalho de parto. Rápido!

E Pedro, com a voz trémula, explicou tudo. A Joana chegou quarenta minutos depois, e o Pedro foi o primeiro a vê-la.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

10/12/11

As primeiras histórias dos leitores em Dezembro 2011



A Estrela azul
Era uma vez uma estrela que um dia mudou de cor. Ficou azul.
Ela ficou assustada e foi ao Dr. Colorido. Este disse-lhe que ela sofria de pintite aguda, doença rara e sem cura.
            A estrela ficou triste e chorou bastante, até que uma lágrima caiu na face da Sra. Toupeira, vestindo-a também de azul.
            A Sra. Toupeira pulou de alegria.
            A Estrela ao vê-la tão feliz percebeu que a doença não era grave.   
EB da Mata 4º A - Estremoz


Se formos a pensar numa certa coisa, quando os ladrões nos assaltam e dizem sempre:
- A Bolsa ou a Vida!!!
Se lhes dermos a bolsa, eles fogem com o nosso dinheiro e pertences. Mas depois se não lhes dermos a bolsa, matam-nos e levam a bolsa! Levam sempre a bolsa. O que intriga é quando às vezes não estamos a ver, eles levam a bolsa sem nós notarmos, e nem sequer nos falam uma única palavra.
Manuel Barros, vivo em Lisboa, tenho 11 anos


Ele correu para a televisão e viu que as suas esperanças estavam corretas!
Correu de volta ao quarto e pegou nas coisas de praia que deixara para trás, preparadas.
– Mãe! – gritou.
– Sim, Guilherme? – respondeu a mãe, do quarto.
– Vamos à praia! O tempo está perfeito!
Guilherme reparou que a mãe não se movera.
– A mãe prometeu que me levava à praia se o tempo deixasse!
Não havia como resistir ao sorriso ténue, delicado do filho.
 Pedro Caetano Carvalho, Beja, 14 anos


Queres café no açúcar? Perguntou Maria a Pedro, que disse preferir um gosto a arroz. Na festa anual do açúcar, no Mediotejo, cada um tomava o açúcar como quisesse.
Antonieta, ex vegetariana, trocara este ano a alface pela carne de vaca no açúcar.
Foi então que Fausto quebrou a única proibição, já secular: pediu mel para o seu açúcar, algo verdadeiramente sacrílego.
Resultado: bens confiscados e expulso da aldeia. Eram assim os tempos amargos da intolerância doce.
 João Pedro Chora

Começa a chover… E lá vão elas a correr para rua.
A lama é muita, muitas as poças… não falham uma.
Ouvem-se os risos, movem-se os pés, um após outro, como uma dança. Que divertido!
São de borracha, não entra água… mesmo perfeitas para sujar.
E que bonitas, com essas cores, vivas, alegres. Ficam tão bem!
Se um dia eu fosse bota, e pudesse escolher, queria ser “de borracha”… para poder brincar nos pés de uma criança.
 Rita Vilela

“Joaninha voa, voa…”
“Joaninha voa, voa que o teu pai está em Lisboa”, cantava a Aninhas,
observando as joaninhas que passeavam as bolinhas de seus vestidos
vermelhos. Andavam no alecrim do seu quintal.
De repente, a Joaninha abriu as asas e poisou no cabelo da menina.
- Mãe, mãe, chamou a Aninhas toda vaidosa, vem ver meu travessão...
- Que lindo e colorido e parece sorrir! É mágico?
Era apenas a joaninha que gostava muito da Aninhas!
Ana Maria Santos, Fogueteiro - Seixal, 57 anos 


"O lápis despertou com a agitação das palavras dentro de si. Uma história acabara de se formar e tinha pressa em sair, mas o bico já gasto aprisionava-a.
Sem suportar tanto alvoroço, o lápis foi até ao afia, que se dispôs a afiá-lo.
Estava pronto para escrever e começou a deixar sair as palavras.
A fila era grande. Algumas, mais apressadas, forçavam a passagem. Espremiam-se, embaralhavam-se e acabavam por sair aos trambolhões enchendo a folha em branco."
 Quita Miguel, 52 anos, Cascais

Estou feito!
Mas vou tentar, claro!
Ainda por cima, maldito 77!
Meu número azarento.
Bem, vou começar.
Era uma vez um informático…
Não! Assim não vou lá!
Deixa cá ver assim:
Eu gostava de escrever um livro...
Um livro!?
Qual quê!?
Uma crónicazeca chegava!
Se calhar um simples postal!
Estou mesmo feito!
Meto-me em cada uma!
Será que posso contar carneiros?
Se calhar não.
É batota e ainda posso adormecer.
O melhor é acabar.
E é já!
Joaquim Ribeiro, Lisboa, 57 anos, Lisboa

Vir ao curso foi boa escolha.
É divertido e proveitoso.
Mas sinto-me perdida.
Os meus colegas são todos peritos.
Até o médico já escreve melhor!
Mas vou conseguir.
Vou-me ganhar!
Desconfio que alguns já sabiam disto.
Para iniciados são textos muito bons.
A Margarida é o máximo!
Por que não tive uma professora assim!
Agora poderia estar eu a ensinar.
Não estaria fechada na empresa.
Tantas contas, relatórios!
Bom! Deixa ver como vai.
Uau! Cheguei às 77!
 Teresa Gomes 54 anos, Lisboa 

A Pulga Saltitona!
Passeando pela praia, uma concha, eu encontrei, com uma sombra nas costas. Logo me aproximei. E que foi que eu vi? Uma pulga-do-mar fazendo o seu flic flac!
- D. Pulga, por aqui?
- Do circo fugi. Vim ver o mar, correr com a espuma... Que saudades! Sabe saltar à espuma?
- À corda, quer dizer?
- Não, não, ora veja...
E lá foi, salta aqui, salta ali e eu nunca mais a vi!
 Ana Maria Santos , Fogueteiro – Seixal,  57 anos 

É com o olhar que viajo neste mundo.
Trago sol, levo neve, apanho as folhas, as flores,
Vejo o mar, anda na lua e na rua
Recordo a nuvem, a flor, o cão, a Maria e o João,
Guardo tudo em mim.
Fecho os olhos nada tenho,
Abro os olhos e tudo recebo.
Com o verde dos meus olhos tudo alcanço.
Não há limite de espaço para o sonho.
Viajar, sorrir, chorar, aprender...
Trago memória no olhar!
 
Vera Duarte, 38 anos, Odivelas

Há um espadachim pintor escondido nas nuvens. Rasga o céu de outono e pinta-o de fantasia. Brinca com a primeira estrela do céu, mas perde o fulgor e a bravura, quando a lua aparece e se deita nua sobre o rio. Morre de ciúme e paixão, espreitando pelo canto da linha do horizonte... Quando a aurora desperta e lhe toca nos ombros, estremece deste encantamento e, de espada em punho, pincela os lençóis ainda quentes do sol.
Lurdes Augusto 



03/11/11

novembro 2011 - pais


– Tem a certeza?
Aquela senhora, entretida a mandar mensagens, apenas distraída pelo cliente e pela pastilha elástica que mascava com afinco, tinha toda a certeza.
– Então, sendo assim, como é que faço?
Deu-lhe a resposta num encolher de ombros, atrasando um pouco a rapidez do polegar. Depois, parou, entediada.
– Não percebeu? Não é desta secção, tem de ir ali àquela. Acha que sei tudo?
O homem resignou-se. Tinha só uma certeza – ela sabia mandar mensagens tão depressa!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)