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02/08/20

Elsa Alves – desafio 60

Os nomes próprios combinaram uma grande festarola. Naquele tempo em que não havia restrições aos ajuntamentos... Podiam ir nomes femininos ou masculinos. Nomes de uma ou duas sílabas: Eva, Adão, Rui, Ana. Ou aqueles, compridos, quase impronunciáveis: Constantino, Felismina, Domitília, Evaristo. Apelidos é que não. Esses que fizessem a sua própria festa. Alguns, teimosos, decidiram tentar entrar no recinto. Muitos conseguiram as suas pretensões. Infelizmente, o meu apelido ficou preso no arame farpado. Faltaram-lhe pernas para saltar...
Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

17/07/20

Fernanda Malhão – desafio 60

Desde pequena sofria em silêncio. Era baixinha, muito franzina, com pernas fininhas, branquelas e desengonçadas. Na aldeia todos a chamavam por um maldoso apelido: “palito de dente”, o que a fazia sentir mesmo triste e sem graça. Um dia a menina deixou a aldeia, na cidade cresceu e se transformou. Anos depois, quando voltou a aldeia, todos paravam para ver as curvas menina, tinha outro olhar, apenas o apelido ficou preso no arame farpado na sua memória.
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

15/08/19

Helena Rosinha ― desafio 60

Procuraram-no pelo parque, alargaram depois as buscas aos campos vizinhos, contornaram vedações, saltaram valas, utilizaram cães. Do músico nem sinal. Tiveram então conhecimento de que, numa aldeia afastada, o novo organista tocava dia e noite sem cessar. Montaram guarda à igreja e, no momento apropriado, abordaram-no, perguntaram-lhe o nome. Ele, apreensivo, ergueu o braço, mostrando a pulseira da clínica com a identificação rasgada ao meio:
 “Agora sou apenas Sebastião, o meu apelido ficou preso no arame farpado.” 
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira 
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

10/08/17

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 60

Saíste do liceu há tantos anos, mas nunca perdeste a alcunha que os professores te deram para não olvidarem as tuas faltas consecutivas às aulas ― o Turista!
Para ti, eram indiferentes horários, disciplinas, professores, matérias que iriam ser abordadas nas aulas... tu simplesmente não querias estar dentro da sala e, por isso, todos te viam a jogar futebol no recreio.
Hoje, continuas a ser tratado por esse epíteto pelos colegas.
O apelido ficou preso no arame farpado.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

02/04/17

Ana Fernandes ― desafio nº 60

Nos dias em que as nuvens carregam mais do que a água que largam no mundo, fico muitas vezes de nariz colado ao vidro da janela, na esperança de ver a vida passar mais depressa.

22/03/16

Deixa...

Ela não se dava conta, de como a mãe sofria.
Porque nada podia fazer.
Mas ela não tinha mais ninguém para, dividir,
as queixas.
Mãe, é mãe, está sempre lá.
Se tivesse escutado, os conselhos dela.
Como se arrependia. Mas mesmo assim,
ela escutava-a em silêncio,
e esse silêncio mostrava o sofrimento,
que lhe invadia o peito. E mesmo assim,
antes do último sopro, ainda ouviu dizer:
– DEIXA LÁ, O APELIDO DELE FICOU PRESO NO ARAME FARPADO.

Natalina Marques, 56 anos, Palmela
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


12/08/15

Falso Amor!

Numa paixão avassaladora
Que era fruto proibido
Entreguei-me às escondidas
Arrebatada pelo perigo!

O tempo provou-me que falhei,
Manipulada por um impostor,
Ambicionando o nome e o brasão
E eu cega, apenas via amor!

Recuei… Com provas evidentes,
Caíram por terra ilusões,
Traída por este calculista
À caça de nome e de milhões!

E de paixão, passou a aversão,
Um falso amor depressa abandonado,
Ainda teve tempo, "ao  ver de perto",
O apelido preso no arame farpado!

Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante 
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


02/07/15

O preço da paixão

Nos seus corações a dúvida pincelava laivos de incerteza. O amor deles estaria condenado ao fracasso? Ele nascera prometido à abastança. Ela, destinada a caminhar nas ruelas do infortúnio. A vida despontou quando se apaixonaram. Amava tanto a sua Juliana, mas sentia-se encarcerado na herança familiar. Quando transpôs a cerca deixando o apelido preso no arame farpado, não reparou sequer nos ferimentos causados. A liberdade tinha o preço da sua paixão. Agora nada os desunia. Isso bastava-lhe!

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

28/05/15

Traição inocente

Joana estava em guerra desde aquela cena de ciúmes do marido. Vivia entrincheirada, esperando um cessar-fogo. Sentia-se inocente. Apenas cumprimentou com dois beijos o ex-namorado. 
Porém, para Marco era traição que transformava em violência.
Joana não podia aceitar tal situação. 
Um dia, saltou da trincheira, correu direita à praia. Mergulhou e nadou rumo a um novo destino. O apelido de casada ficou preso no arame farpado que atravessara para sair do palco de guerra.
Sentia-se agora livre!

Domingos Correia
, 57 anos, Amarante
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


26/05/15

Nem sempre enganar compensa

Tinha um apelido importante cheio de Rs e Ss. Pertencia à fina nata nacional. À sua passagem sorrisos abriam-se, colunas dobravam-se, cabeças baixavam. O seu olhar poderoso dominava. Era considerado um líder.
Sentia-se grande. Entrou por maus caminhos. Enganou muita gente. Depois, ralharam as comadres e se descobriram as verdades. O seu apelido ficou preso num arame farpado. Até os velhos amigos o abandonaram. Assim, como castigo foi acusado e preso. Por isso, enganar nem sempre compensa.

Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


14/02/15

É Carnaval

O povo saiu à rua para percorrer o desfile ao som da música. Palhaços, bailarinas exóticas, bêbados com caras monstruosas, bruxas, princezinhas, enfermeiros, macacos, coelhos… bicicletas enfeitadas, banheiras com rodas e até carrinhos com sanitas! Via-se tudo naquela passarela divertida e apinhada…
Foi então que pousei o olhar num cartaz gigante que satirizava um dirigente com nome de animal por apelido. Ficou preso no arame farpado quando se soltou do carro alegórico e resvalou para o precipício.

Márcia Gomes, 36 anos, Vila Nova de Famalicão
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


19/12/14

O vão do existir

Refém do passado,
Correntes se arrastam,
Escrava do medo...
O que se fizera do que fora?
E o que fora?
Algumas repostas, se é que existem, são trancafiadas no limbo da alma. Por essa razão, e por outras de certo, aquela figura arredia, entre assustada e assustadora, nada fala. Encerrou-se em silêncio quem sabe desde outras vidas. Tal como as vestes, e o apelido que ficou preso no arame farpado, foi feito da fala, do quase existir.

Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


08/12/14

Sempre soubeste

O apelido ficou preso no arame farpado. Por sorte passei ilesa. Não faz sentido manter-me ligada a ti, partirei. Vogarei sem saber o rumo, sem nomear o futuro, as palavras podem ser nuvens de fumo. Não me despeço, arremesso a porta, saio nada e não lamento perdas, porque quero que saibas, aquela, antes do apelido, continua aqui pronta para recomeçar. Dou um passo e é o mundo que se abre. Sabes? Pois sabes, sempre soubeste. Nasci livre!

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

07/10/14

Programa Rádio Sim 359 – 7 Outubro 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

O mundo do outro lado
A criança não compreendia. Ruas estreitas, cobertas por vazio, caminhos que não levavam a lugar algum. Estava só, ainda que entre outras crianças, as quais também não compreendiam. Haviam sido apanhadas na rede de um ditador mesquinho, um pescador de almas malévolo. Vestiam de igual, viviam de igual uma vida que não haviam escolhido.  Desconheciam a palavra amanhã, respiravam a morte. O mundo ficou do outro lado do muro e o apelido ficou preso no arame farpado!

Carla Saiago Pereira, 37 anos, Salvaterra de Magos
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

16/09/14

Programa Rádio Sim 344 – 16 Setembro 2014

OUVIR o programa! 


No site da Rádio Sim

O teu nome no meu manto
Saí de madrugada, assombrada por memórias nunca vividas – o que sonhei, o que sonhámos. Escrevi teu nome em meu manto de sede e corri deserto fora. Corri, cambaleei e rastejei, até o sol aquecer minha alma.
Já sem forças, olhei para o que restava de mim – um corpo vazio, um corpo que não era mais o meu. E o manto!? Esse perdera-o em pedaços. O teu apelido ficara preso no arame farpado, tal como o meu coração.

Margarida Sousa, 37 anos, Paris
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

16/05/14

Sei

Retorno sempre à velha certeza de que fui outra, talvez a mesma na sua essência, mas com outros contornos. Sinto até a familiaridade dos lugares, das sensações, impressos em mim como uma marca de nascença, com a certeza de que o apelido ficou preso no arame farpado. Uma barreira intransponível que me separa de quem fui contigo, que me separa da lembrança de ti. Sei que fomos o que não recordo e que tenho hoje outro nome.

Sandra Évora, 40 anos, Sto. António dos Cavaleiros  

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

27/04/14

O apelido da alma

O banco é de madeira. Antigo. Preso ao chão.
O homem é daquilo que é feito um homem. Muito antigo. Preso à vida.
Parecem um só.
O sol cresce para o dia enquanto o Tejo desliza num espelho de luz.
Aqui viu o pai mergulhar para a morte. Aqui chorou tristezas de filhos. Aqui perdeu uma mão cheia de sonhos, gastos no medo. Aqui seu apelido foi ficando preso em arame farpado.
Seu apelido? Ou sua alma?

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa  
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


24/04/14

Programa Rádio Sim 243 – 24 Abril 2014

OUVIR o programa! 


No site da Rádio Sim

O apelido ficou preso no arame farpado
Enquanto o dia não vem, perco-me neste silêncio aterrador.
Imagino como seria viver ali.
O Pai costumava dizer para não me preocupar, mas preocupo-me. A Mãe diz que o papá volta um dia destes.
Sei bem que não, vi quando o levaram. Tapei com toda a força os meus ouvidos mas ainda pude perceber que nunca mais o voltarei a ver.
O apelido ficou preso no arame farpado. Um herói... amador.
Resta-me agora a Mamã, até ver.

Celeste Silva, 43 anos, Coimbra
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

25/03/14

Sonho desfeito

Recordo bem, na inocência dos 14 anos, planeando nosso futuro através das revistas de decoração da tua mãe. Tínhamos a aprovação dela mas não da minha.
Quando estávamos a só, sonhando uma vida a dois, teu apelido usava.  Mas minha mãe descobriu e mandou-me viver com uma tia. Teu pai adoeceu e partiram. Assim me contaram quando regressei, chorei lágrimas sem fim, Assim o apelido ficou preso no arame farpado, o sonho acabara. Agora resta a recordação.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

24/03/14

Incertezas

Ser mãe é gratificante ?
Talvez sim, talvez não...
Relação de amor/ódio, ternura/revolta, lágrimas e frustrações...
Nuns dias alegre, tolerante e meigo.
Noutros, triste, agressivo e inconveniente.
Sentimentos contraditórios, recomeços dolorosos.
Aonde é que errámos?
Transmitimos os mesmos valores, as personalidades são tão diferentes...
Serei culpada? Mas, culpada porquê?
Por te ter desejado tão desesperadamente?
Ou por subverter as dúvidas e as incertezas?
O teu apelido deveria ter ficado preso no arame farpado?Quero acreditar que NÃO...

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)