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22/03/19

Cristina Isabel Santos ― desafio 115

Salpicava os olhos com os dedos. 
Não podia adormecer. Nos ramos da árvore pousava o sono. 
Os olhos queriam encostar-lhe a cabeça ao tronco. 
Começou a contar carneiros, porque virou noites e manhãs   
acordado com campos cheiinhos de carneiros. 
Cada um tinha nome, cor e um sentido.
Ouviu um estalido. Deixou os carneiros agarrados ao tronco, 
a cor do céu desaparecia, ele procurava os companheiros.
Tinha ficado de tocaia com medo da solidão.
Acabou por ser apanhado.
Cristina Isabel Santos, 43 anos, Lisboa
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

24/07/18

Domingos Correia ― desafio 115


Outra noite virá…
Sonhava com a paz que já não encontrava aqui. Fez um pedido ao divino, ansiando que se cumprisse. Adormeceu quase feliz, expectante…
Um campo infinito… corre livremente pela erva verde… braços abertos, imitando as asas do albatroz… depois, sentado com as mãos pousadas nas pernas, sente-se levitar… atravessa uma nuvem branca… sente-se em êxtase… consegue provar o gosto da paz… Que felicidade!...
Deixa a contragosto este sonho e fica a sonhar com aquela paz!…
Outra noite virá…
Domingos Correia, 60 anos, Amarante
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

10/04/18

Teresa Caeiro ― desafio 115


Entraram pé ante pé, e esconderam-se atrás da cortina de teias de aranha, espreitando o futuro. Prepararam bagagens de memórias, encheram cantis adocicados de mel, e soltaram os medos à deriva, não fosse o sono chegar antes e não poderem partir com ele. Tinham um trato sagrado: nem uma palavra diriam, nem um olhar trocariam. Deram as mãos para se assegurarem de que partiriam juntos. Deitados lado a lado, só deram pela mudança quando já era amanhã.
Teresa Caeiro, 59 anos, Lisboa
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe


25/02/18

Constantino Mendes Alves ― desafio 115


Como acontece no romance de Valter Hugo Mãe, também conheci um. Estava sentado numa cadeira, cabeça deitada, sem vida, aparente.
Todos os lugares fossem aqueles, havia matemática complexa nos lírios, um zigurate de palavras onomatopaicas, que em carinho a erguiam, qualquer coisa transversa que a efabulavam e adornavam. Ele estava lá, com ela, mesmo na cicatriz do pulso.
Era hora do médico, o comprimido saltava da boca, do que era a boca.
Na porta: «Homens imprudentemente poéticos»
Constantino Mendes Alves, 59 anos, Leiria
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe


28/01/18

Elsa Alves ― desafio 115

O nosso barco andou à deriva mas fomos sendo capazes de colher conchas, pedras esculpidas pela água, mãos cheias do azul do mar. E quando o sol se punha, abraçávamo-nos à areia morna e deixávamo-nos inundar pelo seu calor. Ficámos habitados por esses momentos. De noite, quando a pressa da vida parecia ficar lá fora, do lado de lá da janela, voltávamos a olhar para dentro e já não nos perdíamos no ermo de uma casa vazia.
Elsa Alves, 69 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe


14/12/17

Glória Vilbro ― desafio 115

Algumas coisas precisam das sombras para se moverem confiantemente. É o caso de certas ideias e opiniões, e também de alguns sentimentos. Ao contrário do que possamos pensar, na noite não medram apenas conceitos obscuros. No caso da Mariana, por exemplo, a inspiração só a visitava quando ela dormia. Deitava-se absolutamente falha de ideias, e despertava radiosa e cheia de discursos, qual profetiza das madrugadas. Não percebia como acontecia, nem se preocupava em saber. Tecia sonhos inacabados.
Glória Vilbro, 50 anos, Negrais, Almargem do Bispo - Sintra
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe



04/11/17

Helena Rosinha ― desafio 115

Perguntas se eu fui feliz
Vi auroras e ocasos
Vi desertos e oásis
Marés cheias, rochas desnudas
Florestas absolutas, cumes gelados
Campos esventrados
Se eu fui feliz?
Senti a dor do nascimento
Senti a dor da separação
No fervor do reencontro
Ri, chorei de contentamento
Amei, duvidei, perdoei
Fui perdoada
Se eu fui feliz?
Respondo-te finalmente:
Fui rio sem pressa de ser mar
Corrente que uniu sem amarrar
Ora impetuosa, ora serena
Vivi venturosa por te amar.
Helena Rosinha, 65 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe


17/10/17

Isabel Sousa – desafio 115

Os homens são rios iludidos
Na contínua rotação das noites, os homens esperam futuros por acontecer. Nessa espera, são rios iludidos que querem ser lagos. Ávidos, retêm as águas nas pedras e constroem barragens, esquecendo a sua verdadeira natureza que é serem rios e passarem. Difícil convencê-los a soltarem-se, perderem o medo e cavalgarem os leitos de mil escombros, como cascatas caindo em plena liberdade. Nesta retida condição, muitas vezes, acordam quando finalmente atingem o mar e se dissolvem nas salgadas águas.
Isabel Sousa, 65 anos, Lisboa
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

20/09/17

Susana Sofia Miranda Santos - desafio nº 115

O amor entre eles findara há muito, mas o carinho pelos filhos conservava-os juntos; consideravam que deveriam educar conjuntamente as crianças para que fossem felizes e se tornassem cidadãos exemplares.
As traições da esposa já há muito deixaram de perturbá-lo... afogava as mágoas na garrafa de gin e na violência doméstica.
Mas uma vida sem amor limita-se a uma mera passagem no calendário, desprovida de qualquer significado!
Assim, quando anoitecia, sentiam-se aliviados pela célere aproximação da morte.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe


01/07/17

Carolina Constância ― desafio nº 115

Tudo o que desejo não me deseja a mim. Os sonhos escorrem-me por entre os dedos, como a água salgada que me cobre o rosto. Mas eu não corro para os apanhar. Deixo-os fugir, assim, ao de leve. E choro, à espera que regressem, outra vez, para dentro de mim. Enrosco-me, no meio da escuridão, fechada do mundo, na esperança que o sono me leve para o amanhã, e que este me devolva tudo aquilo que perdi.
Carolina Constância, 24 anos, S. Miguel - Açores

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

30/06/17

António Matos ― desafio nº 115

Terminavam cada dia das férias de Verão ansiosos pelo amanhecer. Dormir impunha-se apenas quando o sono chegava e o corpo cedia à excitação das combinações infantis próprias de irmãos. O quarto em que dormiam naquelas semanas de calor algarvio, no apartamento construído durante a vaga de betão, separava-se da sala por uma cortina esvoaçante que deixava a brisa nocturna, vinda da janela aberta, arrefecer-lhes a noite. Quando o sono partia e acordavam, mudavam de capítulo sem cerimónia.
António Matos, 31 anos, Lisboa

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

27/06/17

Paula Castanheira ― desafio nº 115

A notícia tinha-lhe caído assim, naquela noite, sem se fazer anunciar! Tentava apanhar as pontas, mas sentia o coração na boca, as pernas bambas, no peito, um aperto imenso, um misto de raiva, desgosto, desilusão.
Tentar perceber as razões daquela traição, era tarefa impossível por agora, queria desabafar nas suas lágrimas, mas nem isso conseguia, por isso abraçou a Martinha e tentou fechar os olhos, na esperança que o sono a levasse dali, para um lugar melhor…
Paula Castanheira, 53 anos, Massamá

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

28/05/17

Vera Saraiva ― desafio nº 115

As aulas pesam ao final do dia, quando se regressa a casa e temos dois filhos pequenos que nos aguardam no infantário e na escola do primeiro ciclo. As poucas horas que passamos juntos, por
vezes já cansados e com pouca paciência, são as mais gratificantes e importantes do dia, apesar de todos nós ansiarmos por aquele precioso momento em que deitamos a cabeça na almofada e acordamos, já no dia seguinte, recarregados para o novo dia.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

26/04/17

Rita Afonso Botelho ― desafio nº 115

E o sol se põe, o jantar se faz, um repouso no sofá, uma criança a brincar. O sono ataca primeiramente a criança e a mãe aproveita esse sono. Durante esse sono, com sonhos e pesadelos,

05/04/17

Ana Fernandes ― desafio nº 115

Há quem saiba que de noite não se batizam pensamentos. Não se consomem angústias, nem se afugentam medos.
Há quem diga que de noite o sono é leve para quem é infeliz e come pouco. Porque quem come

04/04/17

Celina Silva Pereira ― desafio nº 115

Fim de noite
Fim de noite e de um grande fim de semana, com variados painéis: igreja, música, futebol, namoro – as duas tardes e esta última noite dedicadas a este. Às onze horas retornara para casa de carro.

Ana Fernandes ― desafio nº 115

Há quem saiba que de noite não se batizam pensamentos. Não se consomem angústias, nem se afugentam medos.
Há quem diga que de noite o sono é leve para quem é infeliz e come pouco. Porque quem come

20/03/17

Programa Rádio Miúdos - 20 Março 2017

Todos os programas gravados com a Maria e a Mariana Sanchez, e a equipa da Rádio Miúdos.

Indicativo do Programa - Música e letra: Margarida Fonseca Santos; Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso - Histórias de Cantar CD - Uma Conta Errada

07/03/17

Matilde Martins – desafio nº 115

Paraíso
O sono chegou, plácido e sereno, de madrugada, e logo entrei para o mundo dos sonhos. Acordei num outro universo, em que tudo era perfeito e calmo, como se fosse o paraíso. Tudo era idílico: as

Inês Silva e Rafaela Teixeira – desafio nº 115

O sono é um caminho para o dia seguinte. Mas será o melhor caminho? Este tempo dedicado ao descanso é fugaz, mas inaudito. Faz-nos pensar em tudo o que aconteceu no nosso dia. Seja bom ou