28/01/12

janeiro 2012 - pais

– Aaaahhh!!!!
– Então?!
– Cheguei à estação, perdi o comboio. Depois, vim apertadíssima. Quando saí, deixei cair a mala ao chão, tudo espalhado, um filme!!! Agora, esbarrei com a dona Gracinda, que me esteve a falar dos problemas dos filhos, sempre a queixar-se, sempre a lamuriar-se, que seca!!!
O marido, com um sorriso malandro, ouvia.
– O que foi?!
– Queixou-se muito, foi…?
Filipa deixou-se cair no sofá. E com uma voz mimada, disse:
– Não sou igual a ela, pois não…?
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

26/01/12

histórias recebidas - janeiro 2012 IV

 Diogo, dos Reguilas da Mata, de novo!!! (1º ciclo)

Cana de pesca mágica
No domingo, o Frederico foi pescar achigãs na barragem do Alqueva, com a família.
Quando foi lanchar encontrou uma cana de pesca perdida.  Esta murmurou:
- Olá! Queres pescar comigo?
- Quem falou?! - exclamou o Frederico.
- Eu, a cana de pesca.
- Boa! Contigo vou pescar uma tonelada de achigãs…
- Só?! Eu sou capaz de pescar duas toneladas.
- A sério! Vamos lá ver isso…
Não é que conseguiram mesmo!
Frederico, dos Reguilas!!!

Será que estou louco?
– O quê? O cano falou?
– Sim falei, algum problema?
   Jacinto beliscou-se pela segunda vez. Seria mesmo verdade?
– Não te magoes. Arranja-me!
– Será que estou louco? - perguntou-se Jacinto.
    O cano furioso, já sem paciência, disse a Jacinto que tinham de fazer um acordo.
– Está bem. Mas o quê?
– Tu tentas substituir-me e eu fico teu amigo!
– Mas para que é que eu quero um amigo que é resmungão e mandão?
– Juro! Se ficarmos amigos vou ser super-simpático!
 Catarina Colaço, 11 anos, Ext. Marista de Lisboa


– Mãe, estão ali duas pretas – disse Bia, menina perspicaz de quatro anos, quando entrava no infantário.
– E estão aqui duas brancas – respondeu a mãe.
E foi assim que começou uma colorida lição sobre cores que iluminam o mundo. Diferenças de pele, corações iguais, iguais sorrisos rasgados, iguais gestos de amor.
E foi assim que, um mês depois, Bia desembrulhou a prenda de Natal e abraçou o simpático boneco negro, tão risonho, vestido com o arco-íris.
 Ana Paula Oliveira – 51 anos, S. João da Madeira

20/01/12

janeiro 2012 - histórias recebidas III

Numa aldeia vivia uma rapariga, chamava-se Madalena e passava os tempos livres a escrever poesia.
Quando chegaram à escola, a professora perguntou que profissão queriam ter, todos diziam  que queriam ser futebolistas, bailarinas, veterinários, mas quando chegava a vez da Madalena a turma ria-se porque ela queria ser escritora. A professora, vendo aquela algazarra, pediu à Madalena para ler, a turma ficou espantada com o seu talento e no dia seguinte pediam-lhe para ler e ensinar-lhes poesia.
Catarina Luís, 12 anos, Escola Básica da Venda do Pinheiro

– Como se inventa uma estória?
– Primeiro a ideia germina na célula mais pequenina do cérebro. Cresce, desce pela nuca e quando chega ao pescoço vira à direita escorregando pelo braço. No cotovelo tem que se encolher que o espaço é apertado. Quando chega ao pulso respira fundo e sorri feliz, está pronta a sair pelos dedos.
– Mas como fazes, afinal?
– Acho que as ideias andam no ar à procura de uma cabeça. Às vezes escolhem a minha.
Quita Miguel, 52 anos, Cascais

João e Toni encontraram-se no Nosso Café para a habitual tertúlia. João julgava-se erudito. Toni era um sábio humilde. Quando dialogavam sobre a essência de cada um, Toni afirmou: João, és um altruísta! O interlocutor registou como metalinguagem: egoísta! João remoeu o “vitupério”. Toni tinha cancro no pâncreas. João distanciou-se… Toni faleceu. Tempos depois, relembrando-se do amigo, João sentiu-se impelido a procurar no dicionário a “ofensiva”. Diante da ignorância e mau proceder, chorou, pediu perdão. Grande lição!
Elvira Camarinha, Braga, 45 anos

Calça azul apertada, blusa branca, lenço amarelo ao pescoço, ténis roxos, sorriso aberto, cabelo loiro despenteado, olhos verdes em cara morena, todo o autocarro olha para ela, a correr para a paragem, ofegante. Cheia e mal fechada, a mochila azul no braço chocalha e reclama com os seus passos acelerados e sacudidos. Salta, entra, mostra o passe, o “laranja” anda, trava, oscila, ela desequilibra-se, a mochila cai ao chão, abre-se e numa algazarra, esparramam-se as 77 palavras!
João Paulo Chora, 52 anos, Estoril

O Simão tinha 10 anos e umas orelhas enormes. Os amigos provocavam-no por causa disso. Os inimigos gozavam com ele pelo mesmo motivo. Mas a Francisca adorava contar-lhe segredos, segredos que eram reservados apenas àquelas orelhas, as únicas sempre disponíveis para a escutar, para a entender.
O Simão tinha umas orelhas enormes, mas a Francisca gostava dele assim e, com o tempo, ele também aprendeu a gostar…
E a opinião dos outros? Bem, isso nunca mais interessou!
Rita Vilela, 46 anos, Paço d'Arcos

12/01/12

janeiro - histórias recebidas II


Ano Novo 2012
Dizem que em 2012
o mundo vai acabar
mas isso são só  “tretas”
para quem não tem que falar.
Falta pouco para o ano novo
faz-se a contagem decrescente
eu queria ver toda a gente contente.
É uma noite de
festa e desejos
pedidos e alegrias
promessas e esperanças,
para melhorar o mundo
de todas as crianças.
Que no nosso planeta
entre as pessoas e todos os povos
haja igualdade,
muita paz e felicidade.
Inês Figueira – 6º C, EB23 António Bento Franco – Ericeira

Absorta nos seus pensamentos, Isabel regressa da escola no autocarro apinhado, colada aos outros passageiros. Com toda uma vida à sua frente, não se importa com o futuro, ainda tão distante. O mundo não é perfeito e Isabel sabe-o. Para quê estragar a sua juventude com pensamentos cinzentos? Desliga-se do mundo e liga-se à música que irrompe, ouvidos adentro, via iphone. E a música fá-la planar e fantasiar, esquecer e não sofrer, enfrentar a loucura da vida.
+
A cidade é ruidosa, desumana. Homens e mulheres ruidosos e desumanos atravessam-na mecanicamente como fantoches manipulados por forças ocultas. Abrigada no seu quarto branco, ela sonha com um mundo melhor. E isso só o conseguirá com poesia. Sai, silenciosamente. Sem falar mas com um sorriso eloquente nos olhos, distribui papéis coloridos ao seu redor: nas árvores, nos para-brisas, nas caixas de correio… E os pequenos poemas levam àquela gente a cor, o saber, o sabor da alegria.

Ana Paula Oliveira, 51 anos, S. João da Madeira

Aos dez anos tive um sonho, mas sem me dar conta, virei-lhe as costas e bati com a porta.
Aos vinte, ele voltou a ecoar, olhei-o nos olhos, mas pensei que tinha tempo e muitas coisas para viver.
Aos trinta, ele chegou de mansinho e assustou-me. Achei-o maior que eu e por medo encerrei-o num baú.
Aos quarenta, apercebi-me que tinha um sonho pelo qual valia a pena lutar.
Hoje, aos cinquenta, vivo para concretizar um sonho.
Quita Miguel – 52 anos, Cascais



11/01/12

Os Reguilas e o Frik!

 Os Reguilas da Mata (1º ciclo), do agrupamento de escolas de Estremoz, fizeram a continuação da história "O Meu Primeiro Natal", da colecção Histórias do Frik (Presença). Aqui estão elas, sempre em 77 palavras! E com desenho...

Frik e o boneco de neve
O Frik estava a brincar com o Pedro e teve uma intensa vontade de fazer xixi.         Correu para a porta, calçou as suas botinhas, saltou lá para fora e foi a correr fazer xixi.
Quando ia para casa esbarrou contra um boneco de neve.
O boneco disse-lhe que sabia onde morava o Pai Natal.
O Frik perguntou-lhe:
     - O que é isso?
     Ele respondeu-lhe:
- É o velhinho que entrega prendas!
Beatriz
                                                       
Frik ganha um novo amigo
Frik estava triste, além de ter Pedro e João como amigos, Frik queria mais um. Então pôs-se à procura de um amigo. E disse:
- Bah! Quem é que quer um boneco de neve como amigo?
Depois de muito procurar encontrou dois cães e uma boca de incêndio.
A boca de incêndio não falava e os cães eram finos.
Por isso, voltou para o boneco de neve, que era um excelente amigo.
 Diogo

Frik
O Frik tinha que fazer chichi, então ele foi lá fora!
Estava escuro e não se via nada.
O Frik ao olhar para o boneco de neve pensou que era um
ladrão.
Ao cheirar o boneco de neve cai um chapéu, duas pedrinhas e uma  cenoura e o Frik continuou a cheirar, até que as três pedras, a fazer de
botões, caíram na cabeça do Frik.
- Oh, não! Coitado! Não queria estar no lugar dele!
Sofia



02/01/12

janeiro - histórias recebidas I


 77 de cada coisa
 
A bisavó Dores podia ter 77 anos, mas não tem.
Podia ter 77 palavras difíceis para ensinar ou 77 receitas para levedar água na boca, mas não tem.
Podia ter 77 balões cheios de ar-felicidade para ir a algum lugar ou 77 sorrisos-xxl para vestir, mas não tem.
Podia ter 77 carinhos para afagar ou 77 beijinhos para abraçar, mas não tem.
Porque a bisavó Dores tem mais.
Tem tudo isso, mas muito, muito mais...
Carolina Gaspar – 27 anos, Amadora 



-Conta outra vez, mãe!
A aventura do menino grão de milho era lida e relida, ao ritmo do cansaço de um dia de trabalho. A pequenita de dois anos, olhinhos atentos, seguia a corrida das letras, num livro que já sentia a fadiga de tantas viagens.
Até que um dia…
-Olha mãe, já sei ler.
Seguindo o texto com o dedito rechonchudo, vai “lendo” a história, palavra por palavra, página por página.
O “prodígio” animou o cansaço…
+
Hora do banho. Os dois irmãos mergulharam na água quentinha e enquanto aguardavam a mãe, nadavam, nadavam como se a imensidão do Oceano Atlântico ali coubesse, inteirinho! As ondas iam e vinham alterosas e espraiavam-se… no chão da casa de banho!
De repente, ouviram a mãe gritar da cozinha:
-João, vai dar banho aos teus filhos. Tenho o jantar atrasado.
Do fundo do oceano, ouviu-se uma vozinha aflita:
-Mano, estamos tramados! Hoje vamos ter banho à “paisana”!

 Paula Agualusa , 57 anos e sou de Ílhavo

Com a dona caminhava ao longo da linha. Ela sabia a hora do comboio,
por isso ficou muito espantado quando ouviu aquele barulho seguido de
um movimento aéreo e brusco. Estava escuro e as narinas não
reconheciam aquele cheiro. Recuou ao senti-la voar, correu atrás dela
e pôs as patas no ar, no nada. Ela voara bem mais alto da sua força
imensa de animal noturno, conhecedora dos campos, normalmente
solitários, aquela hora. Que dona era aquela?

Rosário Oliveira, Colégio Dinis de Melo

“Um ouriço-cacheiro chamado Natal”
Era uma vez uma menina que encontrou um ouriço-cacheiro.
- Olá chamo-me Natal.
- Como é que consegues falar? – Perguntou a menina.
- Isso não importa.
- Estás perdido?
- Não, estou aqui para te ajudar a acreditar no menino Jesus.
- Mas eu acredito.
- Então prova-o.
No Natal distribuiu roupa que já não usava pelos meninos mais carenciados da sua rua e fez um teatro sobre o Natal, para provar que acreditava no menino Jesus.
Márcia Matias, sou do 6ºC da escola E.B.2/3 António Bento Franco, na Ericeira 


Era a primeira noite de Natal em casa dos meus donos. Sentia-me nervoso com toda aquela azáfama e alegria contagiantes.
Eis chegada a hora por que todos esperavam ansiosamente, as doze badaladas não se deixaram atrasar pela neve que dançava em redor dos pinheiros aperaltados para o momento.
Um embrulho para mim?! O rafeiro que até há duas semanas farejava a lixeira à procura de algo comestível! Um osso enorme surgiu diante dos meus olhos. Sorri calorosamente!

Anabela Soares, 40 anos, Maceda – Ovar 


Ele era enorme, peludo, estava desejoso de provar o mel, e avançava calmo e decidido naquela direcção.

Do ar, uma abelha vigiava os seus passos… na esperança de o conseguir impedir.

Usando uma dança que só as abelhas sabem fazer, avisou as companheiras de que a colmeia estava em perigo. E elas foram chamar o Homem… que afugentou o urso… mas, no final, lhes levou o mel.

Moral da História: Quem confia no Homem, perde o mel!
Rita Vilela, Paço d'Arcos 

"Aos dez anos tive um sonho, mas sem me dar conta, virei-lhe as costas e bati com a porta.
Aos vinte, ele voltou a ecoar, olhei-o nos olhos, mas pensei que tinha tempo e muitas coisas para viver.
Aos trinta, ele chegou de mansinho e assustou-me. Achei-o maior que eu e por medo encerrei-o num baú.
Aos quarenta, apercebi-me que tinha um sonho pelo qual valia a pena lutar.
Hoje, aos cinquenta, vivo para concretizar um sonho."
Quita Miguel, 52 anos, Cascais

26/12/11

dezembro 2011 - pais

 – Gostava que me contasse tudo desde o primeiro sintoma.

Uma ruga apareceu de imediato na testa de Clarisse.

– Tudo…?!

– Espero que se lembre – brincou a médica do centro de saúde.

Era nova, acabadinha de entrar no sistema, herdando casos que a outros sobravam, determinada em ouvir as pessoas que a consultassem.

– E deixam-na fazer isso? – questionou Clarisse, a prever que alguém entraria pelo gabinete pedindo que a médica se despachasse.

– Não imagino outra forma…

E Clarisse contou.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

dezembro 2011 - filhos


Ensaiara muito bem a conversa – tinha de lhes contar o que acontecera. Das outras (três) vezes, ouvira alguns ralhetes, frases que começavam com “tens de ter mais atenção”, outras que acabavam em “que não se volte a repetir”.
– Mãe…?
– Diz!
– Perdi a chave do cacifo… Outra vez… Desculpa.
Depois de um olhar espantado, chegou um sorriso:
– Estas? – Na mão da mãe, as chaves… – Vê lá tu, fui eu que lhes peguei sem querer, que cabeça a minha!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

dezembro 2011 - pais e filhos



– Diz-me tudo!!! O que é que faço?

Pedro esquecera-se dos seus seis anos, ajudava com coragem.

– Telefona ao pai… Argh…!

– Dói muito?

Nenhuma resposta.

– E depois?

– Não, espera, telefona primeiro para o 112!

– E digo-lhes o quê? Que a Joana está a chegar?

– Não, Pedro, argh… diz-lhes só que estou em trabalho de parto. Rápido!

E Pedro, com a voz trémula, explicou tudo. A Joana chegou quarenta minutos depois, e o Pedro foi o primeiro a vê-la.

(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

25/12/11

dezembro - histórias recebidas (take two!)


Sou a maçã mais angustiada desta manhã fria. A tristeza era a minha companhia, porque eu sabia que hoje seria a sobremesa do Francisco. A hora estava a aproximar-se. Despedi-me de todos os outros frutos meus companheiros e da lagarta que vivia em mim.  Ainda me restava algum tempo, a fuga era uma das hipóteses, mas o destino já estava marcado. A mão do Francisco aproximava-se, o terror, o coração batia forte… chegou a hora! Boa Noite.
Hugo Costa, 12 anos – Lisboa

Havia um auto-retrato de Leonardo Da Vinci, que estava exposto no museu nacional de Itália. De repente, uma rola apareceu vinda do alpendre, ela estava muito aflita mas por pouca sorte, tinha esquecido já há muito tempo onde se situava a casa de banho para rolas. Então sem saber o que fazer, não hesitou em se aliviar de imediato em cima do pobre de Vinci. Vinci ficou furibundo com aquela situação:
–  Vou inventar: um “lenço”!
Miguel Palma 12 anos, Lisboa 

Gosto de palavras, das simples e das complicadas, das rechonchudas e das delgadinhas, das que inebriam e das que desesperam.
Gosto de palavras coloridas e das esbranquiçadas, das apressadas e das molengonas, das bem-humoradas e das rabugentas.
Gosto das palavras que espreitam no final dos parágrafos e das que se escondem nas notas de rodapé, das que saltam de página e das que se seguram por um hífen.
Gosto de todas as palavras que celebram a vida.
Quita Miguel, 52 anos, Cascais
 
Marci é simpático, meigo, desengonçado. Observa tudo ao redor, com os três olhos bem abertos. As longas antenas captam sons da casa e da rua: música a tocar, gente a falar, carros a buzinar. Mas não está confortável onde o alojaram. O dono cresceu, já não dorme naquele quarto tão arrumado. Marci sente-se só, enjoado.
Quer brincar, não tem com quem.
Quer conversar, não há ninguém.
Quer ver mundo, sair. Que tristeza! Não mais se poderá divertir?
+
Sento-me, desenho e vislumbro o Sena que desliza ao som de acordeões. A Noite quer entrar. Traja um vestido de veludo negro estrelado. Como reparou em mim?
– Desenha-me – pede.
Hoje, veio sozinha sem a inseparável amiga Lua.
Desenho-a, timidamente. Traço a traço.
– Está lindo! Nunca me pintaram com tanta perfeição.
A Manhã chega, estremunhada. A Noite vai partir.
Adoro este vigésimo andar. Fica afastado da rua mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.
Ana Paula Oliveira, S. João da Madeira, 51 anos

"Porque é que as mães são únicas e especiais, avó?", perguntou a Mia cheia de curiosidade. "Isso não tem resposta minha querida, não se conhecem fórmulas mágicas.", respondeu a Dona Felicidade. "Mas então porquê?", retorquiu a Mia num tom desconfiado, "É segredo?!", insistiu. "Não, mas a única forma é estares atenta. As mães falam com o coração e os filhos têm que deixar que olhos as ouçam!".  A Mia ficou pensativa durante segundos... E por fim, sorriu!
Vera Lúcia Marques Costa, 26 anos, Lisboa

10/12/11

As primeiras histórias dos leitores em Dezembro 2011



A Estrela azul
Era uma vez uma estrela que um dia mudou de cor. Ficou azul.
Ela ficou assustada e foi ao Dr. Colorido. Este disse-lhe que ela sofria de pintite aguda, doença rara e sem cura.
            A estrela ficou triste e chorou bastante, até que uma lágrima caiu na face da Sra. Toupeira, vestindo-a também de azul.
            A Sra. Toupeira pulou de alegria.
            A Estrela ao vê-la tão feliz percebeu que a doença não era grave.   
EB da Mata 4º A - Estremoz


Se formos a pensar numa certa coisa, quando os ladrões nos assaltam e dizem sempre:
- A Bolsa ou a Vida!!!
Se lhes dermos a bolsa, eles fogem com o nosso dinheiro e pertences. Mas depois se não lhes dermos a bolsa, matam-nos e levam a bolsa! Levam sempre a bolsa. O que intriga é quando às vezes não estamos a ver, eles levam a bolsa sem nós notarmos, e nem sequer nos falam uma única palavra.
Manuel Barros, vivo em Lisboa, tenho 11 anos


Ele correu para a televisão e viu que as suas esperanças estavam corretas!
Correu de volta ao quarto e pegou nas coisas de praia que deixara para trás, preparadas.
– Mãe! – gritou.
– Sim, Guilherme? – respondeu a mãe, do quarto.
– Vamos à praia! O tempo está perfeito!
Guilherme reparou que a mãe não se movera.
– A mãe prometeu que me levava à praia se o tempo deixasse!
Não havia como resistir ao sorriso ténue, delicado do filho.
 Pedro Caetano Carvalho, Beja, 14 anos


Queres café no açúcar? Perguntou Maria a Pedro, que disse preferir um gosto a arroz. Na festa anual do açúcar, no Mediotejo, cada um tomava o açúcar como quisesse.
Antonieta, ex vegetariana, trocara este ano a alface pela carne de vaca no açúcar.
Foi então que Fausto quebrou a única proibição, já secular: pediu mel para o seu açúcar, algo verdadeiramente sacrílego.
Resultado: bens confiscados e expulso da aldeia. Eram assim os tempos amargos da intolerância doce.
 João Pedro Chora

Começa a chover… E lá vão elas a correr para rua.
A lama é muita, muitas as poças… não falham uma.
Ouvem-se os risos, movem-se os pés, um após outro, como uma dança. Que divertido!
São de borracha, não entra água… mesmo perfeitas para sujar.
E que bonitas, com essas cores, vivas, alegres. Ficam tão bem!
Se um dia eu fosse bota, e pudesse escolher, queria ser “de borracha”… para poder brincar nos pés de uma criança.
 Rita Vilela

“Joaninha voa, voa…”
“Joaninha voa, voa que o teu pai está em Lisboa”, cantava a Aninhas,
observando as joaninhas que passeavam as bolinhas de seus vestidos
vermelhos. Andavam no alecrim do seu quintal.
De repente, a Joaninha abriu as asas e poisou no cabelo da menina.
- Mãe, mãe, chamou a Aninhas toda vaidosa, vem ver meu travessão...
- Que lindo e colorido e parece sorrir! É mágico?
Era apenas a joaninha que gostava muito da Aninhas!
Ana Maria Santos, Fogueteiro - Seixal, 57 anos 


"O lápis despertou com a agitação das palavras dentro de si. Uma história acabara de se formar e tinha pressa em sair, mas o bico já gasto aprisionava-a.
Sem suportar tanto alvoroço, o lápis foi até ao afia, que se dispôs a afiá-lo.
Estava pronto para escrever e começou a deixar sair as palavras.
A fila era grande. Algumas, mais apressadas, forçavam a passagem. Espremiam-se, embaralhavam-se e acabavam por sair aos trambolhões enchendo a folha em branco."
 Quita Miguel, 52 anos, Cascais

Estou feito!
Mas vou tentar, claro!
Ainda por cima, maldito 77!
Meu número azarento.
Bem, vou começar.
Era uma vez um informático…
Não! Assim não vou lá!
Deixa cá ver assim:
Eu gostava de escrever um livro...
Um livro!?
Qual quê!?
Uma crónicazeca chegava!
Se calhar um simples postal!
Estou mesmo feito!
Meto-me em cada uma!
Será que posso contar carneiros?
Se calhar não.
É batota e ainda posso adormecer.
O melhor é acabar.
E é já!
Joaquim Ribeiro, Lisboa, 57 anos, Lisboa

Vir ao curso foi boa escolha.
É divertido e proveitoso.
Mas sinto-me perdida.
Os meus colegas são todos peritos.
Até o médico já escreve melhor!
Mas vou conseguir.
Vou-me ganhar!
Desconfio que alguns já sabiam disto.
Para iniciados são textos muito bons.
A Margarida é o máximo!
Por que não tive uma professora assim!
Agora poderia estar eu a ensinar.
Não estaria fechada na empresa.
Tantas contas, relatórios!
Bom! Deixa ver como vai.
Uau! Cheguei às 77!
 Teresa Gomes 54 anos, Lisboa 

A Pulga Saltitona!
Passeando pela praia, uma concha, eu encontrei, com uma sombra nas costas. Logo me aproximei. E que foi que eu vi? Uma pulga-do-mar fazendo o seu flic flac!
- D. Pulga, por aqui?
- Do circo fugi. Vim ver o mar, correr com a espuma... Que saudades! Sabe saltar à espuma?
- À corda, quer dizer?
- Não, não, ora veja...
E lá foi, salta aqui, salta ali e eu nunca mais a vi!
 Ana Maria Santos , Fogueteiro – Seixal,  57 anos 

É com o olhar que viajo neste mundo.
Trago sol, levo neve, apanho as folhas, as flores,
Vejo o mar, anda na lua e na rua
Recordo a nuvem, a flor, o cão, a Maria e o João,
Guardo tudo em mim.
Fecho os olhos nada tenho,
Abro os olhos e tudo recebo.
Com o verde dos meus olhos tudo alcanço.
Não há limite de espaço para o sonho.
Viajar, sorrir, chorar, aprender...
Trago memória no olhar!
 
Vera Duarte, 38 anos, Odivelas

Há um espadachim pintor escondido nas nuvens. Rasga o céu de outono e pinta-o de fantasia. Brinca com a primeira estrela do céu, mas perde o fulgor e a bravura, quando a lua aparece e se deita nua sobre o rio. Morre de ciúme e paixão, espreitando pelo canto da linha do horizonte... Quando a aurora desperta e lhe toca nos ombros, estremece deste encantamento e, de espada em punho, pincela os lençóis ainda quentes do sol.
Lurdes Augusto 



03/11/11

novembro 2011 - pais


– Tem a certeza?
Aquela senhora, entretida a mandar mensagens, apenas distraída pelo cliente e pela pastilha elástica que mascava com afinco, tinha toda a certeza.
– Então, sendo assim, como é que faço?
Deu-lhe a resposta num encolher de ombros, atrasando um pouco a rapidez do polegar. Depois, parou, entediada.
– Não percebeu? Não é desta secção, tem de ir ali àquela. Acha que sei tudo?
O homem resignou-se. Tinha só uma certeza – ela sabia mandar mensagens tão depressa!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

01/11/11

novembro 2011 - filhos


Era uma caixa de fósforos, pequena e já bastante estragada. Estava ali, na varanda, junto de brinquedos que alguém largara por instantes…
Pedro, de cócoras e curioso, agarrou nela. Não foi fácil perceber como se abria, mas conseguiu!
Ao espreitar lá para dentro, uma surpresa – estava repleto de bolinhas pretas, castanhas claras, lindas.
Seriam para comer? Eram tão apetitosas!!! Agarrou numa e experimentou.
Um grito fê-lo cair ao chão:
– Pedro! Estás a comer os meus bichinhos-de-conta!!! Larga!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

28/10/11

novembro - histórias recebidas



Insegura, a velhota entrou na livraria.
Corpos de palavras…mistérios…
Tacteou as lombadas expostas como se, com o contacto, pudesse decidir a escolha.
- Quero... um livro. Para a minha neta…anda na primeira classe…
A empregada mostrou-lhe um livro azul. Na capa tinha uma ave que levava no dorso uma criança sorridente.
Naquela noite a história foi balbuciada pelos lábios infantis.
A criança fez-se mulher, mas jamais esquecerá aquela história que maravilhou os olhos verdes da sua avó.
Eugénia Edviges Parracho


 Quando era pequena a minha mãe dizia: - Querida, escuta o mar...
 E eu tentava escutá-lo dentro da conchinha que a avó me dera. Mas era tão difícil, só conseguia escutar a voz da avó que parecia estar falando. Contava-me histórias, cozinhava para mim, e eu, não percebia o que o mar tinha a ver.
 Olho para a minha mãe e vejo-a a chorar, e disse-me:
-Todos os dias a tua avó ia buscar o peixe, até partir...
Insegura, a velhota entrou na livraria. 
Olá, o meu nome é Geisa Lopes e tenho 12 anos, moro em Beja. Aqui tenho uma mini-história, espero que seja agradável de ler!

 
Porque os crescidos também tropeçam, um dia tropecei na saudade, e dei um valente tombo, a caixinha onde guardava as recordações caiu, espalhando pela calçada nomes, retratos, emoções, músicas, cheiros, sabores, risos,  palavras,  abracinhos e  afetos.
Levantei-me, sequei as lágrimas com a manga da camisola e resolvi começar a arrumar todas as recordações uma a uma muito bem arrumadinhas com cuidado para não deixar ficar nenhuma para trás. Tudo voltou para dentro da caixinha até um dia…
Ana Paula Marques, Odivelas

Damos as boas vindas ao Inverno….Dizemos um até já ao Verão…Dizemos um olá à chuva!
Suspiramos por um raio de sol. A flor é escondida por suaves flocos de neve que a acariciam suavemente. A árvore despe-se numa doce timidez.
Chegam os serões aquecidos por um chocolate quente. Aguardamos por um gelado numa esplanada!
O Natal espreita num sopro de vento. A praia retira-se para um descanso.
Tudo numa harmonia inexplicavelmente saudável que nos aconchega a alma!
Ana Cristina dos Santos Gomes, 29 anos, Amadora

O dia por vezes pode ser assustador. Correm à minha volta sem olharem
uns para os outros, sem se preocuparem uns com os outros. A pressão
dos testes, o tentar responder a todas expectativas, principalmente às
minhas. No fim do dia, no colo da minha mãe encontro a paz que tanto
procuro, que tanto anseio. Ouço o seu coração, sinto a sua pele quente
o cheiro tão próprio dela. Finalmente paz num dia que parecia não
terminar.
Sónia Areia, 37 anos Estoril

Sou mãe. Trabalho numa associação que apoia sobreviventes de Traumatizados Crânio-Encefálicos e seus pais. Pais que a cada dia têm à prova o seu amor incondicional pelo filho que em coma lutou pela vida, foi dado como perdido e viveu, previsto inválido e hoje fala, anda e pensa. Se não fosse tão amado e um pouco chorado, não alcançava este milagre. Maravilham-me estas mães. Que desde o dia do trauma, serão para sempre, mães de um sobrevivente.
Vera Bonvalot, 41 anos, Estoril
 

05/10/11

outubro 2011 - pais e filhos


Ficou a olhar para os livros novos, os cadernos, o estojo sem manchas de tinta. Havia outra coisa nova: não sentia nenhuma excitação por voltar à escola. Mexeu nos livros, remexeu-se por dentro, mexeu-se na cadeira.
– Então? – O silêncio remexeu o pai. – Deixa-me contar-te um segredo…
Com os livros como testemunhas, falaram da escola, das ilusões e das aprendizagens, de crescer. Falaram muito.
Antes de dormir, sorriu. Uma excitação invadia-o por dentro, antecipava a nova fase. Adormeceu.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

03/10/11

outubro 2011 - pais


Fora difícil, mas a ideia era excelente.
Pôs a mesa, acendeu as velas, espiou o jantar e o gelado de amoras. Eram duas tigelas – uma para eles, outra para os filhos. Afinal, tinham apanhado as amoras em conjunto, entre risos e peripécias, e feito o gelado a seis mãos.
A mulher entrou. Viu-a estranhar o silêncio, estranhar as velas, estranhar o sorriso. Envolvendo-a num abraço carinhoso, explicou:
– Os miúdos ficaram com a avó. Hoje somos só nós.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

02/10/11

outubro 2011 - filhos

– Brincámos imenso com caricas… – explicou a Mariana.
Recebeu um sorriso de troça, não gostou.
– Pega-se num sapato e faz-se uma pista. Depois damos piparotes à vez. Ganha quem chegar primeiro à meta.
Mais sorrisos trocistas... Resolveu tirar do bolso três caricas velhas e fez com o pé uma pista na areia do parque. As amigas ajoelharam-se, desconfiadas… e experimentaram.
Não fosse chamarem-nas, ainda lá estariam. A Mariana não ganhou a corrida, mas ganhou muito mais que isso!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

30/09/11

outubro - histórias recebidas


 
As mãos tentavam abrir a boca da mãe, mas dela não saiam as palavras de que são feitas as histórias. Nessa noite, ela contou-lhe que nunca tinha conseguido entrar na fábrica das palavras. Ele ouviu.

Depois, misturado com as lágrimas que lhe escapavam dos olhos, ela deu-lhe o maior beijo de todos.

António guardou o beijo e a história. Hoje, sabe muitas, que conta aos filhos. Mas eles gostam mesmo é daquela… do beijo feito de água.
Nazaré de Sousa, 49 anos, Sintra

Daniela não queria dormir, queria sempre brincadeira, todos os dias á noite, era sempre a mesma birra. Tudo servia para brincar, ouvir uma história, contemplar uma flor, dar um beijinho, até que por fim, Daniela não resistia e adormecia a sorrir, no sofá completamente exausta. Lentamente, o pai levava-a a cavalgar para num mar de lençóis a Daniela continuar a sonhar. No dia seguinte, ao acordar, Daniela sente-se feliz porque continuou a brincar tudo aquilo que quis.
Luísa Duarte Carinhas, 35 anos e vivo em Agualva Cacém

Costuma-se dizer que a música que ouvimos quando acordamos, nos fica em pensamento!
Esta manhã, acordei a minha princesa que ainda ensonada, deseja-me o bom dia, mais doce que recebo de manhã...
Metidas no carro, seguimos até ao infantário...
Hoje, a princesa, começa a cantarolar e com sotaque à Alpendoradense:
Bom dia, bom dia,
Bom dia a toda a gente
Eu hoje vim para a escola e por isso
Estou contente!!!
Agora, continuo a cantar a música!!!
MÃE: DIANA MARTINS GRILO - 29 ANOS
FILHA: ÍRIS GRILO - 4 ANOS
ALPENDORADA - MARCO DE CANAVESES

No meu mundo pequenino eu vivia... Sobrevivia. Idealizava, imaginava, desejava. 9 meses passaram... Uma nova luz brilhou! Chegaste... E contigo tudo mudou!
Sentimentos, tantas emoçoes... Um novo desafio tenho para jogar: Amar, proteger... Cuidar e mimar!
No meu espaço reduzido, te olho num colinho adormecido. Com minha mao te embalo ao som de sorrisos animados. Teu suspiro me faz sentir um sonho realizado.
Contigo do meu lado, meu mundo nao mais pequeno se tornou!
Obrigado, filho adorado!
Sou Andreia Mendes, mae das maiores riquezas.. Rafael com 9 anos e Mariana com 2. A eles dedico este texto!

Daniela não queria dormir, queria sempre brincadeira, todos os dias á noite, era sempre a mesma birra. Tudo servia para brincar, ouvir uma história, contemplar uma flor, dar um beijinho, até que por fim, Daniela não resistia e adormecia a sorrir, no sofá completamente exausta. Lentamente, o pai levava-a a cavalgar para num mar de lençóis a Daniela continuar a sonhar. No dia seguinte, ao acordar, Daniela sente-se feliz porque continuou a brincar tudo aquilo que quis.
Luísa Duarte Carinhas35 anos e vivo em Agualva Cacém



08/09/11

setembro 2011 - pais e filhos

– Mãe, essa história é verdadeira?
Marta, evitando desmanchar-se a rir, fez um ar sério:
– Acho que é capaz de ser… A avó contava-me esta quase todos os dias.
– Hum… A avó inventa muitas coisas… Até já inventou que, quando era pequenina como eu, tinha uma casa de madeira numa árvore. E que as praias estavam quase vazias…
– E tu? Acreditas que há fadas, assim como nesta história?
– Faz mal, se eu acreditar?
– Claro que não!
– Então, acredito…
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

01/09/11

setembro - histórias recebidas


Um cesto cheio de coisas deliciosas, a toalha dos quadrados, e nem faltam as formigas… Uma manta para dormir a sesta, um livro para ler em voz alta e um baralho de cartas. Qual Alice no país das maravilhas…
O entusiasmo foi enorme e a alegria contagiante. De repente, desapareceu o António… onde está?, onde se meteu?, e vamos dar com ele a observar um enorme escaravelho, que empurra o seu ninho para esconder os ovos… Férias!!
Catarina sousa Franco, 36 anos, Lisboa
 
O gato entrou em cena, cofiou os bigodes, lambeu-se todo, olhou em
redor com exuberância, dirigindo-se elegantemente para as luzes da
ribalta. Como lhe pareceram pequenos tanques de água enfureceu-se e
saltou dali e, a toda a velocidade desatou a correr. O público,
deslumbrado, pensando que fazia parte da actuação, bateu palmas
entusiasticamente. O pior foi quando, naquele preciso momento debaixo
de cada assento saíram ratos franzinos, mas rápidos e guinchantes.
Afinal, eles fugiam do seu predador. Rosário Oliveira col Dinis de Melo

Vi-a pela primeira vez em casa da minha melhor amiga. Apaixonei-me logo por ela: era linda, pequenina, com grandes olhos pretos cheios de vida e uma personalidade vincada! Tinha até mau feitio…
Já estava destinada a outra pessoa. Mas, passados alguns dias, a minha amiga ligou-me a perguntar se eu a queria. Claro que aceitei! Viveu feliz durante muitos anos.
Eu nunca hei-de esquecer a minha Bonnie e nunca mais terei uma cadela tão bonita quanto ela!
Maria Leonor Silva Neves

O pano começou o trabalho: o pó da lombada foi removido e a capa acariciada, deixando a descoberto o título do livro: “O anjo aprisionado”.
Uma mão segurou o livro com firmeza, o dedo da outra permitiu o respirar das folhas. O pó soltou-se e dispersou-se na luz da madrugada. No chão, caíram ramos secos, folhas translúcidas... Surgiu uma asa, depois outra, o anjo voou até à janela, e, através da cortina que esvoaçava, desapareceu no céu. 
 Ah, pois! Tive de dar o exemplo. Agora é só esperar que os meus colegas e alunos se ponham a brincar também.
 helena frontini  Leiria 50 anos

 
Entro de rompante pela porta e dou-te os bons dias de (A)braços
abertos para te pregar um beijo repenicado nas bochechas rechonchudas.
Com urgência conto-te: ainda eu estava de cara na almofada, ele
prega-me um beijo de bons dias à socapa. Respondo que também o amo
muito. Ele sabendo desse nosso segredo abana a cauda felpuda de pêlos
louraços e sorri para mim com aqueles olhos, um para cada lado, doces
doces. Estranha felicidade que se entranha...
 
Tenho 35 anos Vivo em Carcavelos Gosto de ser só "Rita"

 
Sabes?
Venho de um sítio encantado onde os braços abraçam, onde com muitas letras construímos palavras que damos uns aos outros.
Os meninos entrelaçam Bês, Ós, Éles, Às, jogam à bola. Juntam Cês com Ós, Erres com Dês e Às, saltam à corda.
Sabes?
Neste sítio que inventei, a pouca distância do mar, há canteiros com palavras coloridas
verdes, amarelas, azuis, todas as cores que imagines.
Mas… o mais importante de tudo… todos os dias nos abraçamos. 
Ana Bela Perdigão Duarte, Oeiras 59 anos, Café Grilo

 
"Havia um menino que estava sempre a tropeçar nas palavras. Ao
levantar-se da cama, quando passava no corredor, ao pequeno-almoço,
almoço e jantar, ao entrar na sala de aula. Tropeçava nelas a toda
a hora. Um dia uma professora atenta disse-lhe ao ouvido que quando
pequena tinha o mesmo problema. Começou a andar mais devagarinho e
a apanhá-las todas antes de lá chegar, guardando-as num livro. Não
importava qual. Desde então nunca mais tropeçou em nenhuma palavra.”
+
Eles são três campeőes.
O Sandro não gosta de confusőes.
Prefere ver as pás da ventoínha a rodar,
conhece de cor os programas da máquina de lavar.
O Diogo, de estar quieto não é capaz.
Ele é todos os heróis num só menino, um ás.
A Margarida é bebé,
mas quer ser maior do que é.
Lindos, todos. Todos diferentes.
Amigos, às vezes, irmãos, parentes.
Não sabem, mas são tesouros de alguém.
Do pai, e da mãe.
Tânia Santana, 30 anos, Elvas
(O Sandro tem 8 anos, tem uma perturbação do espectro do autismo. O
Diogo tem 5 anos. A Margarida tem 8 meses)


Luna já devia estar a dormir.
- Quem é que vai contar história?
- É a mãe! - Disse Luna.
A história era "sem chupeta já sou grande".
- Vou dormir sem a chuchinha.
- Vais deitar fora a chucha?
- Sim, mãe.
- Então amanhã vais comer um gelado.
- Vou comer  gelado? Hum!
 Depois do miminho veio o pedido:
- Quero a chucha!
- Mas... e o gelado?
- Não quero gelado.  Quero a chucha!

                                         Marta Rodrigues 34 anos, Damaia  de cima - Amadora