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24/07/20

Judite – desafio 208

Beatriz é alma em oferenda. Desde o berço que a conheço assim. Silenciava-se, dando paz à agitação dos outros. Aquietava-se sempre!
Um dia, fruto das suas reflexões, pensou que o silêncio simbolizava passividade. Mudou! Passou a falar, dando-se inteiramente. Não entenderam. Calavam-na, deturpavam a sua doação, entendiam reivindicação.
Quebrada, gritou. Talvez percebessem – aquilo que não imaginavam ser o abandono de si. Condenaram-na. Recatou-se!
Ocultando-se, é dádiva silenciosa.
Nem todos entendem esta mensagem: "Sou luz em oferenda, recebam-me."  
Judite, 28 anos, Santarém
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

18/06/20

Carla Silva ― desafio 208

Lá Fora
Do lado de lá da janela o vento brincava com as folhas caídas. 
Às vezes era tão forte que as levantava até elas desaparecerem no céu. 
Naqueles dias não podia brincar no jardim. 
Ficava ali a pensar quem cuidava das flores da avó Cândida.
Ela dizia que elas tinham... como era? Ah! Já se lembrava. Dragões! Era isso. Dragões! 
Quando fosse grande ele ia descobrir como matar os dragões comedores de flores que tanto assustaram a avó.
Carla Silva, 46 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Amália da Mata e Silva ― desafio 208


Era uma janela-guilhotina com bonitas cantarias de granito trabalhado. Por de trás dela estava D. Alice vendo passar a vida... Sempre vivera naquela casa e aquela fora sempre a sua janela. Foi ali que brincara quando menina, que sonhara, namorara e mostrara pela primeira vez o mundo aos filhos. Era ali que vira os netos crescer, em altura e na vida e era na sua janela que ainda sonhava quando as suas plantas floresciam a cada Primavera.
Amália da Mata e Silva, 65 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

28/05/20

Maria João Cortês ― desafio 208


Sou uma privilegiada, há três meses no campo e ainda não me aborreci.
Uma das minhas escolhas é observar a Natureza, ver como o sol e as chuvas desenvolvem as espécies, sendo que algumas, como o medronheiro, nascem espontaneamente.
Em frente da minha janela, nasceu um, muito composto e com o tempo foram crescendo à volta uns filhotes.
Hoje o medronheiro-mãe e a sua descendência têm um bonito porte e de tão chegadinhos, fazem uma só sombra.
Maria João Cortês, 77 anos, Lisboa
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

27/05/20

Paula Castanheira ― desafio 208

Que era o amor até lhe ter nascido o Pedrinho?
Contemplava aquela figura minúscula, colada à janela da sala. Como tinha crescido o seu menino!
Quando se mudaram para esta casa ainda só gatinhava e agora ali estava ele, atento, a sorver cada detalhe do mundo lá fora.
Queria-o sempre assim criança, a requisitar-lhe colo e beijos. E, no entanto, desejava que ele crescesse. Se fizesse homem feliz.
Se lhe pudesse explicar o que era ser adulto…
Paula Castanheira, Massamá
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

25/05/20

Helena Rosinha ― desafio 208

Eu sei que é aí que te escondes. Bem vejo como, logo a seguir à minha papa, sais a correr, atravessas a rua a dizer adeus e desapareces atrás dessa casa. Era bom ir contigo, brincávamos os dois, contavas aquelas histórias divertidas e imitávamos os animais e riamos muito. Assim, brinco sozinho. E tu brincas com quem? 
Procuro-te aqui da janela, mas não te vejo. Não me ouves chorar? Preciso do teu colo, do teu cheiro, mãe!
Helena Rosinha, 67 anos, Vila Franca de Xira 
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

23/05/20

Isabel Peixeiro ― desafio 208

Uma criança em bicos dos pés espreita e anseia pelo mundo lá fora. Estica o pescoço na esperança de ver mais do que telhados e chaminés. De olhos fechados, escuta: tenta descobrir vozes, gargalhadas, o chiar de um baloiço, uma bola que bate no chão. Imagina borboletas na barriga ao saltar pelas poças de água. Vibra com o estalar de folhas secas debaixo das botas. Abre os olhos e estica-se mais um bocadinho. Falta pouco, está quase.
Isabel Peixeiro, 37 anos, Mafra
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Toninho ― desafio 208

Na primeira manhã
De minha janela recluso girava meu binóculo. Buscava inspiração poética. Foi assim, que vi um menino numa janela, sem alegria no olhar. Emoldurava com inocência a janela.
Menino olhava o caos orquestrado por buzinas. Era primeira manhã livre da humanidade assustada.
Então os olhos irradiaram numa alegria, notei suas mãos tateando, queriam segurar alguma coisa. Logo percebi os pais, despedindo-se com acenos da calçada, beijos fluíam para a janela, onde a vida voltava normal com sua cuidadora.
Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia-Brasil
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela
Publicado aqui: mineirinho

Lica ― desafio 208


Numa casa muito modesta, cuja única janela era o postigo da porta, vivia uma senhora com a filha solteira, que teve uma menina.
Apesar da pobreza em que viviam, como tinham tido alguma educação, eram muito bem-falantes, mas muito fechadas em casa, sem deixarem a criança ir brincar no espaço exterior.
Todas tinham olhos claros, e a minha memória vai para os olhinhos daquela menina por trás do postigo, a dizer o adeus mais triste do mundo.
Lica, 81 anos, Lisboa
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Marta Rodrigues ― desafio 208

Sem saber sabia a vida de todos. Quem entrava e quem saía. Era comandado pela curiosidade que lhe dava ordem para estar de sentinela à janela. Ficava no seu esconderijo secreto, atrás do cortinado. Adorava a vista que tinha para a sua rua. Como as casinhas eram todas baixas ele conseguia ver por cima. Conseguia ver ao longe. Não tinha prédios a esconder o horizonte. Assim descobria o mundo pela janela, este espião de palmo e meio.
Marta Rodrigues, 21 anos, Albufeira 
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Theo de Bakkere ― desafio 208

Por um instante
Desde que a senilidade a agarrara, ela andava num vaivém, da mesa à janela e da janela à mesa.
― Anda cá, querida! Teu filho só te vem visitar à tarde, e ainda não bebeste chá.
A enfermeira obrigou-a a comer, senão ela ia logo para o caixilho.
À tarde não reconheceu o filho, chamava-o pai.
Ora, por um instante, ela foi aquela criança feliz de antigamente, quando também estava à janela à espera do tão querido pai.
Theo de Bakkere, 68 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Filomena Galvão ― desafio 208

Uma criança espreita à janela. O bulício desperta-lhe sentidos.
Há um corre-corre. As pessoas agitam-se. De manhã é vê-las passar, num frenesim, com os filhos pela mão, meninos como ele. À hora de almoço o entrar e sair apressado dos restaurantes. Ao movimento, ao ruído e às cores juntam-se ainda os aromas que boiam no ar. Ao lusco-fusco uma gaivota aproxima-se, ele segue-a até onde a vista alcança, voa livre com ela. A imaginação não o limita.
Filomena Galvão, 59 anos, Corroios
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Alex Santi ― desafio 208


No terceiro piso de um apartamento na baixa, um menino ainda vazio de conceitos, e sem prejuízos marcados, olha através do vidro oblongado da janela, ponto de fuga de um quadro familiar. Rostos e objetos conhecidos confortam e apaziguam, mas não instigam o olhar, a curiosidade que explora, avidamente, o desconhecido. São inumeráveis as formas, cores, sons, cheiros que uma cidade pode ter, palco de relações cruzadas cujo significado pode estar escondido no olhar indagador duma criança.
Alex Santi, 28 anos, Ericeira
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

22/05/20

Margarida Fonseca Santos ― desafio 208


Era a mesma janela, a mesma por onde, tantos anos antes, se habituara a espreitar a vida dos outros. A sua era diferente. Mães com filhos pela mão, como seria a sensação? Ganhou outros pais, tios-pais. Cresceu, aprendeu a lidar com a vida, banhou-a com sorrisos e generosidade, amizades inquebráveis. A história daquele menino seria outra. Era avó de coração, mãe por vocação, criança por escolha. Comoveu-se ao vê-lo ali. A mesma casa. Agora ia ser diferente.
Margarida Fonseca Santos, 59 anos, Lisboa
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Tiago Viana ― desafio 208


E, de repente, a mais importante de muitas descobertas. Há mais mundo lá fora. Há sempre mais mundo, irá um dia perceber. E ficará mais alto, mais velho, mais sábio. Mas não haverá bicos de pés que te deixem ver tudo. Cortinas, casas, prédios e montes, sempre mais um a desafiar-nos e a testar a nossa vontade, coragem e resistência. Mas continua, menino. Há tanto ainda para ver, descobrir e conhecer. E não tenhas medo. Queres ajuda?
Tiago Viana, 43, Parede
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

21/05/20

Paula Isidoro - desafio 208

Por um lado, fazem tudo demasiado alto para o meu tamanho e isso provoca-me imensas dores de cervicais. Por outro lado, as janelas nunca são suficientemente baixas para poder ver tudo sem ter que me pôr na ponta dos pés e isso provoca-me dores no tendão de Aquiles. A minha grande dúvida é como é que vou chegar à idade da bisavó se já tenho todos estes achaques à minha tenra idade? A vida não é fácil!
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 39 anos, Salamanca
Desafio nº 208 ― foto menino à janela

Verena Niederberger ― 208

Minha querida Vovó,
Meu coraçãozinho bateu forte, pela janela, seu carro eu avistei.
Sim, você veio me buscar e eu, novamente, pude ficar pertinho de ti.
Fomos para a sua casa.
Vovô já estava nos esperando perto da piscina.
Meus priminhos e Jimmy, o meu amiguinho de quatro patas, ali, reunidos, estavam.
Brincamos de pique esconde, amarelinha.
Adormeci no seu colinho macio.
Quando abri os olhinhos em minha casa estava.
Não acreditei.
Um sonho mais lindo sonhei.
Verena Niederberger, 69 anos, Rio de Janeiro, Brasil
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Natalina Marques ― desafio 208

MENINO À JANELA
Vejo a rua lá em baixo
está vazia,
sem ninguém a caminhar.
Onde estão os meus amigos?
Tenho saudades de rir
e com eles brincar.
A minha mãe
não vai mais trabalhar
e o meu pai
também não vai viajar.
O meu mano
quer brincar comigo,
mas eu tenho saudades
dos meus amigos.
Eu sei o que se está a passar
mas sou ainda menino,
e ninguém me quer contar,
mas eu sei, 
que tudo vai passar.
Natalina Marques, 61 anos, Palmela
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Fernanda Malhão ― desafio 208


Via a rua, daquele pedaço de janela onde a sua pequena altura alcançava, os carros e pessoas. Fechado em casa há tanto tempo, parecia que nunca tinha conhecido o mundo lá fora. No seu coração pequenino sentia tudo: a ansiedade, nervosismo e tristeza dos seus pais. Sabia que algo muito estranho estava a acontecer, só queria ir outra vez brincar lá fora e ir almoçar com os avós, o avô é que sabia como brincar com ele!
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela

Chica ― desafio 208

Por que será que meu vô e minha vó não aparecem mais pra me pegar no colo e ler historinhas, brincar comigo?
Faz tanto tempo. Fico a esperar por eles e nada!
Será esqueceram de mim? 
Querem agora falar comigo só pelo computador? 
Ali não posso sentir o cheirinho deles, nem passar a minha mão nas linhas que adultos chamam de rugas...
Tô com saudades! 
Vou ficar esperando! 
Acho que eles vão chegar e vamos muito brincar!
Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 208 ― fotog menino à janela