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25/07/20

Fernanda Malhão – desafio 68

Tinha escrito aquele texto com tanto carinho, sentia-se mesmo inspirada, sorria e suspirava enquanto escrevia! Todo o seu coração estava ali representado em palavras. Mas o insensível leu-o e teve o desprezo de dizer que nunca tinha lido algo tão ridículo lido em toda a vida. Amarrotou a folha e deito-a com violência ao lixo, mas não acertou no alvo. Saíram os dois de rompante, um para cada lado. Desataram de vez o laço que os unia.
Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

20/09/18

Marta Sousa ― desafio 68


Mais uma rejeição. Encolheu-se sobre si e afundou-se nas suas dúvidas. Sentiu-se uma folha de papel amarrotada como as que via fora do cesto do lixo enquanto se encolhia no chão. Nunca conseguia acertar. Aquelas folhas diziam-lhe que mesmo não acertando a maioria das vezes ela continuava a tentar. Ela estava amarrotada, mas não iria parar, não pertencia ao lixo. Por isso, levantou-se e preparou-se para enviar o seu livro para outra editora. Ia tentar até conseguir.
Marta Sousa, 32 anos, Barreiro
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

05/06/18

Maria Bastos ― desafio 68


Escrevo sem rodeios
Escrevo sem temor
Rabiscos e linhas
Ameaçam e amordaçam o terror

Medo de me afirmar
Medo de não corresponder
Medo de sair
Medo de morrer

Morrer sem ter lutado
Sem saber se valeria a pena
Sem saber se ele sentia
Se eu teria tempo de antena

Chega
Não quero mais isto
Chega
Sou mais que isto

O tempo dirá
Se esse dia chegar
Apenas com um olhar

E o olhar passa mas não olha…
Maria Bastos, 46 anos, Porto
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

10/07/17

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 68

Uma folha de papel é amarrotada com violência e atirada para o lixo. Contudo, cai fora dele.
Um gesto banal despertou em mim recordações do passado.
Sempre senti que me tratavas como desperdício, que esmagavas e pisavas com prazer. Eu era tão insignificante que nem sequer te esforçavas para acertar no caixote do lixo.
Hoje, é a minha vez de te dispensar. Mas eu não piso nem ponho ninguém no lixo, com ou sem competência de arremesso.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

17/11/16

Adeus, até um dia…

Começou a trabalhar,
E gostava do emprego,
Mas dava horas a mais,
Sem direito a sossego!

Trabalhava a correr,
Mal parando a pensar…
E era aquele o sistema
Sem direito a opinar!

Era cansaço demais,
Num trabalho de rigor,
Com um patrão exigente
Que não lhe dava valor!

Humilhado, espezinhado,
Pela exerção do poder,
Pensou que seria injusto
E bastava de sofrer!

Estando tão desagradado,
Sem antever melhoria,
Saiu com algum agrado,
Disse adeus até um dia!
Maria do Céu Ferreira, 61 anos, Amarante

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

25/03/16

Reciclada

Escreveu nela durante anos, já estava gasta e esburacada
pela borracha, que tantas vezes apagou
os erros que nunca emendou. Até não ter mais espaço
para escrever.
Foi então que a amarrotou e jogou fora.
Sem lhe dar mais importância, virou costas, foi embora.
Alguém a apanhou, esticou tapou-lhe os buracos,
e escreveu. Os erros não se apagam com borracha,
apenas evitá-los para não ter que usá-la.
A folha voltou a ser usada, maneira de ser reciclada.

Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

26/08/15

De corpo tatuado

Habituou-se a aceitar o que o destino lhe ia reservando. Aprendera com a mãe a fazer-se à vida, sem brados, sem queixumes. Não sabia que o mundo se podia pintar de gestos doces. Sem reclamar, deixava-se marcar, dia após dia, pelo azedume que o marido guardava. As histórias só eram contadas pelas cicatrizes que o magro corpo ia guardando. No hospital percebeu a cor do amor. Separou-se do tatuador do seu corpo. Casou com o seu enfermeiro.

Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

07/04/15

Programa Rádio Sim 481 – 7 Abril 2015

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No site da Rádio Sim


Prometo...
Olho para uma folha de papel amarrotada no meio do chão, só, perdida e sem ser percebida. Tomo a decisão de a desdobrar e de lhe dar uma nova vida. Abro-a cuidadosamente e nela leio a palavra "tristeza". Devagar, estico-a e faço um sol à volta da tristeza, transformando tudo em desenhos e colorindo-os. Finalmente, sei que nada está perdido e sei também que tinha que dar esperança àquela folha. Decido então escrever: "amanhã será melhor, prometo".

Mariana Correia, nº18, do 12ºLH2, 17 anos, Escola Secundária José Saramago, Mafra, prof. Maria Teresa Simões
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada


01/03/15

Quaresma

Reparou na folha de papel amarrotada em cima do teclado do multibanco. Desta vez cedeu à curiosidade. Em vez de atirar a folha para o caixote do lixo, viu o saldo, que era negativo. “Que novidade!”
Pegou no cartão dourado, enfiou-o na ranhura e digitou no teclado. A mão, involuntariamente, fugiu para “transferências”. Cá estava ela, a consciência, a fazer das dela!
A irmã desempregada seria, mais uma vez, ajudada. É para isso que serve a família!

Márcia Gomes, 36 anos, Vila Nova de Famalicão
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada


01/02/15

Contendo

O lixo.
Sempre lhe parecera um destino miserável.
Sem precisar de se lembrar que é reciclável,
agora.
Toda a vida fora alguém que não se sabia usar.
Melhor, fora alguém que nunca se soube dar uso.
Acima de tudo, fora um inútil para si próprio,
assim mesmo.
Agora que se via, que se avaliava, suspendera-se,
um suspiro frio, como frio era o seu olhar.
Análise bruta, essa. Desapontamento a escorrer.
Saltou para o caixote,
caiu fora dele.

Jaime A., 50 anos, Lisboa
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada


16/01/15

Programa Rádio Sim 427 – 16 Janeiro 2015

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Um novo sentido
A mulher entrou no quarto e deu com a folha amarrotada. Desembrulhou-a e leu. Fechou os olhos e teve consciência de jamais ter experimentado aquele alívio, ao ler o conteúdo de uma folha desprezada. Ao lado, o filho dormia. E nunca, nunca o arrependimento teve melhor sabor. Naquela manhã de 1 de Janeiro, o ano foi realmente novo. Tudo recomeçava para ambos. Esquecida, a nota de suicídio perdera o sentido. A vida ganhava um sentido novo: esperança.

Vera de Vilhena, 45 anos, Mafra
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada
Mais histórias aqui: Gavetas e Gavetinhas

25/11/14

Programa Rádio Sim 393 – 25 Novembro 2014

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A hora derradeira
Aquela não era uma hora fácil. Aceitar que não fizera a melhor escolha, lhe pesava os ombros. Entretanto, fardo maior seria ter que engolir as mágoas, ruminar a raiva, e rabiscar a vida, quando se pode certamente bem mais. Prosseguiu faxinando a memória, desocupando gavetas e pastas como gostaria de esvaziar mente e coração. Guardaria em lugar inacessível as sobras de si mesmo, resíduos petrificados, qual folhas secas, papel amassado, dos quais não desejava jamais se desfazer.

Roseane Ferreira, Macapá, Estado de Amapá, Brasil
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

16/11/14

Formulário

– Quem atirou este formulário para o lixo?
Entreolharam cúmplices. Era normal naquela repartição de arquivo da Direção Geral de Saúde, os funcionários fazerem aquilo, meia hora antes da hora de saída. Era o campeonato nacional de “atira ao caixote o velho formulário inutilizado”. Naquela meia hora, em que não havia expediente, a loucura “desportiva” incendiava-os. Mas o chefe, naquele dia surpreendeu-os.   
– Desta vez falharam o alvo, quem foi o cretino que acertou na minha careca?

Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria
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06/11/14

Programa Rádio Sim 380 – 6 Novembro 2014

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Faz as malas!
Retomo a carta.
Não encontro as palavras certas que lhe digam tudo o que sinto pelos seus gestos, pela crença idiota em acreditar na seleção nacional. “Só uma equipa de homens…” diz Paulo Bento!
Discute a falta de atitude e de competências dos comentadores.
Não volto a amarrotar a folha.
“Amigo,
Quebrou-se a cumplicidade entre nós. Quero escrever e quero ler e viajar.
Acabou!
Não me procure mais e veja o jogo!
Estou noutra.
Faz as malas!”

Maria João Trindade, 58 anos, Setúbal
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17/09/14

Programa Rádio Sim 345 – 17 Setembro 2014

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Não à violência
As tuas mãos amarrotaram com violência uma folha de papel, parecia estares a descarregar a tua ira sobre alguém que te tivesse magoado., contudo depois de a atirares ao lixo esta caiu fora dele e vi debruçares-te para a apanhares. Parecia uma reconciliação, esticaste-a afagaste-a com teus dedos. Nesse momento o telefone tocou, e com agrado ouvi-te balbuciar: meu amor enquanto esperava por ti escrevi-te um poema, estou a aprender que saber esperar é uma grande virtude.

Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos Lisboa
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14/08/14

Programa Rádio Sim 322 – 14 Agosto 2014

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Chamo-me Amarrotada
Olá! Chamo-me Amarrotada, Folha! Nasci Lisa, mas não era tão gira como agora. Fui usada por um escritor muito conhecido, ele mudou a minha vida. Então, passei a ser Amarrotada, mas com muito orgulho. Desde então, olha-me com respeito. Sinto-me bem assim. Na verdade estou cheia de cantos, curvas e as riscas azuis dão-me um ar sexy e único. Vejo as outras todas ali caídas no chão e eu aqui no pedestal, tal e qual uma diva.

Isabel Pinela Fortunato, 41 anos, Amadora
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

12/08/14

Papiro ancestral

Olhei, vi um papiro ancestral repleto de hieróglifos,
A iluminação de palavras num cenário machucado, antigo, passivo
Era necessário agir: surgiu então a ideia:
Fazer escorregar a epistémica distância cronológica do tempo
No ficcionário presente
E no seu âmago encontrei símbolos secretos, antigos tesouros perdidos;
O trilho da curiosidade continuava
E o testemunho das escrituras lá estava:
A série ininterrupta dos instantes vividos,
A duração espácio-temporal infinita,
Permanecia no carrocel
Do tempo presente no papel amarrotado!

Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada


11/08/14

Programa Rádio Sim 319 – 11 Agosto 2014

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Lealdade suprema
Em cada poema um mundo de esperanças. Mas nunca era o bastante. Então amarrotava o papel com uma urgência envergonhada, como o fim de uma grande amizade. Acertava sempre. Era essa a sua redenção, a lealdade suprema para com a sua arte. Nesse dia porém o papel caiu fora do cesto e resvalou para longe. Um sorriso aflorou. Alisou-o tanto quanto conseguiu, junto de si como um pássaro caído do ninho. E voltou a pegar na caneta.

Paula Coelho Pais, 53 anos, Lisboa
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

Sentimentos amachucados

A conselho do psicólogo, estava a colocar no papel o que sentia desde que descobrira a traição.
Achara boa ideia, pois não conseguia dizer-lhe palavra alguma! Por muito que tentasse só saía odeio-te, odeio-te...
Como a ideia era dar-lhe a conhecer o que sentia, entregou-lha assim.
Olhou-a admirado, leu-a e num gesto de completa indiferença amachucou a folha e jogou-a no lixo. Ela sentiu que era amassada também e, juntamente com aquela folha, foi deitada no lixo. 

Carla Silva, 41 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada

07/08/14

Programa Rádio Sim 317 – 7 Agosto 2014

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Como um papel amarrotado
Na sua pequena cabeça instalou-se uma nuvem negra. Sou incapaz: diferente e pior que todos! Recolheu-se, afastou-se como lixo que emite maus odores e dissemina doenças. Arredou-se do mundo porque aquela frase lhe doeu mais que todas as dores: não vales nada!
Mas, enquanto deambulava bruscamente para o abismo, alguém o agarrou mostrando-lhe que a sua capacidade de ser solidário, de ser um bom ser humano, era uma competência extraordinária. E então o menino recusou ser lixo!

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão
Desafio nº 68 – imagem de uma folha amarrotada