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13/11/19

Carla Silva ― desafio 184


Apertem 
Apertem... não me importo mais. Acham que me incomoda o facto de me atirarem para o meio destes troncos velhos? Não... Talvez num outro tempo.
Talvez me sentisse incomodado com esta humidade e esta escuridão que me confunde de tal modo que não distingo o dia da noite, mas que de certo modo me tranquiliza.
Afinal ela não é tão grande nem tão gelada como a que trago no meu íntimo. Por isso apertem. Apertem até sufocar. 
Carla Silva, 46 anos, Barbacena
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

30/10/19

Augusta Cabral ― desafio 184


Eu, lenha, tenho imenso orgulho de ser.
Podeis pensar, uma loucura. Ninguém liga a um pedaço de lenha.
Pensar que, com lenha de damasco e cerejeira, se alimenta a chama do templo do fogo do zoroastrismo, a primeira religião monoteísta ética da humanidade, no Irão há 1400 anos. 
Pensar que da lenha se faz o fogo, símbolo da purificação, mas a minha maior alegria é que com um tronco de mim,  aqueço quem mais precisam de calor.
Augusta Cabral, 77 anos, Campelos
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

09/10/19

Fernando Morgado ― desafio 184

Falta-vos o tronco para aguentar o vento, tão fortes vos mostrastes quando me viram a rebolar montanha abaixo corrido pelo ar gélido da noite.
Toros reles, é o que sois!
Venho de outra linhagem, sou de uma madeira com pedigree, sabem lá vocês o que é uma mesa pé de galo em casa de reza!
Vá, suporto-vos pela protecção que me dão, e só isso me faz estar aqui esta noite. Nunca serei serradura em chão nojento. 
Fernando Morgado, 64 nos, Porto
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

23/09/19

Maria João Cortês ― desafio 184

O homem chegou ainda de madrugada. Vinha munido de uma serra elétrica barulhenta que, em dois tempos, começou a cortar as árvores. Corta daqui, corta dacolá, levou os troncos grandes e nós ficámos para ali, postos de lado aos bocadinhos e com destino certo.
Só um destoava. Estava tão amarelo coitado, devia estar a sentir-se mal e não falava com nenhum de nós.
Esperava talvez ser aproveitado para algum adorno e poder escapar à fogueira.
Quem sabe?
Maria João Cortês, 75 anos, Lisboa
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha (em versão história)

18/09/19

Fernanda Costa ― desafio 184

Que desventura! Alinhadas para a próxima fogueira. A nossa vida fora pautada por constante doação aos humanos. Contribuíamos para a sua felicidade. Estávamos destroçadas!
Um dia, o vento Norte limpou-nos a poeira. Ficámos limpinhas, a brilhar. 
Um marceneiro nem queria acreditar – tanta beleza desperdiçada?
Homem sensível, logo passou à ação – transformou-nos numa linda cómoda, verde-mar, dourada, espelhada.
Fomos oferecidas a uma brilhante senhora. Contribuíamos, diariamente, para melhorar a sua deslumbrante beleza.
A nossa felicidade era incontrolável. Éramos intemporais. 
Fernanda Costa, 57 anos, Alcobaça
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Filomena Galvão ― desafio 184

― Sinto-me triste, despedaçado, feito em bocados. Já pouco préstimo tenho.
Será que vou arder numa lareira? Será que vou ajudar a assar um bom peixe, um cabrito, para festejar o aniversário de alguém?
Sinto que pegam em mim. Para onde irei? Qual será o meu fim?
OHHH, só me levam a mim, os outros ficaram ainda naquele monte de lenha.
Estão a dar-me verniz, estou brilhante. Colocam-me agora macramé e uma planta. Deram-me vida! OHHH, que felicidade!
Filomena Galvão, 58 anos, Corroios
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Isabel Lopo ― desafio 184


Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

17/09/19

Domingos Correia ― desafio 184


Quem sabe!
Sabes, amigo, sinto-me como um condenado esperando no corredor da morte. E queria tanto viajar! Quando era árvore, falava com o vento e gostava. Contudo, sempre desejei correr mundo!…  mas ainda tenho esperança! No inverno, nossos companheiros sairão de cima de nós rumo à lareira…  chegada a minha vez, sendo eu pedaço de nogueira, quem sabe, alguém me transforme num belo guarda-jóias para oferecer a uma dama famosa, viajante!… Talvez, com sorte, viaje com ela… Quem sabe!...
Domingos Correia, 61 anos, Amarante
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

15/09/19

Isabel Lopo ― desafio 184

Éramos o orgulho do velho Pinheiro solitário, único sobrevivente do grande incêndio. Até que chegou o patrão com o lenhador. “É este”, disse apontando para mim. Fui levado e enfeitado pelas crianças com bolas coloridas como se fosse palhaço... Mas gabavam-me tanto que acabei por gostar. Agora aqui estou feito toro no meio dos outros. Tivesse eu sido outra árvore e talvez a minha vida fosse diferente. Será que a dos homens também é assim, tão injusta?
Isabel Lopo, Lisboa
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Helena Rosinha ― desafio 184


Não deixa de ser irónico encontrar-me aqui, um entre tantos outros, diferente na cor, tamanho, estilo. Ouço-os, saudosistas, rememorarem tempos antigos; cheios de si, vangloriam-se dos seus feitos. Não entendem que esse tempo acabou e persistem.
Deixo-os falar, em breve até isso perderão. Aproxima-se o fim a que nos destinaram. Qual será o meu? Não será certamente a lareira duma casa abastada, mas a fogueira num barraco de miséria, que também a lenha se divide em classes.
Helena Rosinha, 66 anos, Vila Franca de Xira
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

14/09/19

Natalina Marques ― desafio 184

Tenho saudades daquele menino que jogava à bola, enquanto sua mãe lia um livro à minha sombra.
Deve estar crescido, já deve andar na escola, deve estar um homenzinho. Espero que, no futuro, seja um homem de bem.
Nesse tempo tinha sonhos, um deles, era ser um carrossel, um baloiço ou um cavalinho num parque para ele e outros meninos brincarem.
Agora, nada me resta, a não ser uma lareira onde possa aquecer os corações de alguém.
Natalina Marques, 60 anos, Palmela
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

12/09/19

Theo De Bakkere ― desafio 184


Nada que dura
Antigamente fui uma árvore sumptuosa e fazia parte do grande pulmão verde da nossa terra. Fauna e flora viviam em harmonia.
Nada que dura. Um dia, fui abatido por gente sem escrúpulos. Embora ainda tivesse a esperança falsa de efetuar uma segunda vida como mastro, baloiçando no mar.
Nada que dura, sob o manto de progresso, a mata tropical mudará em deserto, e eu, o toro último do monte, fui consumido pelas chamas. Pois, nada que dura.
Theo De Bakkere, 67 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Graça Pinto ― desafio 184


Aqui amontoado! Ajudem! Sinto-me sufocar!
Que triste é o fim de vida!... Lindo foi todo o meu percurso.
Eu era ainda uma bolotinha quando me colocaram na terra. Depois cresci, cresci. Sabem que cheguei aos 25 metros? Fui sombra para muitos e suporte de escrita para gravações de amor eterno.
Perdi minhas folhas no outono, reflorescendo vezes sem conta.
Envelheci! Sequei minha juventude! Hoje derrubado, despedaçado, aguardo pacientemente o meu final, sonhando poder ainda aquecer alguns corações.
Graça Pinto, 61 anos, Almada
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

10/09/19

Paula Castanheira ― desafio 184

Fui nobre!
Alimentei famílias de javalis e esquilos, com as minhas bolotas.
Socorro! Está aí, alguém?
Estou aqui, no meio destes miseráveis pedaços de madeira.
Parem de me apertar, não veem que sou um nobre carvalho?
(Tenho medo do escuro)
Aranhiços chatos. Que comichão… irra!
Prometeram transformar-me em barril, para envelhecer vinhos finos.
Agora p’ra aqui estou, esquecido, à espera do inverno.
Não me queimem, por favor.
Não sou toro!
Pela manhã, António escutou estranhos murmúrios, assustou-se…
Paula Castanheira, 55 anos, Armona
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Roselia Bezerra ― desafio 184

Monólogo do bem e do mal
Ei, escute-me!
Por quê?
Porque será bom ouvir o que lhe vou dizer, lasca de nada.
Como assim?
Somos um nada, uma lasquinha, nem inteiro nós estamos muitas vezes.
Sou ponta de lápis, uma menina me formou.
Onde pensa que vai? Acaso pensa que terá destino diferente de todos?
Eu penso sempre o melhor para mim. Não será você, meu inconsciente, que irá me derrotar. Com essas lasquinhas, farão artesanatos bonitos e viverei feliz em outros corações.
Roselia Bezerra, 65 anos, ES, Brasil
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Chica ― desafio 184


Tiveste um grande trabalho pra me encontrar entre tantos iguais.
Qual a causa de tanto vasculhar, mexendo, remexendo nesse monte?
Sim, eu pretendia ficar o mais escondido possível, não queria ser encontrado.
O motivo bem sabes... Em meu dorso, foram escritas iniciais dentro de um coração.
Foi um amor que como várias outras sementes não vingou, não floresceu.
O pior aconteceu...
Querem me usar para aquecer o clima, lareira acender, tendo que assistir a outro amor florescer...
Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 184 ― monólogo de lenha

Desafio nº 184




O que vos peço hoje é isto:
Que monólogo se ouve, à noite, neste monte de lena?
Quem fala é o toro assinalado a amarelo.
Deixem-me «ouvir» os vossos monólogos!




O meu saiu assim:
És muito engraçadinho, és, só porque vieste de um terreno fino de árvores alinhadas. Cai na real! O temporal atirou-vos todos ao chão, ninguém escolheu o destino. Fosses como eu, um mísero arbusto de fraca linhagem a tentar chegar ao sol no meio de eucaliptos, uns peneirentos que crescem mais depressa que os outros. Sufoquei, ouviste? Anos a fio. E tira essa farpa da minha casca, que me magoas. Sim, estou a falar contigo, burro! Anda, desvia-te!
Margarida Fonseca Santos, 58 anos, Lisboa

Desafio nº 184 ― monólogo de lenha