26/09/20

Fernanda Malhão – desafio 132

Abro pela última vez a janela de dava para o adro. Saio por ali fora com a cabeça a andar à roda. Paro, vejo as andorinhas a voar, o rio raso pela falta de chuva. Tantos anos a trabalhar nesta roça, conheço cada ramo, cada tora como as palmas das minhas mãos. Mas chegara a hora de partir, a minha afro-descendência e sua tradição oral chama por mim. Espero não pagar caro esta decisão. Orai por mim!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 132 ― AOR + 1

Fernanda Malhão – desafio 131

Um casal improvável

Hermengarda Pirraça era cantora de ópera, detentora de uma voz tão arrebatadora como o mau feitio que a caracterizava. Tinha uma face bruta, carrancuda e de acordo com o boato que corre nunca sorriu na vida. Quando abria a boca era unicamente para comer, rezingar ou cantar (era perita a fazer as três). Um dia o coração de pedra da cantora caiu na rede do amor. Quem diria que um cantor pimba iria mudar permanentemente seu futuro.

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 131 ― Hermengarda Pirraça sem S e L

Fernanda Malhão – desafio 130

Trigo

Um enorme grupo de nutricionistas crucificam o que foi por séculos considerado a espiga dourada, o pilar da alimentação: o trigo. O brilho deste cereal esbateu-se com o tempo, já não tem o mesmo valor, é mesmo considerado um vilão. O pão foi alimento que garantiu o sustento de muitos povos. Hoje, as recomendações são que devemos evitar ou eliminar o trigo pelo glúten que contém. Nos países mais pobres a espiga dourada continua a ser esperança!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 130 ― de espiga a esperança

Elsa Alves – desafio 105

Razões do coração

Sabia-se teimosa. Aceitava este seu traço, embora preferisse adoçá-lo, dizendo-se" persistente". Diziam-lhe as amigas: " Tu és parva!!!". Teriam razão neste apontar-lhe alguma insanidade? Demonstravam-na culpada." Continuas a fazer o mesmo, todos os dias... A desculpá-lo. Esperas que ele mude e passe a tratar-te bem? Até hoje, ele tem-te maltratado. Enganado. Mentido. " Reconhecia-lhes razão, quando pensava mais friamente. Como podia esperar um resultado diferente, se continuava sempre a agir da mesma forma? Mas... o coração toldava-lhe a razão...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 105 – frase de Einstein

25/09/20

Fernanda Malhão – desafio 129

A descoberta

Ana já desconfiava que o marido tinha uma amante. Mas alimentava uma esperança que fosse só a sua imaginação. Mas começaram a surgir tantas situações, que cada vez mais acentuavam as suas dúvidas. Já não aguentava mais aquela situação. Um dia finge estar adoentada para não ir trabalhar e poder fazer de detetive seguindo o marido. E bingo! Viu o marido entrar no carro de uma loiraça, anota a matrícula e agora vai recorrer a serviços profissionais.

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar 

Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

Carla Silva – desafio 203

A Pintura

Podia ser a pintura mais bonita da galeria. A pièce de resistence segundo os entendidos na matéria. 

Mas para ela estava muito longe de ser tudo isso. Ela nem percebia o que representava!

Se bem que ela nunca percebeu de arte. Olhou novamente para a pintura... 

Não adiantava. Ela apenas via um borrão preto numa tela branca. 

As caricaturas, feitas a lápis, do vizinho eram bem mais perceptíveis. Até o risco no seu carro fazia mais sentido.

Carla Silva, 46 anos, Barbacena, Elvas

Desafio nº 203 – risco + 6 palavras

Elsa Alves – desafio 104

Dilema

Antecipava tudo em múltiplos pormenores: os sentimentos, as tentações e, mesmo, procedimentos. Ora... sozinha alcançaria tudo? Embaraçada, muito pensava Ofélia, sentindo-se aflita. Tonta! Esperava milagres? Pateta! Odiava sentir aqueles terríveis enigmas. Magoada, preferiria obter soluções adequadas. Tamanha espera... Maligna. Pensou: "O suplício atenuar-se-á? Talvez encontre mais pessoas odiando sofrer." Atraía-a tal expectativa? Mentira. Preferiria ouvir saudações amáveis. Talvez elogios. Multidões prestáveis. Ombros solidários. Atreveu-se, temerária, em manter posição. Ousou suster as terríveis emoções. Manifestava pânico ou sabedoria?!?

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 104 – letras obrigatórias: A T E M P O S

23/09/20

Fernanda Malhão – desafio 220

Gostava que…

Gostava que me levasses à sério, pelo menos uma vez. O que te conto são os mais sinceros sentimentos, não sei porque não acreditas em mim. Gostava que me levasses contigo no teu regresso, não suporto mais estar longe de ti tanto tempo. Se isso não for possível, gostava que me levasses pelo menos dentro do teu coração e que pensasses seriamente na possibilidade de me dares uma oportunidade para fazer-te feliz. Faço qual coisa por ti!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Fernanda Malhão – desafio 128

A libertação

Sentia um alívio na garganta. Viveu anos em profunda asfixia, com sentimentos guardados na gaveta do seu coração. O azedume das palavras, aquela aparente idiotice, era na verdade dor arquivada. Tudo isso está agora finalizado!  Conseguiu ir buscar a réstia de amor próprio. O rio transbordou, não quis mais ficar contido na margem. O sol voltou à sua vida! Pasmado o outro ficou a olhar, não imaginava que aquele homem submisso teria coragem de tal corajosa atitude!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 128 – 12 palavras com 

Elsa Alves – desafio 102

– Não tem tido cuidado com a sua prótese. Veja esta protuberância...

O ortopedista olhava-o, com ar reprovador. Respondeu-lhe, envergonhado.

– Tenho abusado um bocadinho com o neto ao meu cargo.

– Assinou algum protocolo com a sua filha? Tem de obedecer-lhe cegamente? Proteja a sua saúde. Nada de esforços desnecessários. Vamos reforçar as proteínas na sua alimentação com este suplemento. 

Odiava sentir-se protagonista naquela cena. Não podia protestar, mas, como resistir a andar com o bebé às cavalitas?!?

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 102 – muitas palavras com PROT

Theo De Bakkere – desafio 220

A Sara

Ó memória! Gostava que me levasses à terra onde vive minha Sara tão longe do meu coração.

Ali, numa tarde quente de verão, ali na sombra do carvalho, encontrámos o amor.

Ora, gostava que me levasses para ela, antes que essa recordação doce me escape.

De repente uma voz respondeu: estou aqui, eu também gostava que me levasses ao tempo feliz de antes.

Os olhos abriam-se, e ele olhava para a cara preocupada da Sara, sua esposa.

Theo De Bakkere, 69 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

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Rosário P. Ribeiro – sem desafio

Estranhou o escuro.  Gostava tanto de luz…

Estremeceu, sentindo-se arrefecer sem sol,

E na janela, já só adivinhou o céu…

Estranhou o silêncio. Gostava de adivinhar o voo das gaivotas e

Do arrepio trazido pela estridência dos seus gritos. 

Apercebeu-se então que não via nem ouvia, num frenesim quieto demais.

Sentia a vida mais longe, a despedir-se,

E os passos estrondosos da morte a chegar.

Não me chorem, pensou, sorrindo.  

Recordem-me. Feliz.

Rosário P. Ribeiro, 63 anos, Lisboa

Elsa Alves – desafio 103

Aparências

Nada mais havia a fazer... Durante anos, a situação tinha--se mantido estável. Estável?!? Só aparentemente... Os outros julgavam que, lá em casa, eram só rosas. Ela sabia bem dos espinhos. Pensava, hoje, que, se ambos tivessem evitado certos silêncios, se tivessem promovido o diálogo, se, em palavras trocadas com sinceridade, tivessem exposto os seus sentimentos...

Se, se, se... Mas, afinal, fora sempre isso que os dois tinham evitado fazer. Agora era tarde. Já só restava a indiferença.

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Cristiana Rodrigues – desafio 220

Acordou tarde. Não lhe apetecia o frio que espreitava pela porta entreaberta. Lá fora, sem reconhecer a que distância, ouviu: “Gostava que me levasses.”
A curiosidade destapou-a e fê-la abraçar o escuro… “Gostava que me levasses”, ouviu-se novamente e a luminosidade despertou-a.
Sara sorriu ao livro debaixo do telemóvel: “Gostava que me levasses” percebia-se agora na voz do marido que substituía o toque do despertador.
Ele sabia mimá-la, pena ser desatento. Sara leu aquele livro há semanas.

Cristiana Rodrigues, 38 anos, Lisboa 

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

22/09/20

Fernanda Malhão – desafio 127

O mistério caçador de pérolas

Era mestre em encontrar ostras com magníficas pérolas no seu anterior. Não as mostra a ninguém! Tinha uma sala de aceso restrito, onde passava tempos infinitos a dar lustre às suas pérolas. Só fazia demonstração das pérolas à clientes muito selecionados. Um dia, algo sinistro aconteceu, ouviu-se um grande estrondo, o chão estremeceu, um cheio nauseabundo alastrou pela casa. Senti o suco gástrico subir à boca antes de desmaiar. Fomos todos transferidos para o hospital do distrito!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

Elsa Alves – desafio 101

– Tatá, pressinto que a menina vai adorar aquele restaurantezinho...

– O que fica junto à ponte?

– Exacto. Não resisto... digo-lhe que a especialidade da casa é...

– Robalo?!?

– Adivinhou, queriducha... Com o seu acompanhamento preferido...

– Puré de batata?!?

– Exacto. Vá, docinho, troque essa bata cheia de pó por uma roupinha toda sexy...  Vamos? 

– Robalo com puré de batata... E um copo de vinho tinto...

– Tatá, tenha tino!!! Com o peixe, vinho branco!!!

A Tatá não percebia nada de vinhos...

Elsa Alves,7 2 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 101 ― partindo das palavras BATATA e PRESSINTO

Vanda Figueira – desafio 220

Gostava que me levasses aonde fores. Não precisas de me levar atrás de ti para todo o lado. Não quero ser esse tipo de mãe galinha. Só gostava que me levasses no coração e que quando te encontrares em horas de aperto ou de reflexão e queiras um conselho amigo, uma palavra de consolo ou opinião me encontres lá dentro do teu coração. Meu filho,gostava que me levasses contigo no teu coração e nas tuas asas.

Vanda Figueira, 46 anos, São João da Talha

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Mónica Santos – desafio 220

Bom dia! Abriram-se as portas e estás cá de novo.
Esse olhar melancólico, hesitante. Porque negas a tua vontade?
Gostava que me levasses.
Sei que me imaginas ao teu lado quando escurece. Faço o teu género, encaixo no teu estilo. Gostava que me levasses. Passeias-te pelos corredores, ofegante, enfias as mãos nos bolsos e sais para almoço. Regressas. Devoras-me com os olhos mas não avanças. Porquê? Gostava que me levasses. É hoje! “Candeeiro em promoção só €70.”

Mónica Santos, 43 anos, Matosinhos

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Ana – desafio 220

O teu mundo

Gostava que me levasses contigo, para aquele lugar onde os sorrisos e as lágrimas são verdadeiros. 

Gostava que me levasses contigo, para aquele lugar onde o sonho nos comanda, a alegria, o amor e a confiança imperam. Onde não há pessoas zangadas e tudo se resolve com um beijo. 

Gostava que me levasses contigo, nem que fosse por um só dia, para onde existem as fadas dos dentes e das chupetas, o Pai Natal e os duendes.

Ana, 41 anos, Mealhada 

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Natalina Marques – desafio 220

Gostava que me levasses 

novamente ao nosso lugar

ver as estrelas no céu,

apanhar conchas à beira mar.

 

Lembro tanto, aquela tarde

em que subimos ao monte

e um beijo me roubaste

ao beber água na fonte.

 

Gostava que me levasses 

de novo àquele jardim,

de mãos dadas passear

e ter-te junto de mim.

 

Gostava que me levasses 

e dançasses para mim.

Ouço teus passos chegar,

o meu sonho, chega ao fim,

mas, GOSTAVA QUE ME LEVASSES.

Natalina Marques, 61 anos, Palmela

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

21/09/20

Fernanda Malhão – desafio 126

Criança intermitente

Tinha apenas 7 anos e vivia em guarda partilhada. Não se importava em viver uma semana em cada casa, o que o incomodava era ter de lidar com as desavenças dos pais. Quando estava com a mãe ouvia queixas acerca das más influências do pai, e que se refletiam no seu comportamento. Quando estava com o pai, ele estava sempre a contrariar aquilo que a mãe o mandara fazer. Sentia-se intermitente com aquelas mudanças de comportamento repentinas!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

Toninho – desafio 220

Vejo campos de girassóis, onde vibrei, com teus olhos brilhantes. Gostavas que me levasses a reviver a primavera pelas terras lusitanas inesquecíveis momentos poéticos.

Ainda vejo campos floridos, pássaros em cantoria pelo amanhecer. Gostavas que me levasses a ver o dourar da tarde junto ao Tejo, ouvindo o vento como um fado, olhos amarelados encantados à procura dos teus

Gostavas que me levasses no último olhar às serras e de mãos dadas trocaríamos o céu. É isso.

Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia-Brasil

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Publicado aqui: Desafio 77 palavras_mineirinho


Elsa Alves – desafio 100

Acasos

Conheceram-se por um acaso, daqueles que julgamos que só acontecem nos livros e, afinal, não é nada assim. Acontecem no dia-a-dia e com frequência. Tinham ido os dois à biblioteca, requisitar o mesmo livro: 

“Inversos", a poesia completa da Ana Luísa Amaral. Os dois rendidos à mesma poeta. Trocaram opiniões sobre poesia. Concordaram. Discordaram. Riram. Nenhum levou o livro. Continuaram a encontrar-se. Na biblioteca, e fora dela, no café, no cinema. E foi assim que se escreveram...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 100 – «e foi por isso que me escrevi»

Maria João Cortês – desafio 216

Vila Facaia era uma aldeia simples, mas muito acolhedora.

Aida, apesar de citadina gostava de lá estar, pois nascera numa pequena casa caiada de branco que pertencera à família, que fazia a sua vaidade

Mal abria a janela o cheiro acre da humidade da noite, entrava pela casa dentro e o chilrear acompanhado do bailado dos pássaros, punha-a na maior das felicidades.

Aquele pão com sabor a fermento era coisa inesquecível.

Enfim, era feliz em Vila Facaia.

Maria João Cortês, 77 anos, Lisboa

Desafio nº 206 – 7 plvras com ditongo «ai»

Verena Niederberger – desafio 220

Gostava que me levasses, novamente, para passear no seu fusquinha azul.

Tantos momentos felizes passamos quando viajávamos, juntinhos, para junto do mar.

Praias calmas perfeitas para relaxar.

Gostava que me levasses para degustar deliciosa pizza ao som "daquela" música de Chico Buarque que tanto nos marcou.

Gostava que me levasses para o baile de carnaval, no clube, onde nos divertíamos até o dia clarear.

Gostava que me levasses para aquele mundo de sonhos que, infelizmente, distante ficou.

Verena Niederberger, 69 anos, Rio de Janeiro - Brasil

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Publicado aqui:  https://interagindocomosbichinhos.blogspot.com/2020/09/historias-em-77-palavras.html


Violeta Seixas – desafio 219

Desfeito

Descontente, decido, afinal, que desfaço o leito. Ele, sentimental, de rastos e coração desfeito; eu a achar que estava demasiado perfeito. Determinada, às cegas, corto tudo a eito. Já está! Mas suspeito que sem proveito. Nesta nova visita, risco, arrisco, procuro-me, enfeito mil alternativas. Aqui o ar é rarefeito: que tontura! Não importa se há defeito. Sem receio e com todo o respeito pelas palavras escritas acima, rejeito o conceito: cabia-me refazer e encontrar o (texto) eleito.

Violeta Seixas, 54 anos, Algés

Desafio nº 219 – terminações eito, onta, ite

Violeta Seixas – desafio 219

Aceito

Que dificuldade tenho em chegar ao parapeito! Agora, estendo-me, estico-me para alcançar o sujeito. Achava eu que seria dito e feito, bastaria para isso assobiar, assobiar a preceito, sem pensar que é necessário o jeito. Podia ter imaginado alguém com certo trejeito. Desenhar-lhe uma vida de dores no peito, sem maisArrasto-me, penso que sem defeito, por essa página solta onde me deito. Onde julgava ser o meu leito perfeito. Mas é apenas isto, quando me espreito…

Violeta Seixas, 54 anos, Algés

Desafio nº 219 – terminações

20/09/20

Glória Vilbro – desafio 220

Gostava que me levasses pela mão... 
Tenho fome do mar ao fundo das ruas. 
Sede do sol de então, das conversas à toa. 
Lembro os policias e ladrões, detectives e espiões... 
Mulheres perdidas, fantasmas adivinhados. 

Gostava que me levasses ao Jardim mais bonito da cidade... 

E me ensinasses ciências, e as palavras francesas que sabias. 
Abrisses o pacote das batatas fritas... 

Gostava que me levasses contigo outra vez... 
Me deixasses chorar...
Eu sem medo de ser mariquinhas. 

Glória Vilbro, 53 anos, Negrais, Almargem do Bispo, Sintra

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Chica – desafio 220

Gostava que me levasses novamente para aquele lugarzinho tão lindo onde tanta coisa boa vivemos. 

Lembras dele? 

Gostava que me levasses para tudo aquilo, novamente pudéssemos desfrutar, mas com todo aquele cenário igualzinho, irretocável e maravilhoso naquela pequena praia quase só nossa.

Risadas, chorinhos, reclamações, broncas por vezes necessárias, mas a alegria e grande amor sempre. 

Gostava que me levasses lá, mas envelhecemos, eles cresceram, até o hotelzinho fechou... 

Só nossa recordação pode nos levar até lá!

Chica, 70 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

Publicado aqui: https://chicabrincadepoesia.blogspot.com/2020/09/saudades.html

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Rosélia Bezerra – desafio 220

Pelos jardins da vida, gostava que me levasses como se fosse uma delicada flor do campo.

A cada manhã, me levantas com suavidade de beija-flor, vindo ao meu encontro, com asas de amor que me despertam do nosso ninho que me preparas a cada anoitecer.

Entretanto, gostava que me levasses por todas as horas, sem nenhuma interrupção indispensável a ti.

Por toda eternidade, gostava que me levasses, enfim, meu amor!

Certamente te faria alçar voos altaneiros, alegres.

Rosélia Bezerra, 65 anos, ES, Brasil

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

Publicada aqui: https://espiritual-amizade.blogspot.com/2020/09/alcar-voos-altaneiros.html

Maria João Cortês – desafio 202

ONTEM, o sol brilhou a todas as horas.

ONTEM, era uma menina despreocupada, que não pensava que

ONTEM haverá um dia de amanhã.

Um dia que não será igual ao de ONTEM.

Um dia que poderá haver chuvas e trovoadas.

Que os dias de ONTEM teriam misérias e desgraças,

E que ela nada poderia fazer para o evitar.

ONTEM fora um dia maravilhoso que não vai voltar mais.

Já houve ONTEM, hoje e espera-se que um amanhã.

Maria João Cortês, 77 anos, Lisboa

Desafio nº 202 ― 7 vezes a palavra ONTEM

Desafio nº 220

Neste nosso desafio, existe uma regra: repetir 

Gostava que me levasses

Pelo menos 3 vezes.

A frase pode ser adaptada.

 

Experimentei e saiu assim:

Gostava que me levasses lá…

Ao lugar onde as estrelas cintilam nos olhos felizes,

Os gritos são de recreio

e os dias correm para a noite como a água para o mar.

Gostava que me levasses lá,

Ao sonho que gastei de tanto o usar,

Sem medo de sorrir ou chorar.

E conversar, de mansinho, entrelaçando os meus nos teus dedos.

Por fim, encostar-me no teu abraço.

Gostava tanto que me levasses…

Mas parti sem lá chegar.

Rosário P. Ribeiro, 63 anos, Lisboa

Desafio nº 220 – gostava que me levasses

19/09/20

Helena Rosinha – desafio 218

Chamas

Na lenha que arde, na dança das chamas, acendem-se as lembranças. 

Serões familiares, os adultos à conversa e nós, sorrateiramente, a sair pela porta da cozinha, a saltar a cancela do quintal.  Imersos no cheiro da noite, enfrentávamos sombras gigantes, sons estranhos, tentávamos dissimular o medo. Na busca de aventuras e mistérios insolúveis, descobríamo-nos mutuamente, surpreendíamos, éramos surpreendidos. 

Ateada a chama da liberdade, extinguiam-se impossíveis; desafiavam-se costumes, acumulavam-se certezas — o nosso, seria um mundo perfeito. 

Algo falhou. 

Helena Rosinha, 67 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 218 – imagem de fósforos

Elsa Alves – desafio 99

Que cena!!!

Deu-se este atroz acidente às quatro da tarde. Fiquei tão atrofiado que já nem fui ao teatro. Passou-se o seguinte: a empregada da Pastelaria Bélita, matrona gorducha, de trato difícil, atropelou, sem dó nem piedade, a dona Felícia, sua patroa. Senhora que eu idolatro... Enfim, atropelou-a, em sentido figurado: caiu-lhe em cima, quando escorregou num pastel-de-nata que estava esborrachado no chão. Esborrachada ficou a dona Felícia! Que atrocidade!!! Vejam no Facebook o vídeo de toda a cena!!!

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 99 – 8 a 10 palavras com ATRO

Fernanda Malhão – desafio 125

Um tornado no meu jardim

O dia estava mesmo abafado, a minha avó costumava dizer que era tempo de trovoada. O céu de repente ficou escuro como a noite. Recolhi a roupa do varal às pressas, e quando olhei para trás vi algo totalmente inesperado, um pequeno tornado a percorrer todo o meu jardim, a arrancar todas as minhas flores, a derrubar os vasos, quando me apercebi também as cadelas já tinham sido apanhadas pelo tornado e voavam de patas no ar!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 125 – tornado no jardim

Fernanda Malhão – desafio 124

A super-lula

Pareces uma super-lula com tentáculos hiperativos

Uma canseira só de te ver a trabalhar!

És mesmo inacreditável, consegues ser mesmo rápida

Em tão pouco tempo despachaste uma série de clientes!

Mesmo com tanto trabalho não deixas de ser simpática,

Ao menos ganhas um salário justo?

É apenas isso tudo o que o patrão tem para te dar?

Não é nada fácil encontrar alguém que faz tudo tão bem como fazes!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 124 ― és uma super-lula!

Fernanda Malhão – desafio 123

Um mar de tristeza

Pedro era um velho pescador, um tanto rabugento, mas era um homem bom e justo. Todos davam muito valor as suas dicas, pois era o pescador mais experiente daquela doca. Mas contrariando o que acontece na maior parte das famílias de pescadores, Pedro tinha ficado viúvo há pouco tempo. Agora já não queria ir ao mar, passava os dias na sua casa tosca a ouvir fado nas alturas. Talvez fosse essa a cura que sua alma precisava!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 123 – palavras com letras de justificado

Isabel Lopo – desafio 216

Tive uma ideia! E que tal se fôssemos aprender escrita criativa?

– Eu não tenho jeito – respondeu uma delas.

– Eu mal sei juntar as letras quanto mais escrever histórias – acrescentou outra.

Até que uma voz lá ao fundo sussurrou: – Eu adorava... Será que vou ser capaz?

– Claro que és. Vamos apenas aprender a brincar com as palavras!

Então muitas outras aderiram àquela ideia.

E foi quando escrevi um mail à Margarida, ainda hoje nossa mestra e grande amiga!!!

Isabel Lopo, Alentejo

Desafio nº 216 – Tive uma ideia!

18/09/20

Elsa Alves – desafio 98

Guerra e Paz

Passávamos as férias grandes em casa da avó. Para nós era um castelo. Inexpugnável. Tínhamos que defendê-lo dos inimigos. Que eram os garotos da aldeia. Chamavam-nos meninos da cidade. À tarde, enquanto a avó dormia no velho sofá abandonado nas traseiras, lá chegavam eles, armados de espadas de pau, tentando subir as escadas. Mas nós chegávamos para eles. A avó acordava com o barulho. 

"Meninos, vão já lavar as mãos!" Fazíamos tréguas e lanchávamos com o inimigo...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 98 – fotog de P Teixeira Neves

Ana – desafio 219

Primeiro dia

Hoje, acordou cedo, e ficou logo pronta. É o primeiro dia de aulas. Tonta de felicidade, anseia pelo momento de confronta com os amigos e nova professora. Desponta algum nervosismo. Foram seis meses em afronta

– Despachem-se! – implora –, não me quero atrasar.

Aponta ansiosa para o relógio, vezes sem conta. Comeu, lavou-se, vestiu-se e penteou-se. Agora monta a mochila nas costas e, na ponta dos pés, beija-me. Hoje nada a amedronta. Nem com o céu cinzento se desaponta.  

Ana, 41 anos, Mealhada

Desafio nº 219 – terminações eito, onta, ite

Ana – desafio 219

Senhor Perfeito

Não suporta a desordem, pois deixa-o insatisfeito. Cumpre, e faz cumprir, tudo a preceito e, sendo o responsável, está no direito de exigir isso de cada um. Suspeito de obsessão, por querer tudo bem feito, é apelidado, pelos colegas, de "Senhor Perfeito". 

-- Não se trata de perfeição, quero proveito – diz. – A eficiência não vem do jeito. A organização e o rigor, causam efeito. Com método, orientação e regras fica estreito entre cumprir de superar tudo a eito.
Ana, 41 anos, Mealhada

Desafio nº 219 – terminações eito, onta, ite

17/09/20

Fernanda Malhão – desafio 122

Era só um mosquito no leite, mas…

Era aniversário da minha amiga, decidimos tomar um pequeno almoço especial. Escolhemos um hotel antigo com uma sala supersofisticada, um luxo! Enquanto o empregado vertia o leite para a chávena da minha amiga, de brinde veio junto um enorme mosquito. O empregado atrapalhado pediu imensas desculpas, mas a minha amiga não estava nada importada. Pois por causa daquele incidente, reparou nos lindos olhos e sorriso do rapaz! Era só um mosquito no leite, mas virou um romance!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 122 ― um mosquito no leite

Isabel Lopo – 218

Quando voltou à casa da sua infância, pensava que o tempo a tivesse ajudado a espantar as mágoas, mas afinal tudo ali eram memórias perseveradas.

Assim que a noite aconteceu riscou um fósforo e deixou-se guiar pela pequena chama. As sombras foram-lhe devolvendo os medos da sua infância. Deixou que a casa refletisse as suas emoções, mas a chama apenas lhe iluminou o sentimento da ausência. E percebeu que só fechando a porta se perderia no futuro....

Isabel Lopo, Alentejo

Desafio nº 218 – imagem de fósforos

16/09/20

Elsa Alves – desafio 96

O Sr. Azevedo 

O sr. Azevedo era nosso vizinho.

Homem invulgar, conseguia ser, simultaneamente, amigo de pais e filhos. Caminhava com mais leveza que a Isabel, que andava no ballet. Era mais veloz que o Amílcar, que fazia atletismo. E mais voraz que eu, que comia meia-dúzia de pastéis-de-nata. Zelava pelo bom ambiente no bairro e, raramente, se azamboava com comentários maldosos. Uma vez, um polícia chamou-nos "pretos". O Sr. Azevedo disse-lhe das boas. Passou a ser o nosso herói...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

Fernanda Malhão – desafio 121

Era a mim que ele entregaria a direção da empresa quando decidiu se reformar e viajar pelo mundo, não havia dúvidas. Trabalhei anos a fio, fui o seu braço direito e esquerdo, conheço tudo nesta empresa ao pormenor. Contudo, tu do nada resolveste voltar, não estavas lá tão bem no Brasil? O que vieste cá fazer? Talvez não saibas, mas este mundo não é para ti! Nunca precisaste gerir pessoas nem verbas! Deixa isso para quem sabe!

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos

Fernanda Malhão – desafio 120

Sebastião aprendeu a lição?

Sebastião andou sempre aos trambolhões, só se metia em trapalhadas, não sei como, mas lá ia conseguindo escapar delas. Tinha cá uma lábia, todos caíam na sua prosa. Mas desta ocasião a coisa parecia mais complicada, trouxeram-no para a esquadra. Graças a ajuda do seu tio ricaço que pagou a sua libertação, conseguiu escapar de olhar o sol nascer aos quadrados. Desta maneira aprendi uma grande lição, pelo menos assim disse à sua mãe. Será mesmo desta?

Fernanda Malhão, 44 anos, Gondomar

Desafio nº 120 ― reencontrar o caminho sem V nem F

Elsa Alves – desafio 95

milagre

Albertina sempre conseguira juntar o desempenho das suas funções burocráticas com o prazer pelas luzes da ribalta. Actriz, é que devia ter sido. Era brutal a sua paixão pelo teatro. Desde jovem que a sentia, mas não conseguira vencer a batalha contra os pais, que a tinham impedido de realizar o seu sonho. Libertava-se da monotonia do seu trabalho diário, subindo ao palco. Então, dava-se o milagre: de crisálida murcha, a atabalhoada secretária transformava-se em magnífica borboleta...

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 95 – o máximo de palavras com BTL

Toninho – desafio 219

Assim era Afrodite, mulher conhecida como dinamite.

Muitos cortejavam, porém quem dela se habilite?

Era expert com navalha presenteada pela Edite, uma matrona de bordel conhecedora da noite.

Ela inspirou aquela música Amor sem limite, quando conheceu Roberto Carlos com ousado convite.

Com isso ficou famosa vivendo como socialite.

Mas ao ver passar sua amiga Afrodite, lembrou lacrimosa sua juventude fonte de deleite.

Com mãos trêmulas ingere comprimidos com leite.

Vive numa fragilidade como uma coluna estalactite

Toninho, 64 anos, Salvador-Bahia, Brasil

Desafio nº 219 – terminações eito, onta, ite

Publicado aqui: Desafio 219

14/09/20

Natalina Marques – desafio 219

 Sonhava ser doutor, e andava todo AFEITO, estudava com tanto esforço, pensava seguir DIREITO.
Quando as notas saíram, veio o DESPEITO, pela tristeza e desgosto. Pelo caminho ESTREITO, vai para casa humilhado, orgulho no FEITO, não tinha.  Agora, não tinha mais JEITO.  À noite, chorou lágrimas amargas no LEITO, consolando-o pela manhã um sol quente, PERFEITO.  Mas sentiu tristemente, que o seu PEITO palpitava. Ergueu-se da cama, encostou-se ao PARAPEITO, jurando que teria de todos, merecido RESPEITO.
Natalina Marques, 61 anos, Palmela
Desafio nº 219 – terminações eito, onta, ite

Elsa Alves – desafio 94

 Era ou não era?!?

Achavam-na louca. Na verdade, nem ela própria se entendia. Quase sempre, as ideias apareciam-lhe, num clarão. Eram estranhas, vinham, como aves, pousar-lhe nos dedos. Não seriam todas, afinal, uma ilusão? Umas eram densas, raras; outras, mais amenas e claras; outras, ainda, cristalinas, como gotas de pureza. E o que dizer daquelas que eram tão fortes como um bater de porta e a acordavam de noite? Quando mantinha os olhos fechados, chegando a fingir-se morta? Seria mesmo louca?

Elsa Alves, 72 anos, Vila Franca de Xira

Desafio nº 94 com clarão, porta a bater e ilusão